29 de janeiro de 2021

Menção Honrosa - 2020

O Medo é um Sentimento

O medo é um sentimento
Que vem connosco ao nascer
Pode torna-se um tormento
Que não passa com o tempo
E dura até morrer.

O medo tem dois sentidos
Que devemos de entender
É um que livra dos perigos
E nos deixa protegidos
E outro que nos faz sofrer

Por medo ficamos arrepiados
E o pânico restringe a liberdade
O temor deixa-nos paralisados
Com ele dormimos acordados
No leito onde mora a ansiedade.

O medo pode nos atormentar 
Porque ele nunca tem opositor
Mas apesar de nos amedrontar
Ainda o podemos superar
Nos braços do nosso amor.

Mas quem disser não ter medo
Está mentindo para alguém
Pois todos nós sentimos medo
Nem que seja em segredo
Dos medos que a vida tem.

A lei do medo é um guia
Que não nos pode faltar
Se não ai de nós o que seria
Tudo fazia o que queria
Sem ninguém para castigar.

Mas há aquele medo que persiste
E de todos o que nos bate mais forte
É um terror a que ninguém resiste
É tão cruel que nos deixa triste
Esse medo é sempre o medo da morte.

_

Felícia Festas - Hortinhas, Évora

Menção Honrosa - 2020

O Medo x A Audácia

O contrário da palavra medo é coragem. Audácia pra encarar a vida de maneira despretensiosa com parcimônia e cautela.

Engraçado como isso soa e tem a mesma sinfonia, tem também o som de algumas palavras. Embora pretensiosas, passam muitas vezes despercebidas. Hoje, porém, ao ler um jornal sobre criptografia que eu adoro me deparei com uma palavrinha bastante curiosa e muito pouco usada no dia-a-dia: a "audácia".

Segundo o dicionário Houaiss, audacioso é aquele que tem aptidão ou tendência a realizar ações difíceis, não se importando com o perigo (me lembrei da frase do Simba, personagem do filme do filme Rei Leão quando ele fala: "Eu sorrio na cara do perigo, hahahaha"). É aquela pessoa que se caracteriza por se opor ao que está previamente estabelecido, que se expressa com inovação. Que é destemido e não tem medo.

Bom, o fato é que a palavra é muito atraente e positiva, pois remete a desafio e, portanto, a realizar algo que deseja muito, colocando força e dedicação para ser feito. Embora, muitas vezes não pensemos muito no que fazemos diariamente no trabalho e em casa ao agirmos no impulso, no automático, sem medir consequências, o importante é dar o melhor, agir com prudência e cautela, principalmente.

Paralelo a isso, a "audácia" me lembrou um episódio inédito essa semana, bem legal que aconteceu comigo. Na segunda-feira (5), eu fui vacinar a minha gata, Bella, no Centro de Zoonose de Brasília, que é um local aonde os veterinários são especializados em cuidar de cães e gatos. Lá, eles são responsáveis por acolher a maioria dos animais domésticos abandonados do Distrito Federal e colocar para adoção. O local é enorme, super bem organizado e eles são super atenciosos. Ao chegar lá fui atendida em menos de 5 minutos. Foi muito rápido e eficiente o atendimento do veterinário que vacinou a Bella. Fui audaciosa! Por quê?

Eu não tinha noção de como era o local, estava morrendo de medo, era distante da minha casa e, eu não imaginava o que ia encontrar. E por isso, acabei me surpreendendo com milhares de gatinhos e cachorros, loucos por um dono, um lar.

Achei muito fera! Se eu pudesse, pegava todos para mim! Todos é muito, vai?! Mas, uns três eu pegaria! Hahaha. Contudo, já tenho uma gata que amo e cuido com muito amor e carinho. E isso, sim, é o mais importante! Mais do que a minha "audácia" e despretensão do medo, de ter ido lá na Zoonose levar a Bella.

_

Eloange Bittencourt Emediato - Brasília

Menção Honrosa - 2020

O silêncio e o medo!

