3 de outubro de 2017

Menção Honrosa 2017

Vagões

Estava apeada no jardim, entretida a observar um comboio em movimento. Era um comboio metafórico, de carruagens humanas, que se dirigiam em linhas de espontânea criação. Cruzavam-se, mas não colidiam. O caos era organizado. Um ensaio, pensei. Mas não. Era uma manhã normal.
Pelo desábito recorrente, ou pela insuficiente compreensão do que no mundo existe, peguei nessa fresca manhã e desconstruía. Quis saber seu maquinismo, sua mecânica, as leis físicas que a governavam. Nenhuma achei. Eram demasiado transmutáveis para as definir. Tudo isto é assim, e poderia ser o seu contrário também. Quis-me recostar no paradoxo. A constatação, porém, era aflitiva. Aquela aparente ordem mecânica tinha por base um contracto moral – valores que dirigiam os comportamentos em amplos carris sociais. Naquela sociedade, a prevenção da colisão era a norma reinante, numa outra, o choque talvez imperasse. No fim, sobrou-me essa peça indesmontável. Deduzi que fosse aquilo a que se chama moralidade.
Parecia uma base de construção absurda, não por carência de lógica, mas pela amplitude de resultados que podia assumir. No fundo, os comportamentos fluem numa certa direcção, mas poderiam fluir noutra. A prova está nas sociedades de distantes estações, cujos comboios podem não ser vistos, mas cujos ecos ressoam até nós. Talvez seja isso, pensei de mim para mim, pois que àquela hora nenhum outro vagão dispunha. Talvez a moralidade esteja viva e seja orgânica e, tal qual célula, se diferencie. Se assim for, nada se perder, à semelhança do mundo físico, quedando-se em perpétua transformação. Talvez se inicie por egoísmo, numa protecção instintiva do eu que com o outro se abstém de colidir, e se alargue, em benevolência, para valores que transcendem a individualidade e encontram fim em si mesmo, no acto de retidão, ainda que sem beneficio próprio. Talvez seja essa transformação a utópica: a felicidade achada no pleno bem-estar do outro.
Houve um comboio que colidiu. Os vagões tombaram num estrépito gutural. Ganhei certeza. A moralidade não se perde, claro que não, mas pode ser difícil de a encontrar.

Márcia Filipa Freire Dias da Costa


3º Prémio 2017

Refugiado de mim
Foi pelo écran do televisor que a noção de refugiado conquistou um lugar na vida das pessoas. Era um drama que visualizavam todos os dias nos telejornais. Corpos a boiarem nas águas do Mediterrâneo. Destroços de barcos resultantes de naufrágios onde perdeu a vida um número desconhecido de pessoas que fugiam da guerra, da miséria, da injustiça.
Imagens duras. Mas tão duras aos meus olhos, aos olhos dos ocidentais, quanto a equipa de futebol preferida ter perdido o campeonato. Pois, o vidro do écran cria uma distância perversa em relação à dura realidade da vida.
Por que é que isto acontece? Sou insensível à perda de vidas humanas? Como é possível comparar as emoções que me dominam aquando da derrota da minha equipa de futebol com as emoções correspondentes à imagem de Aylan Kurdi, a criança curda de três anos morta nas mãos de um guarda turco numa praia mediterrânica?
Desculpar-me da minha insensibilidade? É a distância que justifica a minha passividade ou é a crença na minha impotência de mobilizar os meios necessários para colmatar as injustiças que se veem. Ou é o sentir-me virtualmente protegido como espetador neste lado do écran. Ou o alhear-me de mim mesmo cedendo as responsabilidades aos políticos e às autoridades.
As desculpas serão tantas quanto a capacidade criativa da minha imaginação. No entanto, seja a que distância estiver o mundo, os remorsos que sinto relembrar-me-ão que ainda sou humano, que cai sobre mim, sobre cada um de nós, uma certa dose de responsabilidade. A empatia pelos que sofrem da injustiça e miséria ainda escorre como a lágrima que escorre pela minha face perante o écran do televisor. Os valores universais ainda estão no mais profundo de cada ser humano. Na mais falsa redoma caberá sempre uma gota de moral. Mas esta não justifica o sentimento de apaziguamento connosco mesmo. Não justifica a nossa inação. A nossa redoma é frágil, demasiado frágil. Mais fina que o vidro de um écran.
Desde a atitude egotista e solidariamente soberba de um elemento da civilização ocidental rica, quero acreditar que a perda de vidas humanas no Mediterrâneo não é uma perda. É, desvirtualmente, a implantação nos recessos da nossa suposta indiferença de uma semente dos mais universais valores que nos guiam na vida, e que brotará e crescerá na frondosa árvore da condição humana. Um sinal de que a moral sempre resistirá… até ao último ser humano. 


Rui Manuel Rosado Quintas    

2º Prémio 2017

Cronilógica de um mundo ao contrário
“Tal como no mundo físico, no mundo moral nada se perde”
Hernâni Cidade
O mundo avançou.
E debaixo de um céu de azul profundo, substituíram-se as grutas pelos apartamentos. As mãos abandonaram os gestos desconcertados, forjados com a rudeza do pó, e armaram-se de garfo e faca na senda de uma aventura dos novos tempos. Os incisivos, ávidos de vida, abdicaram de rasgar a carne mal assada, quase crua, para se rejubilarem no deleite de um prato meio cheio a casar com um status social meio vazio. Os pés descalços, castigados pela terra, passaram a deslizar em duas rodas, deixando num passado imperfeito o valor das coisas simples para passar a correr atrás dos segundos perdidos sem tempo. Os pueris sons que ecoavam nos primórdios dos tempos encetaram os primeiros passos, cresceram, maturaram, tornaram-se adultos.
E a Língua nasceu. E vieram os exércitos da sintaxe, e da semântica, munidos dos ismos e dos ónimos. E nasceram as ideias.
O céu, o tal de azul profundo, ganhou riscos de branco como um quadro em que se esboçam os primeiros traços. A terra desordenada e livre, encarcerou-se entre linhas de negro e paredes de pedra.
E o Homem mudou.
E com ele, o ontem transformou-se no hoje. Já não se “atira o pau ao gato”. Leva-se o gato a passear, porque os animais, há que protegê-los, que também tem direitos. O “lobo”, já não é mau nem come a avozinha. Agora a avozinha tem um lobo de estimação, porque os lobos, há que os preservar, que já há poucos. A tartaruga já não é mais esperta que a lebre nem chega primeiro a lado nenhum. Chegam juntas. Porque todos somos iguais, e a igualdade, há que lutar por ela. E o lobo também já não destrói a casa dos três porquinhos (sim, o lobo, outra vez) ajuda-os a construi-la e depois vão todos jantar fora. Porque devemos ser todos amigos, e o bullying, há que combatê-lo, que é coisa feia.
Porque as ideias e os valores, esses, não desaparecem, adaptam-se, transformam-se. E ainda que o mundo dê meia dúzia de voltas, envolto na poeira dos tempos, nada do que fomos, deixamos de ser. Mesmo sem pau para atirar ao gato, nem lobo para ser mau, as histórias continuam a transmitir mensagens que ficam. E o céu azul? Esse, ainda que de muitas outras cores, continua profundo, porque nada se perde, tudo se transforma.

