- 1º Prémio
- a vida im’perfeita de josé redondo
um conto sobre um homem grande e o simples universo - Se levanta o mundo novo diante dos olhos modernos.
Que nenhum homem ouse travar o avanço da corrente.
Antes se abandone no movimento, crente.
É essa a lei universal.
o vendedor de mentiras
- Ao dia vinte e oito do mês, o homem maior da repartição de finanças falou ao mais pequeno. Ao dia vinte e nove, veio a carta registada com carimbo e rubrica do homem maior do que o maior da repartição de finanças. E, ao dia trinta, já José Redondo está sentado diante do vidro translúcido da sala de estar virado ao arvoredo do parque público a tomar o chá da tarde com a companhia habitual. É a mãe quem diz. Agora que tens o teu tempo para cuidar da tua vida, vou descansar da minha. E nessa mesma noite escreveu o testamento, com bens heranças e vontades. O andar num prédio da grande avenida, com vistas para o lago tão comido pelas raízes e ramos. Um curto chão na periferia, com buganvílias enlaçadas numa cerca e um moinho de vento. O automóvel com estofos de pele tratada e rádio de cassetes. A chaleira em cobre fino. O quadro oferecido pelo homem maior do exército no enterro do marido. A sepultura com a estátua em granito de um anjo acusador. E a poltrona em veludo verde musgo colocada confortavelmente perto da janela. Assim leu José Redondo ao primeiro dia do outro mês, quando a mãe terá sido levada pelos senhores da funerária com o mesmo fato e a mesma gravata do velório do senhor sargento, o pai. Em nota final, com uma caligrafia mais branda e escorregadia, que o filho continuasse a ajudar com a quantia certa de cem moedas a casa de alienados da guerra, onde o velho sargento Redondo acabou os dias a contar mortos e viúvas e que, porque ainda vai a tempo, possa ter uma mulher. Nos dias primeiros do mês, o homem filho viu o pó cair na mobília rebuscada da sua infância, cómodas e gavetas com tantas memórias e ausências. Retratos sem o pai, retratos só com o pai. Na hora certa, quando o sol se pendurava nos ramos secos do arvoredo em Outono, José Redondo alinhava precisamente a poltrona de peludo verde musgo diante da janela mais suja. Com a mesma delicadeza, servia a infusão de ervas em duas chávenas. Ainda perguntou. A mãe supõe que seria mais contente com outra mulher, mas onde posso encontrar uma criatura bem formada que saiba conhecer a vida além do que os olhos vêem? A defunta não respondeu, mas a vista do filho caiu nos grandes edifícios levantados do outro lado do parque público. No mas íntimo da cidade, onde José Redondo decorou o número do autocarro e o nome da paragem junto da repartição de finanças onde trabalhou trinta e nove anos, estaria, então, uma possível mulher com as qualidades que sempre considerou prementes numa pessoa. Seja ela de curvaturas fêmeas ou saliências masculinas. Sete dias antes da andança, meteu-se em limpezas e consertos. Alinhou as lombadas dos livros por grandeza, os sapatos por tonalidade. Levantou os móveis e tornou a colocar nas marcas do tempo, brandiu as cortinas em floreados e endireitou as molduras antigas bem entranhadas na parede. Ao imaginar-se a cruzar com a suposta candidata, gostaria que viesse ao seu andar nos arredores e provasse os biscoitos de figo que a mãe deixou antes de morrer. Como de costume em momentos distintos, usará a grafonola. Também fará um chá pouco carregado de cavalinha e canela e, com a mulher sentada na poltrona que fora da madame senhora Redondo, apreciará à luz do sol cadente as suas feições e maneiras. A pergunta será única. O que vês por esta vidraça? Para a mãe, diante daquela vista por mais de setenta anos, era o mundo que se apresentava nos mais distintos estados. Era como se ela lhe lesse o privado, o estado da alma universal. José Redondo estava habituado a vir do seu ofício e sentar-se tão perto a ouvir-lhe as poesias e ideias. Também a sua mulher terá de lhe contar o mundo, esse redondo de terra que sempre o afligiu e preferiu ver pelas palavras de outro latejo, mais lento e seguro. Sacudidas as poeiras e orvalhadas as plantas, engraxados os sapatos e bem esticada a camisola depois da camisa, José Redondo decidiu ser o dia certo. O céu mais pardo desenganaria a vista mais cega e tudo parecia mais claro naquela manhã. Com as mãos levou a colónia de flores ao pescoço e bruniu com os dedos ainda perfumados o cabelo tão liso e afilado. Tossiu, ensaiou a voz. Havia dias que não falava senão com a sua consciência. Venho pela tarde, senhora mãe. E calcou cada degrau do prédio como quem pisa o chão pela dianteira vez, com a incerteza dum velho escaldado e a leveza dum rapaz em esperanças. O porteiro ainda mais velho do que a mãe morta e o pai enterrado curvou-se na vénia do costume. Vai sair, menino Redondo? Com as rugas tão vincadas, José soltou o riso desengraçado de sempre. Será em passeio, também em labor. Conto voltar na hora do chá, com companhia. O ainda mais velho porteiro acenou, numa cumplicidade de rapazes. Bem notou o brilho nos olhos do filho dos pais defuntos, será vontade que leva no corpo já gasto. Sentou-se no banco da paragem, o autocarro veio na hora certa. Como de costume. O motorista era outro, mais jovem e desinteressado. Não disse bom dia e José terá percebido a morte do homem que o levou e trouxe por mais de cinquenta anos. Sem olhar para o relógio de pulso que já havia sido do senhor avô, levantou-se. Sabia exactamente o tempo entre um lugar e outro. Era a primeira vez que descia no lugar na cidade e não se conduzia maquinalmente ao serviço, onde exerceu a sua contabilidade com mérito mas sem reconhecimento. Nunca José Redondo se terá enganado num único número. Certo de mais. O senhor maior também assim achou, até lhe ordenar a reforma antecipada. José Redondo conformou-se, teria mais tempo para ver o arvoredo junto da sua mãe. Mas quis deus que assim não fosse e isso levava-o a aceitar melhor o pedido da senhora Redondo. Ter uma mulher. Andou mais até ao mercado, não faltariam senhoras a oferecer e outras a negociar. Raparigas e madames, vestidas com sensatez e ideias bem polidas. Na boca aperfeiçoou-se um sorriso nunca antes posto. Se o velho porteiro visse, diria amor. Que nenhuma outra coisa faz sorrir assim. Na grande praça, José Redondo parou. O coração também. Ouviu agora o batimento da cidade, as buzinas dos vendedores de rosas, os gritos das crianças despidas na rua, a sineta do eléctrico aligeirado, os travões dos automóveis ferinos, os vapores escaldantes dos ferros de engomar, o suor fétido dos homens das cargas, os ponteiros desacertados dos tantos relógios, as asneiras dos empregados revoltados, as ousadias dum patrão soberano, as persianas empoeiradas a serem corridas, os velhos a cuspir no chão. Viu as saias curtas e as pernas compridas, os seios salientes das blusas justas, os homens de mão dada a outros homens, os rapazes de cabelos compridos e camisas desabotoadas, os mendigos a protestarem a esmola, os homens da guarda numa farda comida, as baratas a serem esmagadas por tacões estreitos e tortos. As sirenes dos bombeiros sem seguro de vida, as luzes cintilantes das lojas em falência, os semáforos bruscos nos cruzamentos enganadores, as máquinas frenéticas da costura em caves húmidas, os homens do correio a selarem as cartas fraudulentas. José Redondo rodopiou no próprio corpo, o peito atulhado dum ar saturado e gritou. Por favor, parem o Universo. As crianças acabaram o choro agitador, as mulheres as falas libertinas, os homens o respiro. Por momentos, ouviu-se também o silêncio do mundo. Demorado, macio. Um fio de paz. O velho encurvado que vendia jornais perguntou. O senhor quer alguma coisa? José Redondo acenou que não. Virou costas, num andamento apressado. Seguia nos sapatos bem polidos para o andar nos arredores, sem mulher nem desejo. Na cabeça, apenas aquela poltrona de veludo verde musgo e a janela virada ao arvoredo manso onde a vida se desenrola mais devagar. Quem o ouviu, ainda contou. Apenas disse. Quero apear-me.
- Marlene Correia Ferraz
- 2º Prémio
- O herói
- - Por favor parem o Universo. Quero apear-me… - sussurrava com voz de vento o velho louco, enquanto deambulava pelas ruas da vila, indiferente à dança das estações, ou cruzando a aridez das planícies.
- O tempo nevara-lhe os longos cabelos e a barba hirsuta que lhe ocultava as rugas lavradas no rosto.
- Caminhava descalço, vestido apenas com uma túnica branca, indiferente às pedras dos caminhos, ao cálido desconforto do alcatrão, aos cardos da beira da estrada, como se nada o pudesse ferir nem atingir.
- Primeiro, a sua passagem causava estranheza, depois indiferença em quem o via. Era só mais uma criatura sem rumo, como outras que já por ali haviam passado: corpos ambulantes, cadavéricos, que pareciam ter perdido a alma em algum beco escuro duma rua erma, onde se haviam cruzado com a droga, o álcool ou outro vício qualquer.
Muitas vezes, as janelas e as portas fechavam-se, à medida que ele se aproximava. O seu aspecto causava desconfiança e receios infundados. Por vezes, atribuíam-lhe pequenos delitos, furtos inexplicáveis de quantias insignificantes – embora nunca houvesse qualquer prova contra ele. - Raramente respondia a qualquer pergunta, a frase murmurada era sempre a mesma, enigmática, estranha, às vezes enraivecida, outras resignada, sempre sem sentido:
- - Por favor, parem o Universo. Quero apear-me!
- Enfim, o que quererá dizer aquele doido? – indagava quem o ouvia. Mas não havia qualquer resposta e todos encolhiam os ombros com desdém.
- Sobre o seu passado desconhecido circulavam várias histórias, que escorriam nas vozes do povo como afluentes de um rio caudaloso, desaguando sempre na censura ou na indiferença.
- Uns diziam que ele ficara assim quando a mulher e o filho tinham falecido num acidente de carro. Acrescentavam que fora o álcool a causa da sua desgraça e também do fatídico acidente do qual havia sido responsável. A verdade é que ninguém sabia concretamente onde vivia nem como se sustentava. Outros garantiam que ele teria sido, talvez, um prisioneiro foragido, um criminoso endoidecido pela culpa, sem remédio para a sua alma atormentada. Havia quem dissesse que fora uma espécie de cientista, vítima de qualquer explosão, ou talvez um sonhador endoidecido por obsessões sobre-humanas (uma espécie de D. Quixote de La Mancha), ou por delirantes amores não correspondidos. Inventavam-se também histórias mirabolantes: que era um feiticeiro, uma espécie de bruxo prisioneiro do tempo, que praticava magia negra e podia lançar feitiços a quem o insultasse ou se intrometesse na sua vida. Imediatamente, se encontravam exemplos de estranhos rituais ou de acontecimentos aparentemente inexplicáveis: galinhas pretas desaparecidas, altares nas encruzilhadas…
- Pareciam ser tantas as histórias que sobre ele corriam, como os anos que lhe haviam sulcado as rugas no rosto e curvado o corpo esguio.
- A verdade é que vivera inúmeras vidas: havia sido médico, soldado corajoso, herói adiado, pai, esposo. Combatera na Guiné, fora o único sobrevivente de um ataque atroz que dizimara todo o pelotão. Sentira a vida do melhor amigo esvair-se-lhe nos braços, numa massa de sangue, perante a impotência dos seus conhecimentos de medicina. Depois, vingara-lhes a morte com a mesma crueldade irracional.
- Anos depois, na noite em que havia deixado a esposa e o filho, tranquilamente em casa para receber uma condecoração, um incêndio ceifara-lhes a vida. Foi nessa noite, inicialmente de brilho, ofuscado pelas cinzas da dor e da morte que ele desejou pela primeira vez que o Universo parasse. Como poderia a terra continuar a girar quando uma dor tão forte lhe dilacerava a alma? Como poderia sobreviver sem lar, sem família, sem amor? A partir daí, começou a sua saga de criatura errante, sem rumo nem norte, ansiando apenas pelo fim.
- Porém, naquela noite de trovoada tudo mudou. A chuva e o vento fustigavam a vila. Não se via vivalma pelas ruas, apenas ele, a alma penada solitária, balbuciando a sua frase, como uma eterna prece…
- De súbito, um clarão rasgou o céu de uma luz tenebrosa. Simultaneamente, perto da ponte ouviu-se um estrondo. Um automóvel caíra ao rio e submergia-se rapidamente nas águas. Sem hesitar, ele mergulhou. A porta do carro não abriu, porém, conseguiu partir um vidro com uma pedra. Retirou uma criança que chorava assustada com o estrondo e, por sorte, se encontrava protegida pela cadeira. Sentou-a na margem e voltou a entrar na água gelada.
- A mulher que ia ao volante estava inconsciente e um fio de sangue escorria-lhe pelo rosto. Parecia quase uma estátua desprovida de vida, uma pobre marioneta do destino. A criança continuava a chorar, ancorada na margem do rio, enquanto, desesperadamente, chamava pela mãe. Restava-lhe muito pouco tempo para a salvar e o homem sentia que as forças se lhe escoavam implacavelmente. O carro ia afundando no lodo, devagar. Os faróis dianteiros já haviam desaparecido. As portas não abriam, era quase impossível quebrar outro vidro. Os pulsos sangravam-lhe, a água gelada turvava-lhe a respiração. A chuva era cada vez mais intensa. As mãos escorregavam cada vez que tentava quebrar o outro vidro.
- A mulher continuava inconsciente, enquanto as águas barrentas a iam sepultando.
De súbito, quando estava prestes a desistir, o vidro cedeu. Reuniu as últimas forças para desencarcerar a vítima, e, a muito custo conseguiu reanimá-la. Empurrou-a para a margem, para junto do filho. - A partir desse dia, o homem nunca mais foi visto. Teria abandonado definitivamente a sua peregrinação sem norte? A verdade é que a jovem mulher acreditou que um anjo a havia salvo a ela e ao filho. No estado de semi-inconsciência, em que se encontrava na altura, não identificou concretamente o seu salvador.
- De novo, as histórias acerca do misterioso desaparecimento do homem germinaram como boninas ao despontar da Primavera.A verdade? Será tão relativa e diáfana como todas as histórias imaginadas. Mas podemos acreditar que, naquela noite, vinte anos depois de a sua existência lhe ter sido roubada, após ter salvo duas vidas, as forças o abandonaram definitivamente e o seu universo parou. O velho mago, bruxo, convertido em verdadeiro herói, apeou-se e repousou definitivamente, além-tempo e além-vida, numa etérea colcha de fé e de luz.
- Dora Maria Nunes Gago
- 3º Prémio
- O CARROSSEL
- O recinto da feira fervilhava de vida. Os miúdos e graúdos atropelavam-se na ânsia de percorrerem todas as atracções: o labirinto; os carrosséis; os carrinhos-de-choque; a barraquinha de tiro ao alvo…
- - Venham dar uma voltinha no carrossel!... Universo, o melhor carrossel deste recinto!! Meninos e meninas… - gritava o Sr. Humberto, o dono do carrossel Universo. – Estrelas, planetas, cometas, tudo a girar! Venham, meninos e meninas...
- Nas bilheteiras do carrossel, onde o Sr. Pereira trocava o dinheiro por fichas, formava-se uma longa fila. Alguns putos, mais descarados, furavam a ordeira linha e passavam à frente dos outros.
