| narrativas literárias e pensamento crítico: o homem imagina e depois avança |
Se o mundo corre e galopeia, a literatura é um dos lugares com andamento lento onde se aperfeiçoa o entendimento humano sobre a vida lá fora e cá dentro. Se há tempos contados para acordar, conduzir, operar, rir, abrandar, nas narrativas literárias o tempo alonga-se e encurta-se não pelos ponteiros dum relógio mecânico mas pela imersão num universo emocional e reflexivo. O texto faz comunicar o homem que o criou, o produto social que é em si e os outros que o tomam e recriam, num triângulo essencial ao processo de metamorfose continuada da realidade de cada um, primeiramente, e depois do conjunto societal que somos. Através desta conversação íntima e plural, o texto, feito por um homem e refeito por outros, participa como um elemento constitutivo daquilo que dizemos social e cultural – a arte na vida social estimula a formação de um novo homem, com um novo caleidoscópio para ver o seu próprio mundo. O texto literário é em si um instrumento de identidade, mudança e até mobilização: produto e produtor da cultura, saturado pelos valores e conflitos que se levantam no mundo e no tempo da sua feitura, num discurso que é mais dramático do que epistemológico mas que sugere a reflexividade infinita sobre o saber de cada um, dos outros e do universo. As narrativas literárias, num corpo vivo que é a literatura, agem umas e outras, umas com as outras, e vivem sempre que um homem leitor as vive, cruza, decifra, aceita e deforma. Poderá ser esta a maior função da obra, que só se toma por acabada a cada momento que age e transforma ao despertar sentidos, significados e posicionamentos naquele que a toma e recria. O imaginário individual, historicamente situado, ao ser repensado, questionado e ampliado para a pluralidade da realidade através deste diálogo com o texto e o seu criador, também se faz coletivo pelo relacionamento social entre todos - a literatura pergunta, duvida, sugere, critica, supõe, desfaz e volta a fazer, sem impor verdades mas, sim, alargando-as, deformando-as, o que confirma o motor que é na construção social ao desestabilizar o homem leitor, propondo novos desafios, novos pressupostos, novos enquadramentos. Poder-se-ia dizer que, entre as narrativas literárias e o refazer continuado do pensamento crítico, o homem imagina e depois avança. O homem leitor é levado a pensar a sua condição social no tempo em que a vive, a decifrar signos e a cruzar normas literárias e sociais, a criar e recriar a sua própria realidade através da ficção feita pelo homem criador. Poderá dizer-se que a arte possibilita a experimentação duma outra realidade, duma nova vista sobre a realidade de todos os dias, dum lugar com um andamento mais lento e sem a formatação imposta pelo mundo social e temporal em que vive e atua, aberto a leituras, perguntas e reflexões tão plurais como desconformes. Assim, as narrativas literárias fazem mais um trabalho de desalinho do que alinho, de desassossego do que sossego, de encorajamento ao pensamento crítico do que à conformação. Mesmo sendo a leitura um ato de reflexão solitária e, assim, de distanciamento do mundo, o homem leitor atua no mundo numa cadeia de relações. Um único homem pode mudar outros mil, poder-se-ia dizer poeticamente. É a transformação por osmose, que é a sociedade – um lugar de encontros, de atravessamentos, de influências. Claro que seria ingenuidade tomar literatura como uma ferramenta civilizatória, fazedora de bons homens, talhados pelo pensamento crítico positivo e por um movimento de lealdade e compaixão. A literatura mostra, insinua, suspeita, mas é o homem em si que cria e recria, podendo deixar-se seduzir tanto pelo vilão que aldraba e floresce como pelo vilão que se arrepende e sofre, tanto pelo complacente que se revolta e desvirtua como pelo perverso que se reencontra e absolve. Poder-se-ia dizer que é a realidade do dia a dia como o ar que se respira, um ato continuado de vida que acontece, sem perguntas nem dúvidas, uma operação automática e que só se toma consciência se houver incómodo, quando esse mesmo ar rareia ou se apresenta com propriedades diferentes – assim a literatura, então, que nos faz sentir novos ares, com novos aromas, densidades, temperaturas, e que, ao incomodar o natural que é respirar a realidade, faz duvidar, testar, ponderar, perguntar, tornando o homem leitor mais consciente, também incrédulo, meditativo, capaz, sensível, recriador, transformador, pronto a aceitar outras formas de respirar que não aquela que é instintiva, formas nunca antes sequer imaginadas como possíveis e legítimas. É como a criança que vê outra a pedir esmola na rua – é muito provável que ela ponha a possibilidade de levar a criança pobre para a sua própria casa, onde há mais conforto, alimento, agasalho. No entanto, qualquer adulto não levaria este plano adiante – pensaria na estranheza, nas leis, nas acusações, na família (mesmo que essa mesma família não assegure as condições mínimas). Mas, se nos libertarmos do caleidoscópio que usamos inconscientemente para ver a nossa realidade do dia a dia, poderíamos concordar facilmente que nenhuma criança deveria passar por circunstâncias de desconforto e que seria até sensato levar a criança que pedia esmola na rua para um lugar mais apropriado ao seu bem-estar e desenvolvimento. Poderá ser isto a literatura, com a função social de nos manter acordados, despertos para novas formas de ver e tocar o mundo, de debater o que vivemos já sem duvidar, como se verdades absolutas que noutros tempos seriam também questionadas e até rejeitadas ou nunca afiguradas. Redigamos, então: o homem imagina e depois avança.
MARLENE FERRAZ
(Santa Maria Maior - Viana do Castelo)
20 de outubro de 2012
2012 - 2º Prémio
Cabe, porventura, à literatura uma função social?
Comecemos pelo fim, qual manifestação de intenção do autor enquanto parte interessada e com juízo feito na matéria, apesar de, como é próprio do ensaísta e em consonância com Savater, termos a noção exata de que a dimensão de determinados temas e a sua complexidade nos ultrapassam, levando a que as questões abordadas permaneçam intratáveis e rebeldes na sua essência. São as dúvidas que fazem avançar o mundo, e é a diversidade de opinião que gera a discussão e a busca de soluções. Sim, mas por nós e sem procurar com isso retirar argumentos a quem de outro modo pense, poderíamos retirar desde já à expressão o termo “porventura” e eliminar a interrogação final para que não sobrassem indícios de dúvida nem pairassem sobre o texto dúbias nuvens de incerteza: Cabe à literatura uma função social. Sim!
Dispensem-se pois tubos de ensaio, provetas e pipetas graduadas, morosas culturas em caixas de Petri para proliferação de fungos e bactérias, bicos de Busen efervescendo preparados para apurar no final resultados cientificamente inatacáveis que legitimem a prévia formulação da hipótese para o problema em causa. Atente-se na questão com o espírito livre de protocolos científicos, esgrimam-se em exclusivo argumentos que derivem do livre pensamento e parta-se à defesa da causa, pois esta é a vantagem do ensaio (espécie de ciência sem prova explícita como advogou José Ortega e Gasset) género literário que Montaigne ajudou a criar deambulando e reflectindo em torno das mais variadas ideias, para depois deixar o convite aos seus leitores ou interlocutores para interagirem com as suas ideias nunca acabadas. Deixemos aos cépticos, aos que legitimamente ousem pensar diferente ou o contrário, o ónus da comprovação ou da negação e sejamos claros: Entendendo como Louis Bonald a literatura como uma expressão da sociedade e colocando-a também na condição de fenómeno que concorre para um sistema que a integra, e que é precisamente essa mesma sociedade, é inegável a função social da literatura!
Mas para que não sejamos acusados de peremptórios em demasia (apesar da tentação para sermos categóricos numa matéria em que a convicção tende a falar mais alto do que a razão), façamos como Octávio Paz preconizava e aceitemos também aqui a existência de uma dúvida, que se prende não com a função da literatura na sociedade mas sim com a direcionalidade e natureza dessa função: Será a literatura uma matéria que influencia a sociedade, sendo por essa via percursora e indutora das mudanças que se vão registando nessa mesma sociedade, ou ao invés será ela um produto que resulta dessa mesma sociedade e das suas circunstâncias a cada momento? Terá a literatura uma função transformadora e criadora intrínseca, ou assume-se ela como o produto gerado por determinado contexto? Será a literatura a maior força de um povo, alforge da sua esperança em tempos de desânimo, e daí o temor dos governos? Ou será a literatura um dos instrumentos a que os governos recorrem para se legitimarem e para alcançarem os seus objectivos? Qual o seu papel na sociedade?
Mais uma vez assumidamente, vamos por Emile Zola quando defendeu que os governos suspeitam da literatura dado tratar-se de uma força que lhes escapa. Assim tem sido realmente ao longo dos tempos e todos os regimes tiveram de se haver com o seu Soljenítsin denunciando os seus Gulags. Mas também todos os regimes se souberam sempre rodear dos seus bajuladores, todos os ditadores se fizeram servir por prestimosos biógrafos capazes de engrandecerem e exorbitarem despudoradamente as suas pretensas virtudes como homens de estado...
Qual é então a força da função social da literatura? Uma força claramente na vanguarda das sociedades tal como hoje as conhecemos, uma energia motriz que se alimenta da criatividade e da inteligência, que resulta da reflexão e da ponderação, que se alicerça na razão e na paixão, que pode ser calmaria ou turbilhão, revolta ou revolução, ódio ou amor, negrume ou raio de esperança, mas sempre uma força a que não podemos ficar indiferentes, prova indubitável da sua função social, hoje e sempre. E tudo isto partindo daquele momento de isolamento em que o escritor se vê perante a página em branco e ousa maculá-la com as suas ideias e pensamentos, elaborando inovadores ensaios e elaboradas narrativas. Esse momento em que se desenham no papel os traços, curvas e pontos próprios da firmeza e das incertezas da escrita, é o momento primeiro de um ato de comunicação do escritor para com os seus futuros leitores, que se consubstancia no momento exato em que alguém lê a sua produção. E, sendo um ato de comunicação, tem naturalmente consequências que resultam da interacção entre o que foi escrito e aquilo que é lido, o que sendo aparentemente uma mesma coisa, não o é de facto na medida em que a mensagem em causa não é percepcionada do mesmo modo por quem a escreveu e por quem a leu, sendo que neste último caso temos, acrescidamente, de pensar plural.
Como nos disse afinal Hernâni Cidade, tudo quanto intervenha na modelação do indivíduo promovendo o enriquecimento da sua consciência, intervirá, em maior ou menor grau, na modelação social. O mesmo afirmamos nós, também a propósito da literatura. Que venham outros, e afirmem o contrário.
JOÃO MANUEL CHAMBEL GONÇALVES PEDRO
(Montijo)
Comecemos pelo fim, qual manifestação de intenção do autor enquanto parte interessada e com juízo feito na matéria, apesar de, como é próprio do ensaísta e em consonância com Savater, termos a noção exata de que a dimensão de determinados temas e a sua complexidade nos ultrapassam, levando a que as questões abordadas permaneçam intratáveis e rebeldes na sua essência. São as dúvidas que fazem avançar o mundo, e é a diversidade de opinião que gera a discussão e a busca de soluções. Sim, mas por nós e sem procurar com isso retirar argumentos a quem de outro modo pense, poderíamos retirar desde já à expressão o termo “porventura” e eliminar a interrogação final para que não sobrassem indícios de dúvida nem pairassem sobre o texto dúbias nuvens de incerteza: Cabe à literatura uma função social. Sim!
Dispensem-se pois tubos de ensaio, provetas e pipetas graduadas, morosas culturas em caixas de Petri para proliferação de fungos e bactérias, bicos de Busen efervescendo preparados para apurar no final resultados cientificamente inatacáveis que legitimem a prévia formulação da hipótese para o problema em causa. Atente-se na questão com o espírito livre de protocolos científicos, esgrimam-se em exclusivo argumentos que derivem do livre pensamento e parta-se à defesa da causa, pois esta é a vantagem do ensaio (espécie de ciência sem prova explícita como advogou José Ortega e Gasset) género literário que Montaigne ajudou a criar deambulando e reflectindo em torno das mais variadas ideias, para depois deixar o convite aos seus leitores ou interlocutores para interagirem com as suas ideias nunca acabadas. Deixemos aos cépticos, aos que legitimamente ousem pensar diferente ou o contrário, o ónus da comprovação ou da negação e sejamos claros: Entendendo como Louis Bonald a literatura como uma expressão da sociedade e colocando-a também na condição de fenómeno que concorre para um sistema que a integra, e que é precisamente essa mesma sociedade, é inegável a função social da literatura!
Mas para que não sejamos acusados de peremptórios em demasia (apesar da tentação para sermos categóricos numa matéria em que a convicção tende a falar mais alto do que a razão), façamos como Octávio Paz preconizava e aceitemos também aqui a existência de uma dúvida, que se prende não com a função da literatura na sociedade mas sim com a direcionalidade e natureza dessa função: Será a literatura uma matéria que influencia a sociedade, sendo por essa via percursora e indutora das mudanças que se vão registando nessa mesma sociedade, ou ao invés será ela um produto que resulta dessa mesma sociedade e das suas circunstâncias a cada momento? Terá a literatura uma função transformadora e criadora intrínseca, ou assume-se ela como o produto gerado por determinado contexto? Será a literatura a maior força de um povo, alforge da sua esperança em tempos de desânimo, e daí o temor dos governos? Ou será a literatura um dos instrumentos a que os governos recorrem para se legitimarem e para alcançarem os seus objectivos? Qual o seu papel na sociedade?
Mais uma vez assumidamente, vamos por Emile Zola quando defendeu que os governos suspeitam da literatura dado tratar-se de uma força que lhes escapa. Assim tem sido realmente ao longo dos tempos e todos os regimes tiveram de se haver com o seu Soljenítsin denunciando os seus Gulags. Mas também todos os regimes se souberam sempre rodear dos seus bajuladores, todos os ditadores se fizeram servir por prestimosos biógrafos capazes de engrandecerem e exorbitarem despudoradamente as suas pretensas virtudes como homens de estado...