Carla Patrícia Pires Martins

1º Prémio 2017

“A mulher na esquina do Parque” 

A mulher está sempre lá – no mesmo cruzamento junto ao Parque Eduardo VII – e por sempre quero dizer todos os dias, descontando fins-de-semana, feriados e férias, em que nada na vida me fica naquele caminho. Quando passo por ali – geralmente por volta das nove – ela já lá está. É uma fraca figura e não o digo para ofender: é baixa e magra e tem as pernas arqueadas e um ligeiro coxear que compensa fazendo bengala de um guarda-chuva que traz pendurado no braço. Veste-se de modo muito prático, de calças largas e camisolas que tapam o peito e a garganta. Tem a pele curtida, num castanho brilhante, batido como solas de sapato e cabelo pelo pescoço muito amarelo. A boca está metida para dentro e sem pensar muito nisso, vislumbro a utilidade profissional desta característica. Pergunto-me que horário laboral fará. O meu é medido em horas mas a ela vejo-a sempre às 9h embora nem sempre às 18h. Talvez o horário dela se faça pelo peso da carteira no bolso e não pelo peso das horas no corpo.
Vejo-lhe as colegas de profissão que povoam os bancos do jardim à hora de almoço. São mulheraças voluptuosas de corpo à mostra, cabelos compridos e unhas pintadas. Pelos vistos, há um pico de procura à hora do almoço. Os senhores dos escritórios que escolhem precisamente esta hora, para não interferir com o trabalho nem atrasar o regresso a casa. Estas mulheres, cheias de atributos visíveis, entram ao serviço mais tarde que ela, por volta do meio-dia. A figura dela não tem como competir com minissaias, decotes e saltos altos e talvez por isso, faça chuva ou faça sol, lá está ela, na mesma esquina do parque, desde antes das 9 até sabe-se lá quando.
Não me chocam as prostitutas. Não as julgo por isso. Fui criada por uma mãe religiosa que me ensinou a moral e a justiça e por um pai agnóstico e liberal que me ensinou a liberdade. Deu nisto, nesta indiferença por aquilo que o outro faz, desde que não envolva fazer mal a terceiros.

Não é por ela ser prostituta que reparo nela todos os dias, mas por facilmente lhe dar 65 anos. Bem sei que a vida vai deixando marcas – na alma e na cara – mas esta mulher, na minha moral, devia estar de pantufas a tomar o pequeno-almoço em casa, não aqui. Parece-me amoral a sua condição, não de prostituta, mas de sexagenária que ainda tem de prostituir-se. A minha moralidade comove-se mais com quem não atinge descanso, do que com quem faz a vida a vender o corpo. As mulheres sempre usaram as armas que tinham ao seu dispor. O corpo é só mais um elemento do arsenal. Esta mulher, com esta vida toda na cara e ainda a passar o dia em esquinas incomoda-me. Quer dizer que a guerra ainda não terminou para ela. Quer dizer que em alguma altura, as batalhas perdidas foram mais do que a conta e isso faz com que ela ainda esteja aqui, a lutar. Ela é como nós (não é isso a empatia?) e a minha moral contorce-se todos os dias por ela ainda estar à venda.

Ana Isabel Guedelha da Silva Neves

6 de abril de 2017

Regulamento do Prémio Literário Hernâni Cidade 2017


Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.


Na edição de 2017 a modalidade é:
Crónica. 


Tema:
"Tal como no mundo físico, no mundo moral nada se perde."

Hernâni Cidade, A Literatura e a sua função social, Porto, 1937.

Partindo da citação, redija uma crónica, tendo em atenção as características inerentes a este tipo de texto.


Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.



O trabalho não deverá exceder 1 página e será enviado em cinco exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.


O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto.


O trabalho poderá ser entregue:

a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo

b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Literário Hernâni Cidade 2017
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO

c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento


O prazo de receção dos trabalhos termina a 31 de Julho de 2017, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de cinco elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.


Serão atribuídos

a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.

b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.

c) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.


Entrega dos prémios a 14 de outubro pelas 16h00


O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.

10º
Os concorrente premiados serão antecipadamente avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia a realizar no dia 14 de Outubro de 2017, pelas 16 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.

11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.

Organização
Município de Redondo

19 de outubro de 2016

Trabalhos Premiados 2016

1º Prémio

"ENQUANTO"
João Baptista Coelho
(Tires, São Domingos de Rana)


ENQUANTO

Enquanto quis Fortuna que tivesse
a mística imortal do verbo amar
e a força dos silêncios duma prece
rezada numa noite de luar;

Enquanto em minha alma, em vida, exista
Esperança de algum contentamento,
que seja bem real, sem estar à vista,
a dar-me o pão da paz, e de outro alento;

Enquanto eu me aperceba, no meu "vento",
que tu também me queres, também me ofertas
O gosto de um suave pensamento
e a dádiva da paz, de mãos abertas; ...

Eu gritarei ao mundo, que o amor,
alheio a qualquer mísero interesse
- porque hoje me mostrou outro valor -
Me fez que seus efeitos escrevesse.




2º Prémio

"deu-me a sorte este instante de alegria"
Pedro Manuel Martins Baptista
(Coimbra)


deu-me a sorte este instante de alegria
como se uma breve ave o céu riscasse
e em seu canto o olhar iluminasse
com as cores da mais bela melodia

embora escasso seja abre-se ao dia
este sorriso em mim       se ficasse
como um sol que à janela se deitasse
em ledo verso ao mundo o cantaria

mas quis a sorte só que fosse instante
tal como instante foi dá-lo por 'scrito
enquanto em mim houvesse tal alento

e que cada palavra fosse amante
da esperança que resta neste grito
para que fosse eterno este momento




3º Prémio

"Onde estás, oh Esperança minha?"
Carlos Manuel Meneses Moreira
(Maia)


E nesse fado quase esmorecia
Tão perto de fruir esse momento
De ter comigo tão grande alento
De cantar na noite a luz do dia

Que espera é esta que definha
Na noite escura que me envolve
Se não me contenta tamanha sorte
De não sentir a noite como minha?

