20 de outubro de 2012
2012 - 3º Prémio
Deve reconhecer-se à literatura função mais vasta (e, dir-se-á, mais nobre) do que a de simples entretenimento? É função da literatura influenciar quem dela frui, de forma que quem lê interpele e seja interpelado, num claro debate das ideias que ressaltem da leitura? Não será esse debate que, implicando, embora, empenhamento e mobilização, acaba por desembocar no maior dos gozos, porque partilhado e discutido? Não faltará quem, militantemente, negue à literatura qualquer interferência na sociedade. Como abundará quem defenda conceito absolutamente contrário. Poderá de tal dicotomia resultar consenso? E será importante o consenso? Será importante, ao menos, ter opinião formada após a leitura? A total ausência de reacção não geraria um vazio desmotivador a sugerir o abandono do exercício da mesma leitura?
Dificilmente algo na vida resulta completamente inconsequente. Mesmo que tal pareça, no imediato. Se, no caso em apreço, a leitura não provocar reacção, espanto, revolta, adesão, repulsa, algo assim, levará, inevitavelmente, ao tédio, ao fastio, ao afastamento. Ainda assim, uma atitude. Em última análise concluir-se-á estarmos perante algo que nada terá de literatura, apenas mero sequenciar de palavras, desprezível porque inócuo.
"Escrever é uma forma socialmente aceite de esquizofrenia" (Doctorow). Será? E a leitura? Será a "aceitação" da escrita, o seu uso, totalmente racional? Quem é mais ou menos louco ou, dizendo-o de forma menos agressiva, mais ou menos atreito a sentimentos incomuns gerados pela escrita? Onde entram as emoções no processo?
Sobram testemunhos sobre o sofrimento que é, tantas vezes, escrever. E o gozo, outras tantas. Ou as duas, em simultâneo. Nunca ouvi de alguém que escrever o deixe indiferente. Quem escreve (sobretudo no conceito de escrita mais válida, da que legitimamente pode chamar-se literatura) pode até inventar uma estória, mas há-de meter-lhe vida dentro. Não acredito na total ficção. Não acredito na escrita que não dói e (ou) não consola, na escrita que não agride e (ou) não acaricia. Acredito firmemente que a aparente invenção na escrita é, apenas, aparente. A escrita que interpela não inventa em absoluto. Reproduz, veste uma qualquer realidade com o fato que o autor talha. Mas o tecido já existia (muitas vezes em simples e curtos retalhos?) porventura com outra forma, com cores menos apelativas, menos provocatórias. Entre a calma criação e o quase (quase?) delírio o autor há-de estabelecer com o leitor uma interacção/conivência de função socialmente viva e consequente. A escrita há-de "mexer" com o leitor, há-de enleá-lo na sua malha, obviamente com diferentes graus de intensidade. O leitor há-de aderir ou repelir, numa atitude, em qualquer dos casos, de envolvimento. Inteiramente racional? (perguntava eu mais atrás). Não creio. A escrita que "fica", que permanece no tempo, há-de ser a que procura, tantas vezes no quase absurdo, um mundo outro, mais á frente. Porque a criação na escrita situa-se sempre antes do "seu" leitor. Quanto antes? Não creio que se saiba, porque muito variável. No limite não serão, sequer, contemporâneos. Acontece bastas vezes... Sinal inequívoco de que a escrita exerce a sua função resulta da partilha de quem lê. Quanto mais a escrita (a leitura) é conversada, comentada, debatida, criticada, mais evidente se torna a sua função social, a sua interacção com a sociedade a que se destina. No extremo se não mexe, se não incomoda, não existe.
Em contraponto perguntar-se-á se - em tempos conturbados, carregados de preocupações a que não conseguimos fugir - faz sentido, por outro lado, procurar, voluntariamente, numa espécie de auto-flagelação, inquietações acrescidas, evitáveis e, tantas vezes, distantes no espaço e/ou no tempo? Não bastará à literatura assumir-se como mero veículo de prazer, descontracção e relaxamento? Nos diversos graus de envolvimento atribuíveis aos leitores, tão diversos entre si no grau de exigência e na capacidade crítica, pode a literatura desempenhar sempre uma função válida e útil? Pode pedir-se-lhe, exigir-se-lhe, essa responsabilidade? Entendo que sim. O sofrimento, a inquietação, o envolvimento emotivo com a escrita, são "coisas boas". Pode o sofrimento ser bom? Pode e, no caso, é! Atentemos no leitor a quem a leitura arranca uma quase lágrima. Se sobrevier um comentário será de consolo, tantas vezes a raiar o êxtase. E não me refiro, obviamente, só à lágrima fácil, arrancada ao leitor por processos estereotipados, de há muito conhecidos e praticados. Mas, também aí, a escrita exerce a sua função social e tem os seus defensores indefectíveis. No conceito "leitor", em abstracto, cabe um vasto leque de sensibilidades, expectativas e exigências. A cada "leitor" a "sua" literatura? Sem dúvida! Se boa ou má não cabe aqui a questão.
Do que fica dito ressalta a convicção de que na literatura interessa o que "se diz" e "como se diz". Quanto mais importante é uma vertente em relação à outra? Deixemo-las a par. O leitor há-de valorizá-las, caso a caso, segundo o seu vário e muito respeitável critério e prender-se-á tanto mais à estória quanto mais ela seja, por si mesma, mobilizadora e envolvente, quanto mais próxima se encontre das suas expectativas e quanto mais lhe seja apresentada em narrativa competente, artisticamente ornamentada e próxima duma realidade possível e coerente.
E a resposta é sim! Em definitivo! À literatura cabe sempre um papel eminentemente social.
