1º
Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.
2º
Na edição de 2020 a modalidade é: Livre
Tema:
"O Medo"
3º
Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.
4º
O trabalho não deverá exceder 1 página e será enviado em quatro exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.
5º
O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto.
6º
O trabalho poderá ser entregue:
a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo
b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Literário Hernâni Cidade 2020
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO
c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento
7º
O prazo de receção dos trabalhos termina a 17 de Outubro de 2020, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de quatro elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.
8º
Serão atribuídos
a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.
b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.
c) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.
9º
O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.
10º
Os concorrentes premiados serão avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia pública a realizar no dia 21 de Novembro de 2020, pelas 15 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.
11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.
Organização
Município de Redondo
28 de julho de 2020
15 de novembro de 2019
1º Prémio - 2019
Carta ao Anastácio
O compadre está a ver aquele chaparro solitário plantado nas embalagens do leite? Sim, esse com aquela lonjura toda atrás e um risco sugerindo a imensidão da planície. É mesmo daí que eu lhe estou a escrever. Claro que sentado à sombra, que o sol continua a castigar como um chicote de fogo, nas costas da gente. Eu disse nas costas? Pior. muito mais grave quando assenta mesmo a pino na moleirinha. Veja o que aconteceu àquele moço que ficou três noites a fio pegando uma viola de cordas de vento, pescoço esticado para cima, entoando aquela melodia pastosa "menina que estás à janela com o teu cabelo à lua" ainda lá estaria não fosse o Chico Mataloto ter dó e chamar-lhe a atenção: Oh seu moinante, então tu não vês que hoje é lua nova e a janela fechada a sete chaves!? Onde é que tu vês a menina? Meteu a viola no saco e abalou para Lisboa. O resto já o compadre sabe. Somos cada vez menos. Sérios, respeitadores, pançudos por causa das açordas, mas resistentes ao suão, à canícula, a todos os rigores e à chacota do pessoal da cidade. Nã sê se o compadre sabe, fizemos um garrote no Guadiana. O rio inchou. Agora há água por todo o lado. Até praias já temos. Os finórios que iam para o Ancão ou para Albufeira, agora querem é praia de Mourão ou Amieira. Adeus seca! Isto tem tanta água que nuestros hermanos, sempre muito amigos vieram dar-nos uma ajuda. É só oliveiras e amendoeiras e vinhas regadas e não damos a água gasta! Vomecê não acredita? Nã me venha com essa conversa fiada dos lençóis freáticos e mais não sei quê, como os passarões do ambiente! A gente tem tanta, mas tanta água, que além dos ditos lençóis, também temos cobertores e mantas freáticas, com listas última moda.
Numa terra tão grande que até o silêncio ecoa de cabeço em cabeço somos cada vez menos, compadre Anastácio. Está tudo de abalada. Há os que ficam, os intelectuais dizem que é a força telúrica. A gente não entende e dizemos amor à terra. Ficamos aqui por estas barreiras, semeando mágoas, enquanto a passarada protesta de bico aberto no colo dos dias. Já cá me soou que o nosso governo conseguiu um subsídio da Europa e vai fazer uma reserva de Alentejanos. Já viu o turismo compadre? O aeroporto de Beja cheio de gente anémica de olho azul só para nos conhecer! Fique bem compadre. Eu ainda tenho água pelos joelhos e desconfio que com tanta água, a graça deste texto foi água abaixo. Tal não está a moenga!
Luís Filipe Morais Pereira Marcão
Reguengos de Monsaraz
2º Prémio - 2019
Já desde os tempos antigos
Do Geraldo Sem Pavor
Os chaparros são amigos
Da sestinha, meu amor
Alentejano valente
Para a açorda e o gaspacho
Se toca a rapar o tacho
Ninguém lhe passa para a frente.
Madruga com aguardente,
E come as migas com migos.
Com altos não vai aos figos
E em fezes não se mete,
Foge do diabo a sete,
Já desde os tempos antigos.
À sombra de uma azinheira
Como ovelha no acarro
Bate a sorna um chaparro
Nem torreira, nem soleira.
E sonha que a Terra inteira
É tudo Paz e Amor.
Pica o moscardo. A dor,
Ao acordar, de repente,
Solta o velho combatente
Do Geraldo Sem Pavor
É crente em Deus e nos Santos
- E noutras coisas também -
Mas os maganos são tantos
Que não os conhece bem.
Gosta de mangar mas tem
Medo dos raios, dos perigos,
Mete trancas nos postigos.
Mas, quando toca à matança,
Junta a malta para a festança:
- Os chaparros são amigos.
A pachorra alentejana
É boa para namorar:
A coisa pode demorar
Uma hora, uma semana...
Pau de azinho não abana,
Aguenta seja o que for.
E, no tempo do calor,
Quando a cigarra canta:
- Está na hora - traz a manta -
Da sestinha, meu amor!
Manuel João do Maio Calado
Borba
Do Geraldo Sem Pavor
Os chaparros são amigos
Da sestinha, meu amor
Alentejano valente
Para a açorda e o gaspacho
Se toca a rapar o tacho
Ninguém lhe passa para a frente.
Madruga com aguardente,
E come as migas com migos.
Com altos não vai aos figos
E em fezes não se mete,
Foge do diabo a sete,
Já desde os tempos antigos.
À sombra de uma azinheira
Como ovelha no acarro
Bate a sorna um chaparro
Nem torreira, nem soleira.
E sonha que a Terra inteira
É tudo Paz e Amor.