- Soava a forte campainha, que se fazia ouvir acima da balbúrdia da feira, anunciando que a volta tinha terminado. Os miúdos da próxima volta invadiam o carrossel, como feros índios, em pé-de-guerra, ao ataque. Contrariados, e literalmente expulsos pelos recém-chegados, os catraios da volta anterior saiam dos assentos. Alguns miúdos permaneciam nos seus lugares, segurando de forma visível, na sua mão, a ficha que lhes daria acesso à próxima volta e que evitaria a sua expulsão pelos índios invasores. Os índios ocupavam os lugares livres, soltando gritos de guerra a plenos pulmões. A campainha dava então três toques seguidos, sinal que o carrossel iria iniciar uma nova volta. O filho do Sr. Humberto, um adolescente com ar de fuinha, cabelo rapado, piercings nas sobrancelhas e brincos nas orelhas, dava a sua volta pelos assentos do carrossel e recebia, das mãos dos miúdos, a ficha que lhes permitia efectuar aquela viagem. Rudolfo - assim se chamava o fuinha dos piercings - aproveitava para espetar uns violentos pontapés nos assentos do carrossel. Nunca se percebeu bem porquê: se fazia isso por detestar o seu trabalho, se para assustar os barulhentos putos que ali seguiam na sua volta, ou se era simplesmente por pura maldade. Talvez pelo facto de ser obrigado a passar ali todos os dias da sua juventude, enquanto os outros adolescentes iam à escola e tinham a sua vida social. O fuinha era obrigado a trabalhar de manhã à noite. Se não estava a recolher fichas no carrossel, estava a desmontar o carrossel, a inspeccionar o carrossel, a montar o carrossel, o carrossel, o carrossel, …
- Para além dos pontapés de Rudolfo, o carrossel também era atingido pela fúria dos miúdos, que se agarravam aos varões e os abanavam violentamente. Outros, gravavam na madeira dos assentos, as suas iniciais. Alguns, mais velhos, divertiam-se, grafitando os bancos do carrossel, pela calada da noite, quando a feira já tinha sido encerrada. Por vezes, os feirantes apanhavam os artistas e obrigavam-nos a limpar as obras de arte acabadas de fazer e aproveitavam para lhes dar uns sopapos.
- E, o que devo eu pensar? Já acompanho este carrossel há cerca de vinte anos, quando o Sr. Humberto o comprou a um feirante espanhol e o remodelou, mudando-lhe o nome de “Los Animales Salvajes”1 para Universo e trocando os bancos com representações de animais - já muito carcomidos e partidos - por novos bancos que representavam estrelas, planetas, cometas, satélites, naves espaciais. A miríade de corpos espaciais foi feita por encomenda, por um carpinteiro amigo do Sr. Humberto.
- A pintura ficou a cargo da D. Amélia, a esposa do dono do Universo. E que dotes de pintura a pobre senhora tinha – emprego esta expressão, porque a D. Amélia faleceu há dois anos, deixando todos nós mais pobres.
- Mas dizia eu, que nasci há vinte anos, na figura de um belo planeta azul, decorado pela mão da D. Amélia. Aliás, a D. Amélia decorou todo o carrossel com tanta destreza e bom gosto, que eu me sentia extasiado ao ver em roda de mim todo aquele magnífico universo, limpo, bem-cheiroso, que girava, girava…
- Já conheci muitos recintos de feiras, muitas pessoas, muitos miúdos. Mas deixem-vos dizer um segredo: quem vê um recinto de feira, vê todos. Quem vê a populaça de uma feira, vê todas. São todos iguais entre si. Corpos amorfos procurando um pouco de alegria artificial, nesta vida rotineira...
- Agora, com tanta volta, com tanto barulho todas as noites, com o desmonta aqui, monta ali, os pontapés do fuinha, os grafiti, a sujidade que se acumula e se entranha por mim e pelos restantes corpos espaciais do Universo, sinto-me tão mal, tão agoniado que só me apetece sair daqui. Sair e ir para um local sossegado, relaxante. Longe desta extenuante rotina. Sem fuinhas, sem índios em pé-de-guerra, sem grafiti, sem poluição. Longe do rodopiante e enorme Universo. Gostaria de ingressar num Universo paralelo... Numa realidade alternativa... Tudo seria preferível à vida que levo!...
- Apetece-me gritar. Gritar bem alto, acima do barulho da feira, acima da campainha do carrossel, para que todos possam ouvir:
- - Sr. Humberto, fuinha, Sr. Pereira…Alguém...Sou eu, o planeta azul… Por favor, parem o Universo. Quero apear-me!
- FIM
- João Manuel da Silva Rogaciano
- Prémio Juventude
- A Tristeza Além da Sorte
- Eu vinha de uma terra muito distante, bonita e cor-de-trigo, lá longe, onde o mar se perde de vista. Lembro-me da fome, da pobreza e tudo o mais, mas também do colo da minha mãe e do choro dos meus irmãos.
- Eu queria ir à escola. Era o meu sonho. Ouvia dizer que todas as crianças do mundo tinham o direito de aprender coisas novas e não trabalhar. Eu trabalhava. Ajudava a minha mãe com os meus irmãos e plantava o que quer que fosse comestível.
- O meu pai desaparecera. Corriam boatos de que um leão o comera. Não guardava recordação nenhuma dele.
- Vivia feliz na minha terra, embora não soubesse o meu nome. Ninguém sabia.
- Um dia, a minha mãe adoeceu e, mais tarde, morreu. Eu e os meus irmãos ficámos entregues à solidão. Não por muito tempo.
- Certa tarde, chegaram os homens da terra civilizada. Tinham a pele clara, encardida pela poeira, e olhos vazios de sonhos. Chamavam-se “doutores” uns aos outros e falavam fria e rapidamente, como se dessem ordens.
- - Não temos tempo a perder! Montem as tendas! – Gritava um deles. Pareceu-me ser o mais velho e, talvez, o chefe. Andava de um lado para o outro. Sem querer, até tropeçou em mim e olhou-me, expressando tristeza ou outro sentimento qualquer, totalmente desconhecido – Como te chamas?
- E eu, sem pensar, respondi que não me lembrava. Era verdade. Talvez fosse Aisha. E isso mesmo eu acrescentei.
- - Aisha, queres vir comigo? Posso dar-te comida. Posso dar-te amor e carinho.
- - Vai levar-me para a terra civilizada? Para a terra onde as crianças vão à escola?
- Ele de imediato confirmou todas as minhas expectativas.
- Dentro de cinco dias, embarcámos no que me informaram ser um avião; na altura considerava-o um pássaro metálico de tamanho monstruoso.
- Chegados à grande cidade, encaminhámo-nos para o nosso destino final: uma casa grande de dois andares, de paredes duras, provavelmente de tijolo, pintadas de cores deprimentes. Mal nos viram, as auxiliares daquela “instituição” convidaram-nos a sentar nos sofás da sala de visitas, onde também nos ofereceram bolachas enormes e deliciosas, que devorei incessante e alegremente até me doer a barriga.
- - É aqui que nos despedimos, Aisha. – Sussurrou-me o meu suposto amigo branco. E eu que julgava que o Doutor me iria levar com ele!
- - Mas eu nem gosto deste sítio. – Repliquei, refazendo-me da surpresa.
- - Hás-de gostar, vais ver! Tens tantos meninos da tua idade para brincar contigo! Tens estas bolachas maravilhosas… Que queres mais?
- Alguém que goste de mim a sério, repetia a vozinha na minha cabeça.
- Essas foram as últimas derradeira palavras que ouvi da boca da única pessoa branca que eu alguma vez pensei amar-me e querer-me bem.
- Daí em diante, aprendi quem não podemos elevar as nossas expectativas, se dependerem de outrem.
- As crianças do orfanato nunca me aceitaram nem será hoje que essa situação mudará. Sou diferente delas e aceito isso quase como um elogio. Sou inteligente, embora calada. Apenas a pele nos diferencia e conseguem ser mesmo cruéis. Fora do orfanato, na escola, gozam comigo por vestir roupas usadas e demasiado largas para o meu corpo pouco desenvolvido. Os livros que leio e que me dão na escola pertenceram sempre a alguém que os amachucou, rasgou ou deixou cair na lama.
- No outro dia, um rapaz mais alto e mais forte quis bater-me. Ameaçou-me e riu-se das minhas fraquezas. Fugi a correr e tentei lembrar-me do mais importante: não tenho culpa de quem sou, considerando-me uma sortuda por poder estudar. Não tive a sorte deles, ter uma família que me abrace ou me feche no quarto de castigo.
- A rotina diária não passa disso: uma rotina. No orfanato, o problema reside na minha cor; na escola, nos meus pertences (partilhados, na maioria).
- Na verdade, nada me pertence, nem um nome. Aisha?! Talvez, mas fui eu que o inventei à pressa, antes de alguém me desviar da minha rota predefinida.
- Haverá, algures, um sítio melhor? Se houver, poderei mudar-me? Na melhor das hipóteses, desejava que parassem o Universo, de modo a que me fosse permitido saltar e esconder-me… Apear-me…
- Catarina Araújo Valentim
- 1ª Menção Honrosa
- Uma mentira na eternidade
- “Por favor, parem o Universo. Quero apear-me.”
- Anónimo
- O professor Fagundes Migalha apanhou varicela no mesmo dia em que, no céu, apresentaram a Deus o relatório final sobre o comportamento dos homens, o propósito da fé e os destinos da alma. No céu e na terra, explodiu então quase em simultâneo, um cataclismo de indecisões que deixou em suspenso o futuro da humanidade.
- Na terra, as aulas estavam a começar por todo o hemisfério Norte, e o professor Fagundes Migalha, que em trinta e três anos de docência nunca tinha faltado a uma apresentação aos alunos, viu-se confinado à solidão do T1 que alugou após o divórcio e às pantufas puídas que faziam lembrar-lhe o desgaste da profissão. Tal como as pantufas, o ânimo do professor apresentava buracos por cima, por baixo e pelos lados, além de arrastar atrás de si alguns fios de desprendimento.
- Mas a solidão provocou um efeito devastador. Ao contemplar as pantufas e ao verificar diante delas o paralelo que traçavam com o interesse que nos dias de hoje se atribui ao conhecimento adquirido, à ciência e à apetência pelas artes, correu-lhe uma lágrima pela face esquerda, talvez ali despejada pelo diabo.
- Fez um chá. Desligou a televisão que mal lhe servia já para saber como ia o mundo, e esperou que no calor da caneca, encontrasse a exactidão de um pensamento útil, o conforto de uma certeza ou até um sinal do além disfarçado de coisa miúda.
- Nada lhe ocorreu. Deu então duas voltas à sala e parou em frente à porta da varanda. Abriu-a e achou-se diante da imensidão dos quintos andares de onde se avistam outros quintos andares, além do recorte dos telhados que enchiam de bicos a linha do horizonte. Era noite. Tentou sacudir o vazio a olhar para as estrelas durante uns dez minutos e quando já se lhe acrescentava ao espírito a desolação de não ver nenhuma estrela cadente, sentiu comichão na testa. Coçou e percebeu que tinha rebentado a primeira bolha de varicela.
- Entrou na sala e foi até ao espelho da casa de banho. Não teve alternativa. Pegou no betadine e pontuou a primeira mancha no alto da testa. Suspirou.
- Voltou à varanda e ao vazio da noite sem estrelas cadentes. Deixou correr meia hora. Pouco depois, viu três adolescentes na rua que se aproximavam e espreitavam para o interior dos carros estacionados. Ficou à espera que passassem e que o incómodo daquela dispersão fosse breve. Mas os adolescentes pararam junto do carro do professor. Olharam e um deles tirou do bolso uma chave de fendas que começou a tentar introduzir na fechadura da porta dianteira. O professor sentiu correr-lhe uma centopeia pelo esófago e teve um gesto irreflectido: pegou no vaso com uma sardinheira que tinha sido deixado pela inquilina anterior e apontou-o à calçada. No segundo seguinte, deixou-o cair.
- O vaso a quebrar-se na calçada fez o estrondo dos trovões de Verão e os rapazes correram em todas as direcções. Várias pessoas vieram à janela e o professor escondeu a cabeça. Deixou-se ficar. Quando a noite recuperou a serenidade, o professor emergiu do fundo da varanda e olhou para o céu. Tremia. Não sabia se ele ou o céu. E correu-lhe mais uma lágrima. Então, olhou para o amontoado de estrelas mais visível do firmamento e sussurrou: “por favor, parem o Universo. Quero apear-me.”
- No céu, este clamor subtil foi escutado de forma um pouco equívoca, já que o relatório sobre a fé dos homens ocupava os espíritos como numa grande multinacional se esmiúçam os relatórios de vendas. Havia confusão. Mesas de reuniões com entidades diversas a folhear páginas cheias de gráficos e portas a bater, numa azáfama de reestruturação iminente.
- Foi então que na sala do último andar, alguém chegou ao topo da mesa mais longa e fez notar à Entidade Suprema que era necessário agir de imediato.
- - Talvez pudéssemos começar por ouvir a prece deste professor…
- A Entidade Suprema levantou os olhos. Primeiro para a folha de papel em que o assessor levava a frase escrita e logo a seguir para os olhos do próprio assessor, que vazavam laivos de esperança.
- - Mas parar o universo como? O universo está em expansão acelerada. As consequências seriam incalculáveis. Até para mim.
- O assessor tentou então fazer parte da solução e não parte do problema
- - Talvez o professor deseje apenas que pare o mundo... A terra…
- A Entidade Suprema recostou-se – Bom… Isso já é outra conversa.
- - Claro, teríamos de recalcular apenas os destinos de seis mil milhões.
- - Claro…
- Com a máquina de calcular ao lado, a Entidade Suprema fez uma operação rápida e voltou a olhar para o assessor.
- - Temos de parar também a lua!
- - E porque não?
- - Receio que os chineses… - A Entidade Suprema voltou a recostar-se, agora com uma dúvida ainda maior – Mas vamos lá ver uma coisa! Ele disse para onde queria ir? Apear-se onde?... No céu ou no inferno?
- - Isso não ficou claro – sublinhou o assessor a franzir os lábios.
- - Bem, temos de agir já, não temos?
- - O relatório… não nos deixa grandes possibilidades.
- A Entidade Suprema encolheu os ombros, pegou na folha com a frase do professor, fez-lhe dois rabiscos por baixo e estendeu-a ao assessor – Avance!
- Minutos depois, materializava-se na terra, junto à varanda do professor Fagundes Migalha, uma escadaria à maneira da Broadway, com um primeiro lance de degraus com três metros de largo e que um pouco mais a cima se dividia em duas. Um pouco mais atrás, um morcego ficou suspenso no ar, numa quietude de personagem de Matrix. Tudo estava parado. Excepto o professor Fagundes Migalha.
- Numa espécie de êxtase de quem contempla uma sarça-ardente, o professor saltou a balaustrada da varanda e alcançou com o pé o primeiro degrau. Sentiu que pisava chão firme e começou a subir. Mas quando a escadaria se dividiu em duas, parou. Percebeu que de um lado tinha o caminho do inferno e do outro, o do paraíso. Hesitou como quem se prepara para uma qualquer eternidade, respirou fundo e olhou parta trás. Lembrou-se então dos chinelos puídos, do vaso com a sardinheira, da borbulha com betadine e voltou a olhar em frente.
- De repente, o professor viu uma estrela cadente atravessar o céu e ficou parado, à espera de perceber as consequências profundas daquele fenómeno celeste. Afinal, o universo não estava parado. Apenas a terra. E do olho esquerdo, começou a correr-lhe um fio de lágrimas, claramente espremidas pelo diabo.
- - Mais uma mentira! Até o céu foi capaz de me mentir…
- Pedro António Fernandes Canais
- 2ª Menção Honrosa
- Lúcia Lima
- Lúcia Lima olhou para o velho relógio de parede andavam os ponteiros pelas cinco da manhã. Era cedo. Uma sede estranha acordou-a de um sono que há muito não a deixava dormir. Um seco na boca, um gosto qualquer impreciso, semelhante a algo esquecido. Levantou-se da cadeira que ficava sempre diante da chaminé, onde repousava os ossos despertos da madrugada. Mais uma vez esquecera-se de acender o lume. Olhou para os seus hóspedes invisíveis, uma criança, uma velhota, um homem de barbas com os seus duzentos anos. Para este falou:
- - Já viu para o que me deu agora?
- Naquele dia, ao chegar da estação, encontrou-os a um canto dos escombros em que ficara a sua cozinha, a única divisão da casa que permanecera de pé. Sem espanto, entendeu o cumprimento que lhe fizeram, reverentes, numa língua engraçada e impronunciável. Por qualquer motivo decidiu que eram checoslovacos, e checoslovacos ficaram, refugiados de uma vida qualquer que já não desejavam e que, por isso, já não lhes dizia respeito.
- - Para que está com isso agora… - disse-lhe o homem, cofiando a longa trança acinzentada que lhe pendia do rosto. – É o mesmo todos os dias. Também não está frio…
- Não estava, pelo contrário. Continuava a entrar aquele calor morto dos últimos… Quantos, trinta anos? No dia em que os encontrou instalados no canto da sua cozinha, nesse dia em que embarcou Eduardo para uma viagem de esperança que se supunha breve, então sim, estava um frio de rachar. Falava-se de uma frente fria vinda da Islândia, gelo sem Inverno que ameaçava hibernar os campos, a vida dos agricultores e dos recém-nascidos. Mas depois o céu avermelhara cores rasgadas e caíra uma chuva de corpo absurdo, manteiga derretida que derrocou casas e cingiu culturas por muitas épocas.