JOAQUIM DA CONCEIÇÃO BARÃO RATO
(Beja)
2012 - Menção Honrosa
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Têm o mundo íntimo de alguém que encontra na folha em branco o maior abrigo, o maior colo e o maior abraço. Quando sozinho esculpe o seu silêncio no papel, o interior flui como um afluente e parece que se consegue pôr à distância, que é de longe que se vê mais perto. E quem aquele interior lê pelos seus próprios olhos, não o vê como o autor o escreveu. É que não vemos o mundo como ele é, nós vemos o mundo como somos. E muitas vezes, por sermos frutos similares da condição humana, conseguimos ver o nosso reflexo numa metáfora pertinente, numa ideia que parece ter brotado de nós próprios, numa questão que também a nós interroga. Os livros comem-nos o tempo tão bem! Não só os mais gordos, até mesmo aqueles que parecem anémicos e que se leem sem que precisemos de piscar os olhos uma única vez. A sua erudição sagaz em fazer companhia torna-os amigos de longas horas de café. Os livros são um bilhete para uma viagem, são o melhor meio para evadir de dentro de quatro paredes.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Têm a fantasia, a criação, o talento, a transcendência, a ficção, a quimera, o anseio e a arte. São as telas dos pintores, as pautas dos músicos, as coreografias dos dançarinos, as plantas dos arquitetos, são as estátuas dos escultores! Têm o que não existe à frente dos nossos olhos mas que existe atrás deles, no terreno fértil da imaginação, onde sonhamos, fantasiamos, devaneamos e divagamos por terras que não existem, com pessoas que não conhecemos a uma hora sem tempo. São eles que não nos deixam soltar do apetite imaginativo da infância.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Têm o conhecimento da investigação e das descobertas, têm o saber de quem estuda e escreve para quem fica não cair nos mesmos erros, ou para poder partir de um nível superior na sua própria demanda pelo conhecimento. Quando, numa sala, todos pensam da mesma maneira, então há alguém que não está a pensar. Somente se limita a imitar o que outro pensa. Será, certamente, o livro uma base de lançamento para o pensamento crítico, nunca uma base de reprodução.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Contam os anos da nossa história, relembram-nos diariamente de onde vimos, porque vimos e porque cá estamos. Que passos demos e que passos ficaram por dar. Sussurram, ao ouvido, o outrora de um povo criando-lhe um sentido patriótico de identidade e lealdade, não deixando nunca cair no esquecimento quem, por obras valerosas, se liberta da lei da morte, como diria Camões que dela se desatou.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Condensam a sociedade que os escreve e que cria a cultura onde se inserem. Nas suas páginas está o clima que os acolhe e o Zeitgeist intelectual que os envolve. São o reflexo de movimentos revolucionários, o espelho de paradigmas de pensamento, a cópia de ideias dominantes, simulacros de um contexto que não se apaga ou esmorece.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. São um bisturi social ao serviço de todos os seres humanos que, por sua vez, coexistem numa sociedade onde estabelecem interações necessárias à vida. A literatura tem um impacto tremendo do ponto de vista social pois cada livro protege, no seu âmago, uma ideia. E, como sabemos, as ideias são à prova de bala, não perecendo, pois, por meio de um assassinato comum. Cada ideia é uma arma do seu autor, indestrutível do ponto de vista tangível e físico. Produções literárias como A Bíblia, A Origem das Espécies, Manifesto Comunista, Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo, entre muitos outros, marcaram a humanidade de uma forma aterradora, contribuindo para grandiosas mudanças do pensamento individual, grupal, social e societal. Estas incontornáveis obras históricas trouxeram revoluções irrevogáveis, originaram novas crenças e seitas das quais algumas perduram até hoje, ultrapassaram paradigmas científicos vigentes, fuzilaram mitos enraizados por várias gerações, abalaram hierarquias sociais, reformularam o rumo da história. No entanto, não precisamos de rumar tão longe para ver o quanto a literatura pode condicionar as pessoas e as suas relações. (Simples não tem de significar superficial nem profundo tem de significar complexo). Um conto para adormecer o menino estimula a maternidade e fortalece os laços familiares, cartas de amor podem desvanecer a triste dor da ausência e assegurar um até que a morte nos separe, a poesia une os corações dos poetas. Ao conhecer perspetivas demonstradas num romance, uma pessoa toma esse conhecimento como se o tivesse adquirido pela sua própria experiência. A gente sábia sabe fazer isso, aprende pelos erros dos outros, evita ter de os cometer. Esses conhecimentos – que os livros nos dão para sempre – irão converter-se em modos de agir perante o mundo que nos rodeia e perante as pessoas. Os nossos pensamentos podem ser condicionados pela literatura e transformarem-se em palavras ditas. Da nossa boca aos nossos atos é um passo e, rapidamente, essas ações tornam-se hábitos. Se assim acontecer, enraízam-se e transformam-se em caráter. Em tudo o que pensamos, nós nos tornamos. As letras têm esta capacidade fabulosa de nos tocarem, sem obstáculos, o pensamento.
Os livros têm mais do que palavras por dentro. Cabe, em si, a humanidade no mundo.
DIOGO RAFAEL VEIGA CARREIRAS
(Coimbra)
2012 - Menção Honrosa
Na literatura, o autor, recorrendo aos mais variados artifícios, vai mostrando distintas realidades, algumas das quais estão para além do conhecimento ou do dia a dia do leitor. Mas, o escritor faz mais do que se limitar a mostrar as existências desconhecidas: sub-repticiamente transformado em “escritor-pescador”, ele vai lançar a linha com um apetitoso isco, agitando-o levemente, até que o “leitor-peixe” o agarre. A partir daí, e como exímio pescador que é, o autor vai desenrolando lentamente a linha da sua cana de pesca, tentando que a sua presa não se solte do anzol, procurando conduzir o seu futuro troféu de pesca até bem junto de si, para o capturar. - Por vezes, o autor não é tão exímio pescador como pensa e o leitor-peixe escapa-se do anzol. - Capturado o leitor, a literatura transforma-se num intricado labirinto. O próprio leitor, que mordeu o isco (com linha e tudo mais), vai agora procurar descobrir onde o “criador” do labirinto o quer levar. Qual Teseu, vai-se valer do fio - que para o autor-pescador era o da cana de pesca - e segui-lo, convencido que existirá uma Ariadne que lhe mostrará a saída e que o irá salvar do temível Minotauro que, algures, o procura devorar. Por essa altura, já a literatura extravasou a mera função social. Já se tornou um medir de forças entre autor e leitor. Transmutou-se num tango dançado com veemência. Metamorfoseou-se num passatempo lúdico que transportará o leitor a novos mundos – reais ou imaginários.
A literatura também aproxima os indivíduos: um pouco por todo o mundo as pessoas juntam-se em grupos, ou em tertúlias, para analisarem e estudarem a obra de um dado autor. Similarmente, as diversas religiões organizam-se e reúnem os seus fiéis em torno dos seus livros sagrados: os cristãos em volta da Bíblia; os judeus em volta do Pentateuco e do Talmude; os muçulmanos em torno do Corão; os mórmones em torno do “Livro de Mórmon”.
Também se pode atribuir à literatura a responsabilidade de agregar e manter coesas as nações do mundo. Isto porque, em cada país, a constituição e os códigos a ela agregados, mantêm e definem os direitos e as obrigações dos indivíduos, enquanto cidadãos, e os do respetivo estado.
A literatura - independentemente da forma como aparece: em prosa ou em poesia; em romance ou em conto; como força de lei ou como meio lúdico - extravasou as fronteiras da mera ação social e tornou-se em um excelente indicador da cultura e da qualidade de um povo: um povo que lê muito e que lê bons livros será um povo mais rico. Todavia, convém salientar uma frase já muito batida, mas muito atual: a verdadeira riqueza de um povo não é contabilizada pelo dinheiro que possui ou pela capacidade de gerar dinheiro e bens materiais. A riqueza de um povo é refletida num espírito aberto e na capacidade para avançar para o futuro, aprendendo com os erros do passado e enfrentando os desafios do presente. Mas isso, só será possível com a multifacetada literatura, fiel depositária da história da humanidade, dos sonhos, dos pesadelos, do mal e do bem, das descobertas e das invenções; permitindo que a todo o momento se aceda à sua grande biblioteca e conduzindo a que haja uma maior tolerância interpessoal, fomentando a paz e harmonia global.
JOÃO MANUEL DA SILVA ROGACIANO
(Alverca)
2012 - Prémio Especial Juventude
Imagine um mundo sem emoções súbitas. Imagine um mundo onde, por já se saber tudo, não se pensa em nada. Imagine um mundo onde nada é novo. Imagine um mundo sem absurdo ou espectáculo. Imagine um mundo onde tudo é preto ou branco, sem existirem tons de cinzento pelo meio. Esse seria o mundo em que eu, o leitor e todos nós viveríamos se não existisse a literatura.
