19 de outubro de 2016

Trabalhos Premiados 2016

1º Prémio

"ENQUANTO"
João Baptista Coelho
(Tires, São Domingos de Rana)


ENQUANTO

Enquanto quis Fortuna que tivesse
a mística imortal do verbo amar
e a força dos silêncios duma prece
rezada numa noite de luar;

Enquanto em minha alma, em vida, exista
Esperança de algum contentamento,
que seja bem real, sem estar à vista,
a dar-me o pão da paz, e de outro alento;

Enquanto eu me aperceba, no meu "vento",
que tu também me queres, também me ofertas
O gosto de um suave pensamento
e a dádiva da paz, de mãos abertas; ...

Eu gritarei ao mundo, que o amor,
alheio a qualquer mísero interesse
- porque hoje me mostrou outro valor -
Me fez que seus efeitos escrevesse.




2º Prémio

"deu-me a sorte este instante de alegria"
Pedro Manuel Martins Baptista
(Coimbra)


deu-me a sorte este instante de alegria
como se uma breve ave o céu riscasse
e em seu canto o olhar iluminasse
com as cores da mais bela melodia

embora escasso seja abre-se ao dia
este sorriso em mim       se ficasse
como um sol que à janela se deitasse
em ledo verso ao mundo o cantaria

mas quis a sorte só que fosse instante
tal como instante foi dá-lo por 'scrito
enquanto em mim houvesse tal alento

e que cada palavra fosse amante
da esperança que resta neste grito
para que fosse eterno este momento




3º Prémio

"Onde estás, oh Esperança minha?"
Carlos Manuel Meneses Moreira
(Maia)


E nesse fado quase esmorecia
Tão perto de fruir esse momento
De ter comigo tão grande alento
De cantar na noite a luz do dia

Que espera é esta que definha
Na noite escura que me envolve
Se não me contenta tamanha sorte
De não sentir a noite como minha?

Antes que o silêncio sucumbisse
Na aridez dessa noite escura
Tomei como minha essa agrura
De não te conhecer, quando te visse

Onde estás, oh Esperança minha!
Onde te escondes, tão fugidia
Se te desejo mais que a própria vida
Antes que desponte o raiar do dia?

Quis a Sorte que não mais dormisse
Sem que na matutina neblina
A Fortuna trouxesse como minha
A primeira gota de alegria

De te sentir comigo sempre presente
Não deixando que na noite soçobrasse
Ainda que na escuridão eu achasse
Que estivesses, afinal, em mim ausente!

3 de março de 2016

Regulamento do Prémio Literário Hernâni Cidade 2016

“Dir-se-ia que a Fortuna, o Tempo, o Amor, as Estrelas infelices, as misteriosas forças a que o Poeta, às vezes, atribui os rumos da sua vida, não lha talharam como se lhe desdobrou, senão para que, melhor do que a de ninguém, ela pudesse ser o resumo da vida da coletividade que ele era destinado a representar. 

(…) As próprias fases da existência do Poeta têm uma sucessão dir-se-ia que regulada pelo mesmo impulso que determinou a trajetória histórica do seu povo. 

(…) Através das injustiças dos homens e dos erros e desatinos próprios; através das mesmas injúrias dos elementos, a Fortuna, de que se queixa, foi-lhe convertendo em desilusões e desesperos todos os sonhos de namorado, de soldado e de poeta, apenas lhe poupando o sonho de uma glória, que, ainda assim, estava destinado só floresceria das cinzas mal guardadas…” 

Hernâni Cidade, Luís de Camões, o Lírico, Editorial Presença, 1984, pp 226-227



Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.


Na edição de 2016 a modalidade é: Texto poético. 

A partir do mote construa um poema livre. 

MOTE: 

«Enquanto quis Fortuna que tivesse 

Esperança de algum contentamento, 

O gosto de um suave pensamento 

Me fez que seus efeitos escrevesse.»

                                                                    Luís de Camões



Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.


O trabalho não deverá exceder 1 página e será enviado em cinco exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.


O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto.


O trabalho poderá ser entregue:

a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo

b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Literário Hernâni Cidade 2016
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO

c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento


O prazo de receção dos trabalhos termina a 15 de Julho de 2016, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de cinco elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.


Serão atribuídos

a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.

b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.

c) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.


O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.

10º
Os concorrente premiados serão antecipadamente avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia a realizar no dia 22 de Outubro de 2016, pelas 16 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.

11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.

Organização
Município de Redondo

19 de outubro de 2015

Trabalhos Premiados - 2015

1º Prémio
"A síndrome do senhor Miguel"
João Manuel da Silva Rogaciano
(Alverca)
Apoio: Município de Redondo