- - Cheguem-se aqui para o fogo – dissera-lhes. Mas então reparara na chaminé sem lenha.
- - Deixe estar. Não está frio.
- Não estava. Passada a tormenta, um calor infernal assentara ali a sua poeira de diabo em busca de mau caminho.
- A convivência com os seus hóspedes começou por ser reservada. Eles próprios raramente falavam entre si. Pareciam esperar, com uma paciência infinita, por uma hora que, não tinham dúvidas, acabaria por chegar. Tão pouco se lhe dirigiam com frequência, sobretudo a partir do momento em que perceberam que o silêncio não a ofendia, pelo contrário, convivia com ele perfeitamente. Passavam as noites juntos acordados nesse silêncio.
- E assim foi crescendo a amizade deles, principalmente a de Lúcia com o homem das barbas seculares. Encontravam-se nos olhares, que começavam a traduzir géneros de uma compreensão absoluta. Se ela deixava escapar um suspiro, ele anuía como se tudo desvendasse; quando ela exasperava, incapaz de sossegar, era na cumplicidade dele que apaziguava. Evoluiu de tal forma esta intimidade, que um dia o velho passou a acompanhá-la à estação, mesmo que apenas a seguisse. Ultrapassava-a no seu passo lento quando ela parava para trocar novidades com Pôncio Justo, o cego, deixava-se depois ultrapassar por ela no seu andar de formiguinha atlética.
- Lúcia Lima e o cego entendiam-se. Era um homem estranho, de idade indeterminada, de quem se dizia falar com as almas. Fora ele, com o seu olfacto de cego, quem pusera a Lúcia esse nome que não lhe pertencia, mas que de tanto ouvir lhe passou a soar com naturalidade de um baptismo imemorial. Há muito que ela estava tão pálida que já quase não podia ser vista a olho nu, e no entanto, Pôncio Justo via-a cada vez mais definidamente:
- - A comadre está mais nova.
- - Não brinque comigo, compadre, ninguém fica mais novo. Até os mortos envelhecem…
- - Não estou a brincar… às vezes o tempo brinca com as idades da vida. A comadre está mais nova, sou eu que lho digo… Vê-se pelo cheiro. – Palpou o ar com o seu nariz experiente e proclamou a exactidão daquele odor. – A comadre cheira a Lúcia-lima!
- As capacidades sensitivas do cego eram tão obscuras que muitos duvidavam da sua sanidade mental. Não raras vezes era visto em amena cavaqueira nas ruas, falando para ninguém. À noite, parava à porta da taberna a observar com os seus olhos mudos o que chamava a transumância das estrelas. Encostava-se depois ao balcão e informa para quem quisesse ouvir:
- - Cassiopeia foi para norte!
- Na estação, o homem das barbas seculares sentava-se noutro banco, ficava a matutar sem expressão, espectador perdido, ouvindo Lúcia Lima contar para o marido ausente:
- - Sabes lá o que práqui vai…
- Mentia, apimentava as histórias, tinha jeito para contar. O checoslovaco via as imagens desenhando-se, entendia-as sem as perceber, como se assistisse a um filme estrangeiro.
- À entrada da noite no céu sem nuvens, despediam-se da demora e juntos palmilhavam de volta os três quilómetros do regresso. Cruzavam em silêncio caminhos estéreis e atalhos vãos, e em casa, Lúcia voltava a abandonar-se na cadeira em frente à chaminé vazia. No dia seguinte, às cinco da manhã, levantava-se sem ter pregado olho, era cedo, tinha aquela sede esquisita, a voz suja de um gosto anónimo. Queixava-se do lume de chão.
- - Já viu para o que me deu agora, compadre?
- Mas não estava frio, continuava aquele calor morto que ameaçava queimar os séculos.
- Só trinta anos volvidos, o velho decidiu acabar com o rasto daquela escolta diária e silenciosa.
- - Hoje vamos juntos. E vamos todos.
- E então seguiram juntos, à frente Lúcia com seus passinhos frenéticos, depois os dois velhos carregados de bagagens perdidas, finalmente o menino pontapeando pedras imaginárias.
- Na estação, Pôncio Justo aguardava a comitiva com derradeiras novidades:
- - O alemão diz que não se lembra das nuvens. Que o sol lhe queima o sangue, mas que o que lhe dói é não se lembrar… Tentei descrever uma nuvem, que era assim como um cheiro branco que vem antes da chuva…
- - E ele? – inquiriu o checoslovaco, uma curiosidade que não suspeitava ter.
- Lembrou-se… Lembrou-se e depois não aguentou as saudades que tinha delas…
- Mas a Lúcia, o coração a vapor por fim estacionado, já não interessava a depressão do alemão.
- O comboio chegou na hora marcada de quem nunca perdeu a esperança, sem cadências sonoras de máquina constante ou ornamentos de névoa de sonho.
- - Vem no horário – notou o cego.
- Lúcia sentiu a garganta húmida e um gosto esquecido evadiu-se-lhe da boca.
- - Parece que sim…
- E de facto, sentiu-se mais nova. A porta de uma das carruagens abriu-se diante dela, e a palavra serena e forte de Eduardo estendeu-lhe a mão com naturalidade.
- - Demorei?
- - Nem por isso – disse ela, a voz estranhamente limpa. – Só passou um dia de cada vez…
- Lúcia observou os seus hóspedes entrando noutra carruagem mais abaixo, reencontrando-se com o seu próprio tempo. Acenou apenas um leve adeus silencioso, que fora o idioma do seu entendimento, e subiu para o trem.
- Nessa noite, na taberna, Pôncio Justo contou da chegada do comboio com o regressado Eduardo e do embarque de Lúcia Lima e do seu séquito sem fronteiras. A caminho das estrelas ou do futuro, em qualquer dos casos destino certo para quem tanto e por tão pouco se amara… Mas o relato não colheu excessivo interesse entre os convivas, falecidos demais para as conjuras da vida.
- A única reacção ocorreu secreta no pensamento sibilino, as ideias roucas de desuso, do taberneiro Duarte Veiga. O dia em que a violenta tempestade caiu do céu para dar quebranto aos sonhos dos homens; Lúcia soterrada no monte recém terminado do casal; Eduardo mais adiante, fundido na amálgama retorcida da carruagem, morte em dobro do amor… Desde então comboio algum voltara a entrar na estação, destruída no seu orgulho arquitectónico, com ervas de metro e meio a invadirem a pauta silenciosa dos carris… Tudo isto Duarte Veiga recordou, mas nada disse. Atirou um gesto de desprezo à novidade, mudou o copo de mão e regressou aos esquecimentos, alheio aos desvelos do cego que, com entoação de certezas, finalizava formas à sua maneira de ver:
- - Ocasionalmente, o Universo interrompe a sua marcha infinita para esticar os ossos… Nesses apeadeiros, há os que entram e os que saem.
- Virou o pescoço para o céu que começava a acinzentar e, com o rumor das primeiras gotas de chuva a silvarem na terra seca, os olhos marejados por um vento subitamente refrescado, ouviu-se completar o próprio pensamento:
- - E há os que por fim caminham juntos…
- Pedro Miguel da Cruz Pereira
- 3ª Menção Honrosa
- O SR. FELIZ
- Era Domingo de manhã. O dia amanhecera envergonhado, com um sol pálido a espreitar por entre as nuvens que se espraiavam num céu pastel. Fiquei mais uns minutos na quentura dos lençóis, tentando espantar a preguiça e ganhar coragem para enfrentar o dia.
- Domingo era dia de desporto. No dia do Senhor, penso que Ele aprovaria que os seus seres imperfeitos, sacudissem o mofo da semana, desemperrassem as articulações e arejassem as ideias. Isto, claro está, se Ele pudesse opinar nos dias que correm.
- Naquele dia estava particularmente abespinhada. Tinha tido uma semana difícil, num mês difícil, quase no final de um ano difícil. Sentia-me submersa num mar de sargaços, sem conseguir manter-me à tona por muito tempo. Faltava-me o ar e a vida pesava-me como a pedra gigante de mármore entre as mãos de Sísifo. Um eternizar de dias iguais, sem planalto no cimo da montanha, no qual repousar das atribulações. Apetecia-me gritar «Por favor, parem o Universo. Quero apear-me.» Mas como o Universo sofre de deficiência auditiva, em vez de me apear, meti as pernas ao caminho e dirigi-me para o choupal.
- Era um ritual que cumpria religiosamente desde há alguns anos. Começara por necessidade física e tornara-se um vício, não só do corpo, mas da mente e da alma. Aproveitara aquelas caminhadas para higienizar os pensamentos e depurar a linfa.
- Entrei no percurso do costume e estuguei o passo, olhando para o relógio para cumprir o tempo que a mim própria me impunha. Comecei por programar a agenda da semana, revi os compromissos assumidos e até preparei as refeições da semana. Em seguida, a mente vagueou para os planos sempre adiados, as dificuldades económicas, os desgostos afectivos de uma vida já madura.
- - Posso acompanhá-la, companheira?
- A voz fez-me estremecer, tal era o alheamento em que me encontrava. Não vira os grupos que corriam à minha frente, os amigos da bicicleta em sentido contrário, os colegas de caminhada, de rostos já registados, os dois cavalos imponente, dos quais me desviei instintivamente. Caminhava apressada, marcando o ritmo de forma mecânica, alheia a tudo em meu redor. Uma voz assim, vinda do nada, causara um sobressalto que se traduzira num tremor involuntário.
- - Assustei-a, menina?
- - Desculpe, estava absorta nos meus pensamentos e não o tinha visto…
- - Pois eu já a vi muitas vezes aqui a esta hora. Tem uma passada semelhante à minha.
- - Peço desculpa, uma vez mais, mas quando começo a caminhar, não vejo nada, nem ninguém…
- - Espero que não se ofenda com a minha proposta.
Olhei-o de soslaio. Aparentava aí uns sessenta e muitos anos, num corpo admiravelmente saudável. Estava equipado a rigor, desde as sapatilhas ao boné de pala, em voga. Os óculos escuros conferiam-lhe outro toque de modernidade. - - De todo. Faça favor.
- - Sabe, menina, na minha idade a companhia é um luxo e uma alegria.
- - Caminha sozinho?
- - Fisicamente sim, mas sou um homem de sorte. Nunca me sinto só.
- - Isso é bom…
- - Há por aí tanto jovem velho e eu que já sou velho, sinto-me cada vez mais jovem.
- - O senhor também não é tão velho assim!
- - Que idade me dá? – inquiriu com ar matreiro.
- - Não sei… Talvez sessenta e tal.
- - Oitenta e dois já cá cantam – rematou cheio de orgulho.
- Parei de repente, abri os olhos e a boca de espanto e ia para dizer uma banalidade qualquer, mas nenhum som me saiu da garganta.
- - Já estou habituado a essa reacção. Ao princípio, ninguém quer acreditar, mas olhe que é verdade.
- O passo certo e firme com que me acompanhava, a vitalidade das suas palavras e aquele sorriso maroto escondiam um verdadeiro tesouro de longevidade.
- Nem dei pelo passar do tempo no restante percurso. Estava embevecida com a história de vida de um estranho que, generosamente, decidira partilhá-la comigo. As pessoas mais velhas são de palavra fácil e quando sentem que são ouvidas, são de trato afável. Aquele homem tinha uma história de vida incrível.
- Tivera um filho na Guerra do Ultramar, na Guiné, que regressara amrgo e revoltado com a vida. Nunca mais se integrara na vida civil do pós 25 de Abril e um dia o pai fora encontrá-lo fardado a rigor, com um tiro na cabeça. Abraçou-o fortemente contra o peito, fez-lhe um funeral a preceito e nunca se insurgiu contra aquela partida tão contra natura. Ninguém deve julgar os outros, pois ninguém conhece os seus demónios. Cada um de nós tem de travar as suas batalhas e o desfecho é pessoal e intransmissível.
- Anos mais tarde perdera a casa numa derrocada na baixa de Coimbra. Fora um daqueles invernos impiedosos, que arrasam edifícios de tijolos e de carne e osso. Mudara-se para um pequeno apartamento, parcialmente comprado com o dinheiro do seguro.
- - Foi pelo melhor – explicou. No sítio onde morava, já todos os rapazes da minha idade tinham morrido e eu não tinha com quem conversar. Agora tenho sete andares de vizinhos com quem dar à língua.
- Há dezassete anos morrera a mulher com uma complicação respiratória, após uma pneumonia. Reformara-se um ano depois e a partir de então passou a ir todos os dias ao cemitério. Não para chorar as partidas, mas para pôr a conversa em dia. Leva sempre uma flor que deposita junto à fotografia, senta-se na berma da campa e conversa longamente com ela. A cumplicidade de uma vida mantivera-se intacta. Passa depois, na campa do filho e dá-lhe notícias dos netos.
- Aos setenta anos diagnosticaram-lhe cancro da próstata. De inicio sentiu-se abalado, mas desde cedo teve a certeza que ia vencer a doença. Fez muitos amigos no hospital e entre os sobreviventes formou um grupo de convívio que, todos os domingos, vai almoçar junto.
- - Depois disto decidi começar a praticar desporto e eis-me agora aqui a falar com a menina. Sou um grande tagarela, não sou?
- Durante todo o relato pensava em todos aqueles que passam a vida inteira a queixar-se dos pequenos obstáculos diários com os quais se deparam. Pensava naquelas pessoas lamurientas e envinagradas que não conseguem retirar lições de vida da adversidade e chegam ao fim do seu percurso sem nada ter aprendido.
- Quanto a mim, havia chegado ao fim do meu percurso de hoje. Transpirava abundantemente, mas nem dera conta do meu esforço físico. Bebia as palavras simples e sábias de um companheiro de caminhada, que tinha muito para me ensinar.
- - Foi um prazer ouvi-lo, Sr?
- - Sr. Feliz. É assim que toda a gente me chama.
- Sorri por fora e por dentro. Não havia decerto nome mais apropriado!
- O Sr. Feliz despediu-se gentilmente e seguiu o seu caminho. O meu seguia em sentido contrário. Lembro-me de olhar o céu encastelado e de formular um pedido: «Por favor, parem o Universo. Quero entrar outra vez!» Tive consciência, naquele exacto momento, de que havia muito terreno ainda a percorrer. O Universo certamente tinha um plano secreto para mim e ainda não tinha cumprido o meu papel naquela longa viagem.
- Ana Paula Ramos Amaro
terça-feira, 10 de Novembro de 2009
Prémios da Edição 2009
quinta-feira, 13 de Agosto de 2009
Prémio Literário Hernâni Cidade, 2009
Modalidade:
Conto
Tema:
"Por favor, parem o Universo. Quero apear-me."
REGULAMENTO
1º - Podem concorrer a este prémio todas as pessoas que o desejem, desde que aceitem e cumpram o disposto neste regulamento.
2º - Na edição de 2009 a modalidade é: Conto
O tema é: "Por favor parem o Universo. Quero apear-me." (anónimo)
Elabore um texto a partir da citação.
3º - Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.
4º - Desse trabalho, que não deverá exceder três páginas, serão enviados cinco exemplares em papel formato A4, dactilografados, com espaço e meio de entrelinhamento e com caracteres de tamanho 12.
5º - O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo e idade do concorrente. O envelope conterá obrigatoriamente a identificação do concorrente: nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto.
6º - O trabalho poderá ser entregue:
a) em mão na Biblioteca Municipal de Redondo
b) pelo correio para:
Biblioteca Municipal de Redondo
Prémio Literário Hernâni Cidade, 2009
Rua D. Arnilda e Eliezer Kamenezky, 43
7170-062 Redondo
c) por mail para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que seja enviado em anexo (Word) assinado com pseudónimo e a identificação do concorrente seja enviada no mesmo mail em segundo anexo e cumpra as restantes cláusulas do regulamento.
7º - O prazo de recepção dos trabalhos termina em 9 de Outubro de 2009, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri composto por cinco elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cujas decisões não haverá recurso.
8º - Serão atribuídos:
a) Três prémios: 1º, 2º e 3º - a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.
b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam em número a definir pelo Júri.
c) Prémio Especial Juventude - para o qual só serão tidos em consideração os trabalhos dos concorrentes com idades compreendidas entre os 14 e os 20 anos inclusive.
d) Diplomas de participação a todos os concorrentes.
9º - O júri poderá não atribuir qualquer dos prémios desde que considere haver falta de qualidade nos trabalhos apresentados.
10º - Os concorrentes premiados serão antecipadamente avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia a realizar no dia 21 de Novembro (Sábado), pelas 16 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.