Antes que o silêncio sucumbisse
Na aridez dessa noite escura
Tomei como minha essa agrura
De não te conhecer, quando te visse

Onde estás, oh Esperança minha!
Onde te escondes, tão fugidia
Se te desejo mais que a própria vida
Antes que desponte o raiar do dia?

Quis a Sorte que não mais dormisse
Sem que na matutina neblina
A Fortuna trouxesse como minha
A primeira gota de alegria

De te sentir comigo sempre presente
Não deixando que na noite soçobrasse
Ainda que na escuridão eu achasse
Que estivesses, afinal, em mim ausente!

3 de março de 2016

Regulamento do Prémio Literário Hernâni Cidade 2016

“Dir-se-ia que a Fortuna, o Tempo, o Amor, as Estrelas infelices, as misteriosas forças a que o Poeta, às vezes, atribui os rumos da sua vida, não lha talharam como se lhe desdobrou, senão para que, melhor do que a de ninguém, ela pudesse ser o resumo da vida da coletividade que ele era destinado a representar. 

(…) As próprias fases da existência do Poeta têm uma sucessão dir-se-ia que regulada pelo mesmo impulso que determinou a trajetória histórica do seu povo. 

(…) Através das injustiças dos homens e dos erros e desatinos próprios; através das mesmas injúrias dos elementos, a Fortuna, de que se queixa, foi-lhe convertendo em desilusões e desesperos todos os sonhos de namorado, de soldado e de poeta, apenas lhe poupando o sonho de uma glória, que, ainda assim, estava destinado só floresceria das cinzas mal guardadas…” 

Hernâni Cidade, Luís de Camões, o Lírico, Editorial Presença, 1984, pp 226-227



Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.


Na edição de 2016 a modalidade é: Texto poético. 

A partir do mote construa um poema livre. 

MOTE: 

«Enquanto quis Fortuna que tivesse 

Esperança de algum contentamento, 

O gosto de um suave pensamento 

Me fez que seus efeitos escrevesse.»

                                                                    Luís de Camões



Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.


O trabalho não deverá exceder 1 página e será enviado em cinco exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.


O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto.


O trabalho poderá ser entregue:

a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo

b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Literário Hernâni Cidade 2016
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO

c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento


O prazo de receção dos trabalhos termina a 15 de Julho de 2016, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de cinco elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.


Serão atribuídos

a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.

b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.

c) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.


O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.

10º
Os concorrente premiados serão antecipadamente avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia a realizar no dia 22 de Outubro de 2016, pelas 16 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.

11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.

Organização
Município de Redondo

19 de outubro de 2015

Trabalhos Premiados - 2015

1º Prémio
"A síndrome do senhor Miguel"
João Manuel da Silva Rogaciano
(Alverca)
Apoio: Município de Redondo

O senhor Miguel andava apático. Asténico. Distante de tudo e de todos. Ele, um indivíduo altamente letrado, um amante de livros, que mastigava e saboreava cada floreado frásico, cada palavra, cada letra, cada vírgula ou ponto final, deixara simplesmente de ler. Não conseguia abrir um livro que fosse. Nem sequer um opúsculo; nem a lista das compras semanais. Reformado, passava, agora, os dias a ver noticiários e novelas, que se sucediam em catadupa, na sua televisão e o sufocavam cada vez mais.
            Numa manhã em que a sua mente estava um pouco mais arguta, o senhor Miguel decidiu sair da sua letargia habitual e procurar ajuda médica, para tentar saber que tipo de doença teria contraído. Aprontou-se e saiu de casa, rumo ao centro de saúde local, para marcar uma consulta. Nada feito: consultas de clínica geral, só dali a cinco meses. Aborrecido com aquela contrariedade, resolveu aproveitar o soalheiro dia e passear um pouco. Passou junto à biblioteca municipal. E ficou parado à porta, sem sequer sentir um residual desejo de ali entrar, como no passado acontecia.
- Estou mesmo doente! – pensou, entristecido, enquanto voltava os olhos para o chão, em desespero.
Foi então que o seu olhar foi atraído por um colorido papel, caído a seus pés, que trazia uma estranha mensagem: “Tem astenia literária?”. Baixou-se e pegou nele. Continuou a leitura: “A apatia tomou conta de si? Tem dificuldade em se expressar? Deixou de ler? Oferecemos-lhe uma consulta médica gratuita, só hoje! Venha conhecer o poder da palavra!”
Inicialmente, o senhor Miguel pensou tratar-se de propaganda religiosa, ou de algum esquema em pirâmide. Todavia, a curiosidade venceu a desconfiança. Arrastou-se até à morada indicada no folheto. Estranhamente, ficava mesmo nas traseiras da biblioteca municipal. Mais inesperadamente, ainda, apesar de as consultas serem gratuitas, não havia nenhuma fila para a consulta. Só uma simpática rececionista, que o acolheu com um sorriso primaveril.
- O doutor Rui está à sua espera, senhor Miguel – disse a rececionista, conduzindo o atónito paciente até à sala, onde o esperava um indivíduo de bata branca e estetoscópio.
O médico convidou o doente a sentar-se, enquanto o cumprimentava:
- Seja bem-vindo, senhor Miguel! Por favor, conte-me de que se queixa.
Surpreendido com toda aquela afabilidade, o senhor Miguel contou-lhe todos os sintomas de que padecia:
- Sr. doutor, sinto-me apático. Deixei de fazer aquilo que gostava: de ler, de escrever, de conviver com os amigos. Não sei o que tenho… Penso que terei de fazer um check-up geral…
- Hummm, deite-se ali na marquesa, para o poder examinar. – o médico começou por examinar os olhos, a boca, os ouvidos, e depois palpou o abdómen e as costas – senhor Miguel, pode levantar-se e sentar-se de novo na cadeira.
Dirigiu-se ao computador e teclou algumas frases, enquanto o doente se compunha e sentava.
- Senhor Miguel, tenho de lhe comunicar que é possuidor de uma doença rara, e fulminante, em estados avançados! Você ainda se encontra num estado inicial, sendo completamente tratável! O senhor tem o chamado “síndrome da palavra sufocada”. Passo a explicar: o senhor sente vontade de criar e declamar um poema, mas resolve ignorar esse seu desejo, pois pensa que ninguém o quererá escutar. Anseia escrever um conto, mas desiste, pois ouvirá muita critica negativa e mal direcionada. Ora bem, no seu cérebro, no seu coração, nos seus rins, vão-se acumulando estas palavras, que foram sufocadas à nascença. Abortadas, estas palavras apodrecem no seu íntimo, infectando e corroendo o seu “eu interior” como gangrena, como um cancro. Roubam-lhe os sonhos e incendeiam-lhe pesadelos. Minam a sua confiança e destroem a sua saúde. Esse é o poder negativo das palavras, quando sufocadas por muito tempo, no íntimo de cada ser humano.
- Curiosa explicação, caro doutor! – replicou Miguel, procurando abarcar toda a informação que o médico facultava. - E qual a forma de recuperar deste síndrome? Qual o tratamento?
- O tratamento, que lhe aconselho, é muito simples e utiliza o poder positivo e libertador da palavra: no primeiro dia, abra um livro de poesia e leia somente o primeiro verso. Retenha as palavras dentro de si e medite nelas, enquanto inspira e expira. Depois, diga o verso, em voz alta, deixando sair as palavras, saboreando-as com comoção, sentindo-as com o coração. No segundo dia, leia do primeiro até ao terceiro verso. Inspire e expire, e diga os três versos, em voz alta, sem pressas e saboreando cada palavra. Vá aumentando a dose, gradualmente. Na semana seguinte, comece por ler um livro de prosa. Quando não estiver a ler, passeie com os seus amigos ou com a sua família, e fale sobre aquilo que tem aprendido através dos livros, trocando experiências. Trocando palavras. Na terceira semana, continue com a leitura, e comece por escrever um verso, a seu contento. Vá aumentando, até que escreva uma estrofe, um poema, um rio de palavras vivas, transbordantes de poder. Na quarta semana, em paralelo com as leituras e os poemas, experimente elaborar um curto texto narrativo. Escreva, por exemplo, sobre a sua doença, sobre as suas melhoras e sobre o poder da palavra.
- Só isso, doutor? – estranhou o senhor Miguel.
- Acha pouco? – o médico sorriu – Siga os meus conselhos. Se não sufocar as palavras, vai ver que recupera por completo. Depois, meu caro, não pare, pois o poder da palavra é seu. Use-o livre, mas conscientemente.