O senhor Miguel andava apático. Asténico. Distante de tudo e de todos. Ele, um indivíduo altamente letrado, um amante de livros, que mastigava e saboreava cada floreado frásico, cada palavra, cada letra, cada vírgula ou ponto final, deixara simplesmente de ler. Não conseguia abrir um livro que fosse. Nem sequer um opúsculo; nem a lista das compras semanais. Reformado, passava, agora, os dias a ver noticiários e novelas, que se sucediam em catadupa, na sua televisão e o sufocavam cada vez mais.
            Numa manhã em que a sua mente estava um pouco mais arguta, o senhor Miguel decidiu sair da sua letargia habitual e procurar ajuda médica, para tentar saber que tipo de doença teria contraído. Aprontou-se e saiu de casa, rumo ao centro de saúde local, para marcar uma consulta. Nada feito: consultas de clínica geral, só dali a cinco meses. Aborrecido com aquela contrariedade, resolveu aproveitar o soalheiro dia e passear um pouco. Passou junto à biblioteca municipal. E ficou parado à porta, sem sequer sentir um residual desejo de ali entrar, como no passado acontecia.
- Estou mesmo doente! – pensou, entristecido, enquanto voltava os olhos para o chão, em desespero.
Foi então que o seu olhar foi atraído por um colorido papel, caído a seus pés, que trazia uma estranha mensagem: “Tem astenia literária?”. Baixou-se e pegou nele. Continuou a leitura: “A apatia tomou conta de si? Tem dificuldade em se expressar? Deixou de ler? Oferecemos-lhe uma consulta médica gratuita, só hoje! Venha conhecer o poder da palavra!”
Inicialmente, o senhor Miguel pensou tratar-se de propaganda religiosa, ou de algum esquema em pirâmide. Todavia, a curiosidade venceu a desconfiança. Arrastou-se até à morada indicada no folheto. Estranhamente, ficava mesmo nas traseiras da biblioteca municipal. Mais inesperadamente, ainda, apesar de as consultas serem gratuitas, não havia nenhuma fila para a consulta. Só uma simpática rececionista, que o acolheu com um sorriso primaveril.
- O doutor Rui está à sua espera, senhor Miguel – disse a rececionista, conduzindo o atónito paciente até à sala, onde o esperava um indivíduo de bata branca e estetoscópio.
O médico convidou o doente a sentar-se, enquanto o cumprimentava:
- Seja bem-vindo, senhor Miguel! Por favor, conte-me de que se queixa.
Surpreendido com toda aquela afabilidade, o senhor Miguel contou-lhe todos os sintomas de que padecia:
- Sr. doutor, sinto-me apático. Deixei de fazer aquilo que gostava: de ler, de escrever, de conviver com os amigos. Não sei o que tenho… Penso que terei de fazer um check-up geral…
- Hummm, deite-se ali na marquesa, para o poder examinar. – o médico começou por examinar os olhos, a boca, os ouvidos, e depois palpou o abdómen e as costas – senhor Miguel, pode levantar-se e sentar-se de novo na cadeira.
Dirigiu-se ao computador e teclou algumas frases, enquanto o doente se compunha e sentava.
- Senhor Miguel, tenho de lhe comunicar que é possuidor de uma doença rara, e fulminante, em estados avançados! Você ainda se encontra num estado inicial, sendo completamente tratável! O senhor tem o chamado “síndrome da palavra sufocada”. Passo a explicar: o senhor sente vontade de criar e declamar um poema, mas resolve ignorar esse seu desejo, pois pensa que ninguém o quererá escutar. Anseia escrever um conto, mas desiste, pois ouvirá muita critica negativa e mal direcionada. Ora bem, no seu cérebro, no seu coração, nos seus rins, vão-se acumulando estas palavras, que foram sufocadas à nascença. Abortadas, estas palavras apodrecem no seu íntimo, infectando e corroendo o seu “eu interior” como gangrena, como um cancro. Roubam-lhe os sonhos e incendeiam-lhe pesadelos. Minam a sua confiança e destroem a sua saúde. Esse é o poder negativo das palavras, quando sufocadas por muito tempo, no íntimo de cada ser humano.
- Curiosa explicação, caro doutor! – replicou Miguel, procurando abarcar toda a informação que o médico facultava. - E qual a forma de recuperar deste síndrome? Qual o tratamento?
- O tratamento, que lhe aconselho, é muito simples e utiliza o poder positivo e libertador da palavra: no primeiro dia, abra um livro de poesia e leia somente o primeiro verso. Retenha as palavras dentro de si e medite nelas, enquanto inspira e expira. Depois, diga o verso, em voz alta, deixando sair as palavras, saboreando-as com comoção, sentindo-as com o coração. No segundo dia, leia do primeiro até ao terceiro verso. Inspire e expire, e diga os três versos, em voz alta, sem pressas e saboreando cada palavra. Vá aumentando a dose, gradualmente. Na semana seguinte, comece por ler um livro de prosa. Quando não estiver a ler, passeie com os seus amigos ou com a sua família, e fale sobre aquilo que tem aprendido através dos livros, trocando experiências. Trocando palavras. Na terceira semana, continue com a leitura, e comece por escrever um verso, a seu contento. Vá aumentando, até que escreva uma estrofe, um poema, um rio de palavras vivas, transbordantes de poder. Na quarta semana, em paralelo com as leituras e os poemas, experimente elaborar um curto texto narrativo. Escreva, por exemplo, sobre a sua doença, sobre as suas melhoras e sobre o poder da palavra.
- Só isso, doutor? – estranhou o senhor Miguel.
- Acha pouco? – o médico sorriu – Siga os meus conselhos. Se não sufocar as palavras, vai ver que recupera por completo. Depois, meu caro, não pare, pois o poder da palavra é seu. Use-o livre, mas conscientemente.

O senhor Miguel agradeceu o diagnóstico, sentindo-se mais animado. Despediu-se do médico e da rececionista. Saiu para a rua e andou uma dezena de metros. Lembrou-se que lhe faltava o contacto telefónico (que não constava do prospeto), para quando necessitasse de nova consulta e voltou atrás. Estranhamente, o consultório já não estava lá. Ninguém, a quem perguntou, conhecia aquele local, nem aquele médico. Mas, o certo é que seguiu a prescrição dada e ficou curado do seu mal, o tal “síndrome da palavra sufocada”.


2º Prémio
"Palavras que germinam no silêncio"
Jorge Alexandre da Costa Rodrigues
(Parada de Cunhos, Vila Real)
Apoio: Novo Banco, S. A.

De um lado da batalha erguiam-se altaneiras as palavras, alinhadas, cada uma com a sua posição estrategicamente bem definida. Marte parecia estar com elas bem como todos os deuses, heróis, santos e semideuses que fazem da arte bélica a entretela dos seus corações. E ainda, mais que todas as divindades do Olimpo, erguia-se imponente o sol. Esse fazia projectar a sombra das palavras no campo de batalha com tal intensidade que só a sua presença se tornava intimidatória. E com a sombra vinha o eco… era como se de um discurso verrinoso se tratasse, mas um discurso fluente, bem articulado, sem erros ortográficos, com uma caligrafia exemplar, a sintaxe bem arquitectada… enfim, tudo preparado para se incendiar num púlpito ou numa qualquer tribuna. Os verbos eram os arcos e os sujeitos as flechas, os nomes próprios espadas e os comuns as adagas. Os adjectivos escudos e os advérbios couraças, as interjeições baluartes e as preposições sentinelas. Os pronomes eram os pórticos e as conjunções as ameias, os prefixos os aríetes e os sufixos as catapultas. As linhas estribos e esporas e a acentuação era o elmo. Do lado inimigo, à frente de uma coluna de nuvens, caminhava implacável o silêncio. Nem o brilho do sol, vindo do campo adversário, lhe ofuscava a vista nem a sombra das palavras agigantada na encosta da colina o intimidava. Marchava como uma quadrilha de salteadores numa noite de breu sobre uma cama de gélida neve. E mesmo os passos da marcha marcados na candura do alvo manto desapareciam. Eram como que cobertos pela mesma queda de neve que transformava num silêncio de morte o próprio bafo da respiração dos soldados. Era silêncio, breu, treva, noite, escuridão, morte, esquecimento… tudo em marcha contra as palavras bem alinhadas: som, luz, claridade, dia, vida, lembrança… Mas, claro, as palavras não podiam ficar eternamente à espera da investida do silêncio no topo da colina. É então que se ouve um grito de guerra. Ecoou sobre o adamado vale sobranceiro, onde se adivinhava vir a ser o campo de batalha e espalhou-se por toda a terra, sendo travado apenas pela orla de bruma que ladeava a colina já dominada pelo silêncio. Entretanto as duas forças inimigas desciam fugazes as opostas colinas. Rumavam àquele vale imenso, àquela planície de Megiddo, àquele campo de tantas batalhas preparado para a derradeira, a do Armagedom, aquela que agora se perfila, aquela em que as palavras e o silêncio se degladiam, aquela em que luz e trevas se confrontam, 2 aquela na qual noite e dia põem fim ao seu ciclo de fuga eterna e se apresentam frente-a-frente. Mas… o medo, a insegurança, o desconforto, o nervosismo… tudo parece apossar-se das palavras desarticulando aquela formação beligerante. Constroem-se frases com uma sintaxe descoordenada, criam-se orações sem verbo, ouve-se a revolta de sujeitos subentendidos, apostos julgam-se complementos diretos… é a desordem no meio do caos. Por outro lado, o silêncio, deixa quebrar aquela barreira impenetrável, enche-se de ruídos, barulhos fortes, sons estridentes… Poeira! Nuvens de poeira erguem-se sobre aquele holocausto onde dois exércitos se fundem em fundada barafunda. Tudo é reduzido a pó e cinza naquele campo de batalha. O discurso já desarticulado e dissecado deixa de encontrar espaço e canal, para a sua mensagem distorcida, naquele silêncio que se finava. O silêncio perde a capacidade de deixar ecoar as palavras no seu seio e o espaço para que um discurso possa fluir sem interferências. Entretanto, no derradeiro minuto, dos destroços ergue-se uma conjunção: “Mas… que o isto a ser vem?” e logo o verbo no infinitivo a retorquir: “eu venho no fim da frase.” Mas, Isto, o pronome demonstrativo acrescenta: “como complemento direto esse lugar deve ser meu.” Em pouco tempo todos proferiam a mesma frase: “mas o que vem a ser isto?” Estava dado o primeiro passo para a busca da ordem no meio do caos. Sentaram-se todos nas pequenas elevações de terra e nos escolhos dispersos pelo antigo campo de batalha e assim se foram agrupando. As palavras juntas iam formando orações e com elas criando frases mais complexas. Nos intervalos dava-se voz ao silêncio para que todos pudessem mastigar docemente cada opinião. Começava assim o conluio que haveria de demorar três dias e três noites, até que ao romper da terceira aurora fosse promulgado o seguinte édito a divulgar por toda a terra: Assim como as noites se sucedem aos dias e como as trevas sucedem à luz, num ciclo infindável e ininterrupto, também as palavras e o silêncio têm que se articular deixando, cada um, espaço para que o outro possa agir. Sempre que alguém falar façao como uma sementeira de flores no campo fecundo do silêncio. Sempre que se fizer silêncio seja para deixar germinar o imenso Poder da Palavra.