11º - A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente, quer publicando-os na imprensa nacional ou regional ou ainda proceder à sua encenação e representação em tempo oportuno.
Organização:
Município de Redondo
Apoios:
Junta de Freguesia de Redondo
Adega Cooperativa de Redondo
Millennium bcp
segunda-feira, 27 de Julho de 2009
Prémio Literário Hernâni Cidade 2009
quinta-feira, 23 de Outubro de 2008
Trabalhos Premiados na Edição de 2008
AO HOMEM METADE
(Conhecer-te... tornou-me diferente)
Vou contar, muito resumidamente, a história do Homem Metade (era assim que o «tratava» quando pensava nele). Eu tinha onze anos e estava prestes a dar-se a revolução de Abril de 1974 quando passei a conviver mais assiduamente com ele, e não tenho memória alguma de quando ainda era um Homem Inteiro, normal como todos os homens.
O pai dele tinha uma carpintaria. Assim que lá entrava, o cheiro a árvores cortadas invadia-me os pulmões. Era um cheiro a bosques ceifados. Havia pilhas de madeira e montes de aparas por todo o sítio. O chão era de serradura, andava-se ali nas nuvens. Mas uma serra mecânica de lâmina longa, cheia de dentes, lá ao fundo, causava-me arrepios na espinha quando dividia tábuas em duas, muito perto das mãos que as seguravam. Essas mãos já não tinham alguns dedos. A todos os carpinteiros que eu conhecia faltavam-lhe dedos. Ou o polegar e o indicador, ou só a ponta do polegar e o indicador, ou o mindinho e o anelar. Ao pai do Homem Metade faltavam-lhe dois numa mão e a ponta do indicador noutra. Os que ainda sobravam eram quase todos redondos na ponta, como se a pele tivesse sido esticada e presa com pinças, e praticamente sem unhas. E a serra ceifa-dedos zunia ali tão perto deles, faminta. Não me aproximava muito.
Um dia, como sempre, perguntei pelo filho, o Homem Metade. Tinha, agora, mais confiança com ele e passava muito tempo a escutar as suas histórias. Tratava-o por tu. Às vezes falávamos de pássaros, dos de cá e dos que ele vira por África, e às vezes não falávamos de nada, ficava só a vê-lo colar os fósforos queimados, construindo as suas maquetas com muita paciência. O velho disse-me que o filho estava no lugar do costume, e o lugar do costume era uma casinhota nas traseiras da carpintaria, virada para um bosque em cuja clareira passava um riacho e onde as mulheres da aldeia lavavam a roupa em lajes de pedra. O Homem Metade passava lá dias inteiros, fechado.
Atravessei a carpintaria, os pés sempre sobre o tapete de serradura ancestral. Na casinhota, bati à porta e abri-a sem esperar pela voz de dentro. Era sempre assim que fazia. Entrei e eis o Homem Metade. O Homem Cadeira. O Homem Sem Pernas. O Homem Tronco. O Homem Meio-Homem. De qualquer modo, um Super-homem. Debruçado numa bancada cheia de ferramentas, bocados de madeiras e caixas vazias, colava fósforos na proa de uma caravela.
Lá vem a Nau Catrineta/ Que traz muito que contar./ Ouvi agora, senhores/ Uma história de pasmar.
Aproximei-me. O Homem Metade esteve três anos na Guiné. Foi para lá (ainda não era Metade) com vinte e cinco primaveras e voltou sem as duas pernas. As duas pernas inteiras, sem tirar nem pôr. Uma bazuca, numa emboscada, tinha-lhe traçado o destino. Oito colegas morreram. Guerra era guerra. Às vezes contava histórias horrendas. O melhor amigo morrera-lhe nas mãos, com os miolos a saírem pela nuca. Viu pessoas queimadas, trucidadas e completamente desfiguradas, sendo impossível reconhecê-las. Um dia cercaram uma aldeia e metralharam sobre tudo que se mexesse. Velhos, mulheres, crianças. Nem o capim ficara de pé. Estavam treinados para matar e estavam a servir a Pátria. Guerra era guerra. Mas agora a sua guerra era outra. Uma guerra surda contra o tempo. Sem as duas pernas, preso a uma cadeira de rodas, a sua guerra travava-se dentro daquela casinhota entre caixas de fósforos, colas e lixas, madeiras finas, pregos e martelos. O dia inteiro fechado. A caravela tomava forma com todos os detalhes. O Homem Metade, pouco falador, olheirento, a barba como um matagal a crescer, tinha jeito para aquilo. Em cima de mesas e prateleiras viam-se a Torre de Belém, o Santuário de Fátima, o Castelo de Porto de Mós, o Castelo de Leiria, o Mosteiro da Batalha e a igreja da aldeia. Tudo em fósforos queimados e com os devidos pormenores. Havia um carro de bombeiros. Uma locomotiva. Um hidroavião semelhante ao de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Bonito. E havia outras maquetas de monumentos que eu não reconhecia de lado nenhum. Perguntei-lhe se a caravela era a Nau Catrineta. E ele: sim, que podia ser.
Pela janela aberta entravam feixes de luz. Viam-se nuvens brancas que eram couves-flor semeadas pelo céu. Fui directo ao assunto que me levava, desta vez, ali: queria uma porção de cola de madeira. Que podia levar a que quisesse, mas era para quê, podia saber?... A ele, não podia mentir. Não era capaz de o fazer ao Homem Metade. Viver agarrado a uma cadeira de rodas para o resto da vida era já um castigo suficientemente grande. Dizer-lhe uma mentira, por mais insignificante que fosse, não fazia sentido. – Vou fazer umas asas – disse-lhe eu, orgulhoso. Era um segredo meu, mais ninguém sabia. Nem os meus colegas da escola.
- Umas asas? De papel, para brincar?
- Não, de penas, para voar como Ícaro – respondi, e o Homem Metade começou a rir-se e fez marcha atrás para alcançar um alicate. Cabeça, tronco e membros sem-membros. Só braços e calças vazias dobradas sobre o assento salpicado de aparas e lascas de fósforos. Eu não me estava a ver sem pernas. Nada de corridas, nada de bola, nada de trepar árvores, nada de nada. Se me chamassem para a guerra, fugiria antes que me ceifassem as pernas.
- Para voar? – o Homem Metade deixou de colar fósforos e fixou-me atentamente. – Sabes que quando tinha a tua idade também pensei nisso? É verdade. Fazer umas asas para voar. O meu sonho era poder voar. Como Ícaro.
- Eu vou fazê-lo – disse, convicto. – Vais ver!
- E vais atirar-te de onde, para poderes voar?
- Ainda não pensei nisso – eu olhava para as maquetas. – Talvez da torre da igreja.
- É o ponto mais alto da aldeia, de facto. Mas não te esqueças que quanto mais alto subires... mais alta é a queda.
- Não tenho medo das alturas – disse eu. – Quero ser aviador, quando for grande, e além disso vou fazer umas asas tão perfeitas como as de um pássaro.
- Vais ser o homem mais famoso da nossa aldeia... – o Homem Metade gozava comigo; entendia-o. Quando se é novo, com onze anos, todas as fantasias são permitidas. Ele também sonhara com aquilo. Voar. Agora todos os sonhos lhe estavam vedados. O mundo dele resumia-se ao que estava dentro da casinhota. E ao que conseguia ver de longe: largou a caravela, fez rodar a cadeira, tirou uns binóculos duma gaveta e dirigiu-se à janela: ficou assim demoradamente a olhar: lá para o fundo, para a clareira do bosque onde corria o riacho. Perguntei-lhe o que estava a ver. – Pássaros – respondeu, sem desviar os binóculos. Pedi se podia ver e ele, laconicamente, disse para eu esperar. Quando peguei nos binóculos, assestei-os lá para o fundo e procurei pássaros na copa das árvores. As árvores estavam muito próximas, muito folhosas, muito verdes, mas não havia pássaros. Se houvesse, estariam muito bem escondidos. Baixando as lentes para o riacho, vi, isso sim, três mulheres batendo com a roupa nas lajes. Não eram muito novas nem muito velhas, deviam ter a idade do Homem Metade. Tinham os pés na água e as pernas nuas até muito acima do joelho, a pele voluptuosamente clara e luzidia com os reflexos do sol. E voltei a procurar os pássaros. O Homem Metade regressara à Nau Catrineta e queimava mais uma caixa de fósforos. Tinha o silêncio como cúmplice. Não existiam palavras para a sua dor.
- Um dia vais emprestar-me os teus binóculos? – pedi eu; ele não disse nada. Colou mais um fósforo. Perguntei-lhe se já alguma vez tinha visto um cuco e continuei a espiolhar as árvores. Vi um melro do tamanho de uma águia. Tinha, no bico amarelo, uma minhoca do tamanho de uma cobra. O bicho a contorcer-se. E de repente desapareceu. Quando eu disse «estou a ver um melro», contentíssimo, já o pássaro tinha sumido.
- Sabes? Nunca vi um cuco. É por isso que quero viver nos bosques, e ficar à espera. Posso ganhar raízes, mas hei-de ver um cuco. Se me emprestares os binóculos, um dia destes – e ele, claro, emprestava-mos. – É mais interessante assim, vê-se tudo ao pormenor. Também posso ver como os pássaros constróem o ninho, como começam do nada com duas ou três palhas e o vão tornando redondo e fundo e forrado com penas macias e quentes. Não achas que os ninhos, em geral, são uma obra de arte? Eu acho. Depois é ver os ovos eclodirem e os filhotes crescerem de goelas no ar, e depois deixarem o ninho para darem o primeiro voo. Como é que um pássaro sabe que sabe voar? Já pensaste nisso?
O Homem Metade não estava ali. Corria por campos de papoilas e tremocilhas e trepava oliveiras em busca de ninhos. Enlaçava as pernas nos troncos mais compridos das árvores e subia como um macaco. Empoleirava-se e fazia equilíbrio nos ramos horizontais. Tinha onze ou doze anos, como eu… E a caravela à espera de fósforos.
- Mas já alguma vez viste um cuco? – insisti, arrumando os binóculos. O Homem Metade caiu em si. Não. Nunca tinha visto um cuco, se bem se lembrava. Em África vira aves de todas as cores e tamanhos, mas um cuco nunca tinha visto. Só ouvido o cucu ao longe, e a última vez fora há pouco tempo.
- Esse pássaro fascina-me, tem qualquer coisa de mítico. É como o Gigante Adamastor. – Não soube por que comparei o cuco ao gigante lendário de Camões. Talvez por causa da caravela de fósforos. Depois tirei duma barrica para uma lata a cola branca de que precisava. Parecia leite espesso. O Homem Metade ainda me deu uma trincha. E agradeci e fui-me embora, porque tinha pressa de construir as minhas asas. Parti a pensar no Homem Metade. Era uma boa pessoa e dar-lhe-ia asas, no tal jogo imaginário que eu tinha: que era dar asas às pessoas boas, sendo eu – coisas de miúdos – o super-herói Homem Pássaro com super-poderes. Asas, pois, para o Homem Metade. As suas mãos faziam maravilhas. Aqueles monumentos todos, feitos com tanta paciência e dedicação, ao mais pequeno pormenor, janelas manuelinas, coruchéus e gárgulas fantásticas, a igreja da aldeia com os cata-ventos e todos os sinos, pequenos e grandes, no campanário. O hidroavião Lusitânia, que fez a travessia do oceano Atlântico de Portugal para o Brasil, pela primeira vez na história da Humanidade, por ares nunca dantes navegados, tinha todos os detalhes. Nem lhe faltavam as cruzes vermelhas da Ordem de Cristo. Ele era um verdadeiro artista, fazia obras de arte com as mãos. E parti contente por tudo, pelos binóculos que um dia havia de levar, pela lata de cola, pela trincha e sobretudo pelas obras de arte do meu amigo da cadeira de rodas, mas não reparei que o deixara a chorar. Eu tinha onze anos, não podia reparar. As olheiras do Homem Metade tornaram-se lagos insalubres. Grossas e silenciosas lágrimas correram-lhe como rios para o matagal de pêlos da cara. Era sempre assim, soube mais tarde. O Homem Metade regressava à infância para correr pelos campos e ir aos ninhos e trepar as árvores. Longa e dolorosa viagem no tempo, essa. Eu não sabia metade da história. O Homem Metade dormia pouco, e quando dormia acordava sobressaltado com pesadelos que se passavam em África. Crianças negras sem rosto corriam para ele e traziam-lhe as pernas de volta, mas as pernas enchiam-se de vermes e apodreciam num instante. Então as crianças riam, mesmo sem rosto, e ele despejava-lhes tiros e tiros de metralhadora para se vingar da brincadeira de mau gosto. Acordava com suores frios e levava logo as mãos às pernas, mas elas não estavam lá. O pesadelo era quase sempre o mesmo. Também sonhava com o melhor amigo. Via sangue e miolos a escorrerem pelo corpo e o amigo dizia-lhe que estava no Inferno, pedia-lhe que o levasse para o Céu. O Céu estava muito, muito longe. Um bater de porta mais brusco deixava-o nervoso. Uma sirene de bombeiros também. Todos os ruídos fora do normal o faziam reviver a guerra. Um miúdo a correr deixava-o destroçado. A guerra continuava dentro dele. E assim a Nau Catrineta foi sacudida por violenta tempestade. A ira de Adamastor também existia ali, dentro da casinhota. Eu ainda não sabia metade da história.
Mas o Homem Metade, sendo ele, literalmente, metade de um homem, passou a ser para mim o exemplo máximo da coragem e da abnegação humanas. Como se deve imaginar, não cheguei a voar como Ícaro, nem sequer concluí «as minhas asas» de onze anos. Simplesmente, para o resto da vida, conhecer o Homem Metade... tornou-me diferente.
Traça ou não, eis a questão...
Sou uma traça.
O cheiro de um livro novo é, para mim, um perfume delicioso. O de um antigo, um aroma que me deixa tonta de prazer.
Posso pairar entre estantes e prateleiras, carregadas das minhas guloseimas preferidas, tempos infindos, os olhos lambendo as lombadas, um arrepiozinho de fome no estômago a antecipar o prazer da primeira dentada.
Só por duas ou três vezes me lembro de me ter dado mal com a ementa.
A primeira foi com um livro muito antigo, tinha por lá andado já, outro apreciador de raridades, como eu, que infelizmente se esquecera de lavar as quelíceras após a refeição anterior. Detectei de imediato restos da impressão de um qualquer Diário da República com o que fiquei agoniada por vários dias.
Noutra ocasião, estando numa livraria, ouvi a um grupo de humanos que iam fazer “o lançamento de um livro”. Portanto fiquei à espera, muito sossegada no meu canto a ver se me calhava algum a mim.
Mas foi deveras complicado o que se passou a seguir: havia várias pessoas dos dois sexos a falarem em grupos e a fazerem imenso barulho, depois vieram três ou quatro com um pano amarrado à volta do corpo e uns tabuleiros na mão com várias coisas lá dentro. Num instante todos os outros correram para lá e quando voltei a olhar já estavam vazios. Um humano do sexo feminino sacudia aflito uma das mãos, que na confusão fora confundida com um acepipe – isto contava ela para uma outra que lhe estava a colar um pedaço de papel no dedo. Estavam todos aliás, com os cabelos desalinhados e uns rasgões nas indumentárias – o que ouvi comentar depois “já ser hábito naquelas ocasiões”. Espantada com esta atitude que só conhecia nuns parentes muito afastados em África, na realidade só vagamente aparentados – um tipo de formigas – considerados a vergonha da família; perdi por instantes a sequência da acção dentro da sala.
Os humanos estavam agora todos em fila em frente a uma mesa, onde um deles com uma caneta na mão escrevia qualquer coisas em cada livro que todos os outros levavam. Tinham todos um grande sorriso em especial o que estava na mesa.
Ou seja: afinal não chegaram a “lançar” livro nenhum ou então eu perdi precisamente essa parte...
Mas, já que ficara até ali, resolvi esperar para ver o que acontecia a seguir e se sobrava alguma coisa para mim.
Foi o meu azar: Daí por um bocado saíram todos, inclusive o da caneta, os últimos foram os dos tabuleiros, um deles com um dedo enrolado. Sobre a mesa ficaram dois ou três livros e eu zás, nem pensei duas vezes e fui-me a um deles.
A capa não tinha nada de especial, mas do papel vinha aquele aroma doce, tipo açúcar caramelizado, que me deixava a tremer de desejo.
Os tremores também já eram de fome, pois estava em jejum e já íamos no final da tarde. Sendo assim, fui-me a ele com unhas e dentes, sendo que, numa altura destas, uma traça lembra-se lá que não tem uma coisa nem outra!
