1 de fevereiro de 2021
Menção Honrosa - 2020
29 de janeiro de 2021
Menção Honrosa - 2020
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Liliana Valente Cruz - Forte da Casa
Menção Honrosa - 2020
Menção Honrosa - 2020
O medo é um sentimento
Que vem connosco ao nascer
Pode torna-se um tormento
Que não passa com o tempo
E dura até morrer.
O medo tem dois sentidos
Que devemos de entender
É um que livra dos perigos
E nos deixa protegidos
E outro que nos faz sofrer
Por medo ficamos arrepiados
E o pânico restringe a liberdade
O temor deixa-nos paralisados
Com ele dormimos acordados
No leito onde mora a ansiedade.
O medo pode nos atormentar
Porque ele nunca tem opositor
Mas apesar de nos amedrontar
Ainda o podemos superar
Nos braços do nosso amor.
Mas quem disser não ter medo
Está mentindo para alguém
Pois todos nós sentimos medo
Nem que seja em segredo
Dos medos que a vida tem.
A lei do medo é um guia
Que não nos pode faltar
Se não ai de nós o que seria
Tudo fazia o que queria
Sem ninguém para castigar.
Mas há aquele medo que persiste
E de todos o que nos bate mais forte
É um terror a que ninguém resiste
É tão cruel que nos deixa triste
Esse medo é sempre o medo da morte.
Felícia Festas - Hortinhas, Évora
Menção Honrosa - 2020
Eloange Bittencourt Emediato - Brasília
Menção Honrosa - 2020
3º Prémio - 2020
Se um dia o medo...
2º Prémio - 2020
É quando ouço os teus passos pesados a subir as escadas, que o medo começa a deslizar dentro de mim - no sangue das minhas veias -, insidioso, como um animal doméstico que me habita os silêncios e desperta com a tua chegada. Já passaste o primeiro andar, tiras as chaves do bolso que vens a agitar enquanto sobes o último lanço, e nesse metálico tilintar, quase alegre, reconheço a campainha do meu medo, ou o alarme do meu terror - não sei bem. Espero-te. Pela última vez, olho tudo em redor e certifico-me: o jantar está pronto e quente, a casa brilha, orgulhosa do perfume da sua limpeza, e na jarra de cristal, as flores sorriem-me, num verde saciado pela água transparente. Está tudo em ordem - respiro fundo, muito fundo - o medo, veloz, corre-me por dentro.
Chegaste. Os teus passos param à porta, a chave roda suavemente na fechadura. O medo é agora um bicho alado dentro do meu peito, uma ave aflita roçando as asas às cegas nas paredes do meu coração. Presa ao chão, aliso as pregas do vestido, alinho um fio fugidio no meu cabelo entrançado, verifico a subtileza do perfume que me ofereceste, na pele dos meus pulsos. Entras, fechas a porta e ficas parado a olhar-me, tão alto, tão belo como há trinta e dois anos, quando te disse "Sim" no altar, vestida de branco e de sonhos. Não dizes nada e eu sei que será como das outras vezes, como de todas as vezes: primeiro a bofetada, quando eu menos a esperar; depois virão os cabelos arrancados aos puxões, a seguir os socos no rosto, a cabeça batida brutalmente contra parede, finalmente os pontapés - nos rins, na barriga, nas costelas -, quando o meu corpo desistente estiver tombado de lado, como um navio naufragado.
Pousas a pasta e aproximas-te para o beijo. O teu sorriso é quase terno, apertas-me sensualmente a garganta enquanto procuras o medo dentro de mim. No meu olhar, consegues reencontrá-lo e reconhecê-lo: o medo é agora um peixe enorme, viscoso, nadando em círculos no mar dos meus olhos - esse medo traiçoeiro e pérfido que me domina, me cala e me sufoca, me impede de gritar, de fugir ou de me defender. Sim, esse medo carrasco mais forte do que eu, que permitiu que me partisses costelas e dedos e dentes, que autorizou que matasses a pontapé o nosso filho, dentro do meu ventre, e que consente que eu continue a ser tua - para sempre, até que a morte nos separe.
Beijas-me com doçura e sentas-te para jantar. Não dizes nada, enquanto eu te sirvo o ensopado de borrego. Do outro lado da mesa, vejo-te comer com apetite, vejo-te esvaziar copo atrás de copo, vejo-te abrir outra garrafa de vinho. O medo é agora um touro, um cavalo, uma besta que escouceia dentro da minha cabeça. Perguntas-me qualquer coisa a que não sei responder, gritas alto, cada vez mais alto, dás um murro na mesa, que faz tombar o copo vazio. Engulo em seco, o meu corpo treme, e o medo que me habita antecipa o gosto que a minha boca terá daqui a pouco: sémen, sangue, suor e lágrimas.
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Ana Paula Braga Morais Mateus - Póvoa de Varzim
1º Prémio - 2020
Silvou por cima da minha cabeça e fez um buraco na parede do bar de mais ou menos dois centímetros de diâmetro. Instintivamente atirei-me ao chão, mesmo sabendo que, se ouvi o estampido, aquele gesto era desnecessário.