3º Prémio
"O caçador de palavras"
Paula Cristina Direito Rabaça
(Manteigas)
Apoio: Junta de Freguesia de Redondo

Era um jovem caçador de palavras. Nas horas vagas, saía de bloco discreto no bolso e caneta escondida na lapela, para caçar palavras nos centros comerciais, em bancos de jardim, em jogos de futebol e conferências, no metro e no eléctrico, na rua, até no cemitério. Não o seduziam as palavras dos dicionários e das enciclopédias. Não tinham movimento nem vida e por isso não lhe davam a ilusão de conquista!
Quando chegava a casa, com duas ou três (nunca mais de cinco, na melhor das caçadas), iniciava o ritual de dissecação: observava a palavra a partir de todos os ângulos, explorava o seu étimo, juntava-lhe sinónimos e antónimos, denotações e conotações, num exercício de semântica que faria inveja a qualquer estudioso de linguística. Passava horas com cada "presa" até que, já extenuado, se dava por satisfeito. Abria, então, o velho álbum e, num misto de ternura e reverência, inscrevia a palavra eleita.
O álbum crescia a ritmo lento e nele se catalogavam espécies várias, como se de um herbário de vocábulos se tratasse: palavras-transparência, palavras-engano, palavras-música, palavras-sonho...
Na categoria das "palavras transparência", por exemplo, colocava as que se revelam à primeira apresentação e sem subterfúgios, as que nada escondem do que sentem... "Só" parecia-lhe uma dessas palavras: transparentemente solitária, com a brevidade e a secura dos que não têm ninguém a seu lado.
"Palavras-sonho" também abundavam no álbum. "Enamorar-se" era uma delas, um verbo vagamente doce, de contornos magnéticos, mas ainda indefinidos como uma ilusão.
Aprisionando palavras como se delas passasse a ser dono e senhor, o jovem caçador alimentava a bizarra convicção de ser tanto mais poderoso, quanto mais as acumulasse...

Quando naquele final de Outono, à porta da Universidade, se cruzou com ela, viu-se arrastado para a sua derradeira caçada.
Tudo nela era uma explosão de vida: os longos e coloridos vestidos, os caracóis volumosos e soltos, os gestos largos e expressivos. Ria alto, gesticulava com graça e caminhava como bailarina em palco iluminado. Os olhos, de um azul quase impossível de sustentar, dançavam como ela, a cada passo, em cada encontro, em todas as direcções. Nunca mais o jovem caçador voltou a caçar nos espaços usuais ... Estreou um álbum novo, em cuja capa escreveu o nome dela. Renata. Uma "palavra-esperança", que lhe inspirava desejos de renascer e promessas de futuro...
À volta de Renata, o jovem caçador via esvoaçarem, como borboletas selvagens, todas as palavras que nunca ousara catalogar e que agora inscrevia, ávido de conquista, no novo álbum: fôlego, sensualidade, corpo, paixão, eternidade... E o coração ficou-lhe suspenso, em permanente caçada, porque todas as palavras lhe falavam dela, mas nenhuma era, ainda, suficientemente poderosa para dizer daquele sentimento que crescia louco e incomensurável dentro do seu peito... Haveria de encontrar A Palavra para aquilo que sentia. Haveria de ser uma "palavra-carne", pensava! Das que não têm existência autónoma como vocabulário e que só se fazem verdade, no corpo, nos ossos e na vida de alguém... Uma palavra "em carne viva" que inscreveria no álbum e lhe ofereceria depois, para a impressionar e irremediavelmente prender.

Assim andou, nesta busca, dias após dias... O Outono cedeu permissão ao Inverno e, depois deste, a Primavera fez-se anunciar no verde fresco dos jardins da cidade.
E como "um dia é da caça outro do caçador"... acordou uma manhã capturado pela palavra Amor. A Palavra.
Sem hesitações, agarrou decidido no álbum e correu à universidade. Procurou-a nos corredores, nas salas, por todos os recantos. Deambulou pelas ruas mais próximas, com A Palavra a arder-lhe no peito, a querer saltar cá para fora, e o álbum debaixo do braço, quase a desfolhar-se... Em vão a procurou.
Ao cair da tarde, cansado, entregou o corpo desalentado a um banco de jardim e... avistou-a ao longe. Sem mais, correu até ela, desajeitado. Tinha pressa de lhe oferecer o álbum, de encerrar a caçada, de festejar o poder d'A Palavra e inaugurar, com ela, o Amor. Mas quando se aproximou, viu-a de mãos pousadas noutras mãos e olhos presos noutros olhos... envoltos num silêncio tão íntimo que palavra alguma seria capaz de interromper...

Conta-se que o jovem caçador se retirou, sem mais. E que dos seus álbuns saíram esvoaçando, livres como borboletas, todas as palavras que até então aprisionara.
Todas, excepto uma. A derradeira, a que Renata não chegara a receber, a única que em vez de verbo, foi carne, que em vez de vocábulo, foi vida...
Era Primavera, tempo de aprender que o amor, tal como as palavras, não se impõe, não se agrilhoa e de nada vale se não for dádiva livre do que somos!