Em má hora o fiz: comecei de cima para baixo e depois de baixo para cima, experimentei até da direita para a esquerda, e não é que mastigava, mastigava e não ia para baixo? O pouco que consegui engolir, indigesto até mais não, descobri depois que não tinha pontos nem vírgulas. E já agora que penso nisso... nem parágrafos! Céus, que pesadelo!
A terceira situação, foi no entanto, a que mais abalou a minha saúde, já que ameaçou terminar com as minhas noites de sono.
Estava de novo numa livraria, desta vez num centro comercial e ouvi este comentário de vários humanos que passavam um livro de mão em mão: - É uma história de amor muito actual, dos nossos dias... e ouvi risinhos abafados. Várias vozes dizerem que era “picante”. Ora eu adoro um prato bem condimentado, fui-me logo a ele sem pensar duas vezes.
Bem, tive insónias e pesadelos terríveis em que vários humanos, pelos nomes pareciam sempre os mesmos, trocando-se entre si, “se comiam uns aos outros” (os termos são do livro), das mais variadas maneiras.
Tive vómitos e andei adoentada mais de uma semana. Ainda hoje acordo, perseguida pelos palavrões que engoli, capazes de fazerem corar as tais primas marabuntas. O que uma traça tem que sofrer! Já nada é como era dantes, até os livros provocam indigestões, tenho que ter sempre uma folha de hortelã à mão...
Uma folha de hortelã ao pé...
Uma folha de hortelã...
Acordo de repente sobressaltada.
Safa que pesadelo horrível! Sonhei que era uma traça. Ainda por cima uma traça com pretensões a intelectual, digestões lentas e gosto por chá árabe.
São as do género mais difícil de aguentar. Mas que digo eu? Traças são traças e são todas iguais.
Que ferro! Como diria o Eça.
Estas noitadas pegada aos calhamaços da Arqueologia estão a dar cabo de mim.
Amanhã trago uma litrada de café para a cama a ver se não me dá o sono nem a traça.
Onde é que estão as fotocópias dos “esqueletos de Cabeço de Arruda” e as dos “Dolmens e Antas”?
Ah!, já estavam no tapete, quase debaixo da cama... e olha, cá está a caneta que ontem me fartei de procurar.
Céus, que calor! Vou abrir a janela... um cheiro a natureza esbraseada, que luta para respirar, inunda tudo. A noite entra de golfão e cola-se húmida aos papéis e à pele.
Lá fora não se ouve passar um gato. O silêncio pesa.
Penso: Que teria sido feito dos grilos e das cigarras?
Ora, fizeram as malas e foram a banhos.
E eu? Eu também devia ter ido se tivesse juízo, em vez de estar aqui, no meio do calor e dos livros a preparar-me para mais uma época de exames.
E a culpa é tua Professora, tu que me encontraste menina do liceu e me disseste que devia lutar sempre por aquilo em que acreditava, que tinha capacidade para ser aquilo que eu quisesse e nunca parar de estudar. E eu tenho cumprido, só não sou a professora de português que esperavas que fosse para seguir os teus passos...
Contigo aprendi a ler Eça e Camilo e a amar o Aquilino dos “Cinco reis de gente”.
Foi quando comecei a juntar os meus primeiros livros, quando descobri o caminho dos alfarrabistas e dos livros em segunda mão.
Fui eu que me fiz, mas foste tu que me moldaste para ser o que sou hoje no amor aos livros e na descoberta de novos caminhos e conhecimentos.
Lá estou eu, de novo, os pensamentos a fugirem em todas as direcções...
Anda, mentaliza-te que não está assim tanto calor.
Concentra-te, força!
Um suspiro e olho para o tecto onde algumas sombras parecem fugir para os cantos do quarto...
Lá em cima, uma traça sobe em direcção à lâmpada acesa, a luz fascina-a e está cada vez mais perto... Ouve-se um leve ruído e é tudo.
Paz à sua alma!
No ar fica um breve aroma a hortelã...
POUCAS PALAVRAS
Ele não era homem de muitas palavras. Também não conhecia as letras. Desenhava garranchos que lembravam seu nome em algum documento que fosse preciso, mas achava perda de tempo. Afinal, pensava ele, se a palavra de um homem não tiver valor, seus rabiscos num papel hão de valer ainda menos. Já tinha ouvido isso antes, mas quando ouvi dito por ele, finalmente as palavras fizeram sentido.
Estava sempre de bom humor. Por mais que algo ou alguém o aborrecesse, usava seu próprio jeito simples para apaziguar os ânimos. “Fazer o quê?” iniciava calmamente após um longo suspiro, “Deus não me deu inteligência, só força para trabalhar a terra, então está tudo bem” dizia fazendo referência ao fato de usar um vocabulário reduzido para todos os assuntos.
Agora que já se foi deste mundo, fico pensando se não teria sido minha obrigação contar a ele o quanto conhecê-lo me tornou diferente. Não que isso fosse mudar o seu jeito de ser ou apreciar mais minha companhia. Não faria diferença. Continuaria a ser a mesma pessoa de olhos vivos, de um tom azul feito o céu daquelas manhãs ensolaradas de inverno.
Iria continuar a me receber sorrindo como sempre fez. A me cumprimentar com a mão forte e o abraço carinhoso como se estivesse recebendo um de seus próprios filhos. A me dizer, apenas com o olhar, “que bom ter você aqui mais uma vez!”
Eu já era homem feito quando ele me ensinou a pescar. Não que eu não soubesse fisgar um anzol, segurar a vara de pesca ou até arremessar a linha com um molinete. Foi ele que me ensinou a entender o comportamento dos peixes. A perceber pequenos detalhes que não estão nos livros. A ler a superfície da água e supor, com comparações simples, o que se passava no fundo de uma lagoa.
Segundo ele, uma pescaria era bem mais que atrair o peixe e tirá-lo para fora d’água. Era um estado de espírito que o pescador tinha de vestir antes de se achegar ao rio. E, para que pudesse vestir essa aura de calma e serenidade, era necessário despir-se da agressividade, do desânimo, da preocupação. “senão o peixe não vem” afirmava ele fingindo uma convicção quase infantil. “E, lá embaixo, um conta para o outro que aqui em cima tem gente triste e vão todos procurar outro lugar para ficar.” Então aprendi a fazer tudo que tiver que ser feito com alegria. Aproximar-me das pessoas sem demonstrar tristeza ou irritação. É melhor assim.
Também tentou me ensinar a fumar um bom cigarro de palha. Mas, isso, não fiz questão de aprender. Contentava-me em ficar por perto, apreciando o perfume dos fumos que ele mesmo misturava em épocas certas do ano. “Um ‘palheiro’ no meio do dia clareia as idéias!” dizia ele com muita propriedade. E acho mesmo que aquele ato de confeccionar artesanalmente o próprio cigarro tivesse algum efeito terapêutico, já que não custava menos de dez minutos de atenção voltada apenas para aquele trabalho. Tempo suficiente para que o cérebro, por si só, reorganizasse os pensamentos que por ventura o estivessem importunando.
Mas o que mais me marcou em conhecer esse que acabou se tornando, mais que meu sogro, meu amigo e segundo pai, Vicente, foi sua capacidade de amar a própria família. Não falo do amor fraterno de todos os pais por seus filhos. Falo do amor que recebe e acolhe a cada novo membro que chega como se sempre tivesse sido um dos seus. Um filho querido, que andava distante e de quem sentia falta todos os dias. Era assim que ele me fazia sentir.
Com ele aprendi que os livros me ensinavam as letras e as ciências. Mas não me ensinavam o valor do verdadeiro respeito que se deve a todo ser humano, sem exceção. Que a escola me ensinava fórmulas e métricas, mas não me ensinava a sentir as pessoas e a valorizá-las pelo que elas representam. Que títulos e honrarias são muito bonitos, mas que ninguém se alimenta do belo. E que até o belo pode, um dia, perder seu reinado para os efeitos do tempo.
Foi depois de conhecê-lo que aprendi a observar os pássaros e a imaginar como seriam suas vidas. A apreciar uma bela paisagem não apenas como elemento estético, mas como poesia que se ‘saboreia’ com os olhos. A olhar para a família reunida ao redor do fogo no inverno e sentir os olhos marejarem de alegria.
Depois que o conheci, aprendi a entender o sucesso e a felicidade como coisas distintas, ocupando cada uma seu lugar no coração dos homens. Que tão importante quanto perdoar erros alheios era aprender a perdoar a mim mesmo. E que ser feliz dependeria muito mais do que eu realizasse dentro de mim do que no mundo ao redor.
Meu pai foi e sempre será único e insubstituível. Outro grande homem de poucas palavras que educava pelo exemplo e não pela retórica. Pessoa correta, inteligente e de honestidade a toda a prova. Mas tinha os sentimentos ocultos e impenetráveis. Que fugia do abraço e dificilmente se permitia brincar com um filho. Demonstrava seu amor em momentos raros e breves, mas não descuidava de ninguém a sua volta. Transmitia segurança e serenidade.
Já Vicente, meu querido sogro, era transparente como água cristalina. Capaz de sentar ao lado de quem estivesse triste e permanecer ali, quieto. Apenas esperando uma oportunidade para que os olhares se cruzassem e que ele pudesse oferecer seu sorriso de amigo. Que rolava na grama e brincava de cavalinho com os netos. Capaz de fazer aflorar, sem o menor esforço, o que havia de melhor em cada um.
Hoje, analisando os momentos que passamos juntos, lamento por terem sido tão poucos. Permito-me discordar dele em apenas um ponto: Deus não o privou de inteligência, como ele supunha porque não sabia usar nem a metade das palavras que se acostumara a ouvir de pessoas ditas mais cultas. Acredito, isso sim, que Deus, em um momento inspirado, criou um homem único, que falava com os olhos e com o sorriso. E que de tão sincero, não precisava mais que umas poucas palavras para expressar o que pensava e o que sentia. Poucas palavras, concebidas pela alma e ditas com o coração.
A presença na ausência
Um ser tão normal como a sua própria vida estava em constante mutação onde o corpo inchado deu o sinal de alerta. As preocupações cresciam. Na minha alma de criança não havia sensibilidade para conseguir sequer especular o que estava a acontecer.
Não sei como se diz a uma criança que a sua mamã tem cancro, nem como se explica que naquele momento foi declarada uma batalha contra um invasor maligno que insiste em ocupar as terras que não lhe pertencem; só sei que apesar dos meus modestos oito anos tive consciência da gravidade da situação.
Deu-lhe Deus, não em vão, no batismo a graça de Piedade, e eis que é no livro sagrado, segundo São Mateus que se evocará a desgraça : “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim! Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio.” Demónio ou não aquele tumor maligno veio atormentar de forma revolucionária a família, os amigos e até os médicos que com espanto e esperança lutaram até ao cessar fogo.
E foi esse monstro com vida própria e sabedoria acrescida que me roubou a nascente do amor, o orgulho do ser e a alegria de viver como se nada fosse, e que deixou secar nas minhas veias o rio da protecção maternal que tanto saciava a minha sede.
Que dia fatídico.. lá foi para a “terra fria” a minha mãe do coração, sem voltar a ver mais a luz do mundo, a terra lhe caiu em cima e lá ficou na eterna escuridão.
O lema de vida jamais será esquecido: “A esperança é a ultima morrer”, mas esperança que tanto evocava terminou quando na lápide de luto foi escrito: “ Aos vinte e nove anos de idade foi a tua despedida, ficas sempre na lembrança para o resto da nossa vida”.
Cresci e faço a minha viagem pela estrada da vida, onde sou a condutora que necessita de um co-piloto especial que está sempre ali ao lado no banco do “pendura” só para me guiar!
Dói... Ainda falta esquecer as imagens do sepulto; agradecer à saudade por manter no meu coração a alma que amo de paixão; dizer o quanto a amava mas eu nem sei se já sabia o que isso era quando partiu... No final os seus últimos gestos de mãe falaram tudo o que faltava. Palavras para quê?!
O que nos une é muito mais do que o ADN, o cordão umbilical ou a fotografia que guardo naquele cofre onde nem toda a gente entra, na esperança de que salte da moldura a chama de mãe que não apaga com qualquer vento; o que nos une é o sorriso que ficou para sempre reflectido no espelho da minha memória.
Fiquei diferente, cresci rápido, sofri muito e chorei ainda mais porque perder a mãe é uma das maiores dores que um filho pode sentir. Foi essa dor que senti cada vez que de uma mãe precisava...
Vivo com medo de um dia o destino marcado para a minha mãe seja geneticamente transmissível... e que eu dê aos meus filhos o eterno desgosto de viverem sem a minha presença.
Sinto falta...
do ser que ralha e zanga,
Castiga e reclama,
mas que cuida, perdoa,
Educa e abençoa!
2000, eu e tu…
*
Entre riscos e rabiscos, coloridos em folhas de papel improvisado, dão-me uns beijos e uns abraços. Aquecem o ambiente com birras e choros fingidos. Observo-as com orgulho. São as minhas duas bonecas. Flores de pétalas douradas, duma planta que germinou. Resultado da fusão entre dois corpos, de duas partes simétricas que se complementam.
A minha outra parte está sentada. A areia colada aos pêlos serve de camuflagem a um bronzeado por atingir. Esboça um sorriso, simples, ternurento. O mesmo que me cativou no primeiro olhar.
Estávamos em pleno ano de 2000. O mítico 2000. Em criança, falar deste número era quase sinónimo de ficção científica. Toda a novidade de entrada no novo milénio já havia sido ultrapassada. Durante o mês de Agosto, o tema é Verão, férias, descanso, relaxe, animação…
Quando o avião levantou voo, tive a sensação que dessa vez a viagem seria única. Não fosse o destino tão aguardado. Daqueles sonhados, ainda o número 2000 não passava de ficção científica!
Itália, um país onde a língua parece cantada. Onde o renascimento marcou. Onde eu iria renascer.
Aterrei em Milão, cidade cosmopolita. Chovia imenso. O caos do trânsito, a condução desorganizada. Pareciam novos cenários do sonho. Chegávamos em pequenos grupos para sermos integrados num de grandes dimensões. Horizon 2000 – assim se designava o projecto. Numa miscelânea de nacionalidades – portugueses, espanhóis, italianos, franceses, belgas, israelitas – davam as instruções para os dias seguintes.
Numa sala repleta de jovens, a mistura das várias línguas transformava-se em acordes desafinados. Eu participava igualmente dessa desafinação, conversando animadamente com outros portugueses. Nesse momento, ele chegou (Tinha ficado esquecido sete horas no aeroporto – soube mais tarde). Cabelo bem rapado, mochila às costas e ar ofegante, surgia um pouco reticente.
A mistura de identidades dava origem a uma verdadeira caldeirada, temperada bem ao gosto português, com pitadas de piadas, num constante respeito pela diferença.
Com contornos mais picantes revelava-se Maria. Italiana de abdómen tatuado, numa projecção de “arte natura” ao vivo.
-Follow Maria! – assim se apresentava uma das líderes / guia da actividade em questão.
-Sigam a nossa bolacha! Bolacha …Maria! – participava ele nas gracinhas bem à “portuga”, enquanto os pontos de reticências iniciais desvaneciam na multidão de gente que seguia a rapariga.
Perdi o bilhete do autocarro. Exactamente aquele que faria a ligação ao ponto de hospedagem inicial. Subitamente, a sua mão tocou na minha. Numa voz suave, mostrou-se disponível para ajudar.
Um gesto sem registo marcado no consciente… mas impresso nas fotografias tiradas ao longo dos dezassete dias posteriores (surgimos frequentemente lado a lado, numa proximidade inconsciente, irreversível).
Em caminhada pela Toscana, numa panóplia de aventuras – dormindo em igrejas, tomando banho em lagos ou irrigados por mangueiras – fortificava-se o elo, aparentemente invisível.
Dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, mergulhávamos numa paisagem encantadora. Daquelas que ofuscam o raciocínio e, simplesmente, nos deixamos levar. Ao sabor do vento, aquecidos por raios de sol…
De vez em quando, uma pequena tempestade iluminava o sonho, refrescava a pele, amenizando o clima especial desta região italiana, deixada para trás após quase uma semana de viagem.
Seguiram-se paragens por Parma e Arezzo, antecedendo a visita à cidade de Roma, onde ruas surgiam apinhadas de gente, lembrando um formigueiro que tenta, a todo o custo, alguma funcionalidade. Naquela que é uma das mais maravilhosas cidades do mundo...