Pica o moscardo. A dor,
Ao acordar, de repente,
Solta o velho combatente
Do Geraldo Sem Pavor
É crente em Deus e nos Santos
- E noutras coisas também -
Mas os maganos são tantos
Que não os conhece bem.
Gosta de mangar mas tem
Medo dos raios, dos perigos,
Mete trancas nos postigos.
Mas, quando toca à matança,
Junta a malta para a festança:
- Os chaparros são amigos.
A pachorra alentejana
É boa para namorar:
A coisa pode demorar
Uma hora, uma semana...
Pau de azinho não abana,
Aguenta seja o que for.
E, no tempo do calor,
Quando a cigarra canta:
- Está na hora - traz a manta -
Da sestinha, meu amor!
Manuel João do Maio Calado
Borba
3º Prémio - 2019
COMPADRI, VOU-LHE CONTARI...
Compadri, vou-lhe contari:
Apareceu aí um magano
De Lisboa a perguntari
O que é ser alentejano!
Estava mangando c'a genti
E apanhou-me de maréi:
- Oiça lá, é ser diferenti
Daquilo que você éi!
Ver o mar nesta seara,
Achar que não está calori,
Saber o que é uma vara,
Trabalhar até o sol-pôri,
Saber de cor uma lenda,
Ir sempre mais devagari,
Pão e azeite à merenda
E migas para o jantari,
Tinto da pipa beberi,
Braço dado ao camarada,
Coro ou ponto a voz ergueri,
Com a goela já lavada,
De barro peças fazeri-
-boneco. prato, adereço-
Que você há de venderi
Mas por bem mais alto preço...
É a todos receberi
Com paciência infinita,
Rir de quem nos quer fazeri
Palhaços da sua fita!
Maria Paula da Silva Nunes Duarte Marques
Penela
Menção Honrosa - 2019
O QUE É SER ALENTEJANO?
Tu fazes cada pergunta, moço! Sei lá o que é ser alentejano! O que eu sei é que, no dia em que cheguei a esta terra, sob a "estorrina" do calor, já lá vão quase setenta anos, o Alentejo me roubou a alma! Logo a mim... que costumava dedicar os meus tempos livres (e também os outros) ... a roubar.
Nas Beiras, de onde vim, roubava aos ricos para dar aos pobres, incluindo-me, está claro, nestes últimos. Roubava gado, fruta, enchidos e alfaias agrícolas. Roubava as cuecas que esvoaçavam nos estendais e as latas das hóstias que o vigário guardava na sacristia. Roubei tanto e tão desavergonhadamente... que fui preso! Ao terceiro dia, descontente com o colchão da cela e a comida da prisão, lancei mão dos meus dotes de larápio habilidoso e escapuli-me. Disse ao guarda que precisava de verter águas, de esvaziar o intestino e lá consegui fugir pelo esgoto da prisão que, naquele tempo, era largo e desembocava no ribeiro da vila. Fugi de mãos a abanar! Nada trouxe comigo, a não ser o cheiro do esgoto... E foi assim que cheguei a terras de Além do Tejo!
"Nã tem nada que enganar, é já ali!" - disse-me o Manel Carrapato, à entrada do povoado! Mas não era já ali, não senhor... Estafado de tantos dias a caminhar com botas velhas, roubadas e dois números abaixo do meu, tive ainda de caminhar mais uma dúzia de quilómetros até chegar, finalmente, ao monte. Cada bolha dos meus pés, gritava: aprende que aqui no Alentejo, tudo (até a lonjura...) é "já ali ao lado". E eu aprendi! Nunca mais usei botas apertadas e agora, se me canso... sento-me a descansar!
Aprendi, ainda, que no Alentejo, a vida pode ser muito dura! Tive de ceifar e carregar muita palha. Aos poucos, fui perdendo o velho hábito de me apropriar do alheio. À minha volta, todos tinham pouco, muito pouco. O trabalho sob a torreira do sol foi-me dando o suficiente para viver. Mas deve ter-me queimado alguma coisa na moleirinha... porque me tornei estranhamente pachorrento e calado. Talvez um pouco melancólico (menos nos dias em que me junto aos outros homens da aldeia para beber copos, trautear melodias do cante alentejano e lançar impropérios ao Clero ou gracejos às maganas).
Aqui, no Alentejo, as planícies são de perder de vista. A imensidão entra-nos pelo coração adentro e parece que se fica sentimental e dado à poesia... E quem diria!? Tornei-me amante dos prazeres simples da vida: do cheiro do pão acabado de fazer, do sabor da sopa de beldroegas, da água da fonte bebida em concha de cortiça, do descabeçar um cadinho sob um sobreiro, da "despressa" com que se vive cada dia.
Nunca fiquei repeso de me ter tornado alentejano. Tenho a certeza, até, de ter o Alentejo no ADN: sinto-me Alentejano De Nascença e tenho nisso muito orgulho! Das Beiras guardo apenas uma réstia daquele velho vício de roubar e por isso passo os dias roubando e transformando anedotas que zombam dos alentejanos...
A propósito, moço, diz-me cá: tu que estudas na capital, sabes aquela dos lisboetas armados em ricos perante um alentejano? Diz o primeiro lisboeta: "Eu tenho muito dinheiro. Vou comprar o banco BPI!" Diz o segundo lisboeta: "Eu sou muito rico. Vou comprar a fábrica Fiat Automóveis!" Diz o terceiro lisboeta: "Eu sou um magnata. Vou comprar todos os supermercados Continente!" E os três ficam esperando o que o alentejano vai dizer. O alentejano dá uma baforada no cigarrito, faz uma pausa, cospe no chão e diz: "Nã vendo"!