(O presente texto foi escrito sem ter em conta o novo acordo ortográfico)     


Menção Honrosa
"Para ti"
Vera Márcia dos Santos e Silva
(Águas Santas, Maia)

Pergunto-me, muitas vezes, se te recordarás dos teus primeiros anos de vida. Se te lembrarás dos beijos repenicados, dos abraços apertados, de corrermos juntas e felizes de mão dada pela rua. Das gargalhadas em uníssono e da minha sensação de conforto e paz crendo que uma criança sorridente é sempre uma criança feliz. Das perguntas persistentes e das minhas respostas pacientes, vezes sem conta: “São flores, minha amora, são flores”. São árvores e folhas. São automóveis, motas e bicicletas. Casas, muros e pessoas. Sapatos, calças e chapéus. Ah… um mundo inteiro por descobrir! Pergunto-me se te recordarás do sufoco dos meus braços na ânsia de suspender o tempo num instante perfeito ou das minhas lágrimas soltas quando te surpreendo a percorrer, lenta e sossegadamente, o meu rosto com olhos perscrutadores. Se sentiste na minha voz a emoção pelo primeiro passo, o orgulho pela primeira palavra proferida, a ternura pelos raros beijos recebidos. Todos os dias algo novo, fascinante, único e indescritível. Pergunto-me se o tempo tornará banais os teus passos, as tuas palavras, os teus beijos ou a ausência deles. Pergunto-me se te recordarás da minha falta de discernimento quando não interrompo o trabalho para te acudir quando chamas por mim. Se compreenderás as minhas ausências, os meus ciúmes loucos quando preferes outro colo ao meu, os meus amuos quando te peço beijos e não dás. Se te recordarás das vezes que invades o escritório da nossa casa e vens pedir a minha mão para brincar ou pousar livros em cima da secretária para os desfolharmos juntas, esticando os braços pedindo-me colo. Se te recordarás do meu riso mal disfarçado quando tropeças, cais e te levantas num ápice, quando pergunto se estás magoada e logo respondes, sem qualquer hesitação, a esfregar uma perna ou um braço: “Não!”. Lembras-te quando tinhas pavor do mar? Corrias desesperada pela duna acima em direcção ao porto seguro da toalha e do guarda-sol. Eu corria atrás de ti cheia de vergonha por não te conseguir alcançar, mas gravei na memória o dia em que esse medo se evaporou. Desconfiada, olhavas o mar ao longe e os meninos mais velhos a chapinharem na linha da rebentação. Pelo canto do olho vi crescer em ti uma determinação e uma vontade até então desconhecidas. Puxaste pela minha mão e obrigaste-me a percorrer o areal todo numa perfeita linha reta, sem distrações ou desvios pelo caminho. Só paraste quando sentiste os joelhos submersos e, durante alguns segundos, ficaste imóvel a sentir a suave carícia da ondulação da água nas pernas. 2/2 Costumo dizer que quero ser como tu. Mas, lá no fundo, sei bem: nunca serei igual a ti. Forte e determinada. Louca e destemida. Rápida a encarar os medos de frente, a correr em direcção às ondas, mesmo com passos incertos e pernas bamboleantes, tropeçar e cair nos buracos, levantar, sacudir a terra das mãos, limpar as feridas e dizer, com um sorriso rasgado: “Não dói nada”. Por momentos desejo secretamente que o tempo passe mais depressa só para ver como serás daqui a cinco, dez, quinze anos. Se ainda vais chamar por mim, sorrir-me, abraçar-me e puxar-me pela mão para brincar ou ler livros. Se ainda procurarás no meu rosto as respostas para as tuas dúvidas. Se ainda me perguntarás com avidez incontida “O que é isto?” até à exaustão das palavras ou se os teus horizontes já serão maiores do que os meus. Um dia conhecerás a minha luta contra o tempo pelos anos perdidos à tua procura e o quanto insisti, insistimos, para ter o privilégio de te conhecer e a obrigação de te fazer feliz. Não saberás, contudo, quantas vezes foste o sol radioso nos dias cinzentos, quantas vezes os teus sorrisos afastaram preocupações e acalmaram ansiedades, quantas vezes meia dúzia de palavras indecifráveis significaram muito mais do que mil discursos elaborados. Porque todas as palavras do dicionário não serão nunca suficientes para descrever o verdadeiro poder da palavra “Mãe”.



___________________________


O título do texto vencedor do Prémio Hernâni Cidade 2015, da autoria de João Manuel da Silva Rogaciano, apareceu erroneamente nesta página como “O síndrome do senhor Miguel”, devendo aparecer como “síndrome do senhor Miguel.” A quem assinalou a falha o nosso agradecimento.
O júri do prémio.

3 de junho de 2015

Regulamento do Prémio Literário Hernâni Cidade 2015

"(...) como o próprio do homem é a incessante superação dos limites, a irrequieta busca do mais além, cumpre estimular e condicionar, nos mais capazes, anseios de intervenção. O meio mais eficaz para os despertar é ainda a literatura de imaginação, indispensável para a educação infantil, por abrir no horizonte estreito do mundo, perspectivas que suscitem o sonho criador, sugiram a todo o homem a imitação da árvore: dilatar ou aprofundar as raízes do saber, mas para sobretudo elevar e estender as ramarias que multiplicarão as flores e os frutos."

in Hernâni Cidade, As Humanidades na Cultura do Técnico, pp. 21-22, Boletim da Academia Internacional da Cultura Portuguesa, nº4, 1968 

 


Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.


Na edição de 2015 a modalidade é: Texto narrativo e o tema: O Poder da Palavra.


Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.


O trabalho não deverá exceder 2 páginas e será enviado em cinco exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.


O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de umenvelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal enúmero telefónico para eventual contacto.


O trabalho poderá ser entregue:

a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo

b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Literário Hernâni Cidade 2015
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO

c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento


O prazo de recepção dos trabalhos termina em 31 de Agosto de 2015, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de cinco elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.


Serão atribuídos

a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.

b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.

c) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.


O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.

10º
Os concorrente premiados serão antecipadamente avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia a realizar no dia 24 de Outubro de 2015 (Sábado), pelas 16 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.

11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.

Organização
Município de Redondo


1 de outubro de 2014

Trabalhos Premiados - 2014

XIX PRÉMIO LITERÁRIO HERNÂNI CIDADE

Tema
Livre

Modalidade
Crónica

Trabalhos Premiados 

1º Prémio 
Apoio: Município de Redondo
«CIVILIZOPATIA»
José Carlos Lopes Nascimento
(Montemor-o-Novo)

É imensamente curioso, e eu pasmo para isto rindo de mim mesmo, que nós, «homens civilizados», tenhamos a teima de nos vestirmos… Quer dizer: não a circunstância em si, que essa é naturalíssima, mas sim a de nos vestirmos segundo padrões de civilidade ou sociabilidade. De facto, toda a ocasião parece suficientemente solene para que nos tapemos com «sonho de linho e algodão», e por aí andemos como tontos; sim, tontos em nada diferentes daquele do manicómio que põe as meias nas orelhas e as calças nos braços; tontos em nada diferentes daquele senão pela preocupação estética…