O senhor Miguel agradeceu o diagnóstico, sentindo-se mais animado. Despediu-se do médico e da rececionista. Saiu para a rua e andou uma dezena de metros. Lembrou-se que lhe faltava o contacto telefónico (que não constava do prospeto), para quando necessitasse de nova consulta e voltou atrás. Estranhamente, o consultório já não estava lá. Ninguém, a quem perguntou, conhecia aquele local, nem aquele médico. Mas, o certo é que seguiu a prescrição dada e ficou curado do seu mal, o tal “síndrome da palavra sufocada”.


2º Prémio
"Palavras que germinam no silêncio"
Jorge Alexandre da Costa Rodrigues
(Parada de Cunhos, Vila Real)
Apoio: Novo Banco, S. A.

De um lado da batalha erguiam-se altaneiras as palavras, alinhadas, cada uma com a sua posição estrategicamente bem definida. Marte parecia estar com elas bem como todos os deuses, heróis, santos e semideuses que fazem da arte bélica a entretela dos seus corações. E ainda, mais que todas as divindades do Olimpo, erguia-se imponente o sol. Esse fazia projectar a sombra das palavras no campo de batalha com tal intensidade que só a sua presença se tornava intimidatória. E com a sombra vinha o eco… era como se de um discurso verrinoso se tratasse, mas um discurso fluente, bem articulado, sem erros ortográficos, com uma caligrafia exemplar, a sintaxe bem arquitectada… enfim, tudo preparado para se incendiar num púlpito ou numa qualquer tribuna. Os verbos eram os arcos e os sujeitos as flechas, os nomes próprios espadas e os comuns as adagas. Os adjectivos escudos e os advérbios couraças, as interjeições baluartes e as preposições sentinelas. Os pronomes eram os pórticos e as conjunções as ameias, os prefixos os aríetes e os sufixos as catapultas. As linhas estribos e esporas e a acentuação era o elmo. Do lado inimigo, à frente de uma coluna de nuvens, caminhava implacável o silêncio. Nem o brilho do sol, vindo do campo adversário, lhe ofuscava a vista nem a sombra das palavras agigantada na encosta da colina o intimidava. Marchava como uma quadrilha de salteadores numa noite de breu sobre uma cama de gélida neve. E mesmo os passos da marcha marcados na candura do alvo manto desapareciam. Eram como que cobertos pela mesma queda de neve que transformava num silêncio de morte o próprio bafo da respiração dos soldados. Era silêncio, breu, treva, noite, escuridão, morte, esquecimento… tudo em marcha contra as palavras bem alinhadas: som, luz, claridade, dia, vida, lembrança… Mas, claro, as palavras não podiam ficar eternamente à espera da investida do silêncio no topo da colina. É então que se ouve um grito de guerra. Ecoou sobre o adamado vale sobranceiro, onde se adivinhava vir a ser o campo de batalha e espalhou-se por toda a terra, sendo travado apenas pela orla de bruma que ladeava a colina já dominada pelo silêncio. Entretanto as duas forças inimigas desciam fugazes as opostas colinas. Rumavam àquele vale imenso, àquela planície de Megiddo, àquele campo de tantas batalhas preparado para a derradeira, a do Armagedom, aquela que agora se perfila, aquela em que as palavras e o silêncio se degladiam, aquela em que luz e trevas se confrontam, 2 aquela na qual noite e dia põem fim ao seu ciclo de fuga eterna e se apresentam frente-a-frente. Mas… o medo, a insegurança, o desconforto, o nervosismo… tudo parece apossar-se das palavras desarticulando aquela formação beligerante. Constroem-se frases com uma sintaxe descoordenada, criam-se orações sem verbo, ouve-se a revolta de sujeitos subentendidos, apostos julgam-se complementos diretos… é a desordem no meio do caos. Por outro lado, o silêncio, deixa quebrar aquela barreira impenetrável, enche-se de ruídos, barulhos fortes, sons estridentes… Poeira! Nuvens de poeira erguem-se sobre aquele holocausto onde dois exércitos se fundem em fundada barafunda. Tudo é reduzido a pó e cinza naquele campo de batalha. O discurso já desarticulado e dissecado deixa de encontrar espaço e canal, para a sua mensagem distorcida, naquele silêncio que se finava. O silêncio perde a capacidade de deixar ecoar as palavras no seu seio e o espaço para que um discurso possa fluir sem interferências. Entretanto, no derradeiro minuto, dos destroços ergue-se uma conjunção: “Mas… que o isto a ser vem?” e logo o verbo no infinitivo a retorquir: “eu venho no fim da frase.” Mas, Isto, o pronome demonstrativo acrescenta: “como complemento direto esse lugar deve ser meu.” Em pouco tempo todos proferiam a mesma frase: “mas o que vem a ser isto?” Estava dado o primeiro passo para a busca da ordem no meio do caos. Sentaram-se todos nas pequenas elevações de terra e nos escolhos dispersos pelo antigo campo de batalha e assim se foram agrupando. As palavras juntas iam formando orações e com elas criando frases mais complexas. Nos intervalos dava-se voz ao silêncio para que todos pudessem mastigar docemente cada opinião. Começava assim o conluio que haveria de demorar três dias e três noites, até que ao romper da terceira aurora fosse promulgado o seguinte édito a divulgar por toda a terra: Assim como as noites se sucedem aos dias e como as trevas sucedem à luz, num ciclo infindável e ininterrupto, também as palavras e o silêncio têm que se articular deixando, cada um, espaço para que o outro possa agir. Sempre que alguém falar façao como uma sementeira de flores no campo fecundo do silêncio. Sempre que se fizer silêncio seja para deixar germinar o imenso Poder da Palavra.