Nunca falamos. Apenas olhamos. Olhamos tantas vezes como se não houvesse amanhã. Percorremos a estrada dos nossos olhos. Sem curvas nem rotundas, sempre a direito. Não haverá o nosso amanhã. Apenas o meu amanhã. E o teu amanhã. Algures. Por aí. Até um nosso próximo reencontro. Quando nos voltarmos a reconhecer seja em que pavimento for. Alcatrão. Calçada. Pedra. Areia. Onde os nossos pés voltarem a andar somente para se cruzar. Sem medo de se entrelaçarem.
Nunca falamos. Sem um mero abraço. Aquele abraço. O único que queria. O teu abraço. Nunca te poderei abraçar. Sentir o teu coração-casa a pulsar no meu peito. Adormecer a almofada do sono no teu colo. Quimeras platónicas. Medo maior que sinto, este de um dia a morte me chegar sem um abraço teu.
Nunca falamos. Nunca te poderei sussurrar que me estremeces o coração. Que me tremes os joelhos. Que és abismo das minhas emoções. Que fico parada porque não consigo andar. Porque as calças escondem o meu vacilar de pernas. Porque me tonteias os sentidos de amor.
Nunca falamos. Nunca te poderei perguntar o que sente essa tua alma ao ler estas minhas palavras. As tuas palavras que ficam a flutuar na minha mente quando te deixo ir. Porque sei que sabes. Que sabemos. Mas nunca falamos. Temos medo. E por isso continuamos a teimar nisto do silêncio.
Nunca falamos. Para te dizer que te sinto especial. Que não sei por que razão és especial. Não o sei explicar. Já perguntei ao universo porque te faz especial aos meus olhos. Mas esse universo continua mudo. Sem nada me dizer. Pode parar o relógio para te conseguir ver. Pode fazer desaparecer o trânsito para correr e olhar um segundo que seja para ti. Mas não me explica isto que sinto ao ver-te.
Nunca falamos. Nunca compreenderemos o medo que nos silencia a voz. Talvez não perceba. Talvez não seja para perceber. Talvez tenha de deixar fluir o que sinto. Não esconder de mim o que sinto. Conhecer-me. Não sei como fazes isso, mas essa tua alma ajuda-me no caminho de encontro a mim. Irónico. Nunca falamos. Mas és força para mim.
Nunca falamos. Parece medo. São os nossos fantasmas reais e imaginários. Aqueles que nos perseguem nos pesadelos. Já os conheceste? Aqueles que me deixaste e os que te enviei para te atormentar. Para nunca nos sentirmos sozinhos de nós mesmos. Nunca falamos. Porque não conseguimos enfrentar o nosso fantasma. O medo aterroriza-nos a coragem.
Nunca falamos. Não posso chegar ao pé de ti e dizer como és absurdamente bonito. Que és amor. Há uma sociedade que não me permite dizer isso. Que nos ata os dedos num cordel que farrapa a pele. Por isso nunca falamos. Essa corda sufocou-nos a voz.
Nunca falamos. Continuemos na nossa conversa de almas. Porque as almas não sentem medo. Amam. Eu escrevo-te o meu coração. Tu ouves-me na tua alma. Porque teimamos nisto do silêncio. Até ao dia em que rasgarmos os medos das palavras.

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Ana Cristina dos Santos Gomes - Amadora

3º Prémio - 2020

Se um dia o medo...


E se um dia o medo vier?
Que estridentes trompetas o anunciarão, se ele um dia chegar como uma invisível ameaça, cruel e infame, vinda dos longínquos horizontes onde habita a incerteza e governa o desconhecido, e vier abater-se sobre as urbes, tornando monocromáticas as paisagens, negras as almas e cinzentas as vidas? Que medievas reações terão as gentes, acossadas na sua acomodação e indiferença, se subitamente obrigadas a transmudar suas vidas remetendo-se ao abrigo das sombrias casas, perante a superlativa e inverosímil ameaça?
Esvaziar-se-ão as ruas, transformadas em desertos de alcatrão pejados de veículos abandonados, por onde passam fugazes e cabisbaixos apenas aqueles que nela se aventuram por força das obrigações e das inevitabilidades? Despovoar-se-ão as vilas e as cidades? Tomará o silêncio o lugar das vozes e das gargalhadas, e escutar-se-á apenas o seu som, que julgávamos inexistir por nunca o havermos escutado?
Assomarão uma e outra vez às janelas, ou aos postigos, rostos fugidios e espectrais, como que sopesando a cada momento a espessura daquelas inusitadas circunstâncias para, logo depois, o som dos ferrolhos que se correm tornarem a mergulhar cada um no seu cárcere voluntário, adivinhando-se o tempo lento que passa dentro daquelas paredes onde gente incrédula se resguarda do invisível e do desconhecido?
Se o medo vier, que velhos demónios invocaremos para o justificar? Que soturnos pensamentos aflorarão na mente de cada um de nós? Que lancinante dor se virá instalar perante o receio de um beijo ou de um abraço de um filho, de um pai? Quão lúgubres se tornarão as nossas vidas tocadas pelo afiado estilete do medo que, fino, mergulhará nas nossas fragilidades?
E se o medo vier e não partir, se ousar entranhar-se nas nossas vidas, restando-nos apenas esperar por uma qualquer milagrosa circunstância que o devolva aos devónicos tempos de onde pareça ter saído?
E se, na sua silente e traiçoeira presença, o medo for o futuro? Será que se instalará o temor de não sermos capazes do vencer?
Será que teremos a ousadia de o olharmos de frente, para que possamos poder ver de novo
as cores do crepúsculo no seu rutilante esplendor?...
E se o medo vier?