Só a literatura tem o poder de entreter, divertir ou angustiar enquanto ensina ou expõe situações novas e acontecimentos que obrigam a pensar. A literatura tem a capacidade única de fazer parar o tempo e marcar uma determinada época, sem no entanto se mostrar desatualizada com o passar dos anos. Sendo intemporal, é também a sua pluralidade que permite estimular as emoções, dificultando por vezes a distinção clara entre a mente e o coração, podendo ocorrer aqui uma fusão perfeita de sentimentos e racionalidade.
Para além de contribuir para um alargamento de conhecimento, a literatura entretém e diverte até as almas mais solitárias. Quem lê ou quem escreve nunca está só, mesmo que se encontre entre quatro paredes, sem nenhuma outra forma humana presente, além de si mesmo. Quem segura um livro nas suas mãos, segura o bem mais precioso que alguma vez poderia ter só para si. É ele que permite conhecer novos lugares, temas, realidades, situações, viajar pelo mundo fora e até por outros mundos sem ser necessário sair do sofá. A literatura tem assim o poder de contar uma história que enriquece cada um que a abraça e interpreta.
A literatura tem desde sempre inúmeras funções, que nem sempre são reconhecidas ou valorizadas por todos. Para além da sua função educativa ou lúdica, é inegável por tudo o que foi referido que a literatura tem também uma função social. Para além de fazer companhia e "aquecer" todos os corações que a acolhem, é ela que acompanha e, por vezes, vaticina a mudança e a evolução dos tempos. Agitadora de consciências, desperta até as mais difíceis e adormecidas. Insensível a diferenças e distinções, torna ainda igual o que muitas vezes é tido como diferente.
A literatura tem essencialmente o poder da mudança, tanto de opiniões, como de atitudes, já o afirmava Henry Thoreau, escritor norte-americano do séc. XIX, quando referiu que "muitos homens iniciaram uma nova vida a partir da leitura de um livro". Assim, partindo para um plano mais geral, subentende-se que a literatura tem indubitavelmente o poder de alterar ou até mesmo reformular sociedades, a fim de as melhorar, em nome da evolução natural, mesmo que esta ocorra quase sem nos darmos conta da sua progressão. De pequeno passo em pequeno passo, a mudança ocorre, essencialmente através da mutação de padrões, referências, modelos ou conceitos. Não obstante este poder, é importante notar que, apesar de estas mensagens chegarem a todos nós, não são imunes ao nosso julgamento. Desta forma, cada um de nós julga as mensagens e seleciona e aceita aquelas que mais se aproximam dos nossos pontos de vista ou comportamentos, agindo com base na reflexão e introspeção, capacidades que, no entanto, são também impulsionadas pela literatura. Quem escreve, torna público aquilo que por vezes é privado e abre o seu coração ao próximo, enquanto quem lê se predispõe a conhecer a história de outrem e, com isso, a enriquecer o seu coração e a sua mente, que passa a abranger um leque cada vez mais vasto de situações e ocorrências.
Mário Vargas Llosa, vencedor do Prémio Nobel da Literatura no ano de 2010 e escritor de excelência, também não ignorou a função social da literatura e o poder que ela exerce sobre cada um de nós quando afirmou que "a literatura não é algo que nos faça felizes, mas ajuda-nos a defendermo-nos da infelicidade", reforçando aqui mais uma vez a "companhia" que a literatura representa para quem se predispõe a recebê-la de braços abertos. De facto, um livro pode, por vezes, ser a única companhia de uma alma, mas nem por isso se torna menos importante ou valiosa que a de qualquer outro ser humano.
Assim, a literatura é rica em funções, mas é a sua função social a mais relevante. Desde sempre é indiscutível o papel que a literatura desempenha no âmbito social. Desperta e agita consciências, contribui para a formação e desenvolvimento de um espírito crítico saudável, capaz de refletir acerca das condutas assumidas por cada um e pelos seus semelhantes, estimula a sensibilidade e a imaginação, abre e apura mentalidades, contribui ativamente para o surgimento da mudança positiva, fornece valores, contrói o dilema coração-mente, fazendo com que frequentemente seja necessária uma fusão harmoniosa entre os dois para o entendimento perfeito de tudo o que é novo e vem através da literatura; no fundo, para além de manter a sociedade unida, mesmo nas suas diferenças, ainda a aperfeiçoa. É ao mesmo tempo um estandarte de liberdade, atuando como uma arma poderosa com efeitos imprevisíveis, frequentemente temidos por quem se encontra no poder, uma vez que é através dela que muitas vezes se levantam questões sobre as mais variadas crenças, ideologias e condutas sociais geralmente aceites pela maioria a população. Por tudo o que foi referido, entende-se que a literatura é acima de tudo uma arte com um poder invulgar. Mas é ainda muito mais do que tudo isto, e é isso que a torna tão especial e tão magnífica.
FILIPA RAQUEL NUNES PITEIRA
(Évora)
2012 - Prémio Especial Juventude - Menção Honrosa
A pertinência da literatura é uma questão que ainda hoje provoca profundas cisões ideológicas. Muitos encontram na literatura uma oportunidade de contrariar a solidão ou meramente uma forma de ocupar o tempo livre. Outros procuram nela novas emoções, mais conhecimento ou apenas um modo de exorcizar a tensão inerente à rotina. Pelo contrário, muitos ridicularizam a sua importância, consideram-na como mais um símbolo de frivolidade ou menosprezam o seu carácter pedagógico. Sob qualquer um dos pontos de vista, é indubitável que a literatura ao longo dos tempos tem-se verificado útil ao ser humano enquanto ser pensante, pois mesmo que não resulte num momento de introspectiva, aprendizagem ou descontracção serviu pelo menos de tema para os críticos. Mas será que a relevância da literatura limita-se exclusivamente ao indivíduo como ser singular ou caberá, porventura, à literatura uma função social?
Certamente que a literatura tem um papel fundamental na construção de qualquer sociedade e para comprovarmos isso basta olharmos em retrospectiva e recuarmos até ao tempo da nossa infância. Os contos infantis que nos liam para adormecer transmitiam ensinamentos simples que até hoje têm repercussões no nosso modo de estar e viver, sem que sequer nos apercebamos. Princípios básicos de cidadania foram sendo transmitidos através dessas histórias que aparentavam ter apenas um carácter lúdico.
Para além destas funções informativa e educativa, é possível também reconhecer uma função crítica à literatura. Os autores servem-se da literatura como instrumento para satirizar padrões de comportamento e fazer os leitores repensar nos preconceitos, estereótipos e adágios que aceitam sem se interrogar acerca da sua veracidade. Da literatura nacional, recordo por exemplo a obra emblemática do teatro português dos anos 60 – “Felizmente há Luar!” de Luís de Sttau Monteiro – que, tendo como pano de fundo uma história dramática, coloca em evidência a opressão que se vivia no Portugal dos anos 60, debaixo da ditadura salazarista e que constitui uma espécie de hino de todos aqueles que lutaram pela liberdade do povo português. Memorial do Convento, outro marco da literatura nacional, transmite por um lado uma visão crítica e sarcástica da sociedade portuguesa da primeira metade do século XVIII – hábitos sociais, corrupção, infidelidades conjugais, actuação do rei, da Inquisição - e por outro lado, o possível paralelo entre essa época e a primeira metade do século XX, constitui igualmente uma reflexão sobre a condição humana, as relações entre os homens, as injustiças, a exploração dos fracos, a omnipotência dos poderosos e a miséria humana.