Digo isto por quê? É que num destes dias andava a passear-me, quando me surgiu a improbabilidade de um daqueles «homens indígenas» vir parar a uma destas ruas citadinas por qualquer chato desígnio do Destino. Ora, tentando interiorizar a sua reacção, imaginei o que sentiria ele quando se apercebesse, por exemplo, da algazarra desenfreada dentro das lojas – os modernos templos de culto social; ou das pessoas a passearem com os «fantasmas de pele» sobre o corpo, tal qual um chefe-guru, mas com certeza mais desagradavelmente perfumadas; ou dos berloques a gritar por todo o sítio a mood do dia das meninas que andam parece que a rodar as saias da alma; ou das peregrinações semi-classicamente padronizadas aos spots tão marteladamente aculturados; ou se soubesse dos retoques orgânicos contra a gravidade e a genética; ou… E, estranhamente, interiorizando tudo isto, me deu vontade de pasmar, de pasmar com um absurdo de murro no estômago. E de rir em seguida. E de pensar, afinal, como eu e todos os meus «vizinhos civilizacionais» andamos doentes… 

Vejamos: se pensarmos na razão que leva alguns homens a não usarem senão um trapo em volta da cintura (e quando é!), à primeira vista parece que é por falta de civilização. E de facto, à segunda assim é também. Eles não têm «civilização», não têm «cultura»… Sim, é verdade: lá têm alguns «fantasmas de pele» diferenciadores; lá têm alguns berloques simbólicos para estatutos sociais; também se pintam, bem visto! Mas comparar pequenos referenciais de organização à quantidade de caprichos e subliminaridades que a «civilização» nos incute, é de facto irrisório. 

Contudo, em verdade, tudo isto que digo não é censura ou desprezo; na maior sinceridade, isto é apenas um inegável sinal de que andamos doentes – «doentes de civilização»… É que nós, «civilizopáticos», achamos mal que as pessoas andem nuas pelas cidades porque temos a alma atafulhada de «conceitos-casaco» e «camisas axiológicas», mais «cintos comportamentais», «etiquetas-collants», «sapatos educacionais» e sabe-se lá mais o quê. É que ao invés de usarmos a «civilização» para nos «despir» (das intolerâncias, dos mitos, da hipocrisia e da ineficiência), deixamo-nos «vestir» pelos seus equívocos. E se vemos alguém menos «vestido», ou só «vestido» com o corpo – no fundo, alguém que não caiba nos nossos «guarda-roupas» –, logo achamos «indecente», logo achamos «incivilizado»… 

A verdade é que alguns homens não se vestem porque trazem a alma menos «vestida» do que outros. Alguns podem não saber que a Lua anda à volta da Terra por causa da Gravidade, mas os outros, sabendo isso, que sabem afinal?... Alguns pensam que foi o deus da vida e da morte «abé-chuca-qualquer-coisa» que lhes levou o filho durante a noite, quando afinal foi uma pneumonia – que tratada, não tinha sido fatal. Já outros têm medo que os filhos morram de pneumonia ainda antes de eles a terem, e então, lhes metem químicos pelo «juvenil bucho» – quais bombas radioactivas! – até eles tossirem a saúde que tinham… Os «nus de civilização» talvez sejam homens mais sadios do que nós – pelo menos, não tão doentes... É verdade que se lhes dissermos que a morte não é trazida pelo tal «abé-chuca», eles não acreditam. Mas se depois eles nos retrucam que o chefe guru lhes diz que a morte é apenas uma passagem porque a «Essência» não é perecedoura, nós os rotulamos de supersticiosos ignorantes da Ciência… (E de facto, só aqui entre nós, que os mercados financeiros tenham «Razão», isso eu percebo, mas acreditar no «abé-chuca», tenham paciência!…) 

A verdade… bom, a verdade é que a maioria das características das sociedades primitivas é igualmente certa para as sociedades civilizadas. Vivemos (continuamos a viver) segundo modelos míticos, maniqueístas e etnocêntricos. Esquecemo-nos de que quando adoramos os liberalismos e os socialismos, as democracias europeias e as constituições americanas, o progresso e a modernidade (ou a tradição e a continuidade); quando preferimos até os «hippies» aos «gravatinhas»... não estamos senão a criar a um «deus» e a entregar nas suas mãos a nossa vida; não estamos senão a «vestir-nos» dele e a oferecer-lhe a nossa vontade. 

Afinal, de que me vale poder escrever este texto se a escrita for só um traje para me «civilizar» mais? E de que me vale a percepção deste facto se ele não for um passo real para perceber isto da «Humanidade»?... No fundo, com seriedade: que diferença existe ao certo entre o «abé-chuca» e as farmácias?



2º Prémio
Apoio: Novo Banco, S. A. 
«Nos céus da Cidade»
Luís Pedro Batista de Araújo e Castro
(Amadora)

De vinte em vinte minutos, passa um avião. Ou de dez em dez minutos. Ou de cinco em cinco. Passam aviões o dia todo. Passam durante a noite, com curtas interrupções, por cima de mim. Nem sempre à mesma altitude, calculo, algures na troposfera, onde se formam as nuvens, a neve, a chuva, onde nada se enraíza, onde só as bruxas voam nuas (e uma determinada espécie de abutres), mas tão acima que, felizmente, não corro o risco de ser esmagado ou atingido por um dos seus trens de aterragem; tão acima que a deslocação do ar não faz oscilar um só dos meus cabelos, embora eu sinta tremer o chão, o teto, as paredes. Serão os meus cabelos mais sólidos do que o aço e o cimento?

Tenho a sensação de que nunca passaram tantos aviões como hoje, de que nunca os aviões foram tão ruidosos. Passariam discretamente, com as turbinas embrulhadas em algodão, das outras vezes, ou eu não os ouvia porque estava distraído? Porque é que hoje não consigo ignorá-los? Enchem todo o céu que me cobre, que me contém: casca de ovo, quarta pele, depois da terceira, que é o meu quarto, e da segunda, que é a minha roupa. Saturam-no, riscam-no, rasgam-no, desgastam-no, abrem sulcos na sua superfície (o céu terá superfície?), sulcos iguais aos que os glaciares abrem nas rochas das regiões polares. Sente-se a força que fazem para progredirem e escaparem à implacável força da gravidade.

Dentro em breve, calculo, os aviões substituirão os outros veículos, os terrestres e os aquáticos, nas nossas preferências, tornar-se-ão mais acessíveis, começaremos a utilizá-los para percorrer distâncias insignificantes que poderíamos percorrer de automóvel ou a pé, mas nunca tão depressa: de casa para o local de trabalho, do centro das cidades para os subúrbios, do princípio até ao fim de uma rua. Um futuro cada vez mais aéreo, mais etéreo.

Atrás de um avião, passa logo outro, em fila indiana. Logo, logo, não, respeitam um intervalo de segurança. É provável que seja o mesmo avião, às voltas, à nora, corrigindo a rota, tentando entrar ou sair de um túnel, ladear bandeirolas, iludir os radares, escarnecendo dos controladores que lhe dão indicações a partir da torre de controlo, desviado por piratas, pilotado por amadores, por acrobatas, regressando para se reabastecer ou para ser reparado, depois de dar a volta ao mundo em vinte, dez, cinco minutos. É também provável que passem apenas na minha cabeça: de um ouvido para o outro, mas por dentro, por um fio; de um hemisfério do cérebro para o outro, de neurónio para neurónio, de fibra para fibra, de córtex para córtex. Um pulo, um choque, ligando um som a uma imagem, ligando os sons e as imagens a várias memórias.