Qual é então a força da função social da literatura? Uma força claramente na vanguarda das sociedades tal como hoje as conhecemos, uma energia motriz que se alimenta da criatividade e da inteligência, que resulta da reflexão e da ponderação, que se alicerça na razão e na paixão, que pode ser calmaria ou turbilhão, revolta ou revolução, ódio ou amor, negrume ou raio de esperança, mas sempre uma força a que não podemos ficar indiferentes, prova indubitável da sua função social, hoje e sempre. E tudo isto partindo daquele momento de isolamento em que o escritor se vê perante a página em branco e ousa maculá-la com as suas ideias e pensamentos, elaborando inovadores ensaios e elaboradas narrativas. Esse momento em que se desenham no papel os traços, curvas e pontos próprios da firmeza e das incertezas da escrita, é o momento primeiro de um ato de comunicação do escritor para com os seus futuros leitores, que se consubstancia no momento exato em que alguém lê a sua produção. E, sendo um ato de comunicação, tem naturalmente consequências que resultam da interacção entre o que foi escrito e aquilo que é lido, o que sendo aparentemente uma mesma coisa, não o é de facto na medida em que a mensagem em causa não é percepcionada do mesmo modo por quem a escreveu e por quem a leu, sendo que neste último caso temos, acrescidamente, de pensar plural.
Como nos disse afinal Hernâni Cidade, tudo quanto intervenha na modelação do indivíduo promovendo o enriquecimento da sua consciência, intervirá, em maior ou menor grau, na modelação social. O mesmo afirmamos nós, também a propósito da literatura. Que venham outros, e afirmem o contrário.
JOÃO MANUEL CHAMBEL GONÇALVES PEDRO
(Montijo)
2012 - 3º Prémio
O QUE ESPERAR DA ESCRITA VS. LEITURA?
Deve reconhecer-se à literatura função mais vasta (e, dir-se-á, mais nobre) do que a de simples entretenimento? É função da literatura influenciar quem dela frui, de forma que quem lê interpele e seja interpelado, num claro debate das ideias que ressaltem da leitura? Não será esse debate que, implicando, embora, empenhamento e mobilização, acaba por desembocar no maior dos gozos, porque partilhado e discutido? Não faltará quem, militantemente, negue à literatura qualquer interferência na sociedade. Como abundará quem defenda conceito absolutamente contrário. Poderá de tal dicotomia resultar consenso? E será importante o consenso? Será importante, ao menos, ter opinião formada após a leitura? A total ausência de reacção não geraria um vazio desmotivador a sugerir o abandono do exercício da mesma leitura?
Dificilmente algo na vida resulta completamente inconsequente. Mesmo que tal pareça, no imediato. Se, no caso em apreço, a leitura não provocar reacção, espanto, revolta, adesão, repulsa, algo assim, levará, inevitavelmente, ao tédio, ao fastio, ao afastamento. Ainda assim, uma atitude. Em última análise concluir-se-á estarmos perante algo que nada terá de literatura, apenas mero sequenciar de palavras, desprezível porque inócuo.
"Escrever é uma forma socialmente aceite de esquizofrenia" (Doctorow). Será? E a leitura? Será a "aceitação" da escrita, o seu uso, totalmente racional? Quem é mais ou menos louco ou, dizendo-o de forma menos agressiva, mais ou menos atreito a sentimentos incomuns gerados pela escrita? Onde entram as emoções no processo?
Sobram testemunhos sobre o sofrimento que é, tantas vezes, escrever. E o gozo, outras tantas. Ou as duas, em simultâneo. Nunca ouvi de alguém que escrever o deixe indiferente. Quem escreve (sobretudo no conceito de escrita mais válida, da que legitimamente pode chamar-se literatura) pode até inventar uma estória, mas há-de meter-lhe vida dentro. Não acredito na total ficção. Não acredito na escrita que não dói e (ou) não consola, na escrita que não agride e (ou) não acaricia. Acredito firmemente que a aparente invenção na escrita é, apenas, aparente. A escrita que interpela não inventa em absoluto. Reproduz, veste uma qualquer realidade com o fato que o autor talha. Mas o tecido já existia (muitas vezes em simples e curtos retalhos?) porventura com outra forma, com cores menos apelativas, menos provocatórias. Entre a calma criação e o quase (quase?) delírio o autor há-de estabelecer com o leitor uma interacção/conivência de função socialmente viva e consequente. A escrita há-de "mexer" com o leitor, há-de enleá-lo na sua malha, obviamente com diferentes graus de intensidade. O leitor há-de aderir ou repelir, numa atitude, em qualquer dos casos, de envolvimento. Inteiramente racional? (perguntava eu mais atrás). Não creio. A escrita que "fica", que permanece no tempo, há-de ser a que procura, tantas vezes no quase absurdo, um mundo outro, mais á frente. Porque a criação na escrita situa-se sempre antes do "seu" leitor. Quanto antes? Não creio que se saiba, porque muito variável. No limite não serão, sequer, contemporâneos. Acontece bastas vezes... Sinal inequívoco de que a escrita exerce a sua função resulta da partilha de quem lê. Quanto mais a escrita (a leitura) é conversada, comentada, debatida, criticada, mais evidente se torna a sua função social, a sua interacção com a sociedade a que se destina. No extremo se não mexe, se não incomoda, não existe.
Em contraponto perguntar-se-á se - em tempos conturbados, carregados de preocupações a que não conseguimos fugir - faz sentido, por outro lado, procurar, voluntariamente, numa espécie de auto-flagelação, inquietações acrescidas, evitáveis e, tantas vezes, distantes no espaço e/ou no tempo? Não bastará à literatura assumir-se como mero veículo de prazer, descontracção e relaxamento? Nos diversos graus de envolvimento atribuíveis aos leitores, tão diversos entre si no grau de exigência e na capacidade crítica, pode a literatura desempenhar sempre uma função válida e útil? Pode pedir-se-lhe, exigir-se-lhe, essa responsabilidade? Entendo que sim. O sofrimento, a inquietação, o envolvimento emotivo com a escrita, são "coisas boas". Pode o sofrimento ser bom? Pode e, no caso, é! Atentemos no leitor a quem a leitura arranca uma quase lágrima. Se sobrevier um comentário será de consolo, tantas vezes a raiar o êxtase. E não me refiro, obviamente, só à lágrima fácil, arrancada ao leitor por processos estereotipados, de há muito conhecidos e praticados. Mas, também aí, a escrita exerce a sua função social e tem os seus defensores indefectíveis. No conceito "leitor", em abstracto, cabe um vasto leque de sensibilidades, expectativas e exigências. A cada "leitor" a "sua" literatura? Sem dúvida! Se boa ou má não cabe aqui a questão.
Do que fica dito ressalta a convicção de que na literatura interessa o que "se diz" e "como se diz". Quanto mais importante é uma vertente em relação à outra? Deixemo-las a par. O leitor há-de valorizá-las, caso a caso, segundo o seu vário e muito respeitável critério e prender-se-á tanto mais à estória quanto mais ela seja, por si mesma, mobilizadora e envolvente, quanto mais próxima se encontre das suas expectativas e quanto mais lhe seja apresentada em narrativa competente, artisticamente ornamentada e próxima duma realidade possível e coerente.
E a resposta é sim! Em definitivo! À literatura cabe sempre um papel eminentemente social.
JOAQUIM DA CONCEIÇÃO BARÃO RATO
(Beja)
Deve reconhecer-se à literatura função mais vasta (e, dir-se-á, mais nobre) do que a de simples entretenimento? É função da literatura influenciar quem dela frui, de forma que quem lê interpele e seja interpelado, num claro debate das ideias que ressaltem da leitura? Não será esse debate que, implicando, embora, empenhamento e mobilização, acaba por desembocar no maior dos gozos, porque partilhado e discutido? Não faltará quem, militantemente, negue à literatura qualquer interferência na sociedade. Como abundará quem defenda conceito absolutamente contrário. Poderá de tal dicotomia resultar consenso? E será importante o consenso? Será importante, ao menos, ter opinião formada após a leitura? A total ausência de reacção não geraria um vazio desmotivador a sugerir o abandono do exercício da mesma leitura?
Dificilmente algo na vida resulta completamente inconsequente. Mesmo que tal pareça, no imediato. Se, no caso em apreço, a leitura não provocar reacção, espanto, revolta, adesão, repulsa, algo assim, levará, inevitavelmente, ao tédio, ao fastio, ao afastamento. Ainda assim, uma atitude. Em última análise concluir-se-á estarmos perante algo que nada terá de literatura, apenas mero sequenciar de palavras, desprezível porque inócuo.
"Escrever é uma forma socialmente aceite de esquizofrenia" (Doctorow). Será? E a leitura? Será a "aceitação" da escrita, o seu uso, totalmente racional? Quem é mais ou menos louco ou, dizendo-o de forma menos agressiva, mais ou menos atreito a sentimentos incomuns gerados pela escrita? Onde entram as emoções no processo?
Sobram testemunhos sobre o sofrimento que é, tantas vezes, escrever. E o gozo, outras tantas. Ou as duas, em simultâneo. Nunca ouvi de alguém que escrever o deixe indiferente. Quem escreve (sobretudo no conceito de escrita mais válida, da que legitimamente pode chamar-se literatura) pode até inventar uma estória, mas há-de meter-lhe vida dentro. Não acredito na total ficção. Não acredito na escrita que não dói e (ou) não consola, na escrita que não agride e (ou) não acaricia. Acredito firmemente que a aparente invenção na escrita é, apenas, aparente. A escrita que interpela não inventa em absoluto. Reproduz, veste uma qualquer realidade com o fato que o autor talha. Mas o tecido já existia (muitas vezes em simples e curtos retalhos?) porventura com outra forma, com cores menos apelativas, menos provocatórias. Entre a calma criação e o quase (quase?) delírio o autor há-de estabelecer com o leitor uma interacção/conivência de função socialmente viva e consequente. A escrita há-de "mexer" com o leitor, há-de enleá-lo na sua malha, obviamente com diferentes graus de intensidade. O leitor há-de aderir ou repelir, numa atitude, em qualquer dos casos, de envolvimento. Inteiramente racional? (perguntava eu mais atrás). Não creio. A escrita que "fica", que permanece no tempo, há-de ser a que procura, tantas vezes no quase absurdo, um mundo outro, mais á frente. Porque a criação na escrita situa-se sempre antes do "seu" leitor. Quanto antes? Não creio que se saiba, porque muito variável. No limite não serão, sequer, contemporâneos. Acontece bastas vezes... Sinal inequívoco de que a escrita exerce a sua função resulta da partilha de quem lê. Quanto mais a escrita (a leitura) é conversada, comentada, debatida, criticada, mais evidente se torna a sua função social, a sua interacção com a sociedade a que se destina. No extremo se não mexe, se não incomoda, não existe.
Em contraponto perguntar-se-á se - em tempos conturbados, carregados de preocupações a que não conseguimos fugir - faz sentido, por outro lado, procurar, voluntariamente, numa espécie de auto-flagelação, inquietações acrescidas, evitáveis e, tantas vezes, distantes no espaço e/ou no tempo? Não bastará à literatura assumir-se como mero veículo de prazer, descontracção e relaxamento? Nos diversos graus de envolvimento atribuíveis aos leitores, tão diversos entre si no grau de exigência e na capacidade crítica, pode a literatura desempenhar sempre uma função válida e útil? Pode pedir-se-lhe, exigir-se-lhe, essa responsabilidade? Entendo que sim. O sofrimento, a inquietação, o envolvimento emotivo com a escrita, são "coisas boas". Pode o sofrimento ser bom? Pode e, no caso, é! Atentemos no leitor a quem a leitura arranca uma quase lágrima. Se sobrevier um comentário será de consolo, tantas vezes a raiar o êxtase. E não me refiro, obviamente, só à lágrima fácil, arrancada ao leitor por processos estereotipados, de há muito conhecidos e praticados. Mas, também aí, a escrita exerce a sua função social e tem os seus defensores indefectíveis. No conceito "leitor", em abstracto, cabe um vasto leque de sensibilidades, expectativas e exigências. A cada "leitor" a "sua" literatura? Sem dúvida! Se boa ou má não cabe aqui a questão.
Do que fica dito ressalta a convicção de que na literatura interessa o que "se diz" e "como se diz". Quanto mais importante é uma vertente em relação à outra? Deixemo-las a par. O leitor há-de valorizá-las, caso a caso, segundo o seu vário e muito respeitável critério e prender-se-á tanto mais à estória quanto mais ela seja, por si mesma, mobilizadora e envolvente, quanto mais próxima se encontre das suas expectativas e quanto mais lhe seja apresentada em narrativa competente, artisticamente ornamentada e próxima duma realidade possível e coerente.
E a resposta é sim! Em definitivo! À literatura cabe sempre um papel eminentemente social.