O leitor após compreender estas e outras metáforas preconizadas através da literatura é inevitavelmente induzido a reflectir sobre os seus conceitos e preconceitos. Eventualmente será compelido a modificar a sua de perspectiva de vida e consequentemente moldará o seu comportamento.
Além destas e outras obras, ainda mais efectivos na influência que provocam sobre as culturas são com certeza os livros sagrados que regem costumes, alimentam crenças, influenciam políticas e fundamentam a moral e a ética.
A literatura por si só encerra um compromisso com a liberdade de expressão. É uma reafirmação da negação à censura e, como tal, um contributo para o desenvolvimento de uma sociedade mais democrática.
Uma sociedade sem literatura é perfeitamente inconcebível. O que seria dos românticos sem Shakespeare? Ou dos filósofos sem Platão? Ou Portugal sem Camões?
Há quem defenda que para que possamos compreender uma obra literária, como um romance ou um poema, precisamos primeiramente de conhecimentos ou crenças pré-adquiridos no mundo real e que, por isso, a literatura em nada contribuirá para o nosso conhecimento. Eu interrogo-me se não serão esses conhecimentos e crenças fruto de ideologias anteriormente divulgadas na literatura e, assim sendo, enveredamos num ciclo vicioso em que conhecimento gera mais conhecimento.
Há também quem considere que a ficção é inútil pois «para quê ler coisas sobre gente que não existe? Não passam de personagens em ambientes fictícios. As suas afirmações não são válidas no mundo real.» Mais uma vez questiono-me: a ficção não se baseia do mundo real? E essas personagens, ainda que imaginárias, os são os seus pensamentos, diálogos e aspirações não serão fruto da imaginação do seu autor – um ser pertencente ao mundo real? Parece que novamente somos conduzidos a um ciclo, pois a utopia tem natureza na realidade, logo porque não extrapolar esse conhecimento para o mundo real?
Por tudo isto, sublinho – sim, a literatura tem uma função social. A literatura é o reflexo das aspirações, os sofrimentos, as angústias, a História, os receios e anseios de toda uma sociedade. Não é apenas um símbolo de referência nacional: é informação, educação, formação e porque não também um eficaz fertilizante para a imaginação? A literatura é enriquecedora ao indivíduo na medida em que o faz fantasiar, o emociona, acalma, excita, perturba, ensina, e, sobretudo, o faz reflectir e auto-avaliar. A literatura é uma fonte incontestável de pedagogia social e uma força motriz para o progresso.
MARISA DA CONCEIÇÃO MOREIRA
(Lisboa)
30 de maio de 2012
Regulamento do Prémio Literário Hernâni Cidade 2012
Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.
2º
Na edição de 2012 a modalidade é Ensaio e o tema é "Cabe, porventura, à literatura uma função social?"
3º
Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.
4º
O trabalho não deverá exceder duas páginas e será enviado em cinco exemplares. Papel de formato A4, dactilografado, com espaço e meio de entrelinhamento, caracteres de tamanho 12, letra Times New Roman.
5º
O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. Esse envelope conterá obrigatoriamente no seu interior a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto.
6º
O trabalho poderá ser entregue:
a) Em mão na Biblioteca Municipal de Redondo
b) Pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Municipal Hernâni Cidade 2012
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 REDONDO
c) por email para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que:
1. seja enviado em anexo
2. o título do trabalho seja o mesmo que o nome do anexo
3. venha assinado com pseudónimo
4. em segundo anexo no mesmo email seja enviada a identificação do concorrente
5. cumpra as restantes cláusulas do regulamento
7º
O prazo de recepção dos trabalhos termina em 17 de Agosto de 2012, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri de três elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cuja decisão não haverá recurso.
8º
Serão atribuídos
a) Três prémios: 1º, 2º e 3º, a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.
b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam, em número a definir pelo Júri.
c) Prémio Especial Juventude, para o qual só serão tidos em consideração os trabalhos dos concorrentes com idades compreendidas entre os 14 e os 20 anos inclusive.
d) Diplomas de Participação a todos os concorrentes.
9º
O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.
10º
Os concorrente premiados serão antecipadamente avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia a realizar no dia 21 de Outubro (Domingo), pelas 16 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.
11º
A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional, ou ainda proceder à sua encenação ou representação em tempo oportuno.
Organização
Município de Redondo
Apoios
BPI
Junta de Freguesia de Redondo
Millenium bcp
18 de outubro de 2011
2011 - 1º PRÉMIO
Uma velha mesa poeirenta no centro de uma sala vazia. Ali esquecido, um jornal com notícias de outrora repousa em cima de um sofá igualmente velho, igualmente poeirento. A lareira de pedra impõe-se, austera, neste espaço que respira instantaneamente, além da poeira do tempo, a nostalgia de um passado que agora se mascara de ilusão de presente.
Lá fora, a rua também vazia, de gente e de vida, parece adormecida e alheia ao meu olhar e à minha presença, como se eu fosse agora uma mera transeunte, apenas de passagem. Uma estranha sem rosto e sem história. Mas a minha história também já se escreveu aqui. Num ontem distante, esta rua que agora percorro, gritava as histórias de todos os que aqui se fizeram gente.
2011 - 2º PRÉMIO
Carrego um amontoado de anos sobre as costas. São quase cem. Há lembranças que se desfazem nos declives da minha memória. Há outras, muito antigas, que permanecem vivas, como se tivessem nascido neste preciso momento.
Nasci nesta terra maravilhosa. Não digo o nome. Fica para descoberta do prezado leitor. Passei aqui a minha infância e guardo religiosamente no meu coração todas as inspirações que esta paisagem exerceu e ainda exerce sobre mim.
Depois de muitos anos de ausência, voltei a este cantinho do meu Portugal. Os sonhos, os meus sonhos, porque em toda a parte se pode sonhar, começaram a florir num bailado de recordações repletas de magia, onde a idade se perde nos recônditos mais íntimos da minha vontade de viver, para poder contar aos meus netos e bisnetos o quanto tive de belo nesta natureza ímpar.
Vejo-me novamente a saltar por penhascos e árvores; a chapinhar nos pegos das ribeiras; a subir as antas que guardam nos seios milenares sonhos que floriram e outros que ficaram só em botão; a atirar pedras aos pássaros com uma fisga feita com o elástico de uma liga que roubei à minha mãe. Eram aos milhares as aves que esvoaçavam nas encostas da serra. Eu não sabia, ninguém sabia o mal que fazíamos, quando atirávamos sobre as lindas avezitas. Os piscos, as felosas, as toutinegras, os gaios e tantas outras aves, eram aos milhares formando nuvens no céu do céu e no céu da minha meninice. Eu percorria vários quilómetros por dia, em busca da descoberta. E descobri a paisagem que envolve o tempo do meu tempo, onde prevalecem os retratos, nunca tirados, mas onde vejo a minha infância nítida e transparente, como era a água daquele tempo.