Florença revelou-se o detalhe final, numa grandiosidade à semelhança do eterno David… A partir daí, descolaria o avião de regresso a Portugal. Tal como na ida, a vinda seria feita em pequenos grupos, com diferentes horários de partida. A grande surpresa estava prestes a revelar-se…os nossos bilhetes coincidiam na íntegra, conduzindo-nos ao mesmo voo. Aquele que, ainda hoje, nos faz voar…
Pipoca e o tio Galopim
No âmago vasto e diverso das memórias da minha infância, há uma persistente em nitidez e força, ao contrário das outras esboroando-se com o tombar dos anos. Quis o acaso que a residência dos meus pais se situasse a pouca distância do Jardim Zoológico da cidade. Eu devia andar por volta dos meus quatro anos, quando um dia os meus pais decidiram levar-me a visitá-lo. Só há poucos dias o Verão tinha começado, pois ainda perduravam os últimos sopros da Primavera, gerando-se uma mistura atmosférica ao mesmo tempo estranha e deliciosa.
Eu nunca conseguiria reduzir à pequena escassez destas páginas todas as emoções por que passei nesse dia. Ao longo dessa ainda curta parcela da minha existência, eu vivera convencido de que, para além dos humanos, a fauna do planeta se oferecia, somente, nas formas de cães, gatos, ratos, e pássaros. Um mundo urbano, simples e descomplexado em harmonia com o tamanho do meu corpo. A descoberta dos inumeráveis animais, dos seus cheiros intensos e das suas vozes inauditas pôs o meu mundo em reboliço, como uma onda de choque a esbofetear os meus sentidos.
Passei toda a viagem de regresso a casa com o pensamento ocupado nos animais. Sem dúvida, para mim os mais fascinantes eram os pássaros, cujos admiráveis cantos tinham a faculdade de isolá-los e elevá-los da vulgar desordem de guinchos e gritos preenchendo o recinto do Jardim Zoológico. Nessa mesma noite, eu, com a ingenuidade dos anos pré-escolares, contei aos meus pais a intenção de ter um passarinho para viver comigo. No entanto, a minha qualidade de petiz esbarrou com a responsabilidade necessária para cuidar de um animal de estimação, e os meus desejos da vida real converteram-se, à força, em sonhos no reino de Morfeu.
Anos mais tarde, decorria o primeiro ano da escola primária, a convivência diária com os meus colegas possibilitou-me o conhecimento das estórias sobre os seus animais de estimação. Cresceu, assim, a frequência com que eu expressava aos meus pais o desejo antigo de ter um passarinho. E, no dia do meu sétimo aniversário, eu rebentei de alegria ao receber de presente um espantoso pássaro amarelo vivo, piando e olhando-me do interior de uma gaiola branca assente sobre um esguio pedestal.
O pássaro tinha por hábito dar pulinhos curtos e rápidos de um poleiro para o outro, juntando um pio breve a cada uma das suas acrobacias. Então, associando a cor amarela da penugem, eu e os meus pais decidimos chamar-lhe Pipoca, porque parecia mesmo o milho que estalava dentro da panela sempre que a minha mãe fazia pipocas.
Tanto tempo dedicado ao Pipoca! Tratando da comida, mudando a água, limpando a gaiola, pondo-o ao sol, mas, acima de tudo, fazendo-lhe companhia como ouvinte atento dos seus cantos. Acontecia, por vezes, esquecer-me até dos deveres escolares. Por isso, eu não compreendi como foi o Pipoca capaz de me trair, quando num certo dia das férias de Verão, por descuido meu, deixei alguns instantes a porta da gaiola aberta. Ainda me lembro de avistar o pássaro amarelo fugindo pela janela da cozinha e perdendo-se em voo desorientado na paisagem citadina.
A minha completa desolação espelhou-se nos dias que passei à janela da cozinha, junto à gaiola vazia, esperançado que um Pipoca arrependido voltasse para casa. Os meus pais propuseram-me escolher outro pássaro, mas eu recusei sempre trocar o Pipoca por outro. O meu estado de enfermiça preocupação com a saúde do Pipoca durava há duas semanas, quando foi interrompido pela visita do meu tio Galopim, um guarda-florestal a poucos meses da reforma. Procurando amenizar a minha tristeza, o meu tio convidou-me para, ao outro dia, ir com ele para o trabalho.
Na manhã seguinte, a viagem até à orla da floresta realizou-se de automóvel. Gradualmente, os sons da cidade desapareceram. Fizemos a pé o resto do caminho. À medida que nos afundávamos na floresta, o meu tio explicava-me coisas sobre o seu trabalho. Ele conhecia como poucos os trilhos que percorríamos. A dada altura, achámo-nos cercados por árvores de muitas espécies e, para quem como eu estava habituado a viver rodeado de prédios, essa foi uma experiência deslumbrante.
Pelo caminho, o meu tio chamava-me a atenção para certo animal que aparecia, ou se escondia atrás dos arbustos, ou ainda um pássaro acabando de voar dum ramo de árvore. Mas os meus olhos, nada exercitados para essa actividade, eram lentos de mais e, para não perder todo o espectáculo, eu buscava renovado auxílio junto do tio Galopim, de modo a retirar algum proveito do passeio. Ao fim de algum tempo, porém, eu começava a ficar cansado e aborrecido. Assim, perguntei:
“Tio Galopim, aqui há leões?”
“Leões?!”, respondeu indignado o meu tio. “O que julgas tu que isto é, um Jardim Zoológico?”
Pouco faltava para a hora de almoço e o meu tio propôs que nos sentássemos à sombra de uma árvore no caminho. Durante a refeição em forma de piquenique, eu ouvi do meu tio uma pequena palestra que me serviria de lição para o resto da vida.
Começou por revelar-me que, na sua opinião, os Jardins Zoológicos eram uma perfeita aberração, uma criação do bicho Homem como remédio para o mal que havia espalhado pelo mundo, a destruição das florestas e por consequência dos habitats dos animais, hoje exibidos orgulhosamente atrás de grades. Segundo o meu tio Galopim, nem um só animal permaneceria dentro das jaulas se elas fossem abertas. Neste instante lembrei-me do Pipoca.
Como se adivinhasse o meu pensamento, o entusiasmado tio Galopim prosseguiu e aconselhou-me a não continuar triste pela fuga do Pipoca e a não me culpabilizar pelo perigo e incerteza na vida futura do passarinho amarelo. Garantiu-me que os animais, quando livres, encontram sempre o caminho da felicidade. E, caso eu duvidasse, bastaria abrir os olhos, os ouvidos e sobretudo o coração para sentir a paisagem natural onde concluíamos o piquenique.
Pensando melhor, eu já não encontrava qualquer graça naquela distante e primeira visita ao Jardim Zoológico. Que satisfação sentiria alguém em ver todos aqueles animais presos dentro de jaulas, dormindo sobre chãos de cimento frio e andando de um lado para o outro, talvez enervados por não acharem a saída daquelas vidas tristes e miseráveis? E que felicidade experimentara o Pipoca todo o tempo fechado na gaiola, por mais deslumbrante que ela fosse, e ainda que lhe doássemos todo o amor do mundo? Hoje, não saberei dizer se ele cantava de alegria ou para aliviar as mágoas. Não costumam os homens dizer que quem canta seus males espanta? No fim de contas, se nós não entendemos as falas dos outros animais de que modo pretendemos alcançar os seus corações? A única solução é imaginarmo-nos, por momentos, nos seus lugares.
A conversa com o tio Galopim foi a semente da árvore das perguntas que me fez questionar a relação entre os humanos e os outros animais partilhando, em conjunto, o planeta Terra. Corrigiu em mim comportamentos errados e em risco de se manterem pela vida fora. Agradeço ao meu tio por o meu peito alojar hoje um coração menos pesado.
No encontro com o tio Galopim, esqueci-me de fazer uma última pergunta:
“Porque é que os homens repetem os mesmos erros, geração após geração?”
Eu sei que o meu tio teria respondido:
“Oh, meu querido sobrinho, porque é pouco o tempo gasto a pensar!”
CONHECER-TE TORNOU-ME DIFERENTE POR ISSO
HOJE É AZUL COMO TU
Hoje acordei um pouco mais feliz. E por isso o azul das calças e da camisa e da gravata e das meias. Um pouco dele por dentro, também. Lá fora, um ténue Sol faz da manhã um milagre divino. Que bom, num País tão escuro há um tranquilizador azul. Dia bom para andar de avião, entre as nuvens, entre as micoses de Deus. Eu moro alto. Num décimo primeiro andar da capital. Tem janelas largas, tem o frémito constante dos chapas pela avenida, tem mulheres negras esbeltas, lavadas e matinais na sua beleza. Ha, e a chata da vendedora de cigarros da qual me esquecia. Quero aquela minha parte, ameaçou-me logo pela manhã. A mulher no banho e eu a tremer no intercomunicador. Eu que nunca fui de amantes onde é que me fiquei a dever? Mas há o azul dentro e fora da flat e a calma que ele transmite. Quem é? Disse com a voz armada de um Eduardo que não tenho. A senhora dos cigarros. Patrão está-me dever noventa mil meticais. Descansa-me o coração. Ok, ok. Só logo à tarde, digo como se falasse do Clube de Paris. E parto novamente rumo ao quarto. O desodorizante de almíscar e uma água de colónia barata ajudam a compor o meu poeta fardado de empregado bancário. A Guta veste-se e a casa fica mais azul ainda. Cheia de estrelas espalhadas pelo chão. Está bonito o Mundo, está tranquilo e mágico como uma mulher que se veste. Respiro o poeta na cor achocolatada da Guta. Aveludada mulher que me atura. Sinto que há gente dentro de mim, gente, muita gente feliz. Aceno a todos eles um bom dia. É imperioso que o faça. Quando estamos azul por dentro além de vermos o País assim, também temos um dentro de nós. Que bom que é este o meu, todo verde, igualmente. Arborizadamente limpo. A dona Francisca, a minha empregada, é que não está azul, apesar de eu a ver dessa maneira. Lá terá as suas razões. Noto pelo rosto carrancudo e pela maneira como me pergunta: Patrão, vai tomar o café? Eu recuso-me, não quero tornar mais cinzento o dentro da dona Francisca. Poupo-o à obrigação de me servir. Um homem que é azul não precisa de ninguém a servi-lo. E ainda bem, porque senão não era azul. Descemos o elevador, eu e a minha bela esposa. Ela menos azul porque lhe dói uma costela, resquícios que não deixam o azul impor-se. Mas, mesmo assim, a cor achocolatada da pele empresta o azul ao dia todo. E os olhos grandes e quase fugitivos que tem. E os dentes brancos e acertadinhos com que sorri. E o cabelo crespo e dourado como uma coroa sobre tudo isso. E ela, meu Deus, e ela toda, ali, como uma dádiva do azul ao lado de mim. Rumamos ao emprego pelo País rasteiro que agora divisamos. Os carros das mordomias que nos ultrapassam em tudo, os carros do desenrasca que se parecem com a gente, as motas magras dos trabalhadores suburbanos, as mamanas sem o banho pelas bancas, os buracos lunares das estradas, os estudantes coloridos a caminho das escolas, as crianças enrameladas, que lindas, que maravilhosas, que fábulas elas são. E o Sol, amarelo e forte a brilhar para nós. A Guta deixa a sua cândida voz soltar-se, tilintar pelo espaço exíguo do carro, emudecer o motor: Já não tem combustível a viatura. Olhamo-nos. Afinal a realidade não é tão azul como parece. Não temos dinheiro no bolso, nem no banco, nem em lado nenhum. Não faz mal, arranjar-se-á. Digo eu ainda azul. É preciso que não morra tão cedo esta cor que tenho, pelo menos enquanto a Guta aqui estiver. E ela tranquiliza-se, elegante, conduzindo o seu dourado coche. Até os cavalos brancos eu vejo. Imponentes no trote. Mas pronto. Chegamos. O beijo despede-nos para os empregos. Mas ainda assim o beijo é azul. Que bom sentir os meus lábios dormentes e escuros do batom dos da Guta. Deixo a tristeza partir pendurada à matrícula do carro. Gostava de ter ficado com ela em casa. A sentir-lhe o calor do corpo, a lisura da pele, o hálito fresco da saliva acabada de acordar, os olhos maiores do sono, os carinhos a cantarem-lhe pelos dedos. Vou rumo ao elevador do banco. Azul eu. Eu azul. Azulando todos. E subo subido pelo ascensor. Um bom dia aos colegas mais sonante. Eles notam. Eu sorrio-lhes. Mas não lhes digo mais nada. Este azul é meu. Ligo-me ao Bill Gates num coreânico computador. Os e-mails depressa. Então, um recado do Zé. Um amigo que me ajudou em tempos a publicar poemas em livro. Um gesto azul, se atendermos que foi com o dinheiro dos outros. Magnífico mecenas. Penso. O Zé a dar uso indevido ao dinheiro. É azul também. Agora o compreendo. Vou a correr até à sua Ma-Shamba. Tomar o pequeno almoço. Mandioca cozida e chá adocicado com açúcar amarelo. Numa velha lata de azeite doce. Leio-lhe o recado: Apassarado, um longo voo é o que te desejo. Sai um abraço mano, que não seja ele lastro. Fiquei mais azul ainda. Que bom um recado assim. Por isso, sigo assobiado aos e-mails. Aos jornais por fax. E pumba. Explodiu-me o azul. O azul crescente em que me tornei por haver gente que amo, azul, do lado intenso de me verem desse modo milagroso e ametista que é, sempre, um beijo a trabalhar no interior mais fundo das nossas vidas.
A MARCA DO MEDO
Por entre o cheiro a giesta e a rosmaninho das abas da Serra de Ossa, o Zé da Seara percorria os atalhos em busca da lenha que o aqueceria nas noites longas do Inverno que se aproximava. Vagarosamente, pois as pernas já não lhe obedeciam como outrora, carregava o feixe com dificuldade sobre os ombros curvados pelo peso dos anos. Anos recordados com saudade e sempre vividos na grandeza dos montados e, por vezes, quando o calor apertava, à sombra dos sobreiros fraternais que embalavam o seu corpo cansado, enquanto a voz do vento sussurrava aos seus ouvidos a frase de Hernâni Cidade (sobre a profissão do seu pai, António Cidade) que tinha sido ao som da “orquestra da serra e do malho...” que aprendera o valor do trabalho.
Naquela noite o vento soprava forte e abafado com prenúncio agoirento. Por esse motivo o Zé da Seara desejava, ansiosamente, chegar à velha casa caiada de branco, rodeada de pinheiros, para sentir o cheiro do pão fresco feito pelas mãos sem anéis da sua companheira de longa data, que trazia raminhos de alecrim a enfeitar-lhe o vestido singelo.
Já no seu lar, depois da ceia, o Zé da Seara deitou-se sobre um tosco banco de madeira e adormeceu tranquilamente. Tranquilidade essa que foi bruscamente interrompida por um crepitar angustiante de rubras labaredas que, com a sua apavorante beleza dantesca, destruía tudo à sua frente. Lá fora a natureza chorava no coração das aves que soltavam seus trinados de angústia sobre as folhas calcinadas pela força do fogo impiedoso. Levadas pelo vento a giesta e as flores silvestres da charneca desapareciam. A ameaça do fogo tinha-se tornado uma realidade, destruindo e levando, sem piedade, para um amanhã sem futuro a sua terra-mãe que desaparecia em labaredas de dor, perante o olhar dolorido e choroso de Nossa Senhora da Anunciação.
O Zé da Seara sentiu medo. Escondido dentro da sua casa branquinha, espreitava assustado, pelas frestas das velhas janelas. Espantado pela dura realidade do fogo que mão implacável tinha ateado, a sua alma de homem bom, gritava: Não!... Não a essa ameaça que pretendia destruir todo um sagrado e antigo património que os seus antepassados tinham plantado com as suas mãos honestas e calejadas.
A violência das chamas iam destruindo a fauna e a flora que eram bênçãos da natureza na terra onde Hernâni Cidade viu a luz do dia.
O Zé da Seara estremeceu, assustado. O medo vinha de fora, das labaredas alaranjadas que avançavam, impiedosas, marcando com um ferrete de dor a sua alma de homem rural e tornando-o diferente ao causar-lhe aquele estremecimento de terror. A solidão era medonha. Agora, já não poderia percorrer como dantes, o chão sagrado da terra amada. Sentia o seu coração crucificado nos espinhos da saudade. Saudade da paz calma dos montados, do trinar melodioso das aves voando debaixo do céu azul que cobria a terra cultivada pelas suas mãos de lavrador. Saudade do oiro dos trigais, dos campos enfeitados de papoilas e da noite a cair de mansinho, com seu manto de luar, sobre a felicidade simples do seu povo forte, dos homens da sua condição, irmanados no mesmo suor de fraternidade, vivendo harmoniosamente junto da beleza que Deus tinha criado na terra alentejana.