JOAQUIM DA CONCEIÇÃO BARÃO RATO
(Beja)
2012 - Menção Honrosa
OS LIVROS TÊM MAIS DO QUE PALAVRAS POR DENTRO
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Têm o mundo íntimo de alguém que encontra na folha em branco o maior abrigo, o maior colo e o maior abraço. Quando sozinho esculpe o seu silêncio no papel, o interior flui como um afluente e parece que se consegue pôr à distância, que é de longe que se vê mais perto. E quem aquele interior lê pelos seus próprios olhos, não o vê como o autor o escreveu. É que não vemos o mundo como ele é, nós vemos o mundo como somos. E muitas vezes, por sermos frutos similares da condição humana, conseguimos ver o nosso reflexo numa metáfora pertinente, numa ideia que parece ter brotado de nós próprios, numa questão que também a nós interroga. Os livros comem-nos o tempo tão bem! Não só os mais gordos, até mesmo aqueles que parecem anémicos e que se leem sem que precisemos de piscar os olhos uma única vez. A sua erudição sagaz em fazer companhia torna-os amigos de longas horas de café. Os livros são um bilhete para uma viagem, são o melhor meio para evadir de dentro de quatro paredes.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Têm a fantasia, a criação, o talento, a transcendência, a ficção, a quimera, o anseio e a arte. São as telas dos pintores, as pautas dos músicos, as coreografias dos dançarinos, as plantas dos arquitetos, são as estátuas dos escultores! Têm o que não existe à frente dos nossos olhos mas que existe atrás deles, no terreno fértil da imaginação, onde sonhamos, fantasiamos, devaneamos e divagamos por terras que não existem, com pessoas que não conhecemos a uma hora sem tempo. São eles que não nos deixam soltar do apetite imaginativo da infância.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Têm o conhecimento da investigação e das descobertas, têm o saber de quem estuda e escreve para quem fica não cair nos mesmos erros, ou para poder partir de um nível superior na sua própria demanda pelo conhecimento. Quando, numa sala, todos pensam da mesma maneira, então há alguém que não está a pensar. Somente se limita a imitar o que outro pensa. Será, certamente, o livro uma base de lançamento para o pensamento crítico, nunca uma base de reprodução.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Contam os anos da nossa história, relembram-nos diariamente de onde vimos, porque vimos e porque cá estamos. Que passos demos e que passos ficaram por dar. Sussurram, ao ouvido, o outrora de um povo criando-lhe um sentido patriótico de identidade e lealdade, não deixando nunca cair no esquecimento quem, por obras valerosas, se liberta da lei da morte, como diria Camões que dela se desatou.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Condensam a sociedade que os escreve e que cria a cultura onde se inserem. Nas suas páginas está o clima que os acolhe e o Zeitgeist intelectual que os envolve. São o reflexo de movimentos revolucionários, o espelho de paradigmas de pensamento, a cópia de ideias dominantes, simulacros de um contexto que não se apaga ou esmorece.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. São um bisturi social ao serviço de todos os seres humanos que, por sua vez, coexistem numa sociedade onde estabelecem interações necessárias à vida. A literatura tem um impacto tremendo do ponto de vista social pois cada livro protege, no seu âmago, uma ideia. E, como sabemos, as ideias são à prova de bala, não perecendo, pois, por meio de um assassinato comum. Cada ideia é uma arma do seu autor, indestrutível do ponto de vista tangível e físico. Produções literárias como A Bíblia, A Origem das Espécies, Manifesto Comunista, Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo, entre muitos outros, marcaram a humanidade de uma forma aterradora, contribuindo para grandiosas mudanças do pensamento individual, grupal, social e societal. Estas incontornáveis obras históricas trouxeram revoluções irrevogáveis, originaram novas crenças e seitas das quais algumas perduram até hoje, ultrapassaram paradigmas científicos vigentes, fuzilaram mitos enraizados por várias gerações, abalaram hierarquias sociais, reformularam o rumo da história. No entanto, não precisamos de rumar tão longe para ver o quanto a literatura pode condicionar as pessoas e as suas relações. (Simples não tem de significar superficial nem profundo tem de significar complexo). Um conto para adormecer o menino estimula a maternidade e fortalece os laços familiares, cartas de amor podem desvanecer a triste dor da ausência e assegurar um até que a morte nos separe, a poesia une os corações dos poetas. Ao conhecer perspetivas demonstradas num romance, uma pessoa toma esse conhecimento como se o tivesse adquirido pela sua própria experiência. A gente sábia sabe fazer isso, aprende pelos erros dos outros, evita ter de os cometer. Esses conhecimentos – que os livros nos dão para sempre – irão converter-se em modos de agir perante o mundo que nos rodeia e perante as pessoas. Os nossos pensamentos podem ser condicionados pela literatura e transformarem-se em palavras ditas. Da nossa boca aos nossos atos é um passo e, rapidamente, essas ações tornam-se hábitos. Se assim acontecer, enraízam-se e transformam-se em caráter. Em tudo o que pensamos, nós nos tornamos. As letras têm esta capacidade fabulosa de nos tocarem, sem obstáculos, o pensamento.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Cabe, em si, a humanidade no mundo.
DIOGO RAFAEL VEIGA CARREIRAS
(Coimbra)
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Têm o mundo íntimo de alguém que encontra na folha em branco o maior abrigo, o maior colo e o maior abraço. Quando sozinho esculpe o seu silêncio no papel, o interior flui como um afluente e parece que se consegue pôr à distância, que é de longe que se vê mais perto. E quem aquele interior lê pelos seus próprios olhos, não o vê como o autor o escreveu. É que não vemos o mundo como ele é, nós vemos o mundo como somos. E muitas vezes, por sermos frutos similares da condição humana, conseguimos ver o nosso reflexo numa metáfora pertinente, numa ideia que parece ter brotado de nós próprios, numa questão que também a nós interroga. Os livros comem-nos o tempo tão bem! Não só os mais gordos, até mesmo aqueles que parecem anémicos e que se leem sem que precisemos de piscar os olhos uma única vez. A sua erudição sagaz em fazer companhia torna-os amigos de longas horas de café. Os livros são um bilhete para uma viagem, são o melhor meio para evadir de dentro de quatro paredes.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Têm a fantasia, a criação, o talento, a transcendência, a ficção, a quimera, o anseio e a arte. São as telas dos pintores, as pautas dos músicos, as coreografias dos dançarinos, as plantas dos arquitetos, são as estátuas dos escultores! Têm o que não existe à frente dos nossos olhos mas que existe atrás deles, no terreno fértil da imaginação, onde sonhamos, fantasiamos, devaneamos e divagamos por terras que não existem, com pessoas que não conhecemos a uma hora sem tempo. São eles que não nos deixam soltar do apetite imaginativo da infância.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Têm o conhecimento da investigação e das descobertas, têm o saber de quem estuda e escreve para quem fica não cair nos mesmos erros, ou para poder partir de um nível superior na sua própria demanda pelo conhecimento. Quando, numa sala, todos pensam da mesma maneira, então há alguém que não está a pensar. Somente se limita a imitar o que outro pensa. Será, certamente, o livro uma base de lançamento para o pensamento crítico, nunca uma base de reprodução.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Contam os anos da nossa história, relembram-nos diariamente de onde vimos, porque vimos e porque cá estamos. Que passos demos e que passos ficaram por dar. Sussurram, ao ouvido, o outrora de um povo criando-lhe um sentido patriótico de identidade e lealdade, não deixando nunca cair no esquecimento quem, por obras valerosas, se liberta da lei da morte, como diria Camões que dela se desatou.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Condensam a sociedade que os escreve e que cria a cultura onde se inserem. Nas suas páginas está o clima que os acolhe e o Zeitgeist intelectual que os envolve. São o reflexo de movimentos revolucionários, o espelho de paradigmas de pensamento, a cópia de ideias dominantes, simulacros de um contexto que não se apaga ou esmorece.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. São um bisturi social ao serviço de todos os seres humanos que, por sua vez, coexistem numa sociedade onde estabelecem interações necessárias à vida. A literatura tem um impacto tremendo do ponto de vista social pois cada livro protege, no seu âmago, uma ideia. E, como sabemos, as ideias são à prova de bala, não perecendo, pois, por meio de um assassinato comum. Cada ideia é uma arma do seu autor, indestrutível do ponto de vista tangível e físico. Produções literárias como A Bíblia, A Origem das Espécies, Manifesto Comunista, Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo, entre muitos outros, marcaram a humanidade de uma forma aterradora, contribuindo para grandiosas mudanças do pensamento individual, grupal, social e societal. Estas incontornáveis obras históricas trouxeram revoluções irrevogáveis, originaram novas crenças e seitas das quais algumas perduram até hoje, ultrapassaram paradigmas científicos vigentes, fuzilaram mitos enraizados por várias gerações, abalaram hierarquias sociais, reformularam o rumo da história. No entanto, não precisamos de rumar tão longe para ver o quanto a literatura pode condicionar as pessoas e as suas relações. (Simples não tem de significar superficial nem profundo tem de significar complexo). Um conto para adormecer o menino estimula a maternidade e fortalece os laços familiares, cartas de amor podem desvanecer a triste dor da ausência e assegurar um até que a morte nos separe, a poesia une os corações dos poetas. Ao conhecer perspetivas demonstradas num romance, uma pessoa toma esse conhecimento como se o tivesse adquirido pela sua própria experiência. A gente sábia sabe fazer isso, aprende pelos erros dos outros, evita ter de os cometer. Esses conhecimentos – que os livros nos dão para sempre – irão converter-se em modos de agir perante o mundo que nos rodeia e perante as pessoas. Os nossos pensamentos podem ser condicionados pela literatura e transformarem-se em palavras ditas. Da nossa boca aos nossos atos é um passo e, rapidamente, essas ações tornam-se hábitos. Se assim acontecer, enraízam-se e transformam-se em caráter. Em tudo o que pensamos, nós nos tornamos. As letras têm esta capacidade fabulosa de nos tocarem, sem obstáculos, o pensamento.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Cabe, em si, a humanidade no mundo.
DIOGO RAFAEL VEIGA CARREIRAS
(Coimbra)
2012 - Menção Honrosa
"Cabe, porventura, à literatura uma função social?" - Pensar que a resposta a esta questão se resume num simples “sim” ou “não”, é reduzir toda uma imensa paleta de cores - repleta de miríades de tonalidades - a duas únicas cores: “preto” e “branco”. É compactar toda uma orquestra sinfónica, num único instrumento. É admitir que na vida só são possíveis os “zeros” e os “uns” e desconhecer que entre o “zero” e o “um” existem uma infinidade de números e de estados intermédios. Portanto, caberá certamente à literatura uma função social, mas a mesma não se esgota, nem restringe o seu campo de ação a uma função social. Tal como os navegadores portugueses quinhentistas que não se ficaram pelas águas cálidas do Atlântico, mas passaram o cabo das Tormentas e avançaram “inda além da Taprobana”; assim, também, a literatura aporta mais além do que a mera função social.
Na literatura, o autor, recorrendo aos mais variados artifícios, vai mostrando distintas realidades, algumas das quais estão para além do conhecimento ou do dia a dia do leitor. Mas, o escritor faz mais do que se limitar a mostrar as existências desconhecidas: sub-repticiamente transformado em “escritor-pescador”, ele vai lançar a linha com um apetitoso isco, agitando-o levemente, até que o “leitor-peixe” o agarre. A partir daí, e como exímio pescador que é, o autor vai desenrolando lentamente a linha da sua cana de pesca, tentando que a sua presa não se solte do anzol, procurando conduzir o seu futuro troféu de pesca até bem junto de si, para o capturar. - Por vezes, o autor não é tão exímio pescador como pensa e o leitor-peixe escapa-se do anzol. - Capturado o leitor, a literatura transforma-se num intricado labirinto. O próprio leitor, que mordeu o isco (com linha e tudo mais), vai agora procurar descobrir onde o “criador” do labirinto o quer levar. Qual Teseu, vai-se valer do fio - que para o autor-pescador era o da cana de pesca - e segui-lo, convencido que existirá uma Ariadne que lhe mostrará a saída e que o irá salvar do temível Minotauro que, algures, o procura devorar. Por essa altura, já a literatura extravasou a mera função social. Já se tornou um medir de forças entre autor e leitor. Transmutou-se num tango dançado com veemência. Metamorfoseou-se num passatempo lúdico que transportará o leitor a novos mundos – reais ou imaginários.
A literatura também aproxima os indivíduos: um pouco por todo o mundo as pessoas juntam-se em grupos, ou em tertúlias, para analisarem e estudarem a obra de um dado autor. Similarmente, as diversas religiões organizam-se e reúnem os seus fiéis em torno dos seus livros sagrados: os cristãos em volta da Bíblia; os judeus em volta do Pentateuco e do Talmude; os muçulmanos em torno do Corão; os mórmones em torno do “Livro de Mórmon”.
Também se pode atribuir à literatura a responsabilidade de agregar e manter coesas as nações do mundo. Isto porque, em cada país, a constituição e os códigos a ela agregados, mantêm e definem os direitos e as obrigações dos indivíduos, enquanto cidadãos, e os do respetivo estado.
A literatura - independentemente da forma como aparece: em prosa ou em poesia; em romance ou em conto; como força de lei ou como meio lúdico - extravasou as fronteiras da mera ação social e tornou-se em um excelente indicador da cultura e da qualidade de um povo: um povo que lê muito e que lê bons livros será um povo mais rico. Todavia, convém salientar uma frase já muito batida, mas muito atual: a verdadeira riqueza de um povo não é contabilizada pelo dinheiro que possui ou pela capacidade de gerar dinheiro e bens materiais. A riqueza de um povo é refletida num espírito aberto e na capacidade para avançar para o futuro, aprendendo com os erros do passado e enfrentando os desafios do presente. Mas isso, só será possível com a multifacetada literatura, fiel depositária da história da humanidade, dos sonhos, dos pesadelos, do mal e do bem, das descobertas e das invenções; permitindo que a todo o momento se aceda à sua grande biblioteca e conduzindo a que haja uma maior tolerância interpessoal, fomentando a paz e harmonia global.
JOÃO MANUEL DA SILVA ROGACIANO
(Alverca)
Na literatura, o autor, recorrendo aos mais variados artifícios, vai mostrando distintas realidades, algumas das quais estão para além do conhecimento ou do dia a dia do leitor. Mas, o escritor faz mais do que se limitar a mostrar as existências desconhecidas: sub-repticiamente transformado em “escritor-pescador”, ele vai lançar a linha com um apetitoso isco, agitando-o levemente, até que o “leitor-peixe” o agarre. A partir daí, e como exímio pescador que é, o autor vai desenrolando lentamente a linha da sua cana de pesca, tentando que a sua presa não se solte do anzol, procurando conduzir o seu futuro troféu de pesca até bem junto de si, para o capturar. - Por vezes, o autor não é tão exímio pescador como pensa e o leitor-peixe escapa-se do anzol. - Capturado o leitor, a literatura transforma-se num intricado labirinto. O próprio leitor, que mordeu o isco (com linha e tudo mais), vai agora procurar descobrir onde o “criador” do labirinto o quer levar. Qual Teseu, vai-se valer do fio - que para o autor-pescador era o da cana de pesca - e segui-lo, convencido que existirá uma Ariadne que lhe mostrará a saída e que o irá salvar do temível Minotauro que, algures, o procura devorar. Por essa altura, já a literatura extravasou a mera função social. Já se tornou um medir de forças entre autor e leitor. Transmutou-se num tango dançado com veemência. Metamorfoseou-se num passatempo lúdico que transportará o leitor a novos mundos – reais ou imaginários.