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João Manuel Chambel Gonçalves Pedro - Montijo

2º Prémio - 2020

É quando ouço os teus passos pesados a subir as escadas, que o medo começa a deslizar dentro de mim - no sangue das minhas veias -, insidioso, como um animal doméstico que me habita os silêncios e desperta com a tua chegada. Já passaste o primeiro andar, tiras as chaves do bolso que vens a agitar enquanto sobes o último lanço, e nesse metálico tilintar, quase alegre, reconheço a campainha do meu medo, ou o alarme do meu terror - não sei bem. Espero-te. Pela última vez, olho tudo em redor e certifico-me: o jantar está pronto e quente, a casa brilha, orgulhosa do perfume da sua limpeza, e na jarra de cristal, as flores sorriem-me, num verde saciado pela água transparente. Está tudo em ordem - respiro fundo, muito fundo - o medo, veloz, corre-me por dentro.

Chegaste. Os teus passos param à porta, a chave roda suavemente na fechadura. O medo é agora um bicho alado dentro do meu peito, uma ave aflita roçando as asas às cegas nas paredes do meu coração. Presa ao chão, aliso as pregas do vestido, alinho um fio fugidio no meu cabelo entrançado, verifico a subtileza do perfume que me ofereceste, na pele dos meus pulsos. Entras, fechas a porta e ficas parado a olhar-me, tão alto, tão belo como há trinta e dois anos, quando te disse "Sim" no altar, vestida de branco e de sonhos. Não dizes nada e eu sei que será como das outras vezes, como de todas as vezes: primeiro a bofetada, quando eu menos a esperar; depois virão os cabelos arrancados aos puxões, a seguir os socos no rosto, a cabeça batida brutalmente contra parede, finalmente os pontapés - nos rins, na barriga, nas costelas -, quando o meu corpo desistente estiver tombado de lado, como um navio naufragado.

Pousas a pasta e aproximas-te para o beijo. O teu sorriso é quase terno, apertas-me sensualmente a garganta enquanto procuras o medo dentro de mim. No meu olhar, consegues reencontrá-lo e reconhecê-lo: o medo é agora um peixe enorme, viscoso, nadando em círculos no mar dos meus olhos - esse medo traiçoeiro e pérfido que me domina, me cala e me sufoca, me impede de gritar, de fugir ou de me defender. Sim, esse medo carrasco mais forte do que eu, que permitiu que me partisses costelas e dedos e dentes, que autorizou que matasses a pontapé o nosso filho, dentro do meu ventre, e que consente que eu continue a ser tua - para sempre, até que a morte nos separe.

Beijas-me com doçura e sentas-te para jantar. Não dizes nada, enquanto eu te sirvo o ensopado de borrego. Do outro lado da mesa, vejo-te comer com apetite, vejo-te esvaziar copo atrás de copo, vejo-te abrir outra garrafa de vinho. O medo é agora um touro, um cavalo, uma besta que escouceia dentro da minha cabeça. Perguntas-me qualquer coisa a que não sei responder, gritas alto, cada vez mais alto, dás um murro na mesa, que faz tombar o copo vazio. Engulo em seco, o meu corpo treme, e o medo que me habita antecipa o gosto que a minha boca terá daqui a pouco: sémen, sangue, suor e lágrimas. 

_

Ana Paula Braga Morais Mateus - Póvoa de Varzim


1º Prémio - 2020

                                              

COTIDIANO NO MORRO DA PIPOCA

Silvou por cima da minha cabeça e fez um buraco na parede do bar de mais ou menos dois centímetros de diâmetro. Instintivamente atirei-me ao chão, mesmo sabendo que, se ouvi o estampido, aquele gesto era desnecessário.

Alagado em suores, sem saber se do calor excessivo ou de uma resposta à taquicardia e confusão mental.

Quando me dispus a sair do bar, ouvi uma saraivada de balas vindo da parte baixa do morro, com certeza disparos da polícia pacificadora, que, por medo talvez, dispara para todos os lados tentando intimidar e, por vezes, ceifando vidas inocentes com balas perdidas.

- João ontem caiu vítima de fogo amigo. – disse a travesti Roberta, que estava estatelada no chão ao meu lado, segurando no meu braço, como se eu pudesse salvá-la de alguma coisa.

O António, cheio de coragem, fechou a porta de metal do seu bar, como se ela pudesse parar algum projétil balístico. Ele veio juntar-se a nós com uma garrafa de cachaça e depois de dar duas enormes talagadas, passou-a para nós.

- Por conta da casa. – disse.

Não me fiz de rogado e depois entreguei-a à Roberta, que, sem perder o fôlego, ingeriu quase a metade da garrafa, dando um sonoro arroto. De seguida caiu num pranto convulsivo, com voz grossa de barítono.

- Saiu o homem de dentro de si? – perguntei-lhe para desanuviar. Mas desviei o olhar da sua figura quando a vi toda urinada, não querendo aumentar o seu constrangimento.

- Abre essa porta portuga senão vou metralhar tudo. – disse Tião Cachorro querendo esconder-se da polícia.

O António depressa abriu a porta, mesmo na hora em que o Tião foi atingido e caiu morto para dentro do bar.