3º Prémio
"O caçador de palavras"
Paula Cristina Direito Rabaça
(Manteigas)
Apoio: Junta de Freguesia de Redondo

Era um jovem caçador de palavras. Nas horas vagas, saía de bloco discreto no bolso e caneta escondida na lapela, para caçar palavras nos centros comerciais, em bancos de jardim, em jogos de futebol e conferências, no metro e no eléctrico, na rua, até no cemitério. Não o seduziam as palavras dos dicionários e das enciclopédias. Não tinham movimento nem vida e por isso não lhe davam a ilusão de conquista!
Quando chegava a casa, com duas ou três (nunca mais de cinco, na melhor das caçadas), iniciava o ritual de dissecação: observava a palavra a partir de todos os ângulos, explorava o seu étimo, juntava-lhe sinónimos e antónimos, denotações e conotações, num exercício de semântica que faria inveja a qualquer estudioso de linguística. Passava horas com cada "presa" até que, já extenuado, se dava por satisfeito. Abria, então, o velho álbum e, num misto de ternura e reverência, inscrevia a palavra eleita.
O álbum crescia a ritmo lento e nele se catalogavam espécies várias, como se de um herbário de vocábulos se tratasse: palavras-transparência, palavras-engano, palavras-música, palavras-sonho...
Na categoria das "palavras transparência", por exemplo, colocava as que se revelam à primeira apresentação e sem subterfúgios, as que nada escondem do que sentem... "Só" parecia-lhe uma dessas palavras: transparentemente solitária, com a brevidade e a secura dos que não têm ninguém a seu lado.
"Palavras-sonho" também abundavam no álbum. "Enamorar-se" era uma delas, um verbo vagamente doce, de contornos magnéticos, mas ainda indefinidos como uma ilusão.
Aprisionando palavras como se delas passasse a ser dono e senhor, o jovem caçador alimentava a bizarra convicção de ser tanto mais poderoso, quanto mais as acumulasse...

Quando naquele final de Outono, à porta da Universidade, se cruzou com ela, viu-se arrastado para a sua derradeira caçada.
Tudo nela era uma explosão de vida: os longos e coloridos vestidos, os caracóis volumosos e soltos, os gestos largos e expressivos. Ria alto, gesticulava com graça e caminhava como bailarina em palco iluminado. Os olhos, de um azul quase impossível de sustentar, dançavam como ela, a cada passo, em cada encontro, em todas as direcções. Nunca mais o jovem caçador voltou a caçar nos espaços usuais ... Estreou um álbum novo, em cuja capa escreveu o nome dela. Renata. Uma "palavra-esperança", que lhe inspirava desejos de renascer e promessas de futuro...
À volta de Renata, o jovem caçador via esvoaçarem, como borboletas selvagens, todas as palavras que nunca ousara catalogar e que agora inscrevia, ávido de conquista, no novo álbum: fôlego, sensualidade, corpo, paixão, eternidade... E o coração ficou-lhe suspenso, em permanente caçada, porque todas as palavras lhe falavam dela, mas nenhuma era, ainda, suficientemente poderosa para dizer daquele sentimento que crescia louco e incomensurável dentro do seu peito... Haveria de encontrar A Palavra para aquilo que sentia. Haveria de ser uma "palavra-carne", pensava! Das que não têm existência autónoma como vocabulário e que só se fazem verdade, no corpo, nos ossos e na vida de alguém... Uma palavra "em carne viva" que inscreveria no álbum e lhe ofereceria depois, para a impressionar e irremediavelmente prender.

Assim andou, nesta busca, dias após dias... O Outono cedeu permissão ao Inverno e, depois deste, a Primavera fez-se anunciar no verde fresco dos jardins da cidade.
E como "um dia é da caça outro do caçador"... acordou uma manhã capturado pela palavra Amor. A Palavra.
Sem hesitações, agarrou decidido no álbum e correu à universidade. Procurou-a nos corredores, nas salas, por todos os recantos. Deambulou pelas ruas mais próximas, com A Palavra a arder-lhe no peito, a querer saltar cá para fora, e o álbum debaixo do braço, quase a desfolhar-se... Em vão a procurou.
Ao cair da tarde, cansado, entregou o corpo desalentado a um banco de jardim e... avistou-a ao longe. Sem mais, correu até ela, desajeitado. Tinha pressa de lhe oferecer o álbum, de encerrar a caçada, de festejar o poder d'A Palavra e inaugurar, com ela, o Amor. Mas quando se aproximou, viu-a de mãos pousadas noutras mãos e olhos presos noutros olhos... envoltos num silêncio tão íntimo que palavra alguma seria capaz de interromper...

Conta-se que o jovem caçador se retirou, sem mais. E que dos seus álbuns saíram esvoaçando, livres como borboletas, todas as palavras que até então aprisionara.
Todas, excepto uma. A derradeira, a que Renata não chegara a receber, a única que em vez de verbo, foi carne, que em vez de vocábulo, foi vida...
Era Primavera, tempo de aprender que o amor, tal como as palavras, não se impõe, não se agrilhoa e de nada vale se não for dádiva livre do que somos!