Tenho a sensação de que passam todos na mesma direção: saem de um buraco do céu azul-bebé à minha direita, que logo se fecha, e entram num buraco do céu à minha esquerda, que nem se chega a abrir. Como a agulha que conduz a linha ao longo da bainha, traço abaixo, traço acima do tecido. Como os golfinhos: semicírculo abaixo, semicírculo acima da água. Curvatura convexa visível. Curvatura côncava invisível. Passam, portanto, de oeste para leste, acompanhando o movimento de rotação da terra, calculo, porque estou virado para o rio Tejo, de costas para a metade norte de Portugal. Perdoa-me metade norte de Portugal, não te quero mal. Ou estarei de costas para o rio Tejo? Se o meu sentido de orientação estiver correto, estes aviões não estão no princípio, mas no fim ou a meio (quem diz «a meio», diz «a um ou a dois terços…») das suas viagens; nenhum deles parte, todos chegam de longe, dos Açores, da América do Norte, da América Central, da América do Sul, e vão aterrar aqui perto, na Portela. Partirão depois, com um novo magote de passageiros? Sobrevoaram o Atlântico? Sete horas, desde Nova Iorque? Oito horas, desde Caracas? Doze horas, desde Lima, no Peru? Dez horas, desde o Rio de Janeiro? Mais coisa, menos coisa. Sei que os meus cálculos estão errados e que nunca os irei confirmar. Não interessa. Quilómetros e mais quilómetros, altitudes e mais altitudes, céus e mais céus.

Estou sentado no meu quarto, virado para o rio Tejo. Os aviões passam por cima de mim, tão depressa e, no entanto, tão lentamente que a minha mão poderia ultrapassá-los várias vezes se lhes acenasse. Milhares de pessoas passam por cima de mim, pessoas que eu não vejo (embora, provavelmente, parecidas com aquelas que vejo, parecidas comigo), que não veem através dos vidros senão um labirinto de telhados e de estruturas achatadas, entre algumas nuvens, colunas de fumo, uma asa, uma turbina. Pessoas que nunca aqui estiveram: norte-americanos, peruanos, brasileiros, venezuelanos… Nacionalidades e mais nacionalidades. Dialetos e mais dialetos. Fisionomias e mais fisionomias. Portugueses que regressam. Pessoas para quem Lisboa é apenas um ponto de passagem, uma escala, um aeroporto. Terá este capacidade para receber tantos aviões? Serão as suas pistas de aterragem assim tão compridas, os seus hangares assim tão largos?

Estará Lisboa a ser renovada, de vinte em vinte minutos, de dez em dez, de cinco em cinco? Todos os lisboetas (que não são lisboetas, mas nova-iorquinos, cariocas, limenhos, caraquenhos…) com as malas aviadas e os bilhetes pré-comprados, sentados nos seus quartos, à escuta, à espera, ou correndo para a Portela para embarcarem. Quando sair à rua, não encontrarei uma única cara familiar.



3º Prémio
Apoio: Junta de Freguesia de Redondo
«Nós, os pobres.»
Carla Patrícia Pires Martins
(Evoramonte)

Nós, os pobres, sabemos bem qual é o nosso lugar no mundo. Entendemos sem questionar qual é o papel que nos cabe na ordem das coisas, especialmente aqui, neste cantinho da Europa, com varanda privilegiada para o Atlântico.

Conhecemos ao pormenor todos os nossos deveres, pois o Governo há muito nos levou os direitos. Pois, já cá faltava a habitual criticazinha ao Governo.

Gritamos, como ninguém, aquilo que nos vai na alma para que todos saibam que, apesar de pobres, estamos aqui. Mesmo muito, muito pobres, para que não haja margem para qualquer tipo de dúvidas.

Assim, e para quem ainda não nos conhece, cabe-nos dar também a conhecer ao mundo três das principais características com que, por cá, se faz um pobre português.

1ª - Calendário do queixume. Pobre que é pobre em Portugal deve seguir sempre religiosamente o calendário do queixume no qual se indica que todos os dias são bons para se queixarem do Governo, situação económica híper – desfavorável, da crise e da Tróika, menos nos dias em que joga a Selecção, no Carnaval, na Páscoa, no Natal, na Passagem de ano, nos feriados, e, especialmente, no Verão, época durante a qual, pobre que é pobre que se preze deve pegar na família e rumar ao Algarve para entupir o maior número de praias e hotéis possível.

2º - O show off . Pobre que é pobre em Portugal, mostra-se! Usa roupas de marca, algumas, talvez a maioria, compradas na feira ao preço da chuva e montado no topo de gama, em segunda, terceira ou quarta mão, com umas boas décadas em cima, frequenta os bares da moda e os locais do social. Bebe o mesmo copo de qualquer coisa durante a noite inteira e exibe-o pavoneantemente como se fossem vários reffils, entre dois dedos de conversa durante os quais, surpresa, se queixa de que não tem dinheiro!

3º - As dívidas. Pobre não é pobre a sério se não tiver dívidas. A primeira, a renda da casa. Aquela que se fica a dever meses e meses porque não se tem dinheiro para pagar. Casa, já agora, à frente da qual está estacionado o topo de gama anteriormente referido.

Sem esquecer as contas do gás, da água ou da luz que muitas vezes ficam por pagar. Talvez por isso, à falta de água ou electricidade, sejam obrigados a sair de casa, tentando entreter o tempo noutro lado, quiçá na companhia de uma bebida. Bebida essa que, como já se disse, é sempre a mesma e leva horas a deixar o copo.

E assim andamos, nós os pobres, entregues, à desgraça neste país. Já cá faltava a palavra desgraça, sem a qual não seria possível ilustrar, com precisão gráfica, aquilo por que nós, os pobres, temos de passar.

Para terminar, quero apenas partilhar algo que no outro dia ouvi um pobre dizer e que me deixou profundamente repugnada. Disse que pintou um quadrado azul no quintal para que, do Espaço, pensem que ele tem piscina. Ora, este pobre é um pobre falso! Toda a gente sabe que pobre que é pobre em Portugal fotografa a piscina do vizinho e coloca no facebook a dizer que é sua!

15 de abril de 2014

Regulamento do Prémio Literário Hernâni Cidade 2014


Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.


Na edição de 2014 a modalidade é crónica e o tema é livre.


Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.


O trabalho não deverá exceder 2 páginas e será enviado em cinco exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.


O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de umenvelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal enúmero telefónico para eventual contacto.


O trabalho poderá ser entregue:

a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo

b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Municipal Hernâni Cidade 2013
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO

c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento


O prazo de recepção dos trabalhos termina em 1 de Agosto de 2014, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de três elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.


Serão atribuídos

a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.

b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.

c) Prémio Especial Juventude, para o qual só serão tidos em consideração os trabalhos dos concorrentes com idades compreendidas entre os 14 e os 20 anos inclusive.

d) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.


O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.

10º
Os concorrente premiados serão antecipadamente avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia a realizar no dia 25 de Outubro (Sábado), pelas 15 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.

11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.