Logo que acabavam de comer, lá iam os meus pais ceifar. As espigas, no seu farfalhar, falavam e cantavam. Pareciam gente... e eu ouvia, ouvia, os seus melódicos e dolentes cantares, preparando-se para poderem dar à luz o pão que mitigaria os desejos de tantos estômagos. As papoilas, de um vermelho não muito rubro, corriam ao desvario quando a brisa era mais intensa. O que mais me intrigava era que ficavam sempre no mesmo lugar. Parecia magia. Ali tudo era mágico! Até o pôr-do-sol exercia uma força poderosa sobre mim, criança de cinco ou seis anos. Estive em vários países, mas nunca vi um poente tão fascinante como este da minha terra. O crepúsculo benzia com os seus soberbos sombreados as copas das sobreiras e das azinheiras, num adeus ao dia que se ia deitar com as estrelas, na cama da lua, para voltar novamente, passadas algumas horas, com o sol no seu bailado de reflexos.
Eu só ia à vila de tempos a tempos. Às vezes lá ia com o meu pai, quando ele precisava de comprar umas botas de sola de pneu. Eu não usava nem botas nem sapatos, mas corria e saltava por todo o lado. Uma vez calcei as botas do meu pai e achei que aquilo me atrapalhava muito e era difícil correr, com aquela geringonça nos pés, para apanhar uma lagartixa ou outro bicharoco.
A minha avó, já muito idosa, com uma grande corcunda nas costas, que a fazia andar toda enrolada, passava os dias a fazer flores de papel, para as grandes festas. As flores eram tão bonitas que se assemelhavam às papoilas que corriam com o vento, mas que ficavam no mesmo lugar. Outras flores faziam lembrar os grandes girassóis que seguiam religiosamente o Sol no seu dolente andar. Eram flores tão lindas feitas de papel, que enchiam alcofas e alcofas. Ali estavam os meus sonhos floridos, numa paisagem curta mas distinta, onde a história da minha terra é saboreada por quem vê, com os olhos do espírito, que as tradições são a alma de povos e gerações.
Nunca pensei voltar a ver as festas da flor. Não sei se posso chamar a este encanto uma paisagem, porque, na realidade, eu sei o que é uma paisagem. Na minha infância eu vivi e vi a mais bela paisagem ou paisagens, que me marcaram juntamente com as festas da flor, mas eu não sabia o que era. Era apenas a minha terra semeada de sonhos, que mais tarde se transformaram em cravos floridos.
Hoje voltei a ter os meus cinco, seis e sete anos e o mundo de outrora voltou à minha mente. As lágrimas marejaram-me os olhos, como que a vendar o presente para ver e reviver o passado.
Ao longe, vislumbro os imensos terrenos caiados de pérola pelo restolho, que forma uma toalha matizada pelos raios solares, estendida numa grande mesa, onde as aves, as aves da minha infância comem os grãos que ficaram caídos.
Vejo as encostas da serra com os seus penedos. Oiço o correr da ribeira. Tenho na boca o sabor do pão que a minha mãe fazia e brinco com os caroços das azeitonas que comia e me sabiam a mel.
Nestas festas da flor, olho o meu bisneto, que tem seis anos, e vejo nele a paisagem que marcou a minha infância, nos seus sonhos floridos.
2011 - 3º PRÉMIO
Tac…Tac… Caíam na manta relvada do chão macio. Uma a uma, redondas, cintilantes na sua capa encarnada. A gravidade não fazia o trabalho sozinho. A vara da tia Carmelinda era a força impulsionadora.
Eram de facto cerejas e, ainda hoje, recordo o canto ecoado na mente da criança franzina. Pés descalços, confortáveis na frescura do piso. Permanece-me entranhado nas narinas o perfume das flores e o aroma desse fruto delicioso. Os meus olhos ainda avistam o verde da paisagem. Quando adormeço, os pássaros embalam-me os sonhos.
De saias compridas, quase a raspar o chão, socos ruidosos e avental à cinta, desfilava uma velhinha, numa azáfama de mulher atarefada. Ora transportava uma bacia de onde pendiam trapos, preparados para serem esticados na corda junto ao rego de água. Ora rapava a erva, de foucinha afiada, acumulando, em cerca de 10 minutos, o lanche dos coelhos cinzentos e orelhas descaídas.
Toc…Toc… Os socos batiam no chão e ecoava a presença da doce velhinha a quem docilmente eu chamava de avó. O doce estava sempre presente. No sorriso dela e no meu, quando gulosamente saboreava o caramelo desbotado que ela guardava delicadamente para me oferecer.
Às Segundas-feiras, à saída da escola, a ordem cumpria-se: ir ter com a avó, caso a mãe ainda não tivesse chegado da feira. E era a escola que de facto preenchia a minha vida…
Nos meandros encarreirados, saltitava feliz. A escola avistava-se branca a meio do percurso. O cheiro a papel camuflava o mofo das carteiras perfuradas pelo bicho – da – madeira.
Clementina denominava a agridoce professora, artista experiente em pincelar com ensinamentos as telas vazias de muitos meninos. Como aprendiza dedicada, fui preenchendo as tardes da minha infância. Entre contas e ditados, o horário não dispensava a hora do recreio, quase sempre guarnecido com pão e marmelada.
Num desses dias de escola, não foi apenas mais um… Saímos em direcção ao Castro. Registei na memória, esse evento como o único passeio que fiz com os meus colegas da Escola Primária. Já nesses tempos se falava de uma gruta, onde mouros guardaram tesouros. Onde sons estranhos davam ecos a medos e receios, transformando o local num dos mais misteriosos do Concelho.
As gotas de suor salpicavam-nos o rosto, humedecendo a vontade de chegar ao cimo do monte. Aí, a vista surgia maravilhosa, compensando o esforço no trilho percorrido. Pedaços brancos de algodão afiguravam nuvens, pendentes num azul celestial. Infinito, num horizonte pintado de verde, com elevações a contornar uma pequena povoação. Na zona central, as casas surgiam mais aglomeradas, dispersando-se um pouco em direcção à periferia.
- Senhora Professora, a gruta é naquela direcção? Vamos lá espreitar? – perguntou um dos miúdos e todos fomos ver. Dirigimo-nos em grupo para o sítio que o miúdo apontava, enquanto este simulava truques usados na defesa contra um mouro imaginário.
O termo gruta não seria o mais apropriado para descrever aqueles dois penedos. Lado a lado, separados apenas por uma giesta, ornamentada com flores amarelas. Num arranjo floral oferecido, pela natureza, em agradecimento à integridade do local.
Em tempo de férias, às Segundas, acompanhava a minha mãe nas idas à feira. Em pleno centro da povoação instalavam-se inúmeras barracas. Várias fragrâncias suavizavam o ar, assinalando os diferentes pontos de venda. Era possível comprar pão, fruta, peixe, roupa, artigos em ouro e outras surpresas. A maior de todas era oferecida pela vendedora que circulava no seio da multidão, carregando uma bilha revestida de cortiça. Era uma figura alegórica, de pés descalços, saia rodada, avental atado à cinta e lenço na cabeça.
-Quem quer limonada fresquinha? – apregoava enquanto servia água num copo de vidro, partilhado por todos os sequiosos interessados em pagar uma moedinha.
Nessa altura, havia muito tempo… Tempo para sorrir, para correr, para brincar, para ler ou escrever e mesmo para contemplar a paisagem que sempre inspirou a minha vida...