Agora, quando fecho os olhos, só vejo as partículas do cérebro do Tião na cara toda sarapintada do António.

_

José Eugénio Borges de Almeida - Póvoa de Lanhoso

28 de julho de 2020

Regulamento do Prémio Literário Hernâni Cidade 2020


Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.


Na edição de 2020 a modalidade é: Livre

Tema:
"O Medo"


Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.


O trabalho não deverá exceder 1 página e será enviado em quatro  exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.


O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto.


O trabalho poderá ser entregue:
a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo

b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Literário Hernâni Cidade 2020
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO

c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento


O prazo de receção dos trabalhos termina a 17 de Outubro de 2020, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de quatro elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.


Serão atribuídos

a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.

b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.
c) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.


O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.

10º
Os concorrentes premiados serão avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia pública a realizar no dia 21 de Novembro de 2020, pelas 15 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.

11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.

Organização
Município de Redondo

15 de novembro de 2019

1º Prémio - 2019

Carta ao Anastácio

O compadre está a ver aquele chaparro solitário plantado nas embalagens do leite? Sim, esse com aquela lonjura toda atrás e um risco sugerindo a imensidão da planície. É mesmo daí que eu lhe estou a escrever. Claro que sentado à sombra, que o sol continua a castigar como um chicote de fogo, nas costas da gente. Eu disse nas costas? Pior. muito mais grave quando assenta mesmo a pino na moleirinha. Veja o que aconteceu àquele moço que ficou três noites a fio pegando uma viola de cordas de vento, pescoço esticado para cima, entoando aquela melodia pastosa "menina que estás à janela com o teu cabelo à lua" ainda lá estaria não fosse o Chico Mataloto ter dó e chamar-lhe a atenção: Oh seu moinante, então tu não vês que hoje é lua nova e a janela fechada a sete chaves!? Onde é que tu vês a menina? Meteu a viola no saco e abalou para Lisboa. O resto já o compadre sabe. Somos cada vez menos. Sérios, respeitadores, pançudos por causa das açordas, mas resistentes ao suão, à canícula, a todos os rigores e à chacota do pessoal da cidade. Nã sê se o compadre sabe, fizemos um garrote no Guadiana. O rio inchou. Agora há água por todo o lado. Até praias já temos. Os finórios que iam para o Ancão ou para Albufeira, agora querem é praia de Mourão ou Amieira. Adeus seca! Isto tem tanta água que nuestros hermanos, sempre muito amigos vieram dar-nos uma ajuda. É só oliveiras e amendoeiras e vinhas regadas e não damos a água gasta! Vomecê não acredita? Nã me venha com essa conversa fiada dos lençóis freáticos e mais não sei quê, como os passarões do ambiente! A gente tem tanta, mas tanta água, que além dos ditos lençóis, também temos cobertores e mantas freáticas, com listas última moda.

Numa terra tão grande que até o silêncio ecoa de cabeço em cabeço somos cada vez menos, compadre Anastácio. Está tudo de abalada. Há os que ficam, os intelectuais dizem que é a força telúrica. A gente não entende e dizemos amor à terra. Ficamos aqui por estas barreiras, semeando mágoas, enquanto a passarada protesta de bico aberto no colo dos dias. Já cá me soou que o nosso governo conseguiu um subsídio da Europa e vai fazer uma reserva de Alentejanos. Já viu o turismo compadre? O aeroporto de Beja cheio de gente anémica de olho azul só para nos conhecer! Fique bem compadre. Eu ainda tenho água pelos joelhos e desconfio que com tanta água, a graça deste texto foi água abaixo. Tal não está a moenga!


Luís Filipe Morais Pereira Marcão
Reguengos de Monsaraz


2º Prémio - 2019

Já desde os tempos antigos
Do Geraldo Sem Pavor
Os chaparros são amigos
Da sestinha, meu amor

Alentejano valente
Para a açorda e o gaspacho
Se toca a rapar o tacho
Ninguém lhe passa para a frente.
Madruga com aguardente,
E come as migas com migos.
Com altos não vai aos figos
E em fezes não se mete,
Foge do diabo a sete,
Já desde os tempos antigos.

À sombra de uma azinheira
Como ovelha no acarro
Bate a sorna um chaparro
Nem torreira, nem soleira.
E sonha que a Terra inteira
É tudo Paz e Amor.
Pica o moscardo. A dor,
Ao acordar, de repente,
Solta o velho combatente
Do Geraldo Sem Pavor

É crente em Deus e nos Santos
- E noutras coisas também -
Mas os maganos são tantos
Que não os conhece bem.
Gosta de mangar mas tem
Medo dos raios, dos perigos,
Mete trancas nos postigos.
Mas, quando toca à matança,
Junta a malta para a festança:
- Os chaparros são amigos.

A pachorra alentejana
É boa para namorar:
A coisa pode demorar
Uma hora, uma semana...
Pau de azinho não abana,
Aguenta seja o que for.
E, no tempo do calor,
Quando a cigarra canta:
- Está na hora - traz a manta -
Da sestinha, meu amor!