(O presente texto foi escrito sem ter em conta o novo acordo ortográfico)     


Menção Honrosa
"Para ti"
Vera Márcia dos Santos e Silva
(Águas Santas, Maia)

Pergunto-me, muitas vezes, se te recordarás dos teus primeiros anos de vida. Se te lembrarás dos beijos repenicados, dos abraços apertados, de corrermos juntas e felizes de mão dada pela rua. Das gargalhadas em uníssono e da minha sensação de conforto e paz crendo que uma criança sorridente é sempre uma criança feliz. Das perguntas persistentes e das minhas respostas pacientes, vezes sem conta: “São flores, minha amora, são flores”. São árvores e folhas. São automóveis, motas e bicicletas. Casas, muros e pessoas. Sapatos, calças e chapéus. Ah… um mundo inteiro por descobrir! Pergunto-me se te recordarás do sufoco dos meus braços na ânsia de suspender o tempo num instante perfeito ou das minhas lágrimas soltas quando te surpreendo a percorrer, lenta e sossegadamente, o meu rosto com olhos perscrutadores. Se sentiste na minha voz a emoção pelo primeiro passo, o orgulho pela primeira palavra proferida, a ternura pelos raros beijos recebidos. Todos os dias algo novo, fascinante, único e indescritível. Pergunto-me se o tempo tornará banais os teus passos, as tuas palavras, os teus beijos ou a ausência deles. Pergunto-me se te recordarás da minha falta de discernimento quando não interrompo o trabalho para te acudir quando chamas por mim. Se compreenderás as minhas ausências, os meus ciúmes loucos quando preferes outro colo ao meu, os meus amuos quando te peço beijos e não dás. Se te recordarás das vezes que invades o escritório da nossa casa e vens pedir a minha mão para brincar ou pousar livros em cima da secretária para os desfolharmos juntas, esticando os braços pedindo-me colo. Se te recordarás do meu riso mal disfarçado quando tropeças, cais e te levantas num ápice, quando pergunto se estás magoada e logo respondes, sem qualquer hesitação, a esfregar uma perna ou um braço: “Não!”. Lembras-te quando tinhas pavor do mar? Corrias desesperada pela duna acima em direcção ao porto seguro da toalha e do guarda-sol. Eu corria atrás de ti cheia de vergonha por não te conseguir alcançar, mas gravei na memória o dia em que esse medo se evaporou. Desconfiada, olhavas o mar ao longe e os meninos mais velhos a chapinharem na linha da rebentação. Pelo canto do olho vi crescer em ti uma determinação e uma vontade até então desconhecidas. Puxaste pela minha mão e obrigaste-me a percorrer o areal todo numa perfeita linha reta, sem distrações ou desvios pelo caminho. Só paraste quando sentiste os joelhos submersos e, durante alguns segundos, ficaste imóvel a sentir a suave carícia da ondulação da água nas pernas. 2/2 Costumo dizer que quero ser como tu. Mas, lá no fundo, sei bem: nunca serei igual a ti. Forte e determinada. Louca e destemida. Rápida a encarar os medos de frente, a correr em direcção às ondas, mesmo com passos incertos e pernas bamboleantes, tropeçar e cair nos buracos, levantar, sacudir a terra das mãos, limpar as feridas e dizer, com um sorriso rasgado: “Não dói nada”. Por momentos desejo secretamente que o tempo passe mais depressa só para ver como serás daqui a cinco, dez, quinze anos. Se ainda vais chamar por mim, sorrir-me, abraçar-me e puxar-me pela mão para brincar ou ler livros. Se ainda procurarás no meu rosto as respostas para as tuas dúvidas. Se ainda me perguntarás com avidez incontida “O que é isto?” até à exaustão das palavras ou se os teus horizontes já serão maiores do que os meus. Um dia conhecerás a minha luta contra o tempo pelos anos perdidos à tua procura e o quanto insisti, insistimos, para ter o privilégio de te conhecer e a obrigação de te fazer feliz. Não saberás, contudo, quantas vezes foste o sol radioso nos dias cinzentos, quantas vezes os teus sorrisos afastaram preocupações e acalmaram ansiedades, quantas vezes meia dúzia de palavras indecifráveis significaram muito mais do que mil discursos elaborados. Porque todas as palavras do dicionário não serão nunca suficientes para descrever o verdadeiro poder da palavra “Mãe”.



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O título do texto vencedor do Prémio Hernâni Cidade 2015, da autoria de João Manuel da Silva Rogaciano, apareceu erroneamente nesta página como “O síndrome do senhor Miguel”, devendo aparecer como “síndrome do senhor Miguel.” A quem assinalou a falha o nosso agradecimento.
O júri do prémio.

3 de junho de 2015

Regulamento do Prémio Literário Hernâni Cidade 2015

"(...) como o próprio do homem é a incessante superação dos limites, a irrequieta busca do mais além, cumpre estimular e condicionar, nos mais capazes, anseios de intervenção. O meio mais eficaz para os despertar é ainda a literatura de imaginação, indispensável para a educação infantil, por abrir no horizonte estreito do mundo, perspectivas que suscitem o sonho criador, sugiram a todo o homem a imitação da árvore: dilatar ou aprofundar as raízes do saber, mas para sobretudo elevar e estender as ramarias que multiplicarão as flores e os frutos."

in Hernâni Cidade, As Humanidades na Cultura do Técnico, pp. 21-22, Boletim da Academia Internacional da Cultura Portuguesa, nº4, 1968 

 


Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.


Na edição de 2015 a modalidade é: Texto narrativo e o tema: O Poder da Palavra.


Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.


O trabalho não deverá exceder 2 páginas e será enviado em cinco exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.


O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de umenvelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal enúmero telefónico para eventual contacto.


O trabalho poderá ser entregue:

a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo

b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Literário Hernâni Cidade 2015
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO

c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento


O prazo de recepção dos trabalhos termina em 31 de Agosto de 2015, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de cinco elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.


Serão atribuídos

a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.

b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.

c) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.


O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.

10º
Os concorrente premiados serão antecipadamente avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia a realizar no dia 24 de Outubro de 2015 (Sábado), pelas 16 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.

11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.

Organização
Município de Redondo


1 de outubro de 2014

Trabalhos Premiados - 2014

XIX PRÉMIO LITERÁRIO HERNÂNI CIDADE

Tema
Livre

Modalidade
Crónica

Trabalhos Premiados 

1º Prémio 
Apoio: Município de Redondo
«CIVILIZOPATIA»
José Carlos Lopes Nascimento
(Montemor-o-Novo)

É imensamente curioso, e eu pasmo para isto rindo de mim mesmo, que nós, «homens civilizados», tenhamos a teima de nos vestirmos… Quer dizer: não a circunstância em si, que essa é naturalíssima, mas sim a de nos vestirmos segundo padrões de civilidade ou sociabilidade. De facto, toda a ocasião parece suficientemente solene para que nos tapemos com «sonho de linho e algodão», e por aí andemos como tontos; sim, tontos em nada diferentes daquele do manicómio que põe as meias nas orelhas e as calças nos braços; tontos em nada diferentes daquele senão pela preocupação estética…