Às vezes pergunto o que procuro neste amontoado de fumo que uso para substituir essa paisagem. Não sei bem o que faço nestas filas intermináveis ao som de buzinas que me ensurdecem e agitam a mente. Qual a razão de não ter encontrado naquela paisagem de sonho, o sonho da minha?
Talvez as cerejas não tenham cantado o suficiente para me enfeitiçar…
ANA MARIA DA SILVA CUNHA
(Braga)
2011 - PRÉMIO JUVENTUDE
2011 - MENÇÃO HONROSA
As lembranças da infância não se apagam nunca. Ficam indelevelmente registadas ainda que possam repousar depositadas no mais profundo dos abismos da nossa memória aguardando pura e simplesmente que um qualquer acontecimento as faça emergir à superfície e se insinuem em todo o seu esplendor, ou não chegam nunca a desaparecer mantendo-se à tona sob a forma de cheiros, sabores, imagens, emoções ou sons com as quais vamos interagindo e dando e dando corpo ao nosso quotidiano. E há memórias a que conscientemente voltamos amiúde quando as circunstâncias e os contextos nos pedem que a elas regressemos. A memória dos espaços percorridos e vividos em criança é uma dessas memórias, a que volto frequentemente. No meu caso essa memória é a memória de um reino.
O meu reino ficava a meus pés na imensidão das vinhas, dos olivais e dos montados que, para lá do Campo do Calvário e da Praça de Touros, se estendiam ao longo da estrada para Évora até perder de vista, naquela planura onde no verão reverberavam ondas de calor que faziam tremeluzir os campos amarelecidos pelo restolho sob o bafo quente do estio e, nos meses mais frescos, se contemplava o vento penteando as searas e agitando os ramos do arvoredo num bailado infindável. O meu reino abarcava tudo em redor, emoldurado pela Serra d'Ossa, pela Boavista, pelos horizontes que se estendiam para os lados de Bencatel, de Terena, de Santa Susana, pelo recorte do casario branco da vila de Redondo no azul luminoso do céu. Lá estavam a Torre do Castelo, a muralha, as igrejas, a massa imponente dos silos da moagem, a adega...
Contemplava as minha terras lá do alto, de perto da igreja de S. Pedro, onde o meu trono ficava num palácio de cristas rochosas que aí afloravam da terra poeirenta sob os pinheiros mansos, e onde gostava de me sentar contemplando, nos amplos e desimpedidos horizontes, aquela que era verdadeiramente a minha terra, uma terra sem fronteiras nem limites. E aí sentado, deixava-me invadir pelos elementos que me rodeavam e alimentava dessa forma o meu espírito, sem o poder saber, para toda a vida.
Havia os sons. Os sons que me chegavam diluídos pela distância, e misturavam o restolhar do vento nos pastos secos e na ramagem das árvores, os ecos de chocalhos de animais no campo, o ruído da serração lá em baixo, o trinar dos pássaros na sua azáfama, a sinfonia de miríades de insectos revolteando nos ares, os gritos dos rapazes jogando à bola e as vozes estridentes das mulheres que ao final do dia chamavam os filhos pelas ruas da vila...
Havia as cores, sobretudo na primavera, quando múltiplos tapetes de flores campestres polvilhavam de branco, amarelo e violeta os tapetes verdes de ervas rasas que serviam de chão aos olivais e montados, em contraponto com a cor dourada das searas prenhes de sementes oscilando ao vento uns meses mais tarde, ou à cor fulva do barro da terra exposta quando fendida e revolta pelos arados dos tractores. Havia depois aquele azul do céu, único e imenso, feito de luz e trasparência, povoado aqui e ali por farrapos brancos de nuvens vagarosas empurradas pelo vento suão, que se iam transformando ao sabor da minha imaginação enquanto as contemplava deitado nas lajes quentes de granito que me serviam de mobília. E havia o cinzento plúmbeo que se instalava nos dias de trovoada, recortando ainda mais se possível o casario contra o céu, sobretudo quando os raios de sol incidiam ainda sobre a vila e pintavam de amarelo dourado as paredes brancas, enquanto a chuva não chegava tingindo inevitavelmente de cinza toda a paisagem em volta e derramando cortinas de água sobre os telhados luzidios, para depois escorrer generosa e transparente pelos beirados sobre o empedrado dos passeios...
Havia os cheiros. O cheiro acre do fumo negro elevando-se aqui e ali entre o casario vindo dos fornos que se acendiam nas olarias para que o fogo cumprisse a sua missão de completar, com a alquimia das altas temperaturas, o trabalho saído das rodas e das mãos dos oleiros, dispersando-se depois dolentemente na atmosfera enquanto fazia sombras fugidias nas paredes e telhados da vila. O cheiro a terra molhada, impregnado de restolho, que se levantava do chão quando as primeiras gotas de chuva se derramavam sobre as terras em redor, secas e ávidas de água, e que ainda hoje é a memória viva desses tempos quando se repete. E o cheiro a poejos que se insinuava naqueles ares e me era trazido pela brisa suave desde os campos mais abaixo onde pequenos regatos lhes afagavam as raízes...
Nesse local, de que me sentia dono e senhor, gostava de me perder no tempo, de estar sozinho dando largas à fantasia de reinar num território só para mim num local inexpugnável nas suas muralhas de pedra ocultas pela copa frondosa dos pinheiros. Absorvendo cada elemento de toda a paisagem em redor, desfrutando do prazer daquela solidão, gostava muitas vezes de quedar-me absorto nos meus pensamentos sobretudo à hora mágica do dia em que o sol se propunha render-se à noite e no céu se recortava a lâmina fina e brilhante da lua em quarto crescente, qual foice de luz riscando o astro, preparando-se para derramar daí a pouco, sob o céu polvilhado de estrelas, o seu manto diáfano de ténue luar que tingiria depois a terra com o seu halo azulado onde habitariam apenas vultos sombrios de sobreiros, e oliveiras, e rastos de pirilampos, e onde ecoaria o cantar sincopado e frenético das cigarras. Entre aqueles campos, aquele casario, aquelas gentes, deixava deambular a minha imaginação e contruía as histórias e as aventuras que nunca partilhei com ninguém, património da minha intimidade carregado pela força telúrica que emanava de toda aquela envolvência e que remanesce dentro de mim.
Talvez por isso, decerto por isso, a este meu reino regresso invariavelmente mesmo quando lá não estou e a despeito da distância que o tempo induz nas coisas da memória. É o meu reino onde ainda hoje faço poesia e escrevinho contos e romances, onde me recolho para meditar, para me conformar ou para me revoltar, umas vezes para rir e outras para chorar.
Porque esse reino está mesmo lá mesmo eu não estando, porque da infância me traz e me ficou, porque é neste reino que sinto as minhas raízes profunda e inabalavelmente agarradas à minha substância, porque sem um reino destes não seria afinal quem hoje eu sou.
2011 - MENÇÃO HONROSA
Pedem-me que fale de uma paisagem que tivesse inspirado a minha infância... Por mais que puxe pela cabeça, nenhuma me vem à memória. Nenhuma... a não ser a minha mãe. Pode uma mãe ser uma paisagem? A minha era. A minha às vezes era uma montanha, outras vezes um bosque. Umas vezes uma seara, outras um campo arado. Um lago, um mar. Tudo isso era a minha mãe. Por isso vou falar-vos da paisagem que era a minha mãe.