Manuel João do Maio Calado
Borba

3º Prémio - 2019

COMPADRI, VOU-LHE CONTARI...

Compadri, vou-lhe contari:
Apareceu aí um magano
De Lisboa a perguntari
O que é ser alentejano!

Estava mangando c'a genti
E apanhou-me de maréi:
- Oiça lá, é ser diferenti
Daquilo que você éi!

Ver o mar nesta seara,
Achar que não está calori,
Saber o que é uma vara,
Trabalhar até o sol-pôri,

Saber de cor uma lenda,
Ir sempre mais devagari,
Pão e azeite à merenda
E migas para o jantari,

Tinto da pipa beberi,
Braço dado ao camarada,
Coro ou ponto a voz ergueri,
Com a goela já lavada,

De barro peças fazeri-
-boneco. prato, adereço-
Que você há de venderi
Mas por bem mais alto preço...

É a todos receberi
Com paciência infinita,
Rir de quem nos quer fazeri
Palhaços da sua fita!


Maria Paula da Silva Nunes Duarte Marques
Penela



Menção Honrosa - 2019

O QUE É SER ALENTEJANO?

Tu fazes cada pergunta, moço! Sei lá o que é ser alentejano! O que eu sei é que, no dia em que cheguei a esta terra, sob a "estorrina" do calor, já lá vão quase setenta anos, o Alentejo me roubou a alma! Logo a mim... que costumava dedicar os meus tempos livres (e também os outros) ... a roubar.

Nas Beiras, de onde vim, roubava aos ricos para dar aos pobres, incluindo-me, está claro, nestes últimos. Roubava gado, fruta, enchidos e alfaias agrícolas. Roubava as cuecas que esvoaçavam nos estendais e as latas das hóstias que o vigário guardava na sacristia. Roubei tanto e tão desavergonhadamente... que fui preso! Ao terceiro dia, descontente com o colchão da cela e a comida da prisão, lancei mão dos meus dotes de larápio habilidoso e escapuli-me. Disse ao guarda que precisava de verter águas, de esvaziar o intestino e lá consegui fugir pelo esgoto da prisão que, naquele tempo, era largo e desembocava no ribeiro da vila. Fugi de mãos a abanar! Nada trouxe comigo, a não ser o cheiro do esgoto... E foi assim que cheguei a terras de Além do Tejo!

"Nã tem nada que enganar, é já ali!" - disse-me o Manel Carrapato, à entrada do povoado! Mas não era já ali, não senhor... Estafado de tantos dias a caminhar com botas velhas, roubadas e dois números abaixo do meu, tive ainda de caminhar mais uma dúzia de quilómetros até chegar, finalmente, ao monte. Cada bolha dos meus pés, gritava: aprende que aqui no Alentejo, tudo (até a lonjura...) é "já ali ao lado". E eu aprendi! Nunca mais usei botas apertadas e agora, se me canso... sento-me a descansar!

Aprendi, ainda, que no Alentejo, a vida pode ser muito dura! Tive de ceifar e carregar muita palha. Aos poucos, fui perdendo o velho hábito de me apropriar do alheio. À minha volta, todos tinham pouco, muito pouco. O trabalho sob a torreira do sol foi-me dando o suficiente para viver. Mas deve ter-me queimado alguma coisa na moleirinha... porque me tornei estranhamente pachorrento e calado. Talvez um pouco melancólico (menos nos dias em que me junto aos outros homens da aldeia para beber copos, trautear melodias do cante alentejano e lançar impropérios ao Clero ou gracejos às maganas).

Aqui, no Alentejo, as planícies são de perder de vista. A imensidão entra-nos pelo coração adentro e parece que se fica sentimental e dado à poesia... E quem diria!? Tornei-me amante dos prazeres simples da vida: do cheiro do pão acabado de fazer, do sabor da sopa de beldroegas, da água da fonte bebida em concha de cortiça, do descabeçar um cadinho sob um sobreiro, da "despressa" com que se vive cada dia.

Nunca fiquei repeso de me ter tornado alentejano. Tenho a certeza, até, de ter o Alentejo no ADN: sinto-me Alentejano De Nascença e tenho nisso muito orgulho! Das Beiras guardo apenas uma réstia daquele velho vício de roubar e por isso passo os dias roubando e transformando anedotas que zombam dos alentejanos...

A propósito, moço, diz-me cá: tu que estudas na capital, sabes aquela dos lisboetas armados em ricos perante um alentejano? Diz o primeiro lisboeta: "Eu tenho muito dinheiro. Vou comprar o banco BPI!" Diz o segundo lisboeta: "Eu sou muito rico. Vou comprar a fábrica Fiat Automóveis!" Diz o terceiro lisboeta: "Eu sou um magnata. Vou comprar todos os supermercados Continente!" E os três ficam esperando o que o alentejano vai dizer. O alentejano dá uma baforada no cigarrito, faz uma pausa, cospe no chão e diz: "Nã vendo"!