Alagado em suores, sem saber se do calor excessivo ou de uma resposta à taquicardia e confusão mental.
Quando me dispus a sair do bar, ouvi uma saraivada de balas vindo da parte baixa do morro, com certeza disparos da polícia pacificadora, que, por medo talvez, dispara para todos os lados tentando intimidar e, por vezes, ceifando vidas inocentes com balas perdidas.
- João ontem caiu vítima de fogo amigo. – disse a travesti Roberta, que estava estatelada no chão ao meu lado, segurando no meu braço, como se eu pudesse salvá-la de alguma coisa.
O António, cheio de coragem, fechou a porta de metal do seu bar, como se ela pudesse parar algum projétil balístico. Ele veio juntar-se a nós com uma garrafa de cachaça e depois de dar duas enormes talagadas, passou-a para nós.
- Por conta da casa. – disse.
Não me fiz de rogado e depois entreguei-a à Roberta, que, sem perder o fôlego, ingeriu quase a metade da garrafa, dando um sonoro arroto. De seguida caiu num pranto convulsivo, com voz grossa de barítono.
- Saiu o homem de dentro de si? – perguntei-lhe para desanuviar. Mas desviei o olhar da sua figura quando a vi toda urinada, não querendo aumentar o seu constrangimento.
- Abre essa porta portuga senão vou metralhar tudo. – disse Tião Cachorro querendo esconder-se da polícia.
O António depressa abriu a porta, mesmo na hora em que o Tião foi atingido e caiu morto para dentro do bar.
Agora, quando fecho os olhos, só vejo as partículas do cérebro do Tião na cara toda sarapintada do António.
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José Eugénio Borges de Almeida - Póvoa de Lanhoso
28 de julho de 2020
Regulamento do Prémio Literário Hernâni Cidade 2020
Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.
2º
Na edição de 2020 a modalidade é: Livre
Tema:
"O Medo"
3º
Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.
4º
O trabalho não deverá exceder 1 página e será enviado em quatro exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.
5º
O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto.
6º
O trabalho poderá ser entregue:
a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo
b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Literário Hernâni Cidade 2020
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO
c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento
7º
O prazo de receção dos trabalhos termina a 17 de Outubro de 2020, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de quatro elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.
8º
Serão atribuídos
a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.
b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.
c) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.
9º
O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.
10º
Os concorrentes premiados serão avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia pública a realizar no dia 21 de Novembro de 2020, pelas 15 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.
11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.
Organização
Município de Redondo
15 de novembro de 2019
1º Prémio - 2019
O compadre está a ver aquele chaparro solitário plantado nas embalagens do leite? Sim, esse com aquela lonjura toda atrás e um risco sugerindo a imensidão da planície. É mesmo daí que eu lhe estou a escrever. Claro que sentado à sombra, que o sol continua a castigar como um chicote de fogo, nas costas da gente. Eu disse nas costas? Pior. muito mais grave quando assenta mesmo a pino na moleirinha. Veja o que aconteceu àquele moço que ficou três noites a fio pegando uma viola de cordas de vento, pescoço esticado para cima, entoando aquela melodia pastosa "menina que estás à janela com o teu cabelo à lua" ainda lá estaria não fosse o Chico Mataloto ter dó e chamar-lhe a atenção: Oh seu moinante, então tu não vês que hoje é lua nova e a janela fechada a sete chaves!? Onde é que tu vês a menina? Meteu a viola no saco e abalou para Lisboa. O resto já o compadre sabe. Somos cada vez menos. Sérios, respeitadores, pançudos por causa das açordas, mas resistentes ao suão, à canícula, a todos os rigores e à chacota do pessoal da cidade. Nã sê se o compadre sabe, fizemos um garrote no Guadiana. O rio inchou. Agora há água por todo o lado. Até praias já temos. Os finórios que iam para o Ancão ou para Albufeira, agora querem é praia de Mourão ou Amieira. Adeus seca! Isto tem tanta água que nuestros hermanos, sempre muito amigos vieram dar-nos uma ajuda. É só oliveiras e amendoeiras e vinhas regadas e não damos a água gasta! Vomecê não acredita? Nã me venha com essa conversa fiada dos lençóis freáticos e mais não sei quê, como os passarões do ambiente! A gente tem tanta, mas tanta água, que além dos ditos lençóis, também temos cobertores e mantas freáticas, com listas última moda.
Numa terra tão grande que até o silêncio ecoa de cabeço em cabeço somos cada vez menos, compadre Anastácio. Está tudo de abalada. Há os que ficam, os intelectuais dizem que é a força telúrica. A gente não entende e dizemos amor à terra. Ficamos aqui por estas barreiras, semeando mágoas, enquanto a passarada protesta de bico aberto no colo dos dias. Já cá me soou que o nosso governo conseguiu um subsídio da Europa e vai fazer uma reserva de Alentejanos. Já viu o turismo compadre? O aeroporto de Beja cheio de gente anémica de olho azul só para nos conhecer! Fique bem compadre. Eu ainda tenho água pelos joelhos e desconfio que com tanta água, a graça deste texto foi água abaixo. Tal não está a moenga!