A minha mãe tinha sempre muito que fazer e ainda por cima era costureira. Era na época das festas e nos casamentos que ela se via a braços com mais trbalho. Tinha de acabar as roupas para o dia que lhe pediam e muitas vezes isso não acontecia e as pessoas zangavam-se com ela, mas acabava sempre tudo como deve ser. Ao pagarem, as pessoas achavam um bocado caro, porém não calculavam o trabalho despendido, os serões gastos a pedalar na sua Singer e os materiais necessários para confeccionar um vestido ou um par de calças. Apesar de tudo, vinha gente de muito longe encomendar-lhe roupa por medida e achavam-na muito boa costureira. Vivíamos numa aldeia distante de tudo e onde tudo à volta era paisagem. Mas eu acho que era a melhor costureira de Portugal. Eu acho mesmo que era a melhor do Mundo!
As mãos da minha mãe eram mágicas. Ela fazia tudo com elas. De um pano de fazenda, traçava uns riscos com giz ou com um pedaço de sabão azul, media aqui e media ali com a fita de costura, pregava uns alfinetes nos sítios certos, alinhavava em baixo e cosia em cima e estava um par de calças pronto na perfeição e o cliente com um sorriso nos lábios. Para um vestido complicado com muitos folhos e laços e lacinhos era a mesma coisa. À primeira prova batia tudo certo, quase nunca era preciso emendar fosse o que fosse e as pessoas ficavam contentes. Ela nunca fez um vestido de noiva, mas eu tenho a certeza que não teria problema nenhum em fazê-lo, assim com imensos follhos e imensas rendas e uma cauda muito comprida para arrastar pelo chão. Eu daria um braço - sim, daria um braço - em como uma princesa qualquer ficaria satisfeita se mandasse confeccionar à minha mãe o seu vestido de gala. Neste caso, teria era de trazer os tecidos e as rendas e os tules e o tafetá e as pérolas do seu país, porque devem ser materiais caríssimos para uma princesa.
É: as mãos da minha mãe eram mágicas, faziam maravilhas. Ela e a tesoura faziam milagres e a tesoura tinha tanto uso que às vezes, em vez de cortar, mastigava. Era aí que entrava o amolador de tesouras, que de quando em quando passava pela nossa aldeia. Vagaroso, vinha na sua bicicleta, uma pasteleira ferrugenta com a caixa das mós atrás, e não amolava só tesouras e facas, também consertava chapéus de chuva e punha gatos nos alguidares de barro rachados. Ia tocando a sua flauta de Pã pelas ruas, para chamar a atenção do povo. O capador de porcos também tinha uma, mas não combinava nada com o seu tipo de ofício: uma vez vi-o capar um porco e logo a seguir comer os testículos do pobre animal, assados com sal e vinagre nas brasas. E o porco a ver, coitado!... O amola tesouras era mais romântico, apesar de me parecer tão velho quanto a minha avó. O som da sua flauta de Pã era muito singular, parecia que ondulava para a frente e depois regressava ao ponto de partida e ficava no ouvido como uma melodia do paraíso. Eu ía logo a correr e mandava-o parar, depois trazia-lhe a tesoura da minha mãe, que já não cortava mas, mastigava. O amolador já me conhecia desde muito miúdo e fazia-me brincadeiras do género: orelha, telha ou puxelha?... E eu baralhava-me sempre e dizia telha ou dizia puxelha, e ele puxava-me as orelhas para cima ou para a frente, respectivamente. Ou outra assim: de quem é esta cara?... Ele apontava para perto do meu nariz, eu devia responder que era dele, mas também me enganava sempre e respondia que era minha e então ele puxava-me o nariz, dizendo: se é tua, para que serve este marco aqui ao meio?...
O amola tesouras era muito divertido e muito simpático e até me tratava por Nico. Então Nico, já tens muitos ninhos? Ele sabia que eu gostava de pássaros e de ninhos. Olha, ontem vi um pica-pau; e tu, já viste um pica-pau? Coisas assim. Ele dizia que já tinha visto um cuco e eu não acreditava - não acreditava!... Então punha as mós a desandar e as lâminas da tesoura até faziam faíscas miudinhas. Um cuco?... Depois experimentava a tesoura num papel e depois experimentava a tesoura num pano, e dizia: perfeita, como nova. E dava-lhe cem escudos. Um cuco? Não acredito, era mais fácil ver aqui uma gaivota e estamos tão longe do mar. E ele: Nunca percas a esperança, Nico, nunca percas a esperança. Porque um uco e uma gaivota o que têm em comum são as asas e as asas levam-nos longe. Dava-me um apertão nas bochechas e ia-se embora a sorrir, empurrando a bicicleta ferrugenta, vagarosamente, e fazendo-se ouvir pela flauta de Pã. O som ia e vinha, subia e descia, parecia que ondulava, fazia parte daquela paisagem. O amolador, ele próprio, também era uma paisagem: olhando para ele, viam-se os quatro cantos do mundo. Um cuco? Não acredito...
Voltava com a tesoura afiada e a minha mãe nem precisava de a experimentar porque sabia que o amolador era de confiança. Ela ficava contente, porque uma costureira com uma tesoura que mastigava o pano era uma má costureira e ela e a tesoura afiada faziam maravilhas. Apenas ao domingo deixava a tesoura e a Singer em paz.
A minha mãe era a número um do universo. No meu livro de leitura havia uma lição que se chamava «Tu és linda, minha mãe!»* e contava a história de uma mãe que queimou as mãos para salvar o filho que dormia no berço. Ela não queria que o filho as visse, tão deformadas e cheias de cicatrizes estavam, mas o pequeno acaba por lhe dizer assim: «As tuas mãos são as mais belas do mundo!»
As mãos da minha mãe não tinham queimaduras nem deformações, apenas a pele engelhada, e frieiras e calos da tesoura e picadelas de agulha quano se esquecia de utilizar o dedal. Mas também as dela eram as mais belas do mundo. Eram mesmo as mais belas do mundo!
Melhor dizendo, a minha mãe era o mundo e cada mão tinha o tamanho de uma paisagem. Quando me pegava ao colo e, mais tarde, me abraçava, eu sentia-me uma árvore no meio dessa paisagem. Influenciou-me e julgo que dei, como árvore, os meus frutos.
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*Texto de António Botto, «Tu és linda, minha mãe!».
29 de abril de 2011
Prémio Literário Hernâni Cidade 2011
Tema: A paisagem que inspirou a minha infância
1º - Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.
2º - Na edição de 2011 a modalidade é:
Organização:
Município de Redondo
Apoios:
Junta de freguesia de Redondo, Adega Cooperativa de Redondo, Millenium BCP
30 de setembro de 2010
Lista de Premiados - 2010
Prémio Literário Hernâni Cidade - 2010
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Trabalhos Premiados
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1º Prémio
"Venho brincar aqui no português"
João Alberto Fernandes Roque
(Gafanha da Nazaré)
.
Venho brincar aqui no Português
Venho brincar aqui no Português,
a língua dos meus pais e minha, agora,
herança a que acedi e assim me fez
irmanado a milhões, pelo mundo fora.