Paula Cristina Direito Rabaça
Manteigas
Nas Beiras, de onde vim, roubava aos ricos para dar aos pobres, incluindo-me, está claro, nestes últimos. Roubava gado, fruta, enchidos e alfaias agrícolas. Roubava as cuecas que esvoaçavam nos estendais e as latas das hóstias que o vigário guardava na sacristia. Roubei tanto e tão desavergonhadamente... que fui preso! Ao terceiro dia, descontente com o colchão da cela e a comida da prisão, lancei mão dos meus dotes de larápio habilidoso e escapuli-me. Disse ao guarda que precisava de verter águas, de esvaziar o intestino e lá consegui fugir pelo esgoto da prisão que, naquele tempo, era largo e desembocava no ribeiro da vila. Fugi de mãos a abanar! Nada trouxe comigo, a não ser o cheiro do esgoto... E foi assim que cheguei a terras de Além do Tejo!
"Nã tem nada que enganar, é já ali!" - disse-me o Manel Carrapato, à entrada do povoado! Mas não era já ali, não senhor... Estafado de tantos dias a caminhar com botas velhas, roubadas e dois números abaixo do meu, tive ainda de caminhar mais uma dúzia de quilómetros até chegar, finalmente, ao monte. Cada bolha dos meus pés, gritava: aprende que aqui no Alentejo, tudo (até a lonjura...) é "já ali ao lado". E eu aprendi! Nunca mais usei botas apertadas e agora, se me canso... sento-me a descansar!
Aprendi, ainda, que no Alentejo, a vida pode ser muito dura! Tive de ceifar e carregar muita palha. Aos poucos, fui perdendo o velho hábito de me apropriar do alheio. À minha volta, todos tinham pouco, muito pouco. O trabalho sob a torreira do sol foi-me dando o suficiente para viver. Mas deve ter-me queimado alguma coisa na moleirinha... porque me tornei estranhamente pachorrento e calado. Talvez um pouco melancólico (menos nos dias em que me junto aos outros homens da aldeia para beber copos, trautear melodias do cante alentejano e lançar impropérios ao Clero ou gracejos às maganas).
Aqui, no Alentejo, as planícies são de perder de vista. A imensidão entra-nos pelo coração adentro e parece que se fica sentimental e dado à poesia... E quem diria!? Tornei-me amante dos prazeres simples da vida: do cheiro do pão acabado de fazer, do sabor da sopa de beldroegas, da água da fonte bebida em concha de cortiça, do descabeçar um cadinho sob um sobreiro, da "despressa" com que se vive cada dia.
Nunca fiquei repeso de me ter tornado alentejano. Tenho a certeza, até, de ter o Alentejo no ADN: sinto-me Alentejano De Nascença e tenho nisso muito orgulho! Das Beiras guardo apenas uma réstia daquele velho vício de roubar e por isso passo os dias roubando e transformando anedotas que zombam dos alentejanos...
A propósito, moço, diz-me cá: tu que estudas na capital, sabes aquela dos lisboetas armados em ricos perante um alentejano? Diz o primeiro lisboeta: "Eu tenho muito dinheiro. Vou comprar o banco BPI!" Diz o segundo lisboeta: "Eu sou muito rico. Vou comprar a fábrica Fiat Automóveis!" Diz o terceiro lisboeta: "Eu sou um magnata. Vou comprar todos os supermercados Continente!" E os três ficam esperando o que o alentejano vai dizer. O alentejano dá uma baforada no cigarrito, faz uma pausa, cospe no chão e diz: "Nã vendo"!
Paula Cristina Direito Rabaça
Manteigas
4 de julho de 2019
Regulamento do Prémio Literário Hernâni Cidade 2019
1º
Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.
2º
Na edição de 2019 a modalidade é: Texto humoristíco.
Tema:
"O que é ser alentejano?"
3º
Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.
4º
O trabalho não deverá exceder 1 página e será enviado em quatro exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.
5º
O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto.
6º
O trabalho poderá ser entregue:
a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo
b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Literário Hernâni Cidade 2019
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO
c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento
7º
O prazo de receção dos trabalhos termina a 10 de Outubro de 2019, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de quatro elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.
8º
Serão atribuídos
a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.
b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.
c) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.
9º
O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.
10º
Os concorrentes premiados serão avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia pública a realizar no dia 30 de Novembro de 2019, pelas 15 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.
11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.
Organização
Município de Redondo
Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.
2º
Na edição de 2019 a modalidade é: Texto humoristíco.
Tema:
"O que é ser alentejano?"
3º
Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.
4º
O trabalho não deverá exceder 1 página e será enviado em quatro exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.
5º
O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto.
6º
O trabalho poderá ser entregue:
a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo
b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Literário Hernâni Cidade 2019
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO
c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento
7º
O prazo de receção dos trabalhos termina a 10 de Outubro de 2019, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de quatro elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.
8º
Serão atribuídos
a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.
b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.
c) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.
9º
O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.
10º
Os concorrentes premiados serão avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia pública a realizar no dia 30 de Novembro de 2019, pelas 15 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.
11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.
Organização
Município de Redondo
15 de outubro de 2018
Trabalhos Premiados - 2018
1º Prémio
(Apoio: Município de Redondo)
João Pedro Pimentel Sigalho, Leiria
Heroísmo Contemporâneo
Em plena guerra, Hernâni Cidade organizou uma investida que permitiu libertar um número indeterminado de soldados portugueses que tinham sido feito reféns pelas tropas alemãs. Este, era o padrão utilizado no início do século XX para definir os atos de heroísmo.