Digo isto por quê? É que num destes dias andava a passear-me, quando me surgiu a improbabilidade de um daqueles «homens indígenas» vir parar a uma destas ruas citadinas por qualquer chato desígnio do Destino. Ora, tentando interiorizar a sua reacção, imaginei o que sentiria ele quando se apercebesse, por exemplo, da algazarra desenfreada dentro das lojas – os modernos templos de culto social; ou das pessoas a passearem com os «fantasmas de pele» sobre o corpo, tal qual um chefe-guru, mas com certeza mais desagradavelmente perfumadas; ou dos berloques a gritar por todo o sítio a mood do dia das meninas que andam parece que a rodar as saias da alma; ou das peregrinações semi-classicamente padronizadas aos spots tão marteladamente aculturados; ou se soubesse dos retoques orgânicos contra a gravidade e a genética; ou… E, estranhamente, interiorizando tudo isto, me deu vontade de pasmar, de pasmar com um absurdo de murro no estômago. E de rir em seguida. E de pensar, afinal, como eu e todos os meus «vizinhos civilizacionais» andamos doentes… 

Vejamos: se pensarmos na razão que leva alguns homens a não usarem senão um trapo em volta da cintura (e quando é!), à primeira vista parece que é por falta de civilização. E de facto, à segunda assim é também. Eles não têm «civilização», não têm «cultura»… Sim, é verdade: lá têm alguns «fantasmas de pele» diferenciadores; lá têm alguns berloques simbólicos para estatutos sociais; também se pintam, bem visto! Mas comparar pequenos referenciais de organização à quantidade de caprichos e subliminaridades que a «civilização» nos incute, é de facto irrisório. 

Contudo, em verdade, tudo isto que digo não é censura ou desprezo; na maior sinceridade, isto é apenas um inegável sinal de que andamos doentes – «doentes de civilização»… É que nós, «civilizopáticos», achamos mal que as pessoas andem nuas pelas cidades porque temos a alma atafulhada de «conceitos-casaco» e «camisas axiológicas», mais «cintos comportamentais», «etiquetas-collants», «sapatos educacionais» e sabe-se lá mais o quê. É que ao invés de usarmos a «civilização» para nos «despir» (das intolerâncias, dos mitos, da hipocrisia e da ineficiência), deixamo-nos «vestir» pelos seus equívocos. E se vemos alguém menos «vestido», ou só «vestido» com o corpo – no fundo, alguém que não caiba nos nossos «guarda-roupas» –, logo achamos «indecente», logo achamos «incivilizado»… 

A verdade é que alguns homens não se vestem porque trazem a alma menos «vestida» do que outros. Alguns podem não saber que a Lua anda à volta da Terra por causa da Gravidade, mas os outros, sabendo isso, que sabem afinal?... Alguns pensam que foi o deus da vida e da morte «abé-chuca-qualquer-coisa» que lhes levou o filho durante a noite, quando afinal foi uma pneumonia – que tratada, não tinha sido fatal. Já outros têm medo que os filhos morram de pneumonia ainda antes de eles a terem, e então, lhes metem químicos pelo «juvenil bucho» – quais bombas radioactivas! – até eles tossirem a saúde que tinham… Os «nus de civilização» talvez sejam homens mais sadios do que nós – pelo menos, não tão doentes... É verdade que se lhes dissermos que a morte não é trazida pelo tal «abé-chuca», eles não acreditam. Mas se depois eles nos retrucam que o chefe guru lhes diz que a morte é apenas uma passagem porque a «Essência» não é perecedoura, nós os rotulamos de supersticiosos ignorantes da Ciência… (E de facto, só aqui entre nós, que os mercados financeiros tenham «Razão», isso eu percebo, mas acreditar no «abé-chuca», tenham paciência!…) 

A verdade… bom, a verdade é que a maioria das características das sociedades primitivas é igualmente certa para as sociedades civilizadas. Vivemos (continuamos a viver) segundo modelos míticos, maniqueístas e etnocêntricos. Esquecemo-nos de que quando adoramos os liberalismos e os socialismos, as democracias europeias e as constituições americanas, o progresso e a modernidade (ou a tradição e a continuidade); quando preferimos até os «hippies» aos «gravatinhas»... não estamos senão a criar a um «deus» e a entregar nas suas mãos a nossa vida; não estamos senão a «vestir-nos» dele e a oferecer-lhe a nossa vontade. 

Afinal, de que me vale poder escrever este texto se a escrita for só um traje para me «civilizar» mais? E de que me vale a percepção deste facto se ele não for um passo real para perceber isto da «Humanidade»?... No fundo, com seriedade: que diferença existe ao certo entre o «abé-chuca» e as farmácias?



2º Prémio
Apoio: Novo Banco, S. A. 
«Nos céus da Cidade»
Luís Pedro Batista de Araújo e Castro
(Amadora)

De vinte em vinte minutos, passa um avião. Ou de dez em dez minutos. Ou de cinco em cinco. Passam aviões o dia todo. Passam durante a noite, com curtas interrupções, por cima de mim. Nem sempre à mesma altitude, calculo, algures na troposfera, onde se formam as nuvens, a neve, a chuva, onde nada se enraíza, onde só as bruxas voam nuas (e uma determinada espécie de abutres), mas tão acima que, felizmente, não corro o risco de ser esmagado ou atingido por um dos seus trens de aterragem; tão acima que a deslocação do ar não faz oscilar um só dos meus cabelos, embora eu sinta tremer o chão, o teto, as paredes. Serão os meus cabelos mais sólidos do que o aço e o cimento?

Tenho a sensação de que nunca passaram tantos aviões como hoje, de que nunca os aviões foram tão ruidosos. Passariam discretamente, com as turbinas embrulhadas em algodão, das outras vezes, ou eu não os ouvia porque estava distraído? Porque é que hoje não consigo ignorá-los? Enchem todo o céu que me cobre, que me contém: casca de ovo, quarta pele, depois da terceira, que é o meu quarto, e da segunda, que é a minha roupa. Saturam-no, riscam-no, rasgam-no, desgastam-no, abrem sulcos na sua superfície (o céu terá superfície?), sulcos iguais aos que os glaciares abrem nas rochas das regiões polares. Sente-se a força que fazem para progredirem e escaparem à implacável força da gravidade.

Dentro em breve, calculo, os aviões substituirão os outros veículos, os terrestres e os aquáticos, nas nossas preferências, tornar-se-ão mais acessíveis, começaremos a utilizá-los para percorrer distâncias insignificantes que poderíamos percorrer de automóvel ou a pé, mas nunca tão depressa: de casa para o local de trabalho, do centro das cidades para os subúrbios, do princípio até ao fim de uma rua. Um futuro cada vez mais aéreo, mais etéreo.