Organização
Município de Redondo

8 de outubro de 2013

2013 - TRABALHOS PREMIADOS

XVIII PRÉMIO LITERÁRIO HERNÂNI CIDADE 2013

1º PRÉMIO
Apoio: Município de Redondo

Cenas de teatro

Personagens:
BERTOLD BRECHT
SAMUEL BECKETT
VÁRIOS TRANSEUNTES

Primeira cena

Bertold Brecht e Samuel Beckett encontram-se numa rua cheia de transeuntes apressados que se acotovelam quase inconscientemente. Parece um formigueiro. Um e outro – Brecht e Beckett – param e olham para uma parede grafitada onde se lê, em letras vermelhas e garrafais:

«SE HÁ FORMA DE ARTE QUE NECESSITE DE AMBIENTE SOCIAL É O TEATRO»

Beckett aponta o dedo magro.

BECKETT – Quem escreveu isto nunca fez teatro.

Brecht ajusta os óculos de aros pretos.

BRECHT – E no entanto é verdade. Também é verdade que a arte, quando boa, é sempre entretenimento.

BECKETT – E onde está o entretenimento? No ambiente social. Nos hábitos, na vida. A vida é um hábito. O teatro é vida e é morte. Ou seja, o teatro é tudo isso, define-se por uma linha onde vida e morte se confundem, umas vezes uma está por cima e a outra está por baixo e vice-versa. Oscilam e entrelaçam-se como duas cobras com cio.

BRECHT – Então, se viver é uma arte, a arte é uma cobra.

BECKETT – Duas cobras, a arte é vida e é morte. O teatro é isso tudo e precisa de olhos – ambiente social. O teatro precisa de olhos para que o espanto e o deslumbramento resultem, para que a oca, o hipnotismo das cobras deixe paralisados os espectadores e lhes arranque no fim as palmas, os gritos e os assobios, os risos e até os choros, todas as emoções que qualificam o ambiente social.

Alguns transeuntes param para ouvir a conversa, dificultando a marcha apressada dos restantes.

BRECHT – Eu cá acho que quem escreveu isto na parede foi um actor. Porque entre o actor e o público estão as palavras.

BECKETT – O actor gosta de ser engolido pela boca da noite e transformar-se em cuspidor de fogo vomitando palavras acesas.

BRECHT – É-lhe muito fácil ganhar asas, equilibrar-se nos arames suspensos sobre as cabeças pasmadas dos espectadores.

BECKETT – É-lhe muito fácil arreganhar as garras e dilacerar o texto em sangue, dá-lo a beber a quem padece de eterna sede.

Formou-se um círculo em redor dos dois dramaturgos. A rua ficou completamente entupida de espectadores. Ninguém arreda pé. Ninguém pestaneja.

BRECHT – Entre o actor e o público estão as máscaras. O actor é rei, rainha e bobo, cavaleiro de espada em riste.

BECKETT – É-lhe muito simples conquistar o reino do fingimento, é-lhe muito simples abalroar os castelos da indiferença.

BRECHT – O actor é um pistoleiro que dispara sobre o próprio coração, é um fora-da-lei que assalta todos os bancos de máscaras.

BECKETT – O actor é um bicho, um camaleão, um crocodilo – e verte lágrimas.

BRECHT – O actor é o amante de todos os espelhos.

BECKETT – Ri, chora, tem dor, mata e morre.

BRECHT – Morre, mas não morre.

Alguém bate palmas, num acesso de euforia. Foi contagioso: ouvem-se imensas palmas e assobios também.

BECKETT – Vês?... Ambiente social.

BRECHT – Fizemos teatro.

BECKETT – E não somos actores.

Os transeuntes dispersam, retomam a marcha de formigueiro apressado. Brecht e Beckett olham uma última vez a inscrição na parede.

BRECHT – Que vais fazer, Beckett?

BECKETT – Vou ficar por aqui à espera de Godot. E tu, Brecht?

BRECHT – Hum… Enquanto esperas, posso contar-te a vida de Galileu.

Segunda cena

(Ainda por escrever num próximo encontro entre os dois.)

Paulo Jorge Coelho Carreira

(Batalha)

------------------------------------------------------------------------

2º PRÉMIO 
Apoio: BPI e Junta de Freguesia de Redondo


MONÓLOGO DE VARANDA
(Ou um Equívoco Dramatúrgico)

Personagens:
Um homem
Três sujeitos

*

Quadro único
Um homem na varanda de um 1.º andar. Veste pijama e robe.
Figurantes deslocam-se pela rua. Quase noite.

HOMEM: (debruçado na grade da varanda, observando os transeuntes) [apático] Um vulto a
passar… Mais um outro que passa… E nenhum já passa…


(pausa)

[depois de um largo bocejo] Da varanda deste quarto conto vultos a passar…
Ora um, ora dois, agora três… Todos passam, mas tudo se mantém;
Contas e recontas, e tudo a bater certo…
Excepto para nós, pois claro, que sempre contamos às avessas,
Que sempre contamos o certo do incerto…
Mas tudo isto é real, porque os vultos passam mesmo.
Mas nada disto o é também, porque os vultos não são…
[após uma breve pausa, ergue-se e deambula pela varanda] Ai, os passeios, os passeios,
Esses palcos ruidosos nos ouvidos dos extáticos para isto…
E depois há risos ao fundo da rua e a brisa nocturna que ninguém sente…
E depois há os autocarros levando ninguém, com dois ou três fulanos lá dentro…
Um frenesim que acontece aqui tão perto, mas ouvindo-se como uma festa bem distante…
[pára, colocando os braços atrás das costas] Enfim, tudo parece estar certo…


(Um sujeito surge e pára em frente à varanda, interpelando o homem)

SUJEITO PRIMEIRO: Então, homem! Tudo bem contigo?
HOMEM: Cá vamos andando, meu caro amigo. E contigo?
SUJEITO PRIMEIRO: Vamos indo e… vindo… Então e… diz-me lá: quantos já contaste hoje? [ri,
em aparte, para a plateia]
HOMEM: Oh, meu caro amigo, nem eu sei, nem eu sei! Se o soubesse, dir-to-ia!
SUJEITO PRIMEIRO: Pois, acredito [ri de novo]… Enfim, vou indo… Até ‘manhã!
[aparte, enquanto prossegue] Que tonto, meu Deus!
HOMEM: [voltando a debruçar-se sobre a grade] Adeus, meu caro amigo!
[após uma pausa] Mais um vulto a passar… e outro já lá vem… e este já lá vai…
E são vultos de ninguéns a encher esta rua pálida de sentido…
E uns embatem contra si e outros são abalroados por outros…
E outros ainda passam, mas como se não tivessem passado…
[após uma pausa, dirige-se agora claramente à plateia; tom sereno] Pois é, meus amigos…
A minha vida interior é toda esta rua… ou apenas esta rua, se assim preferirem [ri]
Sim, são vultos o que passa, mas é na minha alma que passa.
A cada passada é meu vê-la que lhe dá vida…
É que a vida das coisas, das pessoas, é apenas o seu significado para cada um de nós…
Em verdade, o que torna extremamente difícil a vida com os outros
É que nós tomamos sempre a nossa percepção das coisas pelas coisas em si…


(pausa, enquanto fita o céu.)