Já no século XXI, tudo mudou. Diariamente somos bombardeados com imagens de guerras, dilúvios, doença e fome. Não só na televisão, mas também no computador, (enquanto estamos no trabalho, de preferência) ou no telemóvel ao final do dia (de preferência, no transporte público, pois custa olhar para o outro e perceber o mundo à nossa volta). De tão habitual que é sermos confrontados com tamanha barbárie, relegámos a violência dessas imagens para segundo lugar, assumindo como prioridade o acesso à informação imediata e consequente divulgação, numa lógica de aparentarmos ser almas instruídas, cultas, interessantes.
Tal como os animais procuram comida, tornámo-nos em seres que perscrutam tudo o que é canal informativo (redes sociais, boletins noticiosos, páginas de jornais, etc) com o intuito de termos acesso à informação antes dos outros. Porque o que interessa, não é a informação. É o facto de termos capacidade de a partilhar antes dos outros. No final, o que interessa não é o “mediatismo” da notícia. Mas sim o “imediatismo” da mesma. E é esse um dos requisitos que faz com que todos nós conheçamos um “herói” do dia-a-dia.
Não por respeitar a vida dos outros, não por lutar por direitos universais e, certamente, não por tratar bem o próximo. Mas sim por ter a capacidade de, mesmo com um trabalho, mesmo com uma família, conseguir partilhar notícias sobre acontecimentos distantes, no imediato, fazendo os outros questionar acerca da sobrenaturalidade dessa mesma pessoa.
Por vezes penso sobre a evolução do ser humano. Em como foi moroso evoluirmos, em termos de valores ou no que respeita aos ideais. Como nos tornámos no animal social contemporâneo. Penso nos anos, décadas, séculos de luta, de diferentes segmentos da sociedade, para se conseguir alcançar uma sociedade mais igualitária. E como temos capacidade de resumir esses feitos num bloco de hora e meia, a ser passado num canal televisivo qualquer, obviamente com legendas (pois se não for de Hollywood, de certeza que não interessa).
Todos temos a capacidade de sermos heróis e de lutar pelo próximo, sem qualquer tipo de interesse subliminar, tal qual Hernâni Cidade. Mas mais importante do que ter a capacidade de agir de forma altruísta, é termos um agente que consiga vender a ideia de fazer um filme sobre isso. Porque se não o tivermos, de que vale ajudar o outro?
2º Prémio
(Apoio: Banco BPI)
Nilton Carvalho Esteves, Évora
Entrincheirados
Numa Europa plural, construída sobre a égide dos ideais revolucionários que inverteram o destino de muitos dos países que atualmente a formam, convertendo regimes totalitários em Estados democráticos, começamos a sentir uma amnésia coletiva perturbadora.As novas trincheiras, onde podemos procurar pelos heróis de hoje, encontram-se agora nos campos de refugiados, criados para acolher criaturas humanas à espera de uma chance de se realizarem "em humana dignidade". Encontram-se a bordo de navios de investigação oceânica, que teimosamente reposicionam o sonar em busca de almas desesperadas em botes sobrelotados. Andgelique Kidjo canta: “Não há maior alegria que a alegria de uma alma a nascer!”. Teremos de cantar mais alto as palavras: “Não há maior tristeza que a tristeza de uma alma a morrer... no Mediterrâneo!”
Enquanto a apatia e o atordoamento éticos permitem que nada se faça, quer nos países de origem quer nos de acolhimento, a silenciosa contabilidade dos mortos no mar mediterrâneo, na tentativa de chegar a um porto seguro e de ter uma melhor vida, já ultrapassou a tragédia mediática das torres gémeas do World Trade Center. Mas não existe uma data icónica - nine/eleven - para unir todas as nações em torno de uma causa.
Miguel Torga dizia: "seres humanos com fome na raiz"; para se referir ao flagelo das crianças subnutridas. Teremos de ir mais além e falar de seres humanos com sede de "ser"! Teremos de aplaudir ou, pelo contrário, indignarmo-nos quando uma prestigiada cantora adota crianças no Mali? Esta lotaria que permite a realização humana intermitentemente parece tudo menos justa!
Caros governantes europeus, a humanidade não é nacional! A riqueza das Nações encontra-se na diversidade - essa força motriz do desenvolvimento. A Europa deveria enveredar por uma ideia global de downshifting. Menos é mais! Se cada europeu cedesse um pedaço de si para albergar, em boa verdade, outro pedaço de si que ainda não conhece - e não estou a falar de terreno ou de dinheiro, mas sim de boa vontade e hospitalidade moral - a unificação europeia poderia tornar-se uma realidade.
Se o amor pela coisa, vulgo consumismo, desse lugar ao amor pelo próximo operar-se-ia uma nova revolução que faria da Europa pioneira em matéria de ideologia. Ainda que a resistência da Europa ao mediatismo cultural esvaziado de conteúdo não seja tão forte como noutros tempos, assistimos aqui e ali a momentos únicos, como o caso do grupo Between music e o seu projeto
musical Aquasonic em que todos os sons são produzidos debaixo de água... para mim o melhor Requiem para os que não tiveram qualquer hipótese contra o Mediterrâneo.