Espaço de orgulho e altivez,
onde se ouve uma voz livre e sonora,
lugar de diversão, sem timidez,
não vive já dos feitos de outrora.
E os poetas que brincam com os sons,
alegres companheiros no recreio,
partilham todos deste devaneio:
de tornar, cada qual com os seus dons,
nossa língua um local acolhedor;
nossa pátria mais rica… e maior.
Mia Couto
Sim, amigo, obrigado pelas lições.
Matámos a galinha por um ovo…
é preciso avivar, erguer de novo,
brincar, criar, fazer brincriações.
Ajudaste a sonhar colorações
no planeta dormente onde me movo,
recriaste a língua com o povo,
recreaste a língua em diversões.
Recuperaste até antigos brilhos
(e os ovos de ouro brilham mais
se reflectem o brilho dos demais),
trouxeste alegria a nossos filhos,
cor aos planetas já entorpecidos …
Seja a língua carícia em teus ouvidos!
Unidiversidade
Nascemos em países tão distantes
mas nossas falas, na diversidade,
brincam juntas em tal intimidade
nesse encontro, são línguas de amantes.
Belo festim de sons com cambiantes,
poetas burilando a claridade.
Tantas faces não quebram a unidade,
mas reflectem a luz, são diamantes.
Perceber-te não é grande façanha:
posso achar a pronúncia estranha,
pode o vocabulário divergir…
- Adorei, foi gostoso o cafuné.
- Se pensas que eu não sei o que isso é…
percebi, não precisas traduzir.
2º Prémio
"O ente do dente"
André Telucazu Kondo
(Brasil)
.
O ente do dente
Venho brincar aqui no Português,
Puxar a corda do Til do meu Pião
E fazer girar com força o tal ÃO.
Não se brinca assim com o tal Inglês.
Vou chutar bem pra ti o O da bola,
Pra tu fazeres um golo com ele,
Chutando de letra o O de sola,
O G chutando o O dentro do L.
E se menina fores, há boneca,
Pra tu pintares a bochecha dela,
Trocar o BON pelo sapo sapeca.
Venhas tu também brincar com a gente,
Com cada letra, que é bem diferente.
Vês, como o ente do dente é mais contente?
A beijar
Com portugueses lábios a envolver,
Abraços de braços moçambicanos,
Brasileira boca a tremer e a gemer,
Com carícias de toques angolanos.
Se acaso em Macau eu encontrar
Brilhantes lágrimas açorianas,
Por São Tomé e Príncipe a chorar,
Com asiáticas vistas africanas.
Saberei que o amor no mar é impune,
No mar que – ao Cabo Verde – abraça
E o Timor Leste à Guiné Bissau une.
Abraçado aos povos, no leito do mar,
A beijar com... a língua portuguesa
O mundo sente o lusitano amar.
A língua
Com o colorido da minha língua,
Posso brincar de colorir o mar,
Digo que o pobre mar vive à mingua
De azul, por isso, ele tem cor de ar.
Posso brincar com um rosado gato
De três rabos e seis patas azuis.
Posso montar em um gigante rato
Com cabeçorra de elefante anis.
Posso libertar palavras sem fim,
Tudo posso fazer com minha língua,
Basta não usar o não e dizer sim.
Na verdade, posso até dizer não
Querendo dizer sim, mas tenho medo
De a língua morder: fim da diversão.
3º Prémio
"Brincar no Português"
José Carlos Franco Pereira da Silva
(Leiria)
.
Brincar no Português
Venho brincar aqui no Português,
A tal língua pr’aí tão maltratada
Que mais parece uma baralhada
Com palavras torcidas a torquês.
Vamos lá a saber por uma vez,
O qu’é brincar c’ a língua falada?
Inventar termos ou frase melada?
Ou encher tudo de trampa em inglês?
Basta, acabai com a brincadeira,
Sou uma pessoa à moda antiga!
Não me revejo nesta bandalheira,
Sou ónesto e não vou na cantiga.
Ergamos o pendão de A. Vieira
Com mil cruzes, o Demo pr’à urtiga!
Brincar com a língua
Com a língua não quero brincar,
Que burro velho não aprende mais.
Mas posso saltar os gramaticais
Se quiserdes que cuspa pr’a o ar.
Do mundo é o fim, a’ sneira’ a saltar,
Morta’ as palavras dos egrégios pais.
A prova? Basta abrir quaisquer jornais
Ou o computador rever, clicar.
Sonetos a brincar com coisa séria?
É assunto pr’a rir? Mais pr’a chorar…
Mas nunca pr’a fazer disto pilhéria
Ou botar verso pr’ aqui a reinar.
Senhores, talvez com graça rimasse
Se, por mercê, o tempo me parasse.
Brincar no Português, às risadas
Às vezes apetece-me, sei lá…
Na gramática dar um pontapé,
Virá-la do avesso, perder fé,
Esquecer tudo, mesmo o bê-á-bá.
Nem pôr acento aqui nem acolá,
Escrever como se fosse um bebé,
Pois… tudo musicado em tom de ré,
Monocórdico, sem til sem agá.
Pôr versos no papel sem rei nem roque,
Assim como quem troca de farpela,
Brandir uma loucura de dar choque,
Que, dando um nó, entala na goela.
Enfim… sc’andalizar s’tou toda a gente:
Uf!... Bom!... Este não fica pr’á semente!
Prémio Especial Juventude
O Júri deliberou não atribuír Prémio Juventude por entender não haver qualidade nos trabalhos apresentados
.
Menção Honrosa
"Brincar com a língua"
Maria Filomena Franco Gonçalves Mota
(Mafra)
Brincar com a língua
Aqui, onde as palavras são levadas pelo vento
E apenas os sons ressoam no tempo,
A língua, faz cócegas nas gargantas poéticas
que vagueiam em fins de tarde solarengas.
Aqui, no Português, onde se soltam
Livremente sílabas tónicas que tornam
E teimam em tornar ao autor,
Bocejando bolas de sabão sem sabor.
Brincar com palavras, haverá melhor?
Permitir-lhes propagar-se pelos poros
Senti-las cintilar na pele e sabê-las de cor:
É como vestir um despido
Ou tentar despir um vestido,
Sem despentear um penteado.
Ser seduzido pela dança das letras
Simples, sensorial e insensata
Numa simbiose entre sujeitos subjugados
Sinceros no seu passo sincopado.
Ser, ter, poder, fazer, acontecer,
Muito para além do imaginável,
Pairar, flutuar, elevar, arrostar,
Saltear palavras, intrépido e instável.
Elas, que brotam de improviso
Impugnadas de excessivos sentidos,
Abandonam-nos depois sem sobreaviso.
Elas, que nos confortam e amparam
Por vezes escapam e disparam
Sem as conseguirmos ver ou conter.
Como é bom quando nos beijam a pele
O seu gosto salgado e a mel
Mas, se um ou outro ditongo se escapa
Pode rasar no palato o gosto do fel.
Por vezes inocente, por vezes fatal,
Resvala pelos meandros da emoção
Percorre as vielas da ilusão
Sem preconceito regenera-se sem mal
É para sempre querer ascender
É predispor-se a despir as amarras
E regressar às águas amnióticas.
É dar um abraço num barco à vela,
Estampado na espuma aguarela
Deixando-se remar, rumar e rimar.