A literatura também aproxima os indivíduos: um pouco por todo o mundo as pessoas juntam-se em grupos, ou em tertúlias, para analisarem e estudarem a obra de um dado autor. Similarmente, as diversas religiões organizam-se e reúnem os seus fiéis em torno dos seus livros sagrados: os cristãos em volta da Bíblia; os judeus em volta do Pentateuco e do Talmude; os muçulmanos em torno do Corão; os mórmones em torno do “Livro de Mórmon”.
Também se pode atribuir à literatura a responsabilidade de agregar e manter coesas as nações do mundo. Isto porque, em cada país, a constituição e os códigos a ela agregados, mantêm e definem os direitos e as obrigações dos indivíduos, enquanto cidadãos, e os do respetivo estado.
A literatura - independentemente da forma como aparece: em prosa ou em poesia; em romance ou em conto; como força de lei ou como meio lúdico - extravasou as fronteiras da mera ação social e tornou-se em um excelente indicador da cultura e da qualidade de um povo: um povo que lê muito e que lê bons livros será um povo mais rico. Todavia, convém salientar uma frase já muito batida, mas muito atual: a verdadeira riqueza de um povo não é contabilizada pelo dinheiro que possui ou pela capacidade de gerar dinheiro e bens materiais. A riqueza de um povo é refletida num espírito aberto e na capacidade para avançar para o futuro, aprendendo com os erros do passado e enfrentando os desafios do presente. Mas isso, só será possível com a multifacetada literatura, fiel depositária da história da humanidade, dos sonhos, dos pesadelos, do mal e do bem, das descobertas e das invenções; permitindo que a todo o momento se aceda à sua grande biblioteca e conduzindo a que haja uma maior tolerância interpessoal, fomentando a paz e harmonia global.
JOÃO MANUEL DA SILVA ROGACIANO
(Alverca)
2012 - Prémio Especial Juventude
Cabe, porventura, à literatura uma função social?
Imagine um mundo sem emoções súbitas. Imagine um mundo onde, por já se saber tudo, não se pensa em nada. Imagine um mundo onde nada é novo. Imagine um mundo sem absurdo ou espectáculo. Imagine um mundo onde tudo é preto ou branco, sem existirem tons de cinzento pelo meio. Esse seria o mundo em que eu, o leitor e todos nós viveríamos se não existisse a literatura.
Só a literatura tem o poder de entreter, divertir ou angustiar enquanto ensina ou expõe situações novas e acontecimentos que obrigam a pensar. A literatura tem a capacidade única de fazer parar o tempo e marcar uma determinada época, sem no entanto se mostrar desatualizada com o passar dos anos. Sendo intemporal, é também a sua pluralidade que permite estimular as emoções, dificultando por vezes a distinção clara entre a mente e o coração, podendo ocorrer aqui uma fusão perfeita de sentimentos e racionalidade.
Para além de contribuir para um alargamento de conhecimento, a literatura entretém e diverte até as almas mais solitárias. Quem lê ou quem escreve nunca está só, mesmo que se encontre entre quatro paredes, sem nenhuma outra forma humana presente, além de si mesmo. Quem segura um livro nas suas mãos, segura o bem mais precioso que alguma vez poderia ter só para si. É ele que permite conhecer novos lugares, temas, realidades, situações, viajar pelo mundo fora e até por outros mundos sem ser necessário sair do sofá. A literatura tem assim o poder de contar uma história que enriquece cada um que a abraça e interpreta.
A literatura tem desde sempre inúmeras funções, que nem sempre são reconhecidas ou valorizadas por todos. Para além da sua função educativa ou lúdica, é inegável por tudo o que foi referido que a literatura tem também uma função social. Para além de fazer companhia e "aquecer" todos os corações que a acolhem, é ela que acompanha e, por vezes, vaticina a mudança e a evolução dos tempos. Agitadora de consciências, desperta até as mais difíceis e adormecidas. Insensível a diferenças e distinções, torna ainda igual o que muitas vezes é tido como diferente.
A literatura tem essencialmente o poder da mudança, tanto de opiniões, como de atitudes, já o afirmava Henry Thoreau, escritor norte-americano do séc. XIX, quando referiu que "muitos homens iniciaram uma nova vida a partir da leitura de um livro". Assim, partindo para um plano mais geral, subentende-se que a literatura tem indubitavelmente o poder de alterar ou até mesmo reformular sociedades, a fim de as melhorar, em nome da evolução natural, mesmo que esta ocorra quase sem nos darmos conta da sua progressão. De pequeno passo em pequeno passo, a mudança ocorre, essencialmente através da mutação de padrões, referências, modelos ou conceitos. Não obstante este poder, é importante notar que, apesar de estas mensagens chegarem a todos nós, não são imunes ao nosso julgamento. Desta forma, cada um de nós julga as mensagens e seleciona e aceita aquelas que mais se aproximam dos nossos pontos de vista ou comportamentos, agindo com base na reflexão e introspeção, capacidades que, no entanto, são também impulsionadas pela literatura. Quem escreve, torna público aquilo que por vezes é privado e abre o seu coração ao próximo, enquanto quem lê se predispõe a conhecer a história de outrem e, com isso, a enriquecer o seu coração e a sua mente, que passa a abranger um leque cada vez mais vasto de situações e ocorrências.
Mário Vargas Llosa, vencedor do Prémio Nobel da Literatura no ano de 2010 e escritor de excelência, também não ignorou a função social da literatura e o poder que ela exerce sobre cada um de nós quando afirmou que "a literatura não é algo que nos faça felizes, mas ajuda-nos a defendermo-nos da infelicidade", reforçando aqui mais uma vez a "companhia" que a literatura representa para quem se predispõe a recebê-la de braços abertos. De facto, um livro pode, por vezes, ser a única companhia de uma alma, mas nem por isso se torna menos importante ou valiosa que a de qualquer outro ser humano.
Assim, a literatura é rica em funções, mas é a sua função social a mais relevante. Desde sempre é indiscutível o papel que a literatura desempenha no âmbito social. Desperta e agita consciências, contribui para a formação e desenvolvimento de um espírito crítico saudável, capaz de refletir acerca das condutas assumidas por cada um e pelos seus semelhantes, estimula a sensibilidade e a imaginação, abre e apura mentalidades, contribui ativamente para o surgimento da mudança positiva, fornece valores, contrói o dilema coração-mente, fazendo com que frequentemente seja necessária uma fusão harmoniosa entre os dois para o entendimento perfeito de tudo o que é novo e vem através da literatura; no fundo, para além de manter a sociedade unida, mesmo nas suas diferenças, ainda a aperfeiçoa. É ao mesmo tempo um estandarte de liberdade, atuando como uma arma poderosa com efeitos imprevisíveis, frequentemente temidos por quem se encontra no poder, uma vez que é através dela que muitas vezes se levantam questões sobre as mais variadas crenças, ideologias e condutas sociais geralmente aceites pela maioria a população. Por tudo o que foi referido, entende-se que a literatura é acima de tudo uma arte com um poder invulgar. Mas é ainda muito mais do que tudo isto, e é isso que a torna tão especial e tão magnífica.
FILIPA RAQUEL NUNES PITEIRA
(Évora)
Imagine um mundo sem emoções súbitas. Imagine um mundo onde, por já se saber tudo, não se pensa em nada. Imagine um mundo onde nada é novo. Imagine um mundo sem absurdo ou espectáculo. Imagine um mundo onde tudo é preto ou branco, sem existirem tons de cinzento pelo meio. Esse seria o mundo em que eu, o leitor e todos nós viveríamos se não existisse a literatura.
Só a literatura tem o poder de entreter, divertir ou angustiar enquanto ensina ou expõe situações novas e acontecimentos que obrigam a pensar. A literatura tem a capacidade única de fazer parar o tempo e marcar uma determinada época, sem no entanto se mostrar desatualizada com o passar dos anos. Sendo intemporal, é também a sua pluralidade que permite estimular as emoções, dificultando por vezes a distinção clara entre a mente e o coração, podendo ocorrer aqui uma fusão perfeita de sentimentos e racionalidade.
Para além de contribuir para um alargamento de conhecimento, a literatura entretém e diverte até as almas mais solitárias. Quem lê ou quem escreve nunca está só, mesmo que se encontre entre quatro paredes, sem nenhuma outra forma humana presente, além de si mesmo. Quem segura um livro nas suas mãos, segura o bem mais precioso que alguma vez poderia ter só para si. É ele que permite conhecer novos lugares, temas, realidades, situações, viajar pelo mundo fora e até por outros mundos sem ser necessário sair do sofá. A literatura tem assim o poder de contar uma história que enriquece cada um que a abraça e interpreta.
A literatura tem desde sempre inúmeras funções, que nem sempre são reconhecidas ou valorizadas por todos. Para além da sua função educativa ou lúdica, é inegável por tudo o que foi referido que a literatura tem também uma função social. Para além de fazer companhia e "aquecer" todos os corações que a acolhem, é ela que acompanha e, por vezes, vaticina a mudança e a evolução dos tempos. Agitadora de consciências, desperta até as mais difíceis e adormecidas. Insensível a diferenças e distinções, torna ainda igual o que muitas vezes é tido como diferente.
A literatura tem essencialmente o poder da mudança, tanto de opiniões, como de atitudes, já o afirmava Henry Thoreau, escritor norte-americano do séc. XIX, quando referiu que "muitos homens iniciaram uma nova vida a partir da leitura de um livro". Assim, partindo para um plano mais geral, subentende-se que a literatura tem indubitavelmente o poder de alterar ou até mesmo reformular sociedades, a fim de as melhorar, em nome da evolução natural, mesmo que esta ocorra quase sem nos darmos conta da sua progressão. De pequeno passo em pequeno passo, a mudança ocorre, essencialmente através da mutação de padrões, referências, modelos ou conceitos. Não obstante este poder, é importante notar que, apesar de estas mensagens chegarem a todos nós, não são imunes ao nosso julgamento. Desta forma, cada um de nós julga as mensagens e seleciona e aceita aquelas que mais se aproximam dos nossos pontos de vista ou comportamentos, agindo com base na reflexão e introspeção, capacidades que, no entanto, são também impulsionadas pela literatura. Quem escreve, torna público aquilo que por vezes é privado e abre o seu coração ao próximo, enquanto quem lê se predispõe a conhecer a história de outrem e, com isso, a enriquecer o seu coração e a sua mente, que passa a abranger um leque cada vez mais vasto de situações e ocorrências.
Mário Vargas Llosa, vencedor do Prémio Nobel da Literatura no ano de 2010 e escritor de excelência, também não ignorou a função social da literatura e o poder que ela exerce sobre cada um de nós quando afirmou que "a literatura não é algo que nos faça felizes, mas ajuda-nos a defendermo-nos da infelicidade", reforçando aqui mais uma vez a "companhia" que a literatura representa para quem se predispõe a recebê-la de braços abertos. De facto, um livro pode, por vezes, ser a única companhia de uma alma, mas nem por isso se torna menos importante ou valiosa que a de qualquer outro ser humano.
Assim, a literatura é rica em funções, mas é a sua função social a mais relevante. Desde sempre é indiscutível o papel que a literatura desempenha no âmbito social. Desperta e agita consciências, contribui para a formação e desenvolvimento de um espírito crítico saudável, capaz de refletir acerca das condutas assumidas por cada um e pelos seus semelhantes, estimula a sensibilidade e a imaginação, abre e apura mentalidades, contribui ativamente para o surgimento da mudança positiva, fornece valores, contrói o dilema coração-mente, fazendo com que frequentemente seja necessária uma fusão harmoniosa entre os dois para o entendimento perfeito de tudo o que é novo e vem através da literatura; no fundo, para além de manter a sociedade unida, mesmo nas suas diferenças, ainda a aperfeiçoa. É ao mesmo tempo um estandarte de liberdade, atuando como uma arma poderosa com efeitos imprevisíveis, frequentemente temidos por quem se encontra no poder, uma vez que é através dela que muitas vezes se levantam questões sobre as mais variadas crenças, ideologias e condutas sociais geralmente aceites pela maioria a população. Por tudo o que foi referido, entende-se que a literatura é acima de tudo uma arte com um poder invulgar. Mas é ainda muito mais do que tudo isto, e é isso que a torna tão especial e tão magnífica.
FILIPA RAQUEL NUNES PITEIRA
(Évora)
2012 - Prémio Especial Juventude - Menção Honrosa
Cabe, porventura, à literatura uma função social?
A pertinência da literatura é uma questão que ainda hoje provoca profundas cisões ideológicas. Muitos encontram na literatura uma oportunidade de contrariar a solidão ou meramente uma forma de ocupar o tempo livre. Outros procuram nela novas emoções, mais conhecimento ou apenas um modo de exorcizar a tensão inerente à rotina. Pelo contrário, muitos ridicularizam a sua importância, consideram-na como mais um símbolo de frivolidade ou menosprezam o seu carácter pedagógico. Sob qualquer um dos pontos de vista, é indubitável que a literatura ao longo dos tempos tem-se verificado útil ao ser humano enquanto ser pensante, pois mesmo que não resulte num momento de introspectiva, aprendizagem ou descontracção serviu pelo menos de tema para os críticos. Mas será que a relevância da literatura limita-se exclusivamente ao indivíduo como ser singular ou caberá, porventura, à literatura uma função social?