Paula Cristina Direito Rabaça
Manteigas

4 de julho de 2019

Regulamento do Prémio Literário Hernâni Cidade 2019


Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.


Na edição de 2019 a modalidade é: Texto humoristíco.

Tema:
"O que é ser alentejano?"


Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.


O trabalho não deverá exceder 1 página e será enviado em quatro  exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.


O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto.


O trabalho poderá ser entregue:
a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo

b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Literário Hernâni Cidade 2019
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO

c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento


O prazo de receção dos trabalhos termina a 10 de Outubro de 2019, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de quatro elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.


Serão atribuídos

a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.

b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.
c) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.


O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.

10º
Os concorrentes premiados serão avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia pública a realizar no dia 30 de Novembro de 2019, pelas 15 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.

11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.

Organização
Município de Redondo

15 de outubro de 2018

Trabalhos Premiados - 2018

1º Prémio 

(Apoio: Município de Redondo)

João Pedro Pimentel Sigalho, Leiria


Heroísmo Contemporâneo 


Em plena guerra, Hernâni Cidade organizou uma investida que permitiu libertar um número indeterminado de soldados portugueses que tinham sido feito reféns pelas tropas alemãs. Este, era o padrão utilizado no início do século XX para definir os atos de heroísmo.
Já no século XXI, tudo mudou. Diariamente somos bombardeados com imagens de guerras, dilúvios, doença e fome. Não só na televisão, mas também no computador, (enquanto estamos no trabalho, de preferência) ou no telemóvel ao final do dia (de preferência, no transporte público, pois custa olhar para o outro e perceber o mundo à nossa volta). De tão habitual que é sermos confrontados com tamanha barbárie, relegámos a violência dessas imagens para segundo lugar, assumindo como prioridade o acesso à informação imediata e consequente divulgação, numa lógica de aparentarmos ser almas instruídas, cultas, interessantes.
Tal como os animais procuram comida, tornámo-nos em seres que perscrutam tudo o que é canal informativo (redes sociais, boletins noticiosos, páginas de jornais, etc) com o intuito de termos acesso à informação antes dos outros. Porque o que interessa, não é a informação. É o facto de termos capacidade de a partilhar antes dos outros. No final, o que interessa não é o “mediatismo” da notícia. Mas sim o “imediatismo” da mesma. E é esse um dos requisitos que faz com que todos nós conheçamos um “herói” do dia-a-dia.
Não por respeitar a vida dos outros, não por lutar por direitos universais e, certamente, não por tratar bem o próximo. Mas sim por ter a capacidade de, mesmo com um trabalho, mesmo com uma família, conseguir partilhar notícias sobre acontecimentos distantes, no imediato, fazendo os outros questionar acerca da sobrenaturalidade dessa mesma pessoa.
Por vezes penso sobre a evolução do ser humano. Em como foi moroso evoluirmos, em termos de valores ou no que respeita aos ideais. Como nos tornámos no animal social contemporâneo. Penso nos anos, décadas, séculos de luta, de diferentes segmentos da sociedade, para se conseguir alcançar uma sociedade mais igualitária. E como temos capacidade de resumir esses feitos num bloco de hora e meia, a ser passado num canal televisivo qualquer, obviamente com legendas (pois se não for de Hollywood, de certeza que não interessa).
Todos temos a capacidade de sermos heróis e de lutar pelo próximo, sem qualquer tipo de interesse subliminar, tal qual Hernâni Cidade. Mas mais importante do que ter a capacidade de agir de forma altruísta, é termos um agente que consiga vender a ideia de fazer um filme sobre isso. Porque se não o tivermos, de que vale ajudar o outro?

2º Prémio 

(Apoio: Banco BPI)