O fogo acabara de invadir a sua casa, impiedosamente, empurrado pelas mãos do vento suão. Crescia velozmente até chegar ao peito do Zé da Seara que esbracejava, desesperado, em espasmos de agonia.
“-Zé, ó Zé! Acorda, homem. Anda para a cama que já é tarde!...”
A voz da sua companheira, soou-lhe aos ouvidos como um hino de alegria, tirando-o daquele pesadelo que o mau presságio do calor intenso lhe trouxera. A esperança tinha renascido. Talvez que essa ameaça seja, apenas, uma sombra negra passageira, que Deus há-de levar nos braços generosos, para bem longe da sua terra-mãe.
O medo acabara!... Novamente há-de subir os atalhos da Serra de Ossa e percorrer os montados de sobreiros, erguendo ao céu, como uma bandeira de alegria, a sua foice de esperança. O riso há-de continuar a morar no seu rosto tisnado pelo sol do Alentejo. As aves hão-de cantar lá fora a sua eterna melodia. O luar vai continuar a cobrir, com o seu manto de luz, os frutos que amadurecem nos campos floridos fazendo renascer as promessas de fartura nas artérias generosas da terra bendita que Florbela cantou...
Conhecer-te…tornou-me diferente
Os teus olhos eram apenas dois pequenos berlindes, castanhos, cor de mel. Berlindes, pequenos objectos de vidro, companheiros de sempre nas brincadeiras de criança. Ali estavam, fixos, no teu rosto. Como se aí se tivessem alojado para provar que a criança ainda o era. Apesar da fome, da tristeza, da guerra, da orfandade.
Era visível que não queriam encarar nada, nem ninguém, de frente. Era mesmo certo, não custava adivinhar, que te sentias melhor, mais confiante, quando, no teu rosto, o sobrolho estava caído, escondendo-os. Ou ainda noutra situação: semi-cerrados, voltados para o chão. Tentando perceber a linguagem dos ladrilhos, do mármore, ou a adivinhar, só pelo ruído das conversas cruzadas, quem era quem, quem estava à frente de quem ou quem era ou não era... ou era preciso ser...
Eram olhos de quem não queria olhar. Por medo? Por vergonha? Eram olhos, dois, pequenos, castanhos, que nos levavam a imaginar aromas e sabores de chocolate e mel. Eles voltavam-se muito mais para o teu interior e eu imaginei-os, muitas vezes, pensando que se podiam derreter e deixar escorrer, lenta, sensual, solitariamente, esse chocolate e esse mel, e de longas lágrimas de solidão doce te alimentasses…
Esses olhos percorriam corredores fundos e escuros de uma África contada e recontada em histórias de horror e mistério. De fome e de guerra. De corrupção. De dor. Sobretudo dor. Uma dor em que continuamente vivias, sem saber que assim estavas vivendo. Eram olhos que preferiam a escuridão, em que as vontades surgem como Saramago escreve, “como nuvens fechadas”...
Esses berlindes de mel, olhos afinal tão pequenos, mas onde cabiam nuvens de vontade e medo, que ali se guardavam e se escondiam... conheci-os num tempo em que também fugiam de mim, com medo de mostrarem desesperos e desejos, sonhos nunca realizados mas construídos em cada pormenor. Só os percebia acompanhados da voz fina e fraca com que pedias “Amiga, dá uma nota, tenho fome…”
Abertos, quase verdadeiros, quase corajosos e castanhos, castanhos de mel, só os vi três vezes, e muito depois de, pensava eu, teres ganho confiança na mulher branca que te sorria e te dizia “Olá!”, de cada vez que corrias para o jipe em que eu chegava e estacionava à porta do restaurante.
Na primeira vez, abriram-se espantados ao escutar a minha pergunta: “queres entrar? Dou-te uma sobremesa, a que tu quiseres escolher…” Olhou incrédulo. Os tais olhos bem abertos. Saberia ele o que significava “sobremesa”? Ou estaria apenas admirado por eu o ter convidado a entrar? Sorriu, envergonhado e, apontando para dentro do restaurante, respondeu “eles não te deixam…”
Vi-os também assim, numa tarde cinzenta, em que se misturavam as “nossas nuvens” com as da natureza, numa simbiose perfeita de tons de céu e mar. Os olhos, que eu saboreava, esses berlindes de mel… cresceram quase sem querer e saltitaram, numa ansiedade infantil, tal como a espuma branca que salpicava as rochas onde as ondas se desfaziam, quando te abracei para te proteger do vento e do frio, nessa tarde diferente e invernosa de Luanda, e te ofereci uma camisolita vermelha e branca…
A última vez que os vi abertos, estavam-no de tristeza. Foi quando pousaram na mala, que no hall do meu hotel, indiciava o adeus. O fim de um caminho a dois. Percebeste que me ia embora.
E voltaste a semicerrar os olhos… como quem, mais uma vez, se defende, não vendo, não querendo ver a realidade, a vida, com todos os seus pormenores, numa cidade rica, de milhões de pobres.
Olhámo-nos. Eu, de olhos quase marejados, sorri-te e ofereci-te o resto das notas e moedas do teu país, murmurando “São para ti. Para comeres esta semana. Chega?” Tu, semicerrando os teus, no desejo, talvez, de guardar aquele momento por mais tempo. O momento em que, mais do que o dinheiro, eu te dava um sorriso e um pouco de afecto. Sem saberes como o expressar, eu sabia que tu o sentias. E enquanto sonhavas, sabe-se lá com quê… os teus olhos, abertos, de tão espantosamente doces, foram ficando claros, claros, tão claros que já não se conseguiam distinguir do tom dourado brilhante do sol que invadia o hotel, naquela manhã de adeus.
Agora, que quase uma década passou, penso em ti, menino da rua de Luanda e pergunto-me por onde andarás? O que estarás a fazer? Quem te dará as moedinhas ou as notas para sobreviveres? Será que sobreviveste?
Recordo-te, e à tua forma de olhar. Lembro os teus olhos berlindes de mel e agradeço---te. Através deles percebi como são difíceis os dias e as noites, as horas, todo o tempo das crianças que, obrigatoriamente, se transformam em adultos magoados, doridos, secos ou famintos de um pouco de afecto, de um pouco de felicidade, de um pouco de respeito.
Através deles aprendi a agradecer o que tenho e a pedir para e pelos que nada têm.
Recordar-te e à tua forma de olhar, fez-me bem.
Hoje, pela primeira vez, consegui pensar, dizer, escrever e aceitar, que conhecer-te…tornou-me diferente.
Sabes, é como se me fosse esquecendo de olhar à minha volta e perdesse a capacidade de pensar, de me descobrir, de me procurar...
Como tudo começou? É uma história igual a tantas outras. Quando cresces um palmo sentes que a tua vida é tão pequenina que és capaz de experimentar qualquer coisa, para te sentires ilusoriamente, outra pessoa, mais feliz e com mais mundo pisado, para além das ruas cheias de buracos do teu bairro.
A família não teve nada a ver com isto. Eu pelo menos não os culpo. Como é que querias que pessoas que nasceram e cresceram do nada, que andaram aos empurrões pelas ruas, até aprenderem a ser uma subespécie humana, soubessem lidar com a situação? Aliás, ninguém sabe. Há por aí, ao sabor do vento, filhos de doutores e engenheiros – cheios de soluções - , com vários internamentos e que não se conseguem libertar deste vício dilacerante.
Ao contrário deles, eu não tive grandes problemas em viver na rua, já passava demasiadas horas entregue a mim próprio, sabia o que era roubar, nem que fosse uma maçã numa mercearia, para enganar a fome. Nunca voltei a casa porque não valia a pena. Em vez de compreensão teria um cinto ou um pau à minha espera. E além disso não havia nada significativo para levar para a feira da ladra, para arranjar algum. Era tudo usado, pobre e decadente.
Estou a contar-te estes pormenores banais e tu queres mesmo é saber como voltei ao “mundo dos outros”...
Muitos anos depois, nem sei quantos, fui envolvido num roubo da caixa de esmolas da igreja do bairro, apenas por estar a dormir num dos seus bancos duros, em pleno Inverno.
Fui parar à esquadra, levei uns mimos daqueles tipos, antes de me perguntarem o que quer que fosse. Já estava encolhido no chão, meio inconsciente, quando perceberam que não devia ter nada a ver com o assunto. Sai dali bastante maltratado, directo para a cama de um hospital. Além da minha dependência, estava quase tuberculoso. Soube mais tarde que pensavam que não ia escapar. Quando comecei a melhorar, houve uma “irmã” enfermeira que me disse: «Deus escreve direito por linhas tortas». Esta frase foi uma das únicas coisas que gravei na passagem por aquele lugar, talvez pelo ar feliz da senhora, com a minha recuperação. É curioso, nunca tinha pensado nisso, mas aquela cama de enfermaria, foi o primeiro lugar onde me trataram como um ser humano, sem qualquer tipo de reservas.
Quando já estava em condições de receber visitas, apareceu no quarto o padre Orlando, o prior da minha freguesia. Estranhei a visita, porque nunca tínhamos trocado qualquer palavra. Conhecia-o apenas pelas suas excentricidades visíveis e também pelo que se ia ouvindo aqui e ali. Além de andar sempre bem vestido, tinha um BMW que fazia as delícias da pequenada. Segundo se contava nos lugares esconsos do bairro, dava grandes cantadas e repastava-se com algumas moçoilas noviças que passavam a vida na sacristia...
Fiquei um bocado confuso com aquela visita, a primeira e única, enquanto estive naquele hospital. Sabia que não passava de um indigente, que nunca tinha ido à missa nem à catequese. Pior que tudo isso, foi não conseguir olhar para aquele homem, aparentemente comum, como um salvador de almas...
O padre foi parco em palavras e nem sequer falou em Deus, o que me deixou bastante aliviado. Se havia alguma coisa que não precisava naquele momento era de um sermão ou de uma missa cantada.
Disse-me que estava quase recuperado e que tinha de deixar aquela cama, para alguém que estivesse mais necessitado. Perguntou-me se tinha para onde ir. Eu disse que sim, que iria para a casa de uns amigos. «Quais?», foi a única palavra que saiu da sua boca, seguida de um longo silêncio. Sabíamos ambos que isso era coisa que não existia na minha vida...
Foi então que me propôs ficar na paróquia, por uns tempos, até ficar restabelecido. Acrescentando que teria que cumprir normas, mas nada que fosse do outro mundo.
Não sabia o que dizer embora soubesse que não tinha nenhuma outra alternativa.
Já tinha dado muitas voltas naquela cama, expressando nos meus pensamentos a vontade imensa de mudar, de ter uma vida decente, um emprego normal e até uma família. Claro que tinha bastante medo de estar apenas a sonhar alto. Mas naquele lugar tudo era permitido, até porque a droga já fazia parte do passado...
Sabia que naquele momento a melhor solução seria partir para longe, conhecer outras pessoas e outros lugares. Só que esse lugar não era atingível, era apenas um sonho, um desejo.
Foi tão difícil encher o saco que me entregaram, com as roupas demasiado limpas, uma novidade absoluta na minha vida, vindas de alguém com um coração maior e melhor que o meu. O problema não era a roupa, era eu.
Nunca disse a ninguém, mas tinha tanto receio de voltar, de ser confrontado com todos os meus pesadelos, de não conseguir dar um passo em frente...
Senti-me tão estranho ao regressar ao meu bairro, no interior do BMW do Padre Orlando, mais moderno que aquele que tinha sido o regalo da pequenada da rua, ao ponto de dizermos uns para os outros que tínhamos de ir para padres. Naquela altura, viajar naquele carro não era muito diferente de percorrer as estradas das redondezas no interior de um carro patrulha...
Nos primeiros tempos evitava sair à rua. Tinha medo de encontrar falsos amigos, de não ser capaz de dizer não e de ter uma recaída.
Um dia olhei-me ao espelho e fiquei surpreendido. Estava tão diferente, senti que tinha cara de gente.
Foi nessa altura que me apeteceu dar um passeio. Fui pela rua fora, quando dei por mim, estava a bater à porta de casa, à procura dos meus pais e dos meus irmãos. A minha mãe apareceu à porta e perguntou-me, secamente, o que queria. Saiu-me um nada, meio surdo. Ainda perguntei se estavam todos bem, disse que sim, com o mesmo ar. Percebi que tinha sido uma má ideia, era cedo demais. Despedi-me e continuei a caminhada...
Senti-me bastante mal durante uns dias, mas hoje sei que aquele reencontro deu-me ainda mais força para mudar. Voltei a estudar, eu que tinha tirado a quarta classe de fugida. Descobri que a escola não era o lugar terrível, povoado pelo meu professor da primária e amigos. Acabei por chegar ao 12º ano com relativa facilidade. As primeiras lições de informática que tive com o padre orlando, fizeram com que estabelecesse uma excelente relação de amizade com os computadores, duradoura, ao ponto de tirar vários cursos e arranjar este emprego como programador.
Esta foi uma das formas que encontrei para agradecer ao homem que me devolveu à vida, que me deu tantas lições de humanismo, sem precisar de me ensinar orações ou convidar a aparecer na missa...
Apareci muitas vezes, e ainda apareço na igreja. Queria perceber o porquê de estar ali, queria agradecer a quem me ajudou a viver uma segunda vida.
Peço desculpa por ter ido tão longe. Afinal de contas, só queria saber se aceitas casar comigo.
Esse teu sorriso é um sim?
quinta-feira, 19 de Junho de 2008
Regulamento 2008
2º - Na edição de 2008 a modalidade é : Texto narrativo
O tema é : Conhecer-te... tornou-me diferente
Evoque alguém/algo que dalguma forma o tenha marcado.
3º - Cada participante só poderá concorrer com um único trabalho.
4º - Desse trabalho, que não deverá exceder três páginas, serão enviados cinco exemplares em papel de formato A/4, dactilografados, com espaço e meio de entrelinhamento e com caracteres tamanho 12.
5º - O trabalho será subscrito com um pseudónimo e far-se-á acompanhar de um envelope fechado com a indicação exterior do pseudónimo do concorrente. O envelope conterá obrigatoriamente a identificação do concorrente - (nome completo, idade, morada com indicação do código postal e número telefónico para eventual contacto).
6º - O trabalho deverá ser entregue em mão própria ou enviado pelo correio dentro do prazo estabelecido para:
BIBLIOTECA MUNICIPAL DE REDONDO,
PRÉMIO LITERÁRIO HERNÂNI CIDADE/2008,
RUA D. ARNILDA E ELIEZER KAMNESKY, 43,
7170 - 062 REDONDO
7º - O prazo de recepção dos trabalhos termina em 25 Agosto de 2008, findo o qual se procederá à sua apreciação e classificação por um Júri composto por cinco elementos de reconhecida idoneidade, aos quais será vedada a participação no concurso, e de cujas decisões não haverá recurso.
a) O trabalho pode ser enviado por mail para premioliterariohernanicidade@gmail.com desde que seja enviado em anexo (Word) assinado com pseudónimo e a identificação do concorrente seja enviada no mesmo mail em segundo anexo e cumpra as restantes cláusulas do regulamento.
8º - Serão atribuídos:
a) Três prémios: 1º, 2º e 3º - a que correspondem, respectivamente, as importâncias de 750, 375 e 250 Euros.
b) Menções honrosas a outros trabalhos que se distingam em número a definir pelo Júri;
c) Prémio Especial Juventude - para o qual só serão tidos em consideração os trabalhos dos concorrentes com idades compreendidas entre os 14 e os 20 anos, inclusivé;
d) Diplomas de participação a todos os concorrentes.
9º - O Júri poderá não atribuir qualquer dos prémios, desde que entenda falta de qualidade nos trabalhos apresentados.
10º - Os concorrentes premiados serão antecipadamente avisados dos resultados do concurso, sendo os prémios entregues em cerimónia a realizar no dia 25 de Outubro de 2008 (SÁBADO), pelas 16 horas, no auditório do Centro Cultural de Redondo.