[ergue-se, mudando repentinamente para num tom descontraído] Enfim, mas para que hei-de estar aqui a maçar-vos
com estas filosofias que nada são, e para as quais tenho muito pouco jeito?
Afinal, já lá dizia aquele dramaturgo, um tal de Shakespeare,
Que a vida social não era mais do que uma peça de teatro,
Com as suas personagens, os seus cenários, os seus enredos;
No fundo, que se aperfeiçoava a vida como o escritor que aperfeiçoa o seu instinto cénico…
E por isso é que para mim, [em aparte] que me desconheço absolutamente como já devem ter
percebido (ri), é esta rua a minha vida interior…
Mas também por isso, creio, é que todos aqueles que se dizem conhecer,
Apenas se conhecem por reflexo, como actores treinando em frente aos espelhos…
[num tom jocoso] Mas a peça que representam, conhecem-na eles? Ah, pois é!
É que aquilo que o tal de Shakespeare se esqueceu de acrescentar
É que o palco onde a peça acontece é apenas o estrado da alma de cada um de nós…
E que se é ela o palco onde vivemos, é também ela o único palco onde podemos viver…

(após uma breve pausa, outro sujeito se aproxima da varanda)

SUJEITO SEGUNDO: [num tom lamentoso] Boa tarde, amigo. Desculpe incomodar, mas sabe dizer-me
para que lado fica a Avenida da Liberdade?
HOMEM: [com expressividade] Oh!... Se eu o soubesse, dir-lho-ia meu amigo!
Mas que sei eu desta rua para saber em que direcção fica essa Avenida da Liberdade?
SUJEITO SEGUNDO: [perdido, mas no mesmo tom lamentoso] Hã?... Não percebi… Enfim, deixe estar…
[dirigindo-se à plateia, depois de seguir caminho] Sinceramente, as pessoas hoje em dia parece que andam tolas...


(tropeça)

HOMEM: [após uma pausa; com ar descontraído e movendo-se ao longo de toda a varanda] Mas também, confesso-vos,
estou para aqui a falar em teatros, em estrados, em vidas sociais, mas a verdade…
A verdade é que nunca compreendi isto do teatro, das tragédias, dos dramas…
Sim, eu sei: há quem diga que o teatro é uma espécie de ficção de vida,
Sem que a gente saiba, no entanto, o que é isso da ficção,
Pois tínhamos de saber de antemão que era a realidade…
Mas também é verdade, já agora, que os mais antigos, vejam bem!,
[com ar irónico, fingindo majestade] Diziam-no uma alegoria das forças da Vida e da Natureza!…
Seja lá isso da metáfora o que for e a Natureza o que pensemos que seja…
É que, de facto, com esta rua mesmo à minha frente, sempre disponível,
Sempre com a novidade do mesmo paradoxo,
Para que hei-de ir eu ao teatro, ou tentar compreender isso que é o teatro?...
Enfim, para que hei-de trocar de blusa, se nenhuma delas me serve? [ri]


(breve pausa)

[com um ar ligeiramente mais sério] Por isso é que, para mim… Como direi…
[acompanhando com gestos] Toda a vida não é senão a sequência cénica de um drama nunca escrito…
Pois a grande questão, parece-me, é que isto que vos digo
Também não é senão uma metáfora daquilo que eu treino em frente ao espelho…
Bem vistas as coisas (e as metáforas), que vejo eu para lá do espelho?...


(breve pausa)

[suspirando calmamente] Enfim… Isto do teatro da vida, ou da vida que é teatro,
O que é, é mesmo um insuperável paradoxo…
É que se o palco da vida é apenas a nossa alma,
Então o único público possível não seremos nós mesmos?...
Na verdade, parece mesmo que aquilo em que o teatro imita a vida é o próprio paradoxo;
E por isso, é uma peça de teatro tão boa metáfora para a vida…
O paradoxo que há quando eu digo que esta rua é a minha vida interior,
É o mesmo paradoxo da pessoa que me criou personagem nesta pequena peça:
[circunspecto] Escreveu-me defronte ao seu espelho… pensando que vós veríeis para além do vosso…
(Após uma pausa, um terceiro sujeito deverá insurgir-se da plateia, interpelando o homem)
SUJEITO TERCEIRO: Ó amigo!, desculpe interromper-lhe a actuação, que até estava a
gostar…Mas acho que esta sua última conclusão não é bem feita…
HOMEM: [absolutamente surpreendido pela interpelação] Desculpe, como disse? E interrompe assim a peça…
SUJEITO TERCEIRO: [um pouco envergonhado] Sim, desculpe lá a interrupção, mas… É que a sua
conclusão não é a mais clara…
HOMEM: [intrigado] Ora, e porque a não é?
SUJEITO TERCEIRO: É que aquilo a que chama de paradoxo… na verdade, não é um paradoxo…
HOMEM: [contendo-se] Ai não! Então o que é, ora essa?
SUJEITO TERCEIRO: É um equívoco, meu caro amigo… Mas um equívoco seu… [ri serenamente]
HOMEM: [rezingão] Como assim um equívoco meu!?
SUJEITO TERCEIRO: É que… como você, personagem entenda-se, não supera o paradoxo com
que percepciona a vida, lá se foi equivocar quanto ao paradoxo do próprio teatro… Que é, a saber, o
paradoxo de ao mesmo tempo ficcionar uma vida diferente, com agentes e circunstâncias criados,
mas não ter outra fonte que não seja a percepção do dramaturgo sobre a própria vida… Quer a
pretenda imitar, negá-la ou superá-la… Assim, parece mais claro, não acha? [ri de forma serena]
HOMEM: (após um momento de reflexão, dirigindo-se para os bastidores) [frustrado] Bolas!, eu bem
disse que não compreendia esta peça!...

FIM
Finalizado a 24 de Julho de 2013

José Carlos Lopes Nascimento
(Montemor-o-Novo)
-------------------------------------------------------


O Júri deliberou não atribuir 3º Prémio nem Prémio Especial Juventude (artº 9 do Regulamento)

13 de março de 2013

Regulamento do Prémio Literário Hernâni Cidade 2013


Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.


Na edição de 2013 a modalidade é texto em forma de pequena peça ou monólogo e o tema é "Se há forma de arte que necessite de ambiente social (...) é o teatro."


Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.


O trabalho não deverá exceder quatro páginas e será enviado em cinco exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.


O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de umenvelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idademorada com indicação do código postal enúmero telefónico para eventual contacto.


O trabalho poderá ser entregue:

a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo

b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Municipal Hernâni Cidade 2013
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO

c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo 
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento


O prazo de recepção dos trabalhos termina em 26 de Julho de 2013, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de três elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.


Serão atribuídos 

a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.

b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.

c) Prémio Especial Juventude, para o qual só serão tidos em consideração os trabalhos dos concorrentes com idades compreendidas entre os 14 e os 20 anos inclusive.

d) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.


O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.

10º
Os concorrente premiados serão antecipadamente avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia a realizar  no dia 26 de Outubro (Sábado), pelas 15 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.

11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.

Organização
Município de Redondo