Nilton Carvalho Esteves, Évora


Entrincheirados

Numa Europa plural, construída sobre a égide dos ideais revolucionários que inverteram o destino de muitos dos países que atualmente a formam, convertendo regimes totalitários em Estados democráticos, começamos a sentir uma amnésia coletiva perturbadora.
As novas trincheiras, onde podemos procurar pelos heróis de hoje, encontram-se agora nos campos de refugiados, criados para acolher criaturas humanas à espera de uma chance de se realizarem "em humana dignidade". Encontram-se a bordo de navios de investigação oceânica, que teimosamente reposicionam o sonar em busca de almas desesperadas em botes sobrelotados. Andgelique Kidjo canta: “Não há maior alegria que a alegria de uma alma a nascer!”. Teremos de cantar mais alto as palavras: “Não há maior tristeza que a tristeza de uma alma a morrer... no Mediterrâneo!”
Enquanto a apatia e o atordoamento éticos permitem que nada se faça, quer nos países de origem quer nos de acolhimento, a silenciosa contabilidade dos mortos no mar mediterrâneo, na tentativa de chegar a um porto seguro e de ter uma melhor vida, já ultrapassou a tragédia mediática das torres gémeas do World Trade Center. Mas não existe uma data icónica - nine/eleven - para unir todas as nações em torno de uma causa.
Miguel Torga dizia: "seres humanos com fome na raiz"; para se referir ao flagelo das crianças subnutridas. Teremos de ir mais além e falar de seres humanos com sede de "ser"! Teremos de aplaudir ou, pelo contrário, indignarmo-nos quando uma prestigiada cantora adota crianças no Mali? Esta lotaria que permite a realização humana intermitentemente parece tudo menos justa!
Caros governantes europeus, a humanidade não é nacional! A riqueza das Nações encontra-se na diversidade - essa força motriz do desenvolvimento. A Europa deveria enveredar por uma ideia global de downshifting. Menos é mais! Se cada europeu cedesse um pedaço de si para albergar, em boa verdade, outro pedaço de si que ainda não conhece - e não estou a falar de terreno ou de dinheiro, mas sim de boa vontade e hospitalidade moral - a unificação europeia poderia tornar-se uma realidade.
Se o amor pela coisa, vulgo consumismo, desse lugar ao amor pelo próximo operar-se-ia uma nova revolução que faria da Europa pioneira em matéria de ideologia. Ainda que a resistência da Europa ao mediatismo cultural esvaziado de conteúdo não seja tão forte como noutros tempos, assistimos aqui e ali a momentos únicos, como o caso do grupo Between music e o seu projeto
musical Aquasonic em que todos os sons são produzidos debaixo de água... para mim o melhor Requiem para os que não tiveram qualquer hipótese contra o Mediterrâneo.


3º Prémio 

(Apoio: Junta de Freguesia de Redondo)

Carlos Manuel Meneses Moreira, Maia


Hernâni Cidade: lugar-tenente da humanidade em tempos de crise


A 9 de abril de 1918, na célebre Batalha de La Lys, Hernâni Cidade era feito prisioneiro pelas forças alemãs. Durante os nove meses de cativeiro, ao invés da letargia comum de quem se via privado da mais elementar liberdade e dignidade humanas, ouvia-se Hernâni Cidade, aos domingos, a proferir conferências sobre literatura portuguesa, enquanto se adentrava pela língua e cultura alemã. No
mínimo desconcertante, o modo como o então alferes Hernâni Cidade entrevia um significado outro da guerra, como o que o levara cerca de um ano antes a salvar um soldado alemão ferido no campo de batalha! Poucos, porque insignes pensadores da condição humana para além da sua contemporaneidade, foram capazes de exceder o seu tempo e qualificar a sua experiência, intuindo um outro sentido para a sua e para a humanidade inteira. No decurso daquele período, em que Hernâni sentia em si germinar a vocação de professor, no sentido homónimo de mister e de mestre, era proferida na cidade de Lisboa, na noite de 4 de julho, a conferência de Leonardo Coimbra sobre o Significado Espiritual da Guerra Europeia. Como poucos, também Leonardo Coimbra via na guerra a consequência de uma sobreposição dos valores naturais sobre o adormecimento dos valores espirituais, a ponto de aventar, de modo também desconcertante, que a guerra podia mesmo revestir uma “grandiosa experiência moral”, antevendo que até a beligerância podia ceder lugar a atos de profunda humanidade, capaz de redimir e resgatar um outro sentido: o da fraternidade reencontrada no amor ao próximo, tal como preconizado por Hernâni Cidade. A vocação a que todas as criaturas humanas são chamadas, de dignificarem a própria humanidade a despeito de todos os atos desumanizadores, foi bem patente na estatura moral e espiritual de Hernâni Cidade que, como poucos, soube emancipar-se do regionalismo individualista rumo à universalidade da condição humana. Com
propriedade, poder-se-ão prenunciar nestas atitudes de Hernâni Cidade a germinação de uma certa utopia que, naquele tempo, apesar de desconhecer o reiterado adormecimento de valores espirituais que vieram a espoletar a Segunda Guerra Mundial, vislumbraria a construção de uma Europa unida, alicerçada numa comunidade de cidadãos: ou não fosse “Camões, Poeta Europeu”, o título da sua primeira conferência proferida em cativeiro. Com Hernâni Cidade, é a cultura humana, a arte, a literatura, que humanizam a pessoa e a distanciam da animalidade, despertado a consciência coletiva da sua vocação, sobre o adormecimento dos valores espirituais, isto é, daqueles valores que
genuinamente a humanizam como tal. Assim plasmado o seu pensamento, não admira que, a convite de Leonardo Coimbra, tenha Hernâni Cidade prosseguido a sua vocação como docente em 1919 na então criada Faculdade de Letras do Porto, cidade onde, neste período da sua biobibliografia, veio a casar-se e a lecionar no Liceu Rodrigues de Freitas, figurando no rol dos poucos, mas insignes, professores portugueses do seu tempo que permaneceram para além dele, como lugar-tenentes de profunda humanidade em tempos de crise.
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Menção Honrosa 

(Apoio: Município de Redondo)

Resolveu o júri desta edição de 2018 do Prémio Doutor Hernâni Cidade, atribuir uma Menção Honrosa a um texto que, pelas suas características, não se enquadra manifestamente na modalidade em apreço: a Crónica.