Atrás de um avião, passa logo outro, em fila indiana. Logo, logo, não, respeitam um intervalo de segurança. É provável que seja o mesmo avião, às voltas, à nora, corrigindo a rota, tentando entrar ou sair de um túnel, ladear bandeirolas, iludir os radares, escarnecendo dos controladores que lhe dão indicações a partir da torre de controlo, desviado por piratas, pilotado por amadores, por acrobatas, regressando para se reabastecer ou para ser reparado, depois de dar a volta ao mundo em vinte, dez, cinco minutos. É também provável que passem apenas na minha cabeça: de um ouvido para o outro, mas por dentro, por um fio; de um hemisfério do cérebro para o outro, de neurónio para neurónio, de fibra para fibra, de córtex para córtex. Um pulo, um choque, ligando um som a uma imagem, ligando os sons e as imagens a várias memórias.

Tenho a sensação de que passam todos na mesma direção: saem de um buraco do céu azul-bebé à minha direita, que logo se fecha, e entram num buraco do céu à minha esquerda, que nem se chega a abrir. Como a agulha que conduz a linha ao longo da bainha, traço abaixo, traço acima do tecido. Como os golfinhos: semicírculo abaixo, semicírculo acima da água. Curvatura convexa visível. Curvatura côncava invisível. Passam, portanto, de oeste para leste, acompanhando o movimento de rotação da terra, calculo, porque estou virado para o rio Tejo, de costas para a metade norte de Portugal. Perdoa-me metade norte de Portugal, não te quero mal. Ou estarei de costas para o rio Tejo? Se o meu sentido de orientação estiver correto, estes aviões não estão no princípio, mas no fim ou a meio (quem diz «a meio», diz «a um ou a dois terços…») das suas viagens; nenhum deles parte, todos chegam de longe, dos Açores, da América do Norte, da América Central, da América do Sul, e vão aterrar aqui perto, na Portela. Partirão depois, com um novo magote de passageiros? Sobrevoaram o Atlântico? Sete horas, desde Nova Iorque? Oito horas, desde Caracas? Doze horas, desde Lima, no Peru? Dez horas, desde o Rio de Janeiro? Mais coisa, menos coisa. Sei que os meus cálculos estão errados e que nunca os irei confirmar. Não interessa. Quilómetros e mais quilómetros, altitudes e mais altitudes, céus e mais céus.

Estou sentado no meu quarto, virado para o rio Tejo. Os aviões passam por cima de mim, tão depressa e, no entanto, tão lentamente que a minha mão poderia ultrapassá-los várias vezes se lhes acenasse. Milhares de pessoas passam por cima de mim, pessoas que eu não vejo (embora, provavelmente, parecidas com aquelas que vejo, parecidas comigo), que não veem através dos vidros senão um labirinto de telhados e de estruturas achatadas, entre algumas nuvens, colunas de fumo, uma asa, uma turbina. Pessoas que nunca aqui estiveram: norte-americanos, peruanos, brasileiros, venezuelanos… Nacionalidades e mais nacionalidades. Dialetos e mais dialetos. Fisionomias e mais fisionomias. Portugueses que regressam. Pessoas para quem Lisboa é apenas um ponto de passagem, uma escala, um aeroporto. Terá este capacidade para receber tantos aviões? Serão as suas pistas de aterragem assim tão compridas, os seus hangares assim tão largos?

Estará Lisboa a ser renovada, de vinte em vinte minutos, de dez em dez, de cinco em cinco? Todos os lisboetas (que não são lisboetas, mas nova-iorquinos, cariocas, limenhos, caraquenhos…) com as malas aviadas e os bilhetes pré-comprados, sentados nos seus quartos, à escuta, à espera, ou correndo para a Portela para embarcarem. Quando sair à rua, não encontrarei uma única cara familiar.



3º Prémio
Apoio: Junta de Freguesia de Redondo
«Nós, os pobres.»
Carla Patrícia Pires Martins
(Evoramonte)

Nós, os pobres, sabemos bem qual é o nosso lugar no mundo. Entendemos sem questionar qual é o papel que nos cabe na ordem das coisas, especialmente aqui, neste cantinho da Europa, com varanda privilegiada para o Atlântico.

Conhecemos ao pormenor todos os nossos deveres, pois o Governo há muito nos levou os direitos. Pois, já cá faltava a habitual criticazinha ao Governo.

Gritamos, como ninguém, aquilo que nos vai na alma para que todos saibam que, apesar de pobres, estamos aqui. Mesmo muito, muito pobres, para que não haja margem para qualquer tipo de dúvidas.

Assim, e para quem ainda não nos conhece, cabe-nos dar também a conhecer ao mundo três das principais características com que, por cá, se faz um pobre português.

1ª - Calendário do queixume. Pobre que é pobre em Portugal deve seguir sempre religiosamente o calendário do queixume no qual se indica que todos os dias são bons para se queixarem do Governo, situação económica híper – desfavorável, da crise e da Tróika, menos nos dias em que joga a Selecção, no Carnaval, na Páscoa, no Natal, na Passagem de ano, nos feriados, e, especialmente, no Verão, época durante a qual, pobre que é pobre que se preze deve pegar na família e rumar ao Algarve para entupir o maior número de praias e hotéis possível.

2º - O show off . Pobre que é pobre em Portugal, mostra-se! Usa roupas de marca, algumas, talvez a maioria, compradas na feira ao preço da chuva e montado no topo de gama, em segunda, terceira ou quarta mão, com umas boas décadas em cima, frequenta os bares da moda e os locais do social. Bebe o mesmo copo de qualquer coisa durante a noite inteira e exibe-o pavoneantemente como se fossem vários reffils, entre dois dedos de conversa durante os quais, surpresa, se queixa de que não tem dinheiro!

3º - As dívidas. Pobre não é pobre a sério se não tiver dívidas. A primeira, a renda da casa. Aquela que se fica a dever meses e meses porque não se tem dinheiro para pagar. Casa, já agora, à frente da qual está estacionado o topo de gama anteriormente referido.

Sem esquecer as contas do gás, da água ou da luz que muitas vezes ficam por pagar. Talvez por isso, à falta de água ou electricidade, sejam obrigados a sair de casa, tentando entreter o tempo noutro lado, quiçá na companhia de uma bebida. Bebida essa que, como já se disse, é sempre a mesma e leva horas a deixar o copo.

E assim andamos, nós os pobres, entregues, à desgraça neste país. Já cá faltava a palavra desgraça, sem a qual não seria possível ilustrar, com precisão gráfica, aquilo por que nós, os pobres, temos de passar.

Para terminar, quero apenas partilhar algo que no outro dia ouvi um pobre dizer e que me deixou profundamente repugnada. Disse que pintou um quadrado azul no quintal para que, do Espaço, pensem que ele tem piscina. Ora, este pobre é um pobre falso! Toda a gente sabe que pobre que é pobre em Portugal fotografa a piscina do vizinho e coloca no facebook a dizer que é sua!