3º Prémio
(Apoio: Junta de Freguesia de Redondo)
Carlos Manuel Meneses Moreira, Maia
Hernâni Cidade: lugar-tenente da humanidade em tempos de crise
A 9 de abril de 1918, na célebre Batalha de La Lys, Hernâni Cidade era feito prisioneiro pelas forças alemãs. Durante os nove meses de cativeiro, ao invés da letargia comum de quem se via privado da mais elementar liberdade e dignidade humanas, ouvia-se Hernâni Cidade, aos domingos, a proferir conferências sobre literatura portuguesa, enquanto se adentrava pela língua e cultura alemã. No
mínimo desconcertante, o modo como o então alferes Hernâni Cidade entrevia um significado outro da guerra, como o que o levara cerca de um ano antes a salvar um soldado alemão ferido no campo de batalha! Poucos, porque insignes pensadores da condição humana para além da sua contemporaneidade, foram capazes de exceder o seu tempo e qualificar a sua experiência, intuindo um outro sentido para a sua e para a humanidade inteira. No decurso daquele período, em que Hernâni sentia em si germinar a vocação de professor, no sentido homónimo de mister e de mestre, era proferida na cidade de Lisboa, na noite de 4 de julho, a conferência de Leonardo Coimbra sobre o Significado Espiritual da Guerra Europeia. Como poucos, também Leonardo Coimbra via na guerra a consequência de uma sobreposição dos valores naturais sobre o adormecimento dos valores espirituais, a ponto de aventar, de modo também desconcertante, que a guerra podia mesmo revestir uma “grandiosa experiência moral”, antevendo que até a beligerância podia ceder lugar a atos de profunda humanidade, capaz de redimir e resgatar um outro sentido: o da fraternidade reencontrada no amor ao próximo, tal como preconizado por Hernâni Cidade. A vocação a que todas as criaturas humanas são chamadas, de dignificarem a própria humanidade a despeito de todos os atos desumanizadores, foi bem patente na estatura moral e espiritual de Hernâni Cidade que, como poucos, soube emancipar-se do regionalismo individualista rumo à universalidade da condição humana. Com
propriedade, poder-se-ão prenunciar nestas atitudes de Hernâni Cidade a germinação de uma certa utopia que, naquele tempo, apesar de desconhecer o reiterado adormecimento de valores espirituais que vieram a espoletar a Segunda Guerra Mundial, vislumbraria a construção de uma Europa unida, alicerçada numa comunidade de cidadãos: ou não fosse “Camões, Poeta Europeu”, o título da sua primeira conferência proferida em cativeiro. Com Hernâni Cidade, é a cultura humana, a arte, a literatura, que humanizam a pessoa e a distanciam da animalidade, despertado a consciência coletiva da sua vocação, sobre o adormecimento dos valores espirituais, isto é, daqueles valores que
genuinamente a humanizam como tal. Assim plasmado o seu pensamento, não admira que, a convite de Leonardo Coimbra, tenha Hernâni Cidade prosseguido a sua vocação como docente em 1919 na então criada Faculdade de Letras do Porto, cidade onde, neste período da sua biobibliografia, veio a casar-se e a lecionar no Liceu Rodrigues de Freitas, figurando no rol dos poucos, mas insignes, professores portugueses do seu tempo que permaneceram para além dele, como lugar-tenentes de profunda humanidade em tempos de crise.
_________________________________________________________________
Menção Honrosa
(Apoio: Município de Redondo)
Resolveu o júri desta edição de 2018 do Prémio Doutor Hernâni Cidade, atribuir uma Menção Honrosa a um texto que, pelas suas características, não se enquadra manifestamente na modalidade em apreço: a Crónica.O texto intitulado “Crónica sobre minha curiosidade”, orienta o nosso olhar para o ato de recolher tampas para as doar. Que haverá nisto de relevante? Primeiro que tudo, ser a manifestação confessada de um ato de “curiosidade ou interesse em saber, conhecer, sentir (…)”, e cumulativamente, traduzir o “prazer em ajudar quem necessita (…)”. A curiosidade e o prazer em ajudar! Se na curiosidade vive uma das fontes do amor, no prazer em ajudar quem necessita, reside uma das manifestações desse amor, associando-se no caso deste texto, o despertar da consciência coletiva para um problema que sendo ambiental é também, cultural e civilizacional.
Mais notório se nos tornou este escrito, pela idade do seu autor, homem de 85 anos que nos revela – e por isso mereceu o nosso destaque – duas vias de sabedoria:
- Manter viva a curiosidade para ter uma vida longa.
- Ajudar o próximo com prazer – e acrescentaríamos, sem esperar retribuição e visibilidade.
Eis a heroicidade diária que se nos pede para a Paz.
_________________________________________________________________
Crónica sobre minha curiosidade
Júlio da Silva Máximo Viegas, Queijas
Curiosidade ou interesse em saber, conhecer, sentir, meu apanágio que já me tem proporcionado situações felizes e dramáticas. Uma das curiosidades que me deu bons momentos, começou pelo facto de eu ver pessoas a apanharem garrafas de plástico nos passeios e até nos contentores do lixo e de seguida, desenroscarem a tampa de plástico azul, metê-la no bolso, e deixarem a garrafa no local onde a apanharam. Resolvi perguntar a uma senhora, o motivo do que tinha acabado de fazer e ela, gentilmente, disse-me que tirava as tampas, para as dar na escola primária que ficava perto da sua residência, pois a escola todos os fins de mês, enviava a sua carrinha com as tampas que várias pessoas lá entregavam, e normalmente rondava entre os 20 a 30 quilos. As tampas são entregues numa organização que se encarrega de gratuitamente oferecer Cadeiras de Rodas, a quem tem necessidade delas e não tem poder financeiro para as comprar. A quantidade de tampas para uma cadeira corresponde a 1.000 Quilos de tampas. Após ter este conhecimento, eis-me nas minhas diárias passeatas, a apanhar tampas e o meu recorde num dia, está em sessenta tampas.