O texto intitulado “Crónica sobre minha curiosidade”, orienta o nosso olhar para o ato de recolher tampas para as doar. Que haverá nisto de relevante? Primeiro que tudo, ser a manifestação confessada de um ato de “curiosidade ou interesse em saber, conhecer, sentir (…)”, e cumulativamente, traduzir o “prazer em ajudar quem necessita (…)”. A curiosidade e o prazer em ajudar! Se na curiosidade vive uma das fontes do amor, no prazer em ajudar quem necessita, reside uma das manifestações desse amor, associando-se no caso deste texto, o despertar da consciência coletiva para um problema que sendo ambiental é também, cultural e civilizacional.

Mais notório se nos tornou este escrito, pela idade do seu autor, homem de 85 anos que nos revela – e por isso mereceu o nosso destaque – duas vias de sabedoria:

- Manter viva a curiosidade para ter uma vida longa.

- Ajudar o próximo com prazer – e acrescentaríamos, sem esperar retribuição e visibilidade.

Eis a heroicidade diária que se nos pede para a Paz.
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Crónica sobre minha curiosidade


Júlio da Silva Máximo Viegas, Queijas

Curiosidade ou interesse em saber, conhecer, sentir, meu apanágio que já me tem proporcionado situações felizes e dramáticas. Uma das curiosidades que me deu bons momentos, começou pelo facto de eu ver pessoas a apanharem garrafas de plástico nos passeios e até nos contentores do lixo e de seguida, desenroscarem a tampa de plástico azul, metê-la no bolso, e deixarem a garrafa no local onde a apanharam. Resolvi perguntar a uma senhora, o motivo do que tinha acabado de fazer e ela, gentilmente, disse-me que tirava as tampas, para as dar na escola primária que ficava perto da sua residência, pois a escola todos os fins de mês, enviava a sua carrinha com as tampas que várias pessoas lá entregavam, e normalmente rondava entre os 20 a 30 quilos. As tampas são entregues numa organização que se encarrega de gratuitamente oferecer Cadeiras de Rodas, a quem tem necessidade delas e não tem poder financeiro para as comprar. A quantidade de tampas para uma cadeira corresponde a 1.000 Quilos de tampas. Após ter este conhecimento, eis-me nas minhas diárias passeatas, a apanhar tampas e o meu recorde num dia, está em sessenta tampas.
A minha curiosidade, e o meu prazer em ajudar quem necessita, levou-me a querer saber quantas tampas são necessárias para perfazer os 1.000 Quilos e fui pondo tampas na balança até chegar às 100 gramas e deu precisamente 70 tampas; como tal, 1 Quilo dará 700 tampas, sendo Mil Quilos, será 700.000 tampas.
Cá ando com muito gosto a apanhar as que vejo que também me proporciona bela ginástica, ou seja a de me baixar para as apanhar, mas também já me lembrei que os lisboetas são inimigos do asseio nas ruas, pois garrafas de plástico, de vidro, beatas, papéis, sacos de plástico, não são nada cuidadosos! Pelas visitas que faço a várias terras do Alentejo, graças à Poesia, ó tampas! Muito poucas eu acharia!
O grau de cuidado dos alentejanos, é soberbo! Bravo! Bravo! 

6 de junho de 2018

Regulamento do Prémio Literário Hernâni Cidade 2018

Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.

Na edição de 2018 a modalidade é: Crónica

Tema:
"O amor do próximo impõe, como primeiro dever, promover a realização da justiça que a todas as criaturas humanas permita realizarem-se em humana dignidade. E lembremos, a tal propósito, que foram a literatura e a arte que, em vagas sucessívas de emoção dinamizadora, tornaram possível no mundo a emancipação do escravo, a regulamentação do trabalho, e despertaram a consciência colectiva a que se deve quanto com eficiência mais ou menos larga e profunda está elevando o operário à participação nos frutos da cultura e da civilização."

Partindo do facto de se assinalar este ano o centenário da Batalha de La Lys onde Hernâni Cidade foi feito prisioneiro e atendendo à heroicidade que manifestou e lhe foi reconhecida até pelos adversários, redija uma crónica. Tenha em atenção as características inerentes a este tipo de texto e a citação apresentada.

Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.

O trabalho não deverá exceder 1 página e será enviado em cinco exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.

O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto.

O trabalho poderá ser entregue:
a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo

b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Literário Hernâni Cidade 2018
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO

c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento

O prazo de receção dos trabalhos termina a 31 de Agosto de 2018, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de cinco elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.

Serão atribuídos

a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.

b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.
c) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.

O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.

10º
Os concorrentes premiados serão avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia pública a realizar no dia 27 de Outubro de 2018, pelas 16 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.

11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.

Organização
Município de Redondo