Certamente que a literatura tem um papel fundamental na construção de qualquer sociedade e para comprovarmos isso basta olharmos em retrospectiva e recuarmos até ao tempo da nossa infância. Os contos infantis que nos liam para adormecer transmitiam ensinamentos simples que até hoje têm repercussões no nosso modo de estar e viver, sem que sequer nos apercebamos. Princípios básicos de cidadania foram sendo transmitidos através dessas histórias que aparentavam ter apenas um carácter lúdico.
Para além destas funções informativa e educativa, é possível também reconhecer uma função crítica à literatura. Os autores servem-se da literatura como instrumento para satirizar padrões de comportamento e fazer os leitores repensar nos preconceitos, estereótipos e adágios que aceitam sem se interrogar acerca da sua veracidade. Da literatura nacional, recordo por exemplo a obra emblemática do teatro português dos anos 60 – “Felizmente há Luar!” de Luís de Sttau Monteiro – que, tendo como pano de fundo uma história dramática, coloca em evidência a opressão que se vivia no Portugal dos anos 60, debaixo da ditadura salazarista e que constitui uma espécie de hino de todos aqueles que lutaram pela liberdade do povo português. Memorial do Convento, outro marco da literatura nacional, transmite por um lado uma visão crítica e sarcástica da sociedade portuguesa da primeira metade do século XVIII – hábitos sociais, corrupção, infidelidades conjugais, actuação do rei, da Inquisição - e por outro lado, o possível paralelo entre essa época e a primeira metade do século XX, constitui igualmente uma reflexão sobre a condição humana, as relações entre os homens, as injustiças, a exploração dos fracos, a omnipotência dos poderosos e a miséria humana.
O leitor após compreender estas e outras metáforas preconizadas através da literatura é inevitavelmente induzido a reflectir sobre os seus conceitos e preconceitos. Eventualmente será compelido a modificar a sua de perspectiva de vida e consequentemente moldará o seu comportamento.
Além destas e outras obras, ainda mais efectivos na influência que provocam sobre as culturas são com certeza os livros sagrados que regem costumes, alimentam crenças, influenciam políticas e fundamentam a moral e a ética.
A literatura por si só encerra um compromisso com a liberdade de expressão. É uma reafirmação da negação à censura e, como tal, um contributo para o desenvolvimento de uma sociedade mais democrática.
Uma sociedade sem literatura é perfeitamente inconcebível. O que seria dos românticos sem Shakespeare? Ou dos filósofos sem Platão? Ou Portugal sem Camões?
Há quem defenda que para que possamos compreender uma obra literária, como um romance ou um poema, precisamos primeiramente de conhecimentos ou crenças pré-adquiridos no mundo real e que, por isso, a literatura em nada contribuirá para o nosso conhecimento. Eu interrogo-me se não serão esses conhecimentos e crenças fruto de ideologias anteriormente divulgadas na literatura e, assim sendo, enveredamos num ciclo vicioso em que conhecimento gera mais conhecimento.
Há também quem considere que a ficção é inútil pois «para quê ler coisas sobre gente que não existe? Não passam de personagens em ambientes fictícios. As suas afirmações não são válidas no mundo real.» Mais uma vez questiono-me: a ficção não se baseia do mundo real? E essas personagens, ainda que imaginárias, os são os seus pensamentos, diálogos e aspirações não serão fruto da imaginação do seu autor – um ser pertencente ao mundo real? Parece que novamente somos conduzidos a um ciclo, pois a utopia tem natureza na realidade, logo porque não extrapolar esse conhecimento para o mundo real?
Por tudo isto, sublinho – sim, a literatura tem uma função social. A literatura é o reflexo das aspirações, os sofrimentos, as angústias, a História, os receios e anseios de toda uma sociedade. Não é apenas um símbolo de referência nacional: é informação, educação, formação e porque não também um eficaz fertilizante para a imaginação? A literatura é enriquecedora ao indivíduo na medida em que o faz fantasiar, o emociona, acalma, excita, perturba, ensina, e, sobretudo, o faz reflectir e auto-avaliar. A literatura é uma fonte incontestável de pedagogia social e uma força motriz para o progresso.
MARISA DA CONCEIÇÃO MOREIRA
(Lisboa)
A pertinência da literatura é uma questão que ainda hoje provoca profundas cisões ideológicas. Muitos encontram na literatura uma oportunidade de contrariar a solidão ou meramente uma forma de ocupar o tempo livre. Outros procuram nela novas emoções, mais conhecimento ou apenas um modo de exorcizar a tensão inerente à rotina. Pelo contrário, muitos ridicularizam a sua importância, consideram-na como mais um símbolo de frivolidade ou menosprezam o seu carácter pedagógico. Sob qualquer um dos pontos de vista, é indubitável que a literatura ao longo dos tempos tem-se verificado útil ao ser humano enquanto ser pensante, pois mesmo que não resulte num momento de introspectiva, aprendizagem ou descontracção serviu pelo menos de tema para os críticos. Mas será que a relevância da literatura limita-se exclusivamente ao indivíduo como ser singular ou caberá, porventura, à literatura uma função social?
Certamente que a literatura tem um papel fundamental na construção de qualquer sociedade e para comprovarmos isso basta olharmos em retrospectiva e recuarmos até ao tempo da nossa infância. Os contos infantis que nos liam para adormecer transmitiam ensinamentos simples que até hoje têm repercussões no nosso modo de estar e viver, sem que sequer nos apercebamos. Princípios básicos de cidadania foram sendo transmitidos através dessas histórias que aparentavam ter apenas um carácter lúdico.
Para além destas funções informativa e educativa, é possível também reconhecer uma função crítica à literatura. Os autores servem-se da literatura como instrumento para satirizar padrões de comportamento e fazer os leitores repensar nos preconceitos, estereótipos e adágios que aceitam sem se interrogar acerca da sua veracidade. Da literatura nacional, recordo por exemplo a obra emblemática do teatro português dos anos 60 – “Felizmente há Luar!” de Luís de Sttau Monteiro – que, tendo como pano de fundo uma história dramática, coloca em evidência a opressão que se vivia no Portugal dos anos 60, debaixo da ditadura salazarista e que constitui uma espécie de hino de todos aqueles que lutaram pela liberdade do povo português. Memorial do Convento, outro marco da literatura nacional, transmite por um lado uma visão crítica e sarcástica da sociedade portuguesa da primeira metade do século XVIII – hábitos sociais, corrupção, infidelidades conjugais, actuação do rei, da Inquisição - e por outro lado, o possível paralelo entre essa época e a primeira metade do século XX, constitui igualmente uma reflexão sobre a condição humana, as relações entre os homens, as injustiças, a exploração dos fracos, a omnipotência dos poderosos e a miséria humana.
O leitor após compreender estas e outras metáforas preconizadas através da literatura é inevitavelmente induzido a reflectir sobre os seus conceitos e preconceitos. Eventualmente será compelido a modificar a sua de perspectiva de vida e consequentemente moldará o seu comportamento.
Além destas e outras obras, ainda mais efectivos na influência que provocam sobre as culturas são com certeza os livros sagrados que regem costumes, alimentam crenças, influenciam políticas e fundamentam a moral e a ética.
A literatura por si só encerra um compromisso com a liberdade de expressão. É uma reafirmação da negação à censura e, como tal, um contributo para o desenvolvimento de uma sociedade mais democrática.
Uma sociedade sem literatura é perfeitamente inconcebível. O que seria dos românticos sem Shakespeare? Ou dos filósofos sem Platão? Ou Portugal sem Camões?
Há quem defenda que para que possamos compreender uma obra literária, como um romance ou um poema, precisamos primeiramente de conhecimentos ou crenças pré-adquiridos no mundo real e que, por isso, a literatura em nada contribuirá para o nosso conhecimento. Eu interrogo-me se não serão esses conhecimentos e crenças fruto de ideologias anteriormente divulgadas na literatura e, assim sendo, enveredamos num ciclo vicioso em que conhecimento gera mais conhecimento.
Há também quem considere que a ficção é inútil pois «para quê ler coisas sobre gente que não existe? Não passam de personagens em ambientes fictícios. As suas afirmações não são válidas no mundo real.» Mais uma vez questiono-me: a ficção não se baseia do mundo real? E essas personagens, ainda que imaginárias, os são os seus pensamentos, diálogos e aspirações não serão fruto da imaginação do seu autor – um ser pertencente ao mundo real? Parece que novamente somos conduzidos a um ciclo, pois a utopia tem natureza na realidade, logo porque não extrapolar esse conhecimento para o mundo real?
Por tudo isto, sublinho – sim, a literatura tem uma função social. A literatura é o reflexo das aspirações, os sofrimentos, as angústias, a História, os receios e anseios de toda uma sociedade. Não é apenas um símbolo de referência nacional: é informação, educação, formação e porque não também um eficaz fertilizante para a imaginação? A literatura é enriquecedora ao indivíduo na medida em que o faz fantasiar, o emociona, acalma, excita, perturba, ensina, e, sobretudo, o faz reflectir e auto-avaliar. A literatura é uma fonte incontestável de pedagogia social e uma força motriz para o progresso.
MARISA DA CONCEIÇÃO MOREIRA
(Lisboa)
30 de maio de 2012
Regulamento do Prémio Literário Hernâni Cidade 2012
1º
Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.
2º
Na edição de 2012 a modalidade é Ensaio e o tema é "Cabe, porventura, à literatura uma função social?"
3º
Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.
4º
O trabalho não deverá exceder duas páginas e será enviado em cinco exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.
5º
O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto.
6º
O trabalho poderá ser entregue:
a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo
b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Municipal Hernâni Cidade 2012
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO
c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento
7º
O prazo de recepção dos trabalhos termina em 17 de Agosto de 2012, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de três elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.
8º
Serão atribuídos
a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.
b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.
c) Prémio Especial Juventude, para o qual só serão tidos em consideração os trabalhos dos concorrentes com idades compreendidas entre os 14 e os 20 anos inclusive.
d) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.
9º
O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.
10º
Os concorrente premiados serão antecipadamente avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia a realizar no dia 21 de Outubro (Domingo), pelas 16 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.
11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.
Organização
Município de Redondo
Apoios
BPI
Junta de Freguesia de Redondo
Millenium bcp
Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.
2º
Na edição de 2012 a modalidade é Ensaio e o tema é "Cabe, porventura, à literatura uma função social?"
3º
Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.
4º
O trabalho não deverá exceder duas páginas e será enviado em cinco exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.
5º
O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto.
6º
O trabalho poderá ser entregue:
a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo
b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Municipal Hernâni Cidade 2012
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO
c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento
7º
O prazo de recepção dos trabalhos termina em 17 de Agosto de 2012, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de três elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.
8º
Serão atribuídos
a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.
b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.
c) Prémio Especial Juventude, para o qual só serão tidos em consideração os trabalhos dos concorrentes com idades compreendidas entre os 14 e os 20 anos inclusive.
d) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.
9º
O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.
10º
Os concorrente premiados serão antecipadamente avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia a realizar no dia 21 de Outubro (Domingo), pelas 16 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.
11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.
Organização
Município de Redondo
Apoios
BPI
Junta de Freguesia de Redondo
Millenium bcp
18 de outubro de 2011
2011 - 1º PRÉMIO
LAÇOS
Uma velha mesa poeirenta no centro de uma sala vazia. Ali esquecido, um jornal com notícias de outrora repousa em cima de um sofá igualmente velho, igualmente poeirento. A lareira de pedra impõe-se, austera, neste espaço que respira instantaneamente, além da poeira do tempo, a nostalgia de um passado que agora se mascara de ilusão de presente.
Uma velha mesa poeirenta no centro de uma sala vazia. Ali esquecido, um jornal com notícias de outrora repousa em cima de um sofá igualmente velho, igualmente poeirento. A lareira de pedra impõe-se, austera, neste espaço que respira instantaneamente, além da poeira do tempo, a nostalgia de um passado que agora se mascara de ilusão de presente.
O corredor vazio engana os sentidos parecendo maior do que é na realidade. Lá ao fundo, uma porta entreaberta liberta pensamentos distantes e memórias perdidas. Memórias inscritas em cada recanto desta casa e que se vão libertando, uma a uma, da vil lei do esquecimento e começam a ganhar forma, como se fossem pequenos fantasmas tímidos que por aqui deambulam ansiando por se revelar.
O abrir da janela, deste que foi em tempos o meu refúgio de ideias e palco de aventuras imaginadas, deixa entrar, com os primeiros raios de sol da manhã, o despertar de uma nova consciência.
Lá fora, a rua também vazia, de gente e de vida, parece adormecida e alheia ao meu olhar e à minha presença, como se eu fosse agora uma mera transeunte, apenas de passagem. Uma estranha sem rosto e sem história. Mas a minha história também já se escreveu aqui. Num ontem distante, esta rua que agora percorro, gritava as histórias de todos os que aqui se fizeram gente.
Em cada casa habitavam histórias diferentes. O burburinho da manhã desvanecia-se à medida que o dia avançava apenas para ser substituído pelo burburinho da tarde, quando as gentes voltavam do campo, ao final do dia de trabalho e a vila se voltava a encher de alma. Todos os dias eram iguais sendo a rotina apenas quebrada por uma ou outra cara desconhecida que vinha até cá para contemplar a beleza do castelo que há alguns séculos foi plantado no cimo desta colina, sentinela atento, cujo olhar penetrante se perde pela paisagem em redor. O velho sino da torre do relógio, agora silenciado pelo desgaste do tempo, ainda se impunha, fazendo-se ouvir em cada recanto destas muralhas de pedra.