A minha curiosidade, e o meu prazer em ajudar quem necessita, levou-me a querer saber quantas tampas são necessárias para perfazer os 1.000 Quilos e fui pondo tampas na balança até chegar às 100 gramas e deu precisamente 70 tampas; como tal, 1 Quilo dará 700 tampas, sendo Mil Quilos, será 700.000 tampas.
Cá ando com muito gosto a apanhar as que vejo que também me proporciona bela ginástica, ou seja a de me baixar para as apanhar, mas também já me lembrei que os lisboetas são inimigos do asseio nas ruas, pois garrafas de plástico, de vidro, beatas, papéis, sacos de plástico, não são nada cuidadosos! Pelas visitas que faço a várias terras do Alentejo, graças à Poesia, ó tampas! Muito poucas eu acharia!
O grau de cuidado dos alentejanos, é soberbo! Bravo! Bravo!
6 de junho de 2018
Regulamento do Prémio Literário Hernâni Cidade 2018
1º
Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.
2º
Na edição de 2018 a modalidade é: Crónica.
Tema:
"O amor do próximo impõe, como primeiro dever, promover a realização da justiça que a todas as criaturas humanas permita realizarem-se em humana dignidade. E lembremos, a tal propósito, que foram a literatura e a arte que, em vagas sucessívas de emoção dinamizadora, tornaram possível no mundo a emancipação do escravo, a regulamentação do trabalho, e despertaram a consciência colectiva a que se deve quanto com eficiência mais ou menos larga e profunda está elevando o operário à participação nos frutos da cultura e da civilização."
Partindo do facto de se assinalar este ano o centenário da Batalha de La Lys onde Hernâni Cidade foi feito prisioneiro e atendendo à heroicidade que manifestou e lhe foi reconhecida até pelos adversários, redija uma crónica. Tenha em atenção as características inerentes a este tipo de texto e a citação apresentada.
3º
Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.
4º
O trabalho não deverá exceder 1 página e será enviado em cinco exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.
5º
O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto.
6º
O trabalho poderá ser entregue:
a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo
b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Literário Hernâni Cidade 2018
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO
c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento
7º
O prazo de receção dos trabalhos termina a 31 de Agosto de 2018, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de cinco elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.
8º
Serão atribuídos
a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.
b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.
c) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.
9º
O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.
10º
Os concorrentes premiados serão avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia pública a realizar no dia 27 de Outubro de 2018, pelas 16 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.
11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.
Organização
Município de Redondo
3 de outubro de 2017
Menção Honrosa 2017
Vagões
Estava apeada no jardim, entretida a observar um
comboio em movimento. Era um comboio metafórico, de carruagens humanas, que se
dirigiam em linhas de espontânea criação. Cruzavam-se, mas não colidiam. O caos
era organizado. Um ensaio, pensei. Mas não. Era uma manhã normal.
Pelo desábito recorrente, ou pela insuficiente
compreensão do que no mundo existe, peguei nessa fresca manhã e desconstruía.
Quis saber seu maquinismo, sua mecânica, as leis físicas que a governavam.
Nenhuma achei. Eram demasiado transmutáveis para as definir. Tudo isto é assim, e poderia ser o seu
contrário também. Quis-me recostar no paradoxo. A constatação, porém, era
aflitiva. Aquela aparente ordem mecânica tinha por base um contracto moral – valores
que dirigiam os comportamentos em amplos carris sociais. Naquela sociedade, a
prevenção da colisão era a norma reinante, numa outra, o choque talvez
imperasse. No fim, sobrou-me essa peça indesmontável. Deduzi que fosse aquilo a
que se chama moralidade.
Parecia uma base de construção absurda, não por
carência de lógica, mas pela amplitude de resultados que podia assumir. No
fundo, os comportamentos fluem numa certa direcção, mas poderiam fluir noutra.
A prova está nas sociedades de distantes estações, cujos comboios podem não ser
vistos, mas cujos ecos ressoam até nós. Talvez seja isso, pensei de mim para
mim, pois que àquela hora nenhum outro vagão dispunha. Talvez a moralidade
esteja viva e seja orgânica e, tal qual célula, se diferencie. Se assim for,
nada se perder, à semelhança do mundo físico, quedando-se em perpétua
transformação. Talvez se inicie por egoísmo, numa protecção instintiva do eu que com o outro se abstém de colidir, e se alargue, em benevolência, para
valores que transcendem a individualidade e encontram fim em si mesmo, no acto
de retidão, ainda que sem beneficio próprio. Talvez seja essa transformação a
utópica: a felicidade achada no pleno bem-estar do outro.
Houve um comboio que colidiu. Os vagões tombaram num
estrépito gutural. Ganhei certeza. A moralidade não se perde, claro que não,
mas pode ser difícil de a encontrar.
Márcia Filipa Freire Dias da Costa
3º Prémio 2017
Refugiado de mim
Foi
pelo écran do televisor que a noção de refugiado conquistou um lugar na vida
das pessoas. Era um drama que visualizavam todos os dias nos telejornais.
Corpos a boiarem nas águas do Mediterrâneo. Destroços de barcos resultantes de
naufrágios onde perdeu a vida um número desconhecido de pessoas que fugiam da
guerra, da miséria, da injustiça.
Imagens
duras. Mas tão duras aos meus olhos, aos olhos dos ocidentais, quanto a equipa
de futebol preferida ter perdido o campeonato. Pois, o vidro do écran cria uma
distância perversa em relação à dura realidade da vida.
Por
que é que isto acontece? Sou insensível à perda de vidas humanas? Como é
possível comparar as emoções que me dominam aquando da derrota da minha equipa
de futebol com as emoções correspondentes à imagem de Aylan Kurdi, a criança curda
de três anos morta nas mãos de um guarda turco numa praia mediterrânica?