Luís Filipe Morais Pereira Marcão
Reguengos de Monsaraz
2º Prémio - 2019
Do Geraldo Sem Pavor
Os chaparros são amigos
Da sestinha, meu amor
Alentejano valente
Para a açorda e o gaspacho
Se toca a rapar o tacho
Ninguém lhe passa para a frente.
Madruga com aguardente,
E come as migas com migos.
Com altos não vai aos figos
E em fezes não se mete,
Foge do diabo a sete,
Já desde os tempos antigos.
À sombra de uma azinheira
Como ovelha no acarro
Bate a sorna um chaparro
Nem torreira, nem soleira.
E sonha que a Terra inteira
É tudo Paz e Amor.
Pica o moscardo. A dor,
Ao acordar, de repente,
Solta o velho combatente
Do Geraldo Sem Pavor
É crente em Deus e nos Santos
- E noutras coisas também -
Mas os maganos são tantos
Que não os conhece bem.
Gosta de mangar mas tem
Medo dos raios, dos perigos,
Mete trancas nos postigos.
Mas, quando toca à matança,
Junta a malta para a festança:
- Os chaparros são amigos.
A pachorra alentejana
É boa para namorar:
A coisa pode demorar
Uma hora, uma semana...
Pau de azinho não abana,
Aguenta seja o que for.
E, no tempo do calor,
Quando a cigarra canta:
- Está na hora - traz a manta -
Da sestinha, meu amor!
Manuel João do Maio Calado
Borba
3º Prémio - 2019
Menção Honrosa - 2019
Nas Beiras, de onde vim, roubava aos ricos para dar aos pobres, incluindo-me, está claro, nestes últimos. Roubava gado, fruta, enchidos e alfaias agrícolas. Roubava as cuecas que esvoaçavam nos estendais e as latas das hóstias que o vigário guardava na sacristia. Roubei tanto e tão desavergonhadamente... que fui preso! Ao terceiro dia, descontente com o colchão da cela e a comida da prisão, lancei mão dos meus dotes de larápio habilidoso e escapuli-me. Disse ao guarda que precisava de verter águas, de esvaziar o intestino e lá consegui fugir pelo esgoto da prisão que, naquele tempo, era largo e desembocava no ribeiro da vila. Fugi de mãos a abanar! Nada trouxe comigo, a não ser o cheiro do esgoto... E foi assim que cheguei a terras de Além do Tejo!
"Nã tem nada que enganar, é já ali!" - disse-me o Manel Carrapato, à entrada do povoado! Mas não era já ali, não senhor... Estafado de tantos dias a caminhar com botas velhas, roubadas e dois números abaixo do meu, tive ainda de caminhar mais uma dúzia de quilómetros até chegar, finalmente, ao monte. Cada bolha dos meus pés, gritava: aprende que aqui no Alentejo, tudo (até a lonjura...) é "já ali ao lado". E eu aprendi! Nunca mais usei botas apertadas e agora, se me canso... sento-me a descansar!
Aprendi, ainda, que no Alentejo, a vida pode ser muito dura! Tive de ceifar e carregar muita palha. Aos poucos, fui perdendo o velho hábito de me apropriar do alheio. À minha volta, todos tinham pouco, muito pouco. O trabalho sob a torreira do sol foi-me dando o suficiente para viver. Mas deve ter-me queimado alguma coisa na moleirinha... porque me tornei estranhamente pachorrento e calado. Talvez um pouco melancólico (menos nos dias em que me junto aos outros homens da aldeia para beber copos, trautear melodias do cante alentejano e lançar impropérios ao Clero ou gracejos às maganas).
Aqui, no Alentejo, as planícies são de perder de vista. A imensidão entra-nos pelo coração adentro e parece que se fica sentimental e dado à poesia... E quem diria!? Tornei-me amante dos prazeres simples da vida: do cheiro do pão acabado de fazer, do sabor da sopa de beldroegas, da água da fonte bebida em concha de cortiça, do descabeçar um cadinho sob um sobreiro, da "despressa" com que se vive cada dia.
Nunca fiquei repeso de me ter tornado alentejano. Tenho a certeza, até, de ter o Alentejo no ADN: sinto-me Alentejano De Nascença e tenho nisso muito orgulho! Das Beiras guardo apenas uma réstia daquele velho vício de roubar e por isso passo os dias roubando e transformando anedotas que zombam dos alentejanos...
A propósito, moço, diz-me cá: tu que estudas na capital, sabes aquela dos lisboetas armados em ricos perante um alentejano? Diz o primeiro lisboeta: "Eu tenho muito dinheiro. Vou comprar o banco BPI!" Diz o segundo lisboeta: "Eu sou muito rico. Vou comprar a fábrica Fiat Automóveis!" Diz o terceiro lisboeta: "Eu sou um magnata. Vou comprar todos os supermercados Continente!" E os três ficam esperando o que o alentejano vai dizer. O alentejano dá uma baforada no cigarrito, faz uma pausa, cospe no chão e diz: "Nã vendo"!
Paula Cristina Direito Rabaça
Manteigas