E os cheiros. Recordo agora cada cheiro, cada aroma intenso que por entre estes becos e ruelas escondidos ajudaram a construir as histórias da minha infância. Os cheiros que chegavam e partiam com cada estação do ano como os turistas, os tais de cara desconhecida que cá vinham de tempos em tempos para também eles respirarem bocadinhos da nossa História. A intensidade do aroma da terra transformado pelas primeiras chuvas, o cheiro da lenha a arder vivamente na lareira cá de casa, esta lareira de pedra de onde o calor há muito se extinguiu. O perfume suave das rosas do quintal da vizinha e das flores de cores diversas que, à chegada da Primavera, pintavam os campos em tons de arco-íris e que brotavam aleatoriamente aqui e ali fazendo as delícias dos olhares mais atentos. O cheirinho adocicado dos bolinhos de canela que a minha avó fazia todos os anos durante a época da Páscoa e do pão fresco, acabadinho de sair do forno, que desde sempre me lembro de ser feito na padaria da vila, situada lá em baixo no vale, no meio desta melancólica paisagem alentejana.
Dentro do limite das muralhas a vida parecia imune a qualquer tipo de mudança. E mesmo lá em baixo, no vale, nada mudava radicalmente. As pessoas, as coisas, os lugares pareciam sempre os mesmos. Até mesmo hoje, passados dez anos desde o dia em que disse adeus a esta terra onde me fiz, também eu, gente, tudo parece igual. Ainda reconheço, por detrás das linhas traçadas pelo senhor tempo, esse escritor de histórias e pintor de vidas, os traços familiares nos rostos que outrora fizeram, de uma forma ou de outra, parte da minha história. A escola primária, a minha escola primária, agora remodelada, ainda exibe o mesmo espaço onde em tempos brinquei aos piratas e princesas, cenário dos primeiros amores e desamores de uma jovem vida. A igreja onde a minha avó me levava pela mão todas as tardes de domingo para ir à catequese só abre agora para receber meia dúzia de fiéis que, por força da devoção ou do hábito, ainda cumprem os deveres de bons cristãos.
Mas o momento mais marcante destes domingos de catequese era o caminho de regresso a casa porque a paisagem, essa, nunca se apresentava da mesma maneira. O percurso era feito debaixo de um céu multicolor, umas vezes em tons de rosa e púrpura, outras de um azul celeste e pinceladas de branco como se o mundo tivesse acabado de nascer. À medida que ia deixando o vale em direcção à colina, a vila tornava-se cada vez mais pequena, como que perdida na imensidão da paisagem, qual ilha disposta em alto mar.
Aquela paisagem que no inverno se cobria de um véu misterioso e fazia desaparecer o castelo, o nosso castelo, o meu castelo, e que no verão se tornava ainda mais intensa, quase sufocante.
Lá do alto esta paisagem que se vislumbrava, que ainda se vislumbra, era sempre um quadro distinto, multicolor, mutável…vivo. Foi com ela que criei laços que definiram aquilo que fui ontem e o que sou hoje. Os mesmos laços que me ligam a esta terra com a certeza de que são suficientemente fortes para resistir à efemeridade do tempo. A certeza de que estas paredes de cal, estas muralhas de pedra, estas ruas agora vazias de gente, aquela vila plantada no vale que cá do alto vislumbro com ternura, esta paisagem saudosa que sobre mim exerce fascínio e me prende a respiração, estarão sempre aqui para contar a minha história porque também eu nelas estou inscrita.
Aqui me perdi e voltei a encontrar vezes sem conta. Aqui, onde cresci. Aqui, onde aprendi a ser. Aqui, onde vivi. Aqui!
Nesta paisagem de amores impossíveis e histórias por contar. Esta paisagem que inspirou a minha infância.
CARLA PATRÍCIA PIRES MARTINS
(Évoramonte)
2011 - 2º PRÉMIO
SONHOS FLORIDOS
Carrego um amontoado de anos sobre as costas. São quase cem. Há lembranças que se desfazem nos declives da minha memória. Há outras, muito antigas, que permanecem vivas, como se tivessem nascido neste preciso momento.
Carrego um amontoado de anos sobre as costas. São quase cem. Há lembranças que se desfazem nos declives da minha memória. Há outras, muito antigas, que permanecem vivas, como se tivessem nascido neste preciso momento.
Nasci nesta terra maravilhosa. Não digo o nome. Fica para descoberta do prezado leitor. Passei aqui a minha infância e guardo religiosamente no meu coração todas as inspirações que esta paisagem exerceu e ainda exerce sobre mim.
Depois de muitos anos de ausência, voltei a este cantinho do meu Portugal. Os sonhos, os meus sonhos, porque em toda a parte se pode sonhar, começaram a florir num bailado de recordações repletas de magia, onde a idade se perde nos recônditos mais íntimos da minha vontade de viver, para poder contar aos meus netos e bisnetos o quanto tive de belo nesta natureza ímpar.
Vejo-me novamente a saltar por penhascos e árvores; a chapinhar nos pegos das ribeiras; a subir as antas que guardam nos seios milenares sonhos que floriram e outros que ficaram só em botão; a atirar pedras aos pássaros com uma fisga feita com o elástico de uma liga que roubei à minha mãe. Eram aos milhares as aves que esvoaçavam nas encostas da serra. Eu não sabia, ninguém sabia o mal que fazíamos, quando atirávamos sobre as lindas avezitas. Os piscos, as felosas, as toutinegras, os gaios e tantas outras aves, eram aos milhares formando nuvens no céu do céu e no céu da minha meninice. Eu percorria vários quilómetros por dia, em busca da descoberta. E descobri a paisagem que envolve o tempo do meu tempo, onde prevalecem os retratos, nunca tirados, mas onde vejo a minha infância nítida e transparente, como era a água daquele tempo.
Depois, eu descia e vinha sentar-me à sombra duma frondosa azinheira, para almoçar com o meu pai e a minha mãe. Era quase sempre um pedaço de pão com umas falhas de toucinho e azeitonas. O pão era feito pela minha mãe e tinha sabor a sonhos floridos. A água estava numa infusa de barro para permanecer mais fresca. O tosco cocharro de cortiça, por onde bebíamos era, naquela altura, para mim, uma valiosa obra de arte.
Logo que acabavam de comer, lá iam os meus pais ceifar. As espigas, no seu farfalhar, falavam e cantavam. Pareciam gente... e eu ouvia, ouvia, os seus melódicos e dolentes cantares, preparando-se para poderem dar à luz o pão que mitigaria os desejos de tantos estômagos. As papoilas, de um vermelho não muito rubro, corriam ao desvario quando a brisa era mais intensa. O que mais me intrigava era que ficavam sempre no mesmo lugar. Parecia magia. Ali tudo era mágico! Até o pôr-do-sol exercia uma força poderosa sobre mim, criança de cinco ou seis anos. Estive em vários países, mas nunca vi um poente tão fascinante como este da minha terra. O crepúsculo benzia com os seus soberbos sombreados as copas das sobreiras e das azinheiras, num adeus ao dia que se ia deitar com as estrelas, na cama da lua, para voltar novamente, passadas algumas horas, com o sol no seu bailado de reflexos.
Eu só ia à vila de tempos a tempos. Às vezes lá ia com o meu pai, quando ele precisava de comprar umas botas de sola de pneu. Eu não usava nem botas nem sapatos, mas corria e saltava por todo o lado. Uma vez calcei as botas do meu pai e achei que aquilo me atrapalhava muito e era difícil correr, com aquela geringonça nos pés, para apanhar uma lagartixa ou outro bicharoco.
A minha avó, já muito idosa, com uma grande corcunda nas costas, que a fazia andar toda enrolada, passava os dias a fazer flores de papel, para as grandes festas. As flores eram tão bonitas que se assemelhavam às papoilas que corriam com o vento, mas que ficavam no mesmo lugar. Outras flores faziam lembrar os grandes girassóis que seguiam religiosamente o Sol no seu dolente andar. Eram flores tão lindas feitas de papel, que enchiam alcofas e alcofas. Ali estavam os meus sonhos floridos, numa paisagem curta mas distinta, onde a história da minha terra é saboreada por quem vê, com os olhos do espírito, que as tradições são a alma de povos e gerações.
Nunca pensei voltar a ver as festas da flor. Não sei se posso chamar a este encanto uma paisagem, porque, na realidade, eu sei o que é uma paisagem. Na minha infância eu vivi e vi a mais bela paisagem ou paisagens, que me marcaram juntamente com as festas da flor, mas eu não sabia o que era. Era apenas a minha terra semeada de sonhos, que mais tarde se transformaram em cravos floridos.
Hoje voltei a ter os meus cinco, seis e sete anos e o mundo de outrora voltou à minha mente. As lágrimas marejaram-me os olhos, como que a vendar o presente para ver e reviver o passado.
A vila parece um mar de flores! Até aquela senhora, tão idosa como eu, me fez lembrar a minha avó... com as suas alcofas cheias de flores de papel. As janelas parecem molduras de onde pendem cachos de rosas silvestres, dálias, hortênsias, malmequeres, papoilas, girassóis e grandes cravos vermelhos, que tombam nas ruas e sorriem para quem passa. É preciso saber compreender os sorrisos das flores. Eu sei. Um homem não deixa de ser homem por gostar de flores e ser sensível a elas.
Ao longe, vislumbro os imensos terrenos caiados de pérola pelo restolho, que forma uma toalha matizada pelos raios solares, estendida numa grande mesa, onde as aves, as aves da minha infância comem os grãos que ficaram caídos.
Vejo as encostas da serra com os seus penedos. Oiço o correr da ribeira. Tenho na boca o sabor do pão que a minha mãe fazia e brinco com os caroços das azeitonas que comia e me sabiam a mel.
Nestas festas da flor, olho o meu bisneto, que tem seis anos, e vejo nele a paisagem que marcou a minha infância, nos seus sonhos floridos.
MARIA DA GLÓRIA DUARTE MARREIROS JOSÉ
(Portimão)
2011 - 3º PRÉMIO
O CANTO DAS CEREJAS
Tac…Tac… Caíam na manta relvada do chão macio. Uma a uma, redondas, cintilantes na sua capa encarnada. A gravidade não fazia o trabalho sozinho. A vara da tia Carmelinda era a força impulsionadora.
Eram de facto cerejas e, ainda hoje, recordo o canto ecoado na mente da criança franzina. Pés descalços, confortáveis na frescura do piso. Permanece-me entranhado nas narinas o perfume das flores e o aroma desse fruto delicioso. Os meus olhos ainda avistam o verde da paisagem. Quando adormeço, os pássaros embalam-me os sonhos.
De saias compridas, quase a raspar o chão, socos ruidosos e avental à cinta, desfilava uma velhinha, numa azáfama de mulher atarefada. Ora transportava uma bacia de onde pendiam trapos, preparados para serem esticados na corda junto ao rego de água. Ora rapava a erva, de foucinha afiada, acumulando, em cerca de 10 minutos, o lanche dos coelhos cinzentos e orelhas descaídas.
Toc…Toc… Os socos batiam no chão e ecoava a presença da doce velhinha a quem docilmente eu chamava de avó. O doce estava sempre presente. No sorriso dela e no meu, quando gulosamente saboreava o caramelo desbotado que ela guardava delicadamente para me oferecer.
Às Segundas-feiras, à saída da escola, a ordem cumpria-se: ir ter com a avó, caso a mãe ainda não tivesse chegado da feira. E era a escola que de facto preenchia a minha vida…
Nos meandros encarreirados, saltitava feliz. A escola avistava-se branca a meio do percurso. O cheiro a papel camuflava o mofo das carteiras perfuradas pelo bicho – da – madeira.
Clementina denominava a agridoce professora, artista experiente em pincelar com ensinamentos as telas vazias de muitos meninos. Como aprendiza dedicada, fui preenchendo as tardes da minha infância. Entre contas e ditados, o horário não dispensava a hora do recreio, quase sempre guarnecido com pão e marmelada.
Num desses dias de escola, não foi apenas mais um… Saímos em direcção ao Castro. Registei na memória, esse evento como o único passeio que fiz com os meus colegas da Escola Primária. Já nesses tempos se falava de uma gruta, onde mouros guardaram tesouros. Onde sons estranhos davam ecos a medos e receios, transformando o local num dos mais misteriosos do Concelho.
As gotas de suor salpicavam-nos o rosto, humedecendo a vontade de chegar ao cimo do monte. Aí, a vista surgia maravilhosa, compensando o esforço no trilho percorrido. Pedaços brancos de algodão afiguravam nuvens, pendentes num azul celestial. Infinito, num horizonte pintado de verde, com elevações a contornar uma pequena povoação. Na zona central, as casas surgiam mais aglomeradas, dispersando-se um pouco em direcção à periferia.
- Senhora Professora, a gruta é naquela direcção? Vamos lá espreitar? – perguntou um dos miúdos e todos fomos ver. Dirigimo-nos em grupo para o sítio que o miúdo apontava, enquanto este simulava truques usados na defesa contra um mouro imaginário.
O termo gruta não seria o mais apropriado para descrever aqueles dois penedos. Lado a lado, separados apenas por uma giesta, ornamentada com flores amarelas. Num arranjo floral oferecido, pela natureza, em agradecimento à integridade do local.
Em tempo de férias, às Segundas, acompanhava a minha mãe nas idas à feira. Em pleno centro da povoação instalavam-se inúmeras barracas. Várias fragrâncias suavizavam o ar, assinalando os diferentes pontos de venda. Era possível comprar pão, fruta, peixe, roupa, artigos em ouro e outras surpresas. A maior de todas era oferecida pela vendedora que circulava no seio da multidão, carregando uma bilha revestida de cortiça. Era uma figura alegórica, de pés descalços, saia rodada, avental atado à cinta e lenço na cabeça.
-Quem quer limonada fresquinha? – apregoava enquanto servia água num copo de vidro, partilhado por todos os sequiosos interessados em pagar uma moedinha.
Nessa altura, havia muito tempo… Tempo para sorrir, para correr, para brincar, para ler ou escrever e mesmo para contemplar a paisagem que sempre inspirou a minha vida...