Desculpar-me
da minha insensibilidade? É a distância que justifica a minha passividade ou é
a crença na minha impotência de mobilizar os meios necessários para colmatar as
injustiças que se veem. Ou é o sentir-me virtualmente protegido como espetador
neste lado do écran. Ou o alhear-me de mim mesmo cedendo as responsabilidades
aos políticos e às autoridades.
As
desculpas serão tantas quanto a capacidade criativa da minha imaginação. No
entanto, seja a que distância estiver o mundo, os remorsos que sinto
relembrar-me-ão que ainda sou humano, que cai sobre mim, sobre cada um de nós,
uma certa dose de responsabilidade. A empatia pelos que sofrem da injustiça e
miséria ainda escorre como a lágrima que escorre pela minha face perante o
écran do televisor. Os valores universais ainda estão no mais profundo de cada
ser humano. Na mais falsa redoma caberá sempre uma gota de moral. Mas esta não
justifica o sentimento de apaziguamento connosco mesmo. Não justifica a nossa inação.
A nossa redoma é frágil, demasiado frágil. Mais fina que o vidro de um écran.
Desde
a atitude egotista e solidariamente soberba de um elemento da civilização
ocidental rica, quero acreditar que a perda de vidas humanas no Mediterrâneo
não é uma perda. É, desvirtualmente, a implantação nos recessos da nossa
suposta indiferença de uma semente dos mais universais valores que nos guiam na
vida, e que brotará e crescerá na frondosa árvore da condição humana. Um sinal
de que a moral sempre resistirá… até ao último ser humano.
Rui Manuel Rosado Quintas
2º Prémio 2017
Cronilógica de um mundo ao contrário
“Tal
como no mundo físico, no mundo moral nada se perde”
Hernâni
Cidade
O mundo avançou.
E debaixo de um céu de azul profundo, substituíram-se
as grutas pelos apartamentos. As mãos abandonaram os gestos desconcertados,
forjados com a rudeza do pó, e armaram-se de garfo e faca na senda de uma
aventura dos novos tempos. Os incisivos, ávidos de vida, abdicaram de rasgar a
carne mal assada, quase crua, para se rejubilarem no deleite de um prato meio
cheio a casar com um status social
meio vazio. Os pés descalços, castigados pela terra, passaram a deslizar em
duas rodas, deixando num passado imperfeito o valor das coisas simples para
passar a correr atrás dos segundos perdidos sem tempo. Os pueris sons que
ecoavam nos primórdios dos tempos encetaram os primeiros passos, cresceram,
maturaram, tornaram-se adultos.
E a Língua nasceu. E vieram os exércitos
da sintaxe, e da semântica, munidos dos ismos
e dos ónimos. E nasceram as
ideias.
O céu, o tal de azul profundo, ganhou
riscos de branco como um quadro em que se esboçam os primeiros traços. A terra
desordenada e livre, encarcerou-se entre linhas de negro e paredes de pedra.
E o Homem mudou.
E com ele, o ontem transformou-se no
hoje. Já não se “atira o pau ao gato”. Leva-se o gato a passear, porque os
animais, há que protegê-los, que também tem direitos. O “lobo”, já não é mau
nem come a avozinha. Agora a avozinha tem um lobo de estimação, porque os lobos,
há que os preservar, que já há poucos. A tartaruga já não é mais esperta que a
lebre nem chega primeiro a lado nenhum. Chegam juntas. Porque todos somos
iguais, e a igualdade, há que lutar por ela. E o lobo também já não destrói a
casa dos três porquinhos (sim, o lobo, outra vez) ajuda-os a construi-la e
depois vão todos jantar fora. Porque devemos ser todos amigos, e o bullying, há que combatê-lo, que é coisa
feia.
Porque as ideias e os valores, esses,
não desaparecem, adaptam-se, transformam-se. E ainda que o mundo dê meia dúzia
de voltas, envolto na poeira dos tempos, nada do que fomos, deixamos de ser.
Mesmo sem pau para atirar ao gato, nem lobo para ser mau, as histórias
continuam a transmitir mensagens que ficam. E o céu azul? Esse, ainda que de
muitas outras cores, continua profundo, porque nada se perde, tudo se
transforma.
Carla Patrícia Pires Martins
1º Prémio 2017
“A mulher na
esquina do Parque”
A mulher está sempre
lá – no mesmo cruzamento junto ao Parque Eduardo VII – e por sempre quero dizer
todos os dias, descontando fins-de-semana, feriados e férias, em que nada na
vida me fica naquele caminho. Quando passo por ali – geralmente por volta das
nove – ela já lá está. É uma fraca figura e não o digo para ofender: é baixa e
magra e tem as pernas arqueadas e um ligeiro coxear que compensa fazendo
bengala de um guarda-chuva que traz pendurado no braço. Veste-se de modo muito
prático, de calças largas e camisolas que tapam o peito e a garganta. Tem a
pele curtida, num castanho brilhante, batido como solas de sapato e cabelo pelo
pescoço muito amarelo. A boca está metida para dentro e sem pensar muito nisso,
vislumbro a utilidade profissional desta característica. Pergunto-me que
horário laboral fará. O meu é medido em horas mas a ela vejo-a sempre às 9h embora
nem sempre às 18h. Talvez o horário dela se faça pelo peso da carteira no bolso
e não pelo peso das horas no corpo.