Às vezes pergunto o que procuro neste amontoado de fumo que uso para substituir essa paisagem. Não sei bem o que faço nestas filas intermináveis ao som de buzinas que me ensurdecem e agitam a mente. Qual a razão de não ter encontrado naquela paisagem de sonho, o sonho da minha?
Talvez as cerejas não tenham cantado o suficiente para me enfeitiçar…
ANA MARIA DA SILVA CUNHA
(Braga)
Tac…Tac… Caíam na manta relvada do chão macio. Uma a uma, redondas, cintilantes na sua capa encarnada. A gravidade não fazia o trabalho sozinho. A vara da tia Carmelinda era a força impulsionadora.
Eram de facto cerejas e, ainda hoje, recordo o canto ecoado na mente da criança franzina. Pés descalços, confortáveis na frescura do piso. Permanece-me entranhado nas narinas o perfume das flores e o aroma desse fruto delicioso. Os meus olhos ainda avistam o verde da paisagem. Quando adormeço, os pássaros embalam-me os sonhos.
De saias compridas, quase a raspar o chão, socos ruidosos e avental à cinta, desfilava uma velhinha, numa azáfama de mulher atarefada. Ora transportava uma bacia de onde pendiam trapos, preparados para serem esticados na corda junto ao rego de água. Ora rapava a erva, de foucinha afiada, acumulando, em cerca de 10 minutos, o lanche dos coelhos cinzentos e orelhas descaídas.
Toc…Toc… Os socos batiam no chão e ecoava a presença da doce velhinha a quem docilmente eu chamava de avó. O doce estava sempre presente. No sorriso dela e no meu, quando gulosamente saboreava o caramelo desbotado que ela guardava delicadamente para me oferecer.
Às Segundas-feiras, à saída da escola, a ordem cumpria-se: ir ter com a avó, caso a mãe ainda não tivesse chegado da feira. E era a escola que de facto preenchia a minha vida…
Nos meandros encarreirados, saltitava feliz. A escola avistava-se branca a meio do percurso. O cheiro a papel camuflava o mofo das carteiras perfuradas pelo bicho – da – madeira.
Clementina denominava a agridoce professora, artista experiente em pincelar com ensinamentos as telas vazias de muitos meninos. Como aprendiza dedicada, fui preenchendo as tardes da minha infância. Entre contas e ditados, o horário não dispensava a hora do recreio, quase sempre guarnecido com pão e marmelada.
Num desses dias de escola, não foi apenas mais um… Saímos em direcção ao Castro. Registei na memória, esse evento como o único passeio que fiz com os meus colegas da Escola Primária. Já nesses tempos se falava de uma gruta, onde mouros guardaram tesouros. Onde sons estranhos davam ecos a medos e receios, transformando o local num dos mais misteriosos do Concelho.
As gotas de suor salpicavam-nos o rosto, humedecendo a vontade de chegar ao cimo do monte. Aí, a vista surgia maravilhosa, compensando o esforço no trilho percorrido. Pedaços brancos de algodão afiguravam nuvens, pendentes num azul celestial. Infinito, num horizonte pintado de verde, com elevações a contornar uma pequena povoação. Na zona central, as casas surgiam mais aglomeradas, dispersando-se um pouco em direcção à periferia.
- Senhora Professora, a gruta é naquela direcção? Vamos lá espreitar? – perguntou um dos miúdos e todos fomos ver. Dirigimo-nos em grupo para o sítio que o miúdo apontava, enquanto este simulava truques usados na defesa contra um mouro imaginário.
O termo gruta não seria o mais apropriado para descrever aqueles dois penedos. Lado a lado, separados apenas por uma giesta, ornamentada com flores amarelas. Num arranjo floral oferecido, pela natureza, em agradecimento à integridade do local.
Em tempo de férias, às Segundas, acompanhava a minha mãe nas idas à feira. Em pleno centro da povoação instalavam-se inúmeras barracas. Várias fragrâncias suavizavam o ar, assinalando os diferentes pontos de venda. Era possível comprar pão, fruta, peixe, roupa, artigos em ouro e outras surpresas. A maior de todas era oferecida pela vendedora que circulava no seio da multidão, carregando uma bilha revestida de cortiça. Era uma figura alegórica, de pés descalços, saia rodada, avental atado à cinta e lenço na cabeça.
-Quem quer limonada fresquinha? – apregoava enquanto servia água num copo de vidro, partilhado por todos os sequiosos interessados em pagar uma moedinha.
Nessa altura, havia muito tempo… Tempo para sorrir, para correr, para brincar, para ler ou escrever e mesmo para contemplar a paisagem que sempre inspirou a minha vida...
Às vezes pergunto o que procuro neste amontoado de fumo que uso para substituir essa paisagem. Não sei bem o que faço nestas filas intermináveis ao som de buzinas que me ensurdecem e agitam a mente. Qual a razão de não ter encontrado naquela paisagem de sonho, o sonho da minha?
Talvez as cerejas não tenham cantado o suficiente para me enfeitiçar…
ANA MARIA DA SILVA CUNHA
(Braga)
2011 - PRÉMIO JUVENTUDE
A PAISAGEM QUE INSPIROU A MINHA INFÂNCIA
Tenho bem presente na minha memória as altas montanhas dos Pirenéus, donas de um verde espantoso e de uma beleza extraordinária. Fascinava-me passar pela estrada nacional que as rompia. A estrada serpenteava até lá acima… até ao ponto onde as nuvens ficavam abaixo de nós. E era tão lindo poder olhar pela janela e ver as nuvens brancas e esfarrapadas.
Nunca achei que as nuvens se parecessem com algodão. Essa perspectiva é para quem vê de baixo. Lá em cima pareciam mais como fumo branco e inerte. Não se assemelhavam a algo sólido, mas sim a algo com que se sonha e os limites rasgados e lacerados denunciam que não é consistente, que não é palpável. Muitas vezes sonhei, acordada e durante o sono, com a sensação de as atravessar… Como seria cair através delas? Conseguiria respirar? Ficaria molhada? Ou seria como nos desenhos animados e ficaria confortavelmente deitada em cima das nuvens?
As montanhas possuíam em si uma beleza que me coagia a viajar, a querer conhecer todos os que habitavam a cordilheira, a não poluir, a defender a Mãe Natureza. Compelia-me a querer mostrar a todas as pessoas aqueles picos verdejantes que se fundiam na imensidão do céu azul claro e, olhando para baixo, apenas se via o branco das nuvens.
Os Pirenéus fizeram-me querer ser exploradora e partir de catana na mão até conhecer toda a natureza que habitava aquele lugar. Seria uma aventura maior do que qualquer acampamento de escuteiros… estaria ao nível das aventuras que os navegadores portugueses ultrapassaram no tempo dos descobrimentos. Na minha perspectiva de criança, seria o auge da minha vida.
A imagem mais vívida que tenho destas montanhas foi quando aos quatro anos olhei pela janela e as vi. Não tinha sido a primeira vez que olhei para elas mas foi sem dúvida a primeira vez que as vi. O meu mano estava ao meu lado. A emoção de poder partilhar aquela imensidão, aquela sensação de ser pequenina num mundo demasiado grande, com o meu irmão marcou-me. Marca-me.
Mas quando se tem um irmão mais velho com quem nos damos extraordinariamente bem, as paisagens que partilhamos e guardamos na memória escondem momentos, sentimentos, palavras, acções. E os Pirenéus não são excepção. Enquanto olhava para os cumes altos que se avizinhavam, o meu irmão começou a lutar comigo (na brincadeira) e partimos a minha chupeta. Não fiquei chateada. Não naquele momento. Não naquela paisagem. Quis largar a chupeta nesse momento, afinal já era crescida e a calma que aquelas montanhas transpiravam tinha o efeito de eu não sentir medo de nunca mais ver a "chucha". Mas o meu pai, com medo que eu não o deixasse dormir nessa noite, comprou-me uma nova.
As altas montanhas dos Pirenéus sempre exerceram em mim um fascínio muito peculiar: ligam-nos ao resto da Europa. Sem elas seriamos uma ilha luso-ibérica, como na história de Saramago. Menina habituada a viajar pela europa por terra, a conhecer os países e as suas gentes; é natural que o atravessar destas montanhas representasse para mim o caminho "para o outro lado", para o desconhecido, para a aventura. Sempre achei que os espanhóis e Espanha eram demasiado parecidos connosco para se poder dizer que se estava no estrangeiro. Após aquelas enormes montanhas avistava-se terra mais verde, mais vento, mais frio, mais pessoas de cortes de cabelo e roupas estranhas, pessoas mais brancas e línguas esquisitas impossíveis de entender. Era quase um novo mundo, sempre com algo novo para mostrar.
Adorei Helsínquia, capital da Finlândia. Recordo-me perfeitamente da Praça do Senado. A Catedral de Helsínquia erguia-se acima dos edifícios circundantes no meio de uma praça assaltada por turistas maioritariamente espanhóis. Foi o primeiro edifício que vi do género: com as suas colunas, estátuas e frontão triangular era semelhante aos edifícios históricos do sul da Europa, mas as suas abóbadas e pináculos davam-lhe um ar russo. Era linda no seu tom branco e telhado esverdeado. Lembro-me de achar que as escadas que davam acesso à Catedral eram infinitas… Mas quando somos pequenos tudo parece maior e mais distante, talvez seja por isso que tudo no mundo nos parece tão belo.
A Praça do Senado ficou embutida na minha memória por toda a sua beleza. No entanto, esta paisagem inspirou a minha infância de um modo que nunca ninguém iria prever. No meio daquela praça, daquela cidade, naquele país, senti que pertencia. Ali as pessoas eram tão brancas como eu e eu sentia que era ali que eu deveria ter nascido. Embora estivesse num país frio e nunca tivesse vestido tanta roupa de uma vez, sentia-me em casa.
Foi a memória do sentimento de pertença que ali senti que me fez enfrentar e não me deixar abalar pelo gozo dos meus colegas sobre o meu tom de pele. Sempre que a inevitável "brincadeira" que me magoava sucedia, eu transportava-me para Helsínquia e relembrava tudo novamente: o tom de pele das pessoas, a sua alegria, o meu sentimento de pertença, o mercado que vendia coisas engraçadíssimas, os jovens a irem para a escola de skate, patins ou bicicleta…
Helsínquia inspirou-me a fazer planos para morar ou estudar lá na esperança de voltar a ter aquele sentimento que só encontro na minha própria casa. Talvez um dia revisite Helsínquia e, quem sabe, concretizar um desses sonhos de pequena…
Outra paisagem que inspirou a minha infância foram as ruas de Tânger, Marrocos. Para mim, as ruas mais estreitas do mundo, onde se reza para não se cruzar com ninguém porque é impossível que passem duas pessoas ao mesmo tempo. As lojas são pouco mais profundas que montras e vendem tudo. Há ténis da Nike empilhados por todas as paredes. Noutra loja há lenços e malas Hermès e doutras marcas. Noutra loja fraldas e tudo o que faz falta para o quotidiano. Outra é uma espécie de mercearia. Ao lado há uma loja que vende brincos de prata e móveis de madeiras requintadas. São todas seguidas e uma só rua consegue albergar as mais diversas lojas com os mais diversos produtos.
Lembro-me de uma dessas ruas apinhadas de produtos desembocar numa espantosa praça enorme com relva, onde várias pessoas estavam sentadas a conversar ou a ler. Era ladeada de palmeiras gigantescas e bancos de jardim. No centro havia uma fonte igual a tantas outras, mas que tinha um brilho especial debaixo daquele calor avassalador.
Foi então que parei e, enquanto comia o pão tradicional, observei as pessoas e a sua fantástica multiculturalidade. Vi pessoas com trajes tradicionais parecidos às 7 saias da Nazaré a conviverem naturalmente com pessoas de calções, t-shirts e ténis (que não eram turistas), ao lado de pessoas vestidas com burkas enormes a falarem com pessoas em calças de ganga e camisa, havia também homens de fato e mulheres de saias rodadas a condizerem com lenços que lhes tapavam todo o cabelo. A moda como os europeus a vivem não é igual naquele local isolado que tive o prazer de encontrar. Os tons de pele das pessoas também eram de igual notoriedade: pessoas tão pretas como carvão, outras escuras como chocolate, outras pareciam douradas com a luz do sol e outras de um moreno invejável. Gostei do modo como o convívio entre modas e tons de pele tão diferentes parecia pacífico e natural.
Tânger é uma cidade diferente das que tinha conhecido até então e, apesar das discrepâncias monetárias visíveis, acho que os outros povos podiam aprender uma lição de tolerância em relação ao aspecto pessoal. Aquela paisagem fez-me tentar não julgar os outros pelo seu aspecto, quer fosse pela roupa, religião, tatuagens ou qualquer outra coisa que nos distinga enquanto pessoas.
Podia descrever muitas outras paisagens que inspiraram a minha infância, mas considerei que estas influenciaram-me em fazes diferentes do meu desenvolvimento e de forma diferente. Uma paisagem é algo mais profundo do que uma imagem. Só isso não chega. Uma paisagem revela-se na nossa memória quando precisamos de inspiração e aparece no nosso coração quando relembramos as pessoas que estavam ao nosso lado nesse momento. Às vezes é tudo o que precisamos.
ANA MARISA PALMEIRO GONÇALVES
(Redondo)
2011 - MENÇÃO HONROSA
REINO DE AQUÉM E ALÉM TERRAS DE REDONDO
As lembranças da infância não se apagam nunca. Ficam indelevelmente registadas ainda que possam repousar depositadas no mais profundo dos abismos da nossa memória aguardando pura e simplesmente que um qualquer acontecimento as faça emergir à superfície e se insinuem em todo o seu esplendor, ou não chegam nunca a desaparecer mantendo-se à tona sob a forma de cheiros, sabores, imagens, emoções ou sons com as quais vamos interagindo e dando e dando corpo ao nosso quotidiano. E há memórias a que conscientemente voltamos amiúde quando as circunstâncias e os contextos nos pedem que a elas regressemos. A memória dos espaços percorridos e vividos em criança é uma dessas memórias, a que volto frequentemente. No meu caso essa memória é a memória de um reino.