Vejo-lhe as
colegas de profissão que povoam os bancos do jardim à hora de almoço. São
mulheraças voluptuosas de corpo à mostra, cabelos compridos e unhas pintadas. Pelos
vistos, há um pico de procura à hora do almoço. Os senhores dos escritórios que
escolhem precisamente esta hora, para não interferir com o trabalho nem atrasar
o regresso a casa. Estas mulheres, cheias de atributos visíveis, entram ao
serviço mais tarde que ela, por volta do meio-dia. A figura dela não tem como
competir com minissaias, decotes e saltos altos e talvez por isso, faça chuva
ou faça sol, lá está ela, na mesma esquina do parque, desde antes das 9 até
sabe-se lá quando.
Não me chocam as
prostitutas. Não as julgo por isso. Fui criada por uma mãe religiosa que me
ensinou a moral e a justiça e por um pai agnóstico e liberal que me ensinou a
liberdade. Deu nisto, nesta indiferença por aquilo que o outro faz, desde que
não envolva fazer mal a terceiros.
Não é por ela
ser prostituta que reparo nela todos os dias, mas por facilmente lhe dar 65
anos. Bem sei que a vida vai deixando marcas – na alma e na cara – mas esta
mulher, na minha moral, devia estar de pantufas a tomar o pequeno-almoço em
casa, não aqui. Parece-me amoral a sua condição, não de prostituta, mas de sexagenária
que ainda tem de prostituir-se. A minha moralidade comove-se mais com quem não
atinge descanso, do que com quem faz a vida a vender o corpo. As mulheres
sempre usaram as armas que tinham ao seu dispor. O corpo é só mais um elemento
do arsenal. Esta mulher, com esta vida toda na cara e ainda a passar o dia em
esquinas incomoda-me. Quer dizer que a guerra ainda não terminou para ela. Quer
dizer que em alguma altura, as batalhas perdidas foram mais do que a conta e
isso faz com que ela ainda esteja aqui, a lutar. Ela é como nós (não é isso a
empatia?) e a minha moral contorce-se todos os dias por ela ainda estar à venda.
Ana Isabel Guedelha da Silva Neves
6 de abril de 2017
Regulamento do Prémio Literário Hernâni Cidade 2017
1º
Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.
2º
Na edição de 2017 a modalidade é: Crónica.
Tema:
"Tal como no mundo físico, no mundo moral nada se perde."
Hernâni Cidade, A Literatura e a sua função social, Porto, 1937.
Partindo da citação, redija uma crónica, tendo em atenção as características inerentes a este tipo de texto.
3º
Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.
4º
O trabalho não deverá exceder 1 página e será enviado em cinco exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.
5º
O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto.
6º
O trabalho poderá ser entregue:
a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo
b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Literário Hernâni Cidade 2017
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO
c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento
7º
O prazo de receção dos trabalhos termina a 31 de Julho de 2017, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de cinco elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.
8º
Serão atribuídos
a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.
b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.
c) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.
Entrega dos prémios a 14 de outubro pelas 16h00
9º
O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.
10º
Os concorrente premiados serão antecipadamente avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia a realizar no dia 14 de Outubro de 2017, pelas 16 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.
11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.
Organização
Município de Redondo
19 de outubro de 2016
Trabalhos Premiados 2016
1º Prémio
"ENQUANTO"
João Baptista Coelho
(Tires, São Domingos de Rana)
ENQUANTO
Enquanto quis Fortuna que tivesse
a mística imortal do verbo amar
e a força dos silêncios duma prece
rezada numa noite de luar;
Enquanto em minha alma, em vida, exista
Esperança de algum contentamento,
que seja bem real, sem estar à vista,
a dar-me o pão da paz, e de outro alento;
Enquanto eu me aperceba, no meu "vento",
que tu também me queres, também me ofertas
O gosto de um suave pensamento
e a dádiva da paz, de mãos abertas; ...
Eu gritarei ao mundo, que o amor,
alheio a qualquer mísero interesse
- porque hoje me mostrou outro valor -
Me fez que seus efeitos escrevesse.
2º Prémio
"deu-me a sorte este instante de alegria"
Pedro Manuel Martins Baptista
(Coimbra)
deu-me a sorte este instante de alegria
como se uma breve ave o céu riscasse
e em seu canto o olhar iluminasse
com as cores da mais bela melodia
embora escasso seja abre-se ao dia
este sorriso em mim se ficasse
como um sol que à janela se deitasse
em ledo verso ao mundo o cantaria
mas quis a sorte só que fosse instante
tal como instante foi dá-lo por 'scrito
enquanto em mim houvesse tal alento
e que cada palavra fosse amante
da esperança que resta neste grito
para que fosse eterno este momento
3º Prémio
"Onde estás, oh Esperança minha?"
Carlos Manuel Meneses Moreira
(Maia)
E nesse fado quase esmorecia
Tão perto de fruir esse momento
De ter comigo tão grande alento
De cantar na noite a luz do dia
Que espera é esta que definha
Na noite escura que me envolve
Se não me contenta tamanha sorte
De não sentir a noite como minha?
Antes que o silêncio sucumbisse
Na aridez dessa noite escura
Tomei como minha essa agrura
De não te conhecer, quando te visse
Onde estás, oh Esperança minha!
Onde te escondes, tão fugidia
Se te desejo mais que a própria vida
Antes que desponte o raiar do dia?
Quis a Sorte que não mais dormisse
Sem que na matutina neblina
A Fortuna trouxesse como minha
A primeira gota de alegria
De te sentir comigo sempre presente
Não deixando que na noite soçobrasse
Ainda que na escuridão eu achasse
Que estivesses, afinal, em mim ausente!
Subscrever:
Mensagens (Atom)