O meu reino ficava a meus pés na imensidão das vinhas, dos olivais e dos montados que, para lá do Campo do Calvário e da Praça de Touros, se estendiam ao longo da estrada para Évora até perder de vista, naquela planura onde no verão reverberavam ondas de calor que faziam tremeluzir os campos amarelecidos pelo restolho sob o bafo quente do estio e, nos meses mais frescos, se contemplava o vento penteando as searas e agitando os ramos do arvoredo num bailado infindável. O meu reino abarcava tudo em redor, emoldurado pela Serra d'Ossa, pela Boavista, pelos horizontes que se estendiam para os lados de Bencatel, de Terena, de Santa Susana, pelo recorte do casario branco da vila de Redondo no azul luminoso do céu. Lá estavam a Torre do Castelo, a muralha, as igrejas, a massa imponente dos silos da moagem, a adega...
Contemplava as minha terras lá do alto, de perto da igreja de S. Pedro, onde o meu trono ficava num palácio de cristas rochosas que aí afloravam da terra poeirenta sob os pinheiros mansos, e onde gostava de me sentar contemplando, nos amplos e desimpedidos horizontes, aquela que era verdadeiramente a minha terra, uma terra sem fronteiras nem limites. E aí sentado, deixava-me invadir pelos elementos que me rodeavam e alimentava dessa forma o meu espírito, sem o poder saber, para toda a vida.
Havia os sons. Os sons que me chegavam diluídos pela distância, e misturavam o restolhar do vento nos pastos secos e na ramagem das árvores, os ecos de chocalhos de animais no campo, o ruído da serração lá em baixo, o trinar dos pássaros na sua azáfama, a sinfonia de miríades de insectos revolteando nos ares, os gritos dos rapazes jogando à bola e as vozes estridentes das mulheres que ao final do dia chamavam os filhos pelas ruas da vila...
Havia as cores, sobretudo na primavera, quando múltiplos tapetes de flores campestres polvilhavam de branco, amarelo e violeta os tapetes verdes de ervas rasas que serviam de chão aos olivais e montados, em contraponto com a cor dourada das searas prenhes de sementes oscilando ao vento uns meses mais tarde, ou à cor fulva do barro da terra exposta quando fendida e revolta pelos arados dos tractores. Havia depois aquele azul do céu, único e imenso, feito de luz e trasparência, povoado aqui e ali por farrapos brancos de nuvens vagarosas empurradas pelo vento suão, que se iam transformando ao sabor da minha imaginação enquanto as contemplava deitado nas lajes quentes de granito que me serviam de mobília. E havia o cinzento plúmbeo que se instalava nos dias de trovoada, recortando ainda mais se possível o casario contra o céu, sobretudo quando os raios de sol incidiam ainda sobre a vila e pintavam de amarelo dourado as paredes brancas, enquanto a chuva não chegava tingindo inevitavelmente de cinza toda a paisagem em volta e derramando cortinas de água sobre os telhados luzidios, para depois escorrer generosa e transparente pelos beirados sobre o empedrado dos passeios...
Havia os cheiros. O cheiro acre do fumo negro elevando-se aqui e ali entre o casario vindo dos fornos que se acendiam nas olarias para que o fogo cumprisse a sua missão de completar, com a alquimia das altas temperaturas, o trabalho saído das rodas e das mãos dos oleiros, dispersando-se depois dolentemente na atmosfera enquanto fazia sombras fugidias nas paredes e telhados da vila. O cheiro a terra molhada, impregnado de restolho, que se levantava do chão quando as primeiras gotas de chuva se derramavam sobre as terras em redor, secas e ávidas de água, e que ainda hoje é a memória viva desses tempos quando se repete. E o cheiro a poejos que se insinuava naqueles ares e me era trazido pela brisa suave desde os campos mais abaixo onde pequenos regatos lhes afagavam as raízes...
Nesse local, de que me sentia dono e senhor, gostava de me perder no tempo, de estar sozinho dando largas à fantasia de reinar num território só para mim num local inexpugnável nas suas muralhas de pedra ocultas pela copa frondosa dos pinheiros. Absorvendo cada elemento de toda a paisagem em redor, desfrutando do prazer daquela solidão, gostava muitas vezes de quedar-me absorto nos meus pensamentos sobretudo à hora mágica do dia em que o sol se propunha render-se à noite e no céu se recortava a lâmina fina e brilhante da lua em quarto crescente, qual foice de luz riscando o astro, preparando-se para derramar daí a pouco, sob o céu polvilhado de estrelas, o seu manto diáfano de ténue luar que tingiria depois a terra com o seu halo azulado onde habitariam apenas vultos sombrios de sobreiros, e oliveiras, e rastos de pirilampos, e onde ecoaria o cantar sincopado e frenético das cigarras. Entre aqueles campos, aquele casario, aquelas gentes, deixava deambular a minha imaginação e contruía as histórias e as aventuras que nunca partilhei com ninguém, património da minha intimidade carregado pela força telúrica que emanava de toda aquela envolvência e que remanesce dentro de mim.
Talvez por isso, decerto por isso, a este meu reino regresso invariavelmente mesmo quando lá não estou e a despeito da distância que o tempo induz nas coisas da memória. É o meu reino onde ainda hoje faço poesia e escrevinho contos e romances, onde me recolho para meditar, para me conformar ou para me revoltar, umas vezes para rir e outras para chorar.
Porque esse reino está mesmo lá mesmo eu não estando, porque da infância me traz e me ficou, porque é neste reino que sinto as minhas raízes profunda e inabalavelmente agarradas à minha substância, porque sem um reino destes não seria afinal quem hoje eu sou.
JOÃO MANUEL CHAMBEL GONÇALVES PEDRO
(Montijo)
2011 - MENÇÃO HONROSA
UMA PAISAGEM, A MINHA MÃE
Pedem-me que fale de uma paisagem que tivesse inspirado a minha infância... Por mais que puxe pela cabeça, nenhuma me vem à memória. Nenhuma... a não ser a minha mãe. Pode uma mãe ser uma paisagem? A minha era. A minha às vezes era uma montanha, outras vezes um bosque. Umas vezes uma seara, outras um campo arado. Um lago, um mar. Tudo isso era a minha mãe. Por isso vou falar-vos da paisagem que era a minha mãe.
A minha mãe tinha sempre muito que fazer e ainda por cima era costureira. Era na época das festas e nos casamentos que ela se via a braços com mais trbalho. Tinha de acabar as roupas para o dia que lhe pediam e muitas vezes isso não acontecia e as pessoas zangavam-se com ela, mas acabava sempre tudo como deve ser. Ao pagarem, as pessoas achavam um bocado caro, porém não calculavam o trabalho despendido, os serões gastos a pedalar na sua Singer e os materiais necessários para confeccionar um vestido ou um par de calças. Apesar de tudo, vinha gente de muito longe encomendar-lhe roupa por medida e achavam-na muito boa costureira. Vivíamos numa aldeia distante de tudo e onde tudo à volta era paisagem. Mas eu acho que era a melhor costureira de Portugal. Eu acho mesmo que era a melhor do Mundo!
As mãos da minha mãe eram mágicas. Ela fazia tudo com elas. De um pano de fazenda, traçava uns riscos com giz ou com um pedaço de sabão azul, media aqui e media ali com a fita de costura, pregava uns alfinetes nos sítios certos, alinhavava em baixo e cosia em cima e estava um par de calças pronto na perfeição e o cliente com um sorriso nos lábios. Para um vestido complicado com muitos folhos e laços e lacinhos era a mesma coisa. À primeira prova batia tudo certo, quase nunca era preciso emendar fosse o que fosse e as pessoas ficavam contentes. Ela nunca fez um vestido de noiva, mas eu tenho a certeza que não teria problema nenhum em fazê-lo, assim com imensos follhos e imensas rendas e uma cauda muito comprida para arrastar pelo chão. Eu daria um braço - sim, daria um braço - em como uma princesa qualquer ficaria satisfeita se mandasse confeccionar à minha mãe o seu vestido de gala. Neste caso, teria era de trazer os tecidos e as rendas e os tules e o tafetá e as pérolas do seu país, porque devem ser materiais caríssimos para uma princesa.
A minha mãe era muito habilidosa e fazia coisas espantosas com as mãos. Além dos vestidos lindíssimos, com folhos, sem folhos, com balões, sem balões, com laços, sem laços, de Primavera e de Verão, além das calças e dos calções, das batas e das blusas, das saias e dos casacos, era ela que também costumava fazer grande parte dos enfeites para a nossa aldeia. Ela e a tesoura tinham uma relação muito estreita, de profundo entendimento. A tesura fazia parte da mão direita da minha mãe. Ela dobrava várias vezes o papel colorido e fazia fitas com recortes de estrelas e flores e inúmeras figuras geométricas de uma imaginação e efeito surpreendentes. As pessoas que as colavam com cola de farinha nos cordéis em ziguezague ao longo das ruas ficavam de boca aberta. E os balões? Os balões ficavam tão bonitos como cachos de glicínias. Digamos que ficavam a fazer parte da paisagem da nossa aldeia. Aqueles rendilhados entrecruzados de várias cores eram de um capricho e um fascínio que baralhavam a cabeça de qualquer pessoa e deixava-a a pensar: como é que isto se faz? Como é que alguém consegue fazer uma coisa assim? Às vezes penso que era uma pena ver aqueles balões deslumbrantes estragarem-se, pendurados ao vento ou à chuva, porque eram verdadeiras obras de arte que duravam poucos dias.
É: as mãos da minha mãe eram mágicas, faziam maravilhas. Ela e a tesoura faziam milagres e a tesoura tinha tanto uso que às vezes, em vez de cortar, mastigava. Era aí que entrava o amolador de tesouras, que de quando em quando passava pela nossa aldeia. Vagaroso, vinha na sua bicicleta, uma pasteleira ferrugenta com a caixa das mós atrás, e não amolava só tesouras e facas, também consertava chapéus de chuva e punha gatos nos alguidares de barro rachados. Ia tocando a sua flauta de Pã pelas ruas, para chamar a atenção do povo. O capador de porcos também tinha uma, mas não combinava nada com o seu tipo de ofício: uma vez vi-o capar um porco e logo a seguir comer os testículos do pobre animal, assados com sal e vinagre nas brasas. E o porco a ver, coitado!... O amola tesouras era mais romântico, apesar de me parecer tão velho quanto a minha avó. O som da sua flauta de Pã era muito singular, parecia que ondulava para a frente e depois regressava ao ponto de partida e ficava no ouvido como uma melodia do paraíso. Eu ía logo a correr e mandava-o parar, depois trazia-lhe a tesoura da minha mãe, que já não cortava mas, mastigava. O amolador já me conhecia desde muito miúdo e fazia-me brincadeiras do género: orelha, telha ou puxelha?... E eu baralhava-me sempre e dizia telha ou dizia puxelha, e ele puxava-me as orelhas para cima ou para a frente, respectivamente. Ou outra assim: de quem é esta cara?... Ele apontava para perto do meu nariz, eu devia responder que era dele, mas também me enganava sempre e respondia que era minha e então ele puxava-me o nariz, dizendo: se é tua, para que serve este marco aqui ao meio?...
O amola tesouras era muito divertido e muito simpático e até me tratava por Nico. Então Nico, já tens muitos ninhos? Ele sabia que eu gostava de pássaros e de ninhos. Olha, ontem vi um pica-pau; e tu, já viste um pica-pau? Coisas assim. Ele dizia que já tinha visto um cuco e eu não acreditava - não acreditava!... Então punha as mós a desandar e as lâminas da tesoura até faziam faíscas miudinhas. Um cuco?... Depois experimentava a tesoura num papel e depois experimentava a tesoura num pano, e dizia: perfeita, como nova. E dava-lhe cem escudos. Um cuco? Não acredito, era mais fácil ver aqui uma gaivota e estamos tão longe do mar. E ele: Nunca percas a esperança, Nico, nunca percas a esperança. Porque um uco e uma gaivota o que têm em comum são as asas e as asas levam-nos longe. Dava-me um apertão nas bochechas e ia-se embora a sorrir, empurrando a bicicleta ferrugenta, vagarosamente, e fazendo-se ouvir pela flauta de Pã. O som ia e vinha, subia e descia, parecia que ondulava, fazia parte daquela paisagem. O amolador, ele próprio, também era uma paisagem: olhando para ele, viam-se os quatro cantos do mundo. Um cuco? Não acredito...
Voltava com a tesoura afiada e a minha mãe nem precisava de a experimentar porque sabia que o amolador era de confiança. Ela ficava contente, porque uma costureira com uma tesoura que mastigava o pano era uma má costureira e ela e a tesoura afiada faziam maravilhas. Apenas ao domingo deixava a tesoura e a Singer em paz.
A minha mãe era a número um do universo. No meu livro de leitura havia uma lição que se chamava «Tu és linda, minha mãe!»* e contava a história de uma mãe que queimou as mãos para salvar o filho que dormia no berço. Ela não queria que o filho as visse, tão deformadas e cheias de cicatrizes estavam, mas o pequeno acaba por lhe dizer assim: «As tuas mãos são as mais belas do mundo!»
As mãos da minha mãe não tinham queimaduras nem deformações, apenas a pele engelhada, e frieiras e calos da tesoura e picadelas de agulha quano se esquecia de utilizar o dedal. Mas também as dela eram as mais belas do mundo. Eram mesmo as mais belas do mundo!
Melhor dizendo, a minha mãe era o mundo e cada mão tinha o tamanho de uma paisagem. Quando me pegava ao colo e, mais tarde, me abraçava, eu sentia-me uma árvore no meio dessa paisagem. Influenciou-me e julgo que dei, como árvore, os meus frutos.
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*Texto de António Botto, «Tu és linda, minha mãe!».
PAULO JOSÉ COELHO CARREIRA
(Batalha)
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