11º - A entidade organizadora reserva-se o direito de utilizar os trabalhos recebidos, quer expondo-os publicamente quer publicando-os na imprensa nacional ou regional ou ainda, proceder à sua encenação e representação em tempo oportuno. Os trabalhos premiados serão editados em forma de livro.
terça-feira, 9 de Outubro de 2007
LISTA DOS PREMIADOS DA EDIÇÃO DE 2007
Alexandre Gamela
(Figueira da Foz)
O meu coração pertence a estranhos
Desenrolando o Fio de Ariadne pela Biblioteca de Babel
O segundo post; o Novelo na mão esquerda e uma tesoura na direita;
“Não é a primeira vez que custa mais. Abrir a porta é fácil, o difícil é dar o passo simultaneamente derradeiro e primordial…” Delete, delete, delete. Este é o drama do segundo post. Foi simples encontrar o nome e apresentar a ideia do blogue, mas dedicarmo-nos à apresentação regular de ideias é mais complicado, especialmente quando éramos daqueles miúdos que não gostavam de fazer os trabalhos de casa. Então, porquê expressarmo-nos por escrito quando temos uma pequena noção do que sofre a gramática às nossas mãos, porquê a necessidade de um púlpito quando normalmente não somos muito conversadores em público, porquê partilhar com o mundo o que há poucos anos atrás era guardado num livrinho com chave e escondido debaixo da cama, normalmente por milhares de rapariguinhas adolescentes pelo mundo fora?
Ariadne deu a Teseu o fio que lhe permitia sair do labirinto. Hoje, Ariadne seria o fornecedor de Internet (o fio) , e Teseu e outros (os cibernautas), de acordo com a sua velocidade de conexão, criariam o seu próprio labirinto, cruzando os seus novelos, cortando, atando e fazendo novas ligações (hiperligações), criando uma nova lógica, não-linear. Nesta história havia também um Minotauro, mas desse falaremos mais tarde. Quando no século XVIII apareceram os primeiros jornais, o fio era mais curto, e tinha apenas duas pontas: de um lado uma classe instruída criadora e controladora de conteúdos, do outro uma multidão anónima e sem voz, mas em crescente grau de instrução. Com a massificação dos media, a mole anónima era cada vez maior e tinha muito peso na escolha dos conteúdos, mas continuava muda. Só que, entretanto, a tecnologia permitiu enrolar o cordel, parti-lo e a dar-lhe nós de uma forma como não se esperava, e permitiu pela primeira vez, que fosse possível puxá-lo de qualquer lado. Criou-se aquilo que realmente se chama de World Wide Web, uma teia de dimensão mundial, onde uma notícia que antes seria apenas discutida entre amigos, é comentada com resposta directa e pública ao seu redactor, segundos depois de ter sido publicada.
É isso: “Não pude deixar de reparar naquela notícia na edição online do jornal… Tenho que dar a minha opinião sobre uma coisa que eu acho tão importante e a que tão pouca gente liga…”
Foi mais uma janela que se abriu para aquela rua.
Os pequenos Minotauros
É já um ritual. Faz-se o café, liga-se o computador, vê-se quantas pessoas leram o último post, de onde vieram, que comentários deixaram e o que é que eles próprios escrevem nos seus blogues. Cruzam-se vidas em palavras sublinhadas, pequenas portas para novas perspectivas, novas realidades, personalidades e ideias a nu, e, muitas vezes, surgem segredos privados à mão de quem os quiser colher, nascidos de jardins obscuros que convivem insuspeitos entre nós. As pessoas redefiniram-se, mostram a estranhos o que por vezes escondem a quem lhes está mais próximo. Há um ditado sobre isso, bem mais antigo que a Internet. Mostra-se o coração mas não a cara. E este é um dos pequenos Minotauros: a máscara do anonimato. O que nos defende é o que nos ofende, porque no mercado das ideias há sempre o conceito violento, imposto unilateralmente com intenção destruidora, contra os nossos próprios conceitos, só que, essa mesma máscara, é o pavilhão possível para quem necessita de mostrar a verdade sem sofrer consequências. É o predomínio do avatar em detrimento do Eu real.
Mas o oposto também é um dos pequenos monstros deliciosos que se encontram nas descidas a este labirinto: as confissões e as pequenas rotinas do quotidiano, exploradas até à exaustão em pequenos relatos em formato reality show, como se a valorização do dia a dia pessoal servisse como catarse de uma vida anónima, que ganha dimensão e novo sentido quando apreciada e comentada pelo mundo, pelas portas que se abrem quando se abre essa porta da privacidade. Depois há todas as outras coisas, das quais sobressai principalmente a manutenção da memória: a compilação das receitas da avó, o capítulo na nossa história pessoal vivido de forma particular longe de casa por terras estrangeiras, os álbuns de fotografias comentados dos primeiros anos de vida dos nossos filhos, toda a crueza das nossas vidas exposta, para que para sempre permaneça, para sempre resista, partilhada com todos, para todos, para nós.
Na edição final de 2006 da revista Time, a figura do ano não foi um político, um líder espiritual, uma organização humanitária: fomos todos nós, aqueles que fizeram crescer exponencialmente um fenómeno que existe apenas há dez anos e que tem revolucionado e questionado o papel dos média tradicionais e dos seus conteúdos. Pela primeira vez na história, o espectador não é o elemento passivo nos sistemas de comunicação. Ultrapassou-se o conceito de interactividade para a hiper-interactividade, onde o motor da informação é o público, que para além de consumidor, é agora também criador, com todos os riscos que isso acarreta.
A Biblioteca Infinita
Um blogue não é apenas um pedaço de realidade ou inteligência, é também ficção. É a oportunidade de qualquer um, com a suficiente educação e meios digitais, poder recriar o seu universo, escrever os livros que estão nas prateleiras da Biblioteca Infinita, deixá-los à mercê do olhar de outros. Escrever um blogue é como falar ao ouvido de estranhos, sem nunca podermos saber qual será a sua reacção, se a tiverem. É também uma mão estendida à identificação e à aproximação de indivíduos que de nunca de outra forma se encontrariam, é o ultrapassar das barreiras físicas através da partilha pessoal, intelectual e espiritual. E a cada pedaço que cortamos do nosso cordel para criarmos mais um nó, abrem-se possibilidades inimagináveis. Os volumes amontoam-se por magia nas prateleiras que ladeiam a nossa exploração sem fim, cada um com o seu traço, cada um prestes a ser descoberto. É o fruto e expressão desse mundo em contínua expansão onde a única barreira – e cada vez mais ténue – é o idioma, e as suas sementes são a partilha, o exercício da liberdade e, também, narcisismo. É escolher um pouco de nós e mostrá-lo a quem quiser ver.
Em cada segundo que se demorou a ler este texto foram criados 1.4 blogues, e publicaram-se 1000 posts por minuto. Nunca se leu nem escreveu tanto, o que só nos faz pensar quão longe estamos da revolução provocada por Guttenberg.
A caneca arrefece de vazia, mas ainda vive lá dentro o cheiro do café. Da janela podemos ver a rua, onde, no meio da multidão que prossegue no seu rumo, há já quem nos conheça, há já quem se tenha cruzado com os nossos pensamentos, há quem nos tenha influenciado, sem nunca lhes termos visto a cara ou sentido a vibração da sua voz. Somos figuras de carne e osso anónimas que se assumem famosas no mundo virtual. E a nossa obra não tem um fim, como nos romances.
Voltamos para a frente do ecrã, a nossa janela para as ruas cheias de janelas de todo o mundo, colocamos as mãos em cima do teclado, e começamos.
2º PRÉMIO
Cláudio Martins
(Brasil)
O Blogue Como Espaço De Escrita E Reflexão
A internet, indubitavelmente, revolucionou conceitos em termos de comunicação. Não apenas a comunicação escrita, mas a forma como as distâncias são encaradas de uma maneira geral após o advento desse novo canal de mídia. Em nossos dias, não é raro nos pegarmos pensando em pessoas, distantes milhares de quilômetros, como se estivessem tão próximas quanto alguém na sala ao lado. Muito além dessa possibilidade de comunicação fácil, a rede mundial abre caminho para a livre expressão de idéias e sentimentos. O fato de sítios bem montados retirarem a necessidade de um rosto atrelado à manifestação de uma opinião faz com que sentimentos os mais profundos surjam de forma natural em uma grande quantidade de Blogues nesse mundo virtual que nos envolve.
Talvez esse espaço - que na verdade muda o próprio conceito de espaço - destinado à livre postagem de comentários, seja a materialização do mais puro sentimento democrático. Nele, o filósofo e o iletrado têm o mesmo tamanho, a mesma cor, a mesma riqueza. Ambos estão fora da dimensão do tempo. Catedráticos e operários têm o mesmo direito às considerações que ali existem. Embora ensejando reações diferentes em cada visitante, os pensamentos dos que encontram seu espaço e sua forma de expressão, estão ali, de forma aberta. Mesmo que esse expressar-se seja um mero concordar ou discordar, veladamente postado sob um pseudônimo discreto.
Porém, a expressão escrita, por si só, sem o devido amadurecimento ético e sem o respeito à vida em sociedade, pode representar o rompimento dessa linha tênue que divide o princípio democrático da anarquia sistematizada. Como idéias e conceitos podres desfilando por corredores atapetados. Demonstrações de força verbal protegendo a fraqueza moral. E essa é, sem sombra de dúvida, a mais antiga batalha travada no campo da comunicação, só superada pela batalha do domínio dos povos pela força bruta. E é nesse mundo sem fronteiras físicas e da distância infinita de um espaço que não existe, que reside a força pró-reflexão dos WebLogs, ou Blogues como se tornaram popularmente conhecidos esses pontos de encontro virtuais.
Nos Blogues, idéias são expostas, mas não precisam necessariamente ser aceitas. Conceitos são lançados, mas não têm de ser respeitados. Invariavelmente, é o bom senso o fator determinante e orientador que leva o visitante desse espaço de idéias a se posicionar sobre o tema proposto. O visitante do sítio das opiniões pode, a qualquer tempo, utilizar-se dessa mesma mídia, que é a rede mundial, para verificar e constatar ele mesmo a consistência da idéia que está sendo colocada publicamente. É ele, esse misto de escritor e leitor, de acusador e defensor, de réu e juiz, que toma em suas mãos a decisão de concordar ou não da opinião exposta, ao contrário das grandes manobras de massas que vimos no século XX, em que a emoção causada por bons oradores, aliada à razão desinformada dos ouvintes, orientava o rumo dos acontecimentos. Isso faz com que a sociedade dos dias de hoje seja mais exigente, mais crítica, mais rebelde à rédea.
Como vem acontecendo ao longo dos séculos de socialização do homem, é a grande massa de pessoas, antes ameaçada pela força dos exércitos, hoje manipulada pelos meios de comunicação, que mantém ou destrona líderes e lideranças. Em um raciocínio simples, a formação da opinião está sempre baseada na observação de fatos. Fatos que só se tornam acessíveis pela geração de informação. Informação que pode relatar uma ou várias das diversas faces da mesma realidade. E dessa necessidade básica que tem a realidade de ser interpretada e traduzida em informação para que se torne fato, nota-se a importância dessa mídia-mural, desse quadro de recados gigantesco, para que as diversas faces do que é real possam externar-se abertamente. É pena que esse espaço versátil, econômico e democrático, também possa ser utilizado como meio de manobra dessa grande massa que é a sociedade.
Bom seria se os acontecimentos pudessem bradar ao vento, eles mesmos, todas as suas nuances. E, a partir daí, se gerassem os fatos que, bem observados, subsidiariam as opiniões de cada um. Enquanto essa era não chega, o internauta, que não deixa de ser um cidadão do mundo, utiliza-se de seus meios para compartilhar idéias, sensações e emoções. Para perguntar, responder, xingar, elogiar, desabafar. Compor, decompor e recompor filosofias. Compreender, se distrair, brincar. Buscar em outras mentes visões que justifiquem, ou que o convençam a mudar, sua opinião.
Diz a teoria filosófica que cada indivíduo encerra em si um universo único de conceitos, de dúvidas, de alegrias, de tristezas. O tempo e a tecnologia têm permitido que essas características próprias do mundo de cada um se tornem, talvez não públicas, mas, devidamente filtradas pelo senso ético e moral, publicadas nesse canal de mídia excepcional que são os Blogues. O conhecimento e o reconhecimento dessas identidades, desses universos, faz com que cada internauta tenha, ao alcance de suas mãos, um sem-número de pareceres. Pareceres estes com opiniões, com emoções, com concordâncias e discordâncias. Com milhares de perguntas que questionam o mesmo assunto e dezenas de milhares de respostas diferentes, cada uma com o toque da personalidade de outro internauta. Dele e de seu universo.
Não importa o nome que se dê a esse advento. Não importa se o meio de veiculação se chama Blogue, WebLog ou ponto de encontro virtual. Trata-se de uma das mais fantásticas experiências antropológicas de que a humanidade já teve notícia: relacionamento, informação, crítica e autocrítica. Todos acontecendo ao mesmo tempo. Todos tendo como palco o mesmo lugar.
3º PRÉMIO
Alberto Augusto Miranda
(Lisboa)
Blogues: minifúndios isolatrónicos
Nos últimos anos assistiu-se a uma nova espécie de vida: a vida electrónica ou a cybervida. É uma adição semelhante a outras drogas, como o tabaco ou a televisão. Por questões que se dividem entre o know-how informático e a míngua financeira, o blogue, porque gratuito e de fácil aprendizagem funcional, monarquizou a tipologia de websites dada a quantidade quase infinita dos seus utentes e detentores. Há na blogosfera nacional, cibernautas com mais de 8 blogues, numa admirável disponibilidade de tempo. A ausência de know-how impediu mesmo alguns habitantes da Internet de usarem as páginas gratuitas que alguns servidores oferecem. Alguns, mais possidentes, entregaram a profissionais o webdesign e a manutenção das páginas, comprando domínios e títulos de páginas. Os webmasters recém-saídos de formações tecnológicas, não tiveram, nos seus cursos, nenhuma área que compaginasse culturalmente as novas possibilidades electrónicas, o que, em cibernáutico trânsito, representa uma décalage, às vezes funda, entre tecnologia e ciência, ou entre tecnologia e humanidades.
A blogosfera tem o mesmo princípio de todas as esferas: a ausência de centro ou, por simpatia, a sua multiplicação. Um centro, porém, reifica os milhões de blogues: o ego. Os contadores de blogues, na sua anotação permanente de actualizações e novas páginas, permitem o estabelecimento de um egoscópio que, na sua imensíssima maioria, é profundamente desinteressante e cuja neurose se reflecte em linkagens de troca publicitária e no exercício compulsivo do autogoogling, da verificação de audiências no Technorati ou nos milhões de sitemeters disponíveis. Aquilo que, no início, configurava uma essência diarística, onde o eu se despojava sem filtragens, assumiu a inevitável alteridade do ego: o eu, em presença pública, ainda que virtual, veste a roupagem do ego, descaracterizando assim a verdade diarística, ou seja: aquilo que apenas se conta ao papel (ao écran?), num confessionário assente na inviolabilidade do dito. O blogue, nesse sentido, exerce cruelmente o corte da intimidade e apela a transferts complexos cuja patologia em pouco tempo havemos de sofrer naquilo que, suponho, ficará para a história como doenças da virtualidade ou doenças tecnológicas.
Este um dos primeiros paradoxos dos blogues: as páginas pessoais são egóticas e ausentes do eu à volta de cuja particularidade seria possível universalizar o foro do humano mesmo numa época que já corre sob o epíteto do pós-humano. A mais valia do eu desaparece em confronto com o social, com o público, e, particularmente nos blogues portugueses, essa nota é hipersensível e diz/representa toda uma estrutura psicológica ainda sob o efeito de uma catarse por fazer.
Nos blogues que entretanto se disponibilizaram para uma acção sócio-política e de influência, a exemplo de outras publicações periódicas, raramente são evitadas a repetição e a redundância. Nos blogues que permitem comentários, onde o anonimato impera, damos também conta de um país border-line, tal a neurose-psicose que atravessa a blogosfera nesses domínios. Também nos blogues ditos culturais impressiona a tendência de replicar o mercado. Os assuntos e os autores mais constantemente “postados” constituem, em mais de 96% dos casos, uma amplificação daquilo que o mercado fez encaixar nos meios audiovisuais e jornalísticos em regime de simultaneidade. Em ambos os casos as janelas de pop-up ou a inserção de publicidade privada ou institucional contrariam a pessoalidade e independência que os detentores destes minifúndios alardeiam.
No decurso das investidas blogosféricas que já contabilizam anos, a influência directa, por rapidez de emissão e ansiedade na recepção, coloca o suporte blogue numa área mais apetecível para os interactuantes já formatados pelas fast-news entregues ao domicílio pelos media relinchantes sem direito a uma digestão intelectiva suficiente para a apreensão dos mundos replicados, falsamente ao alcance do interactor pela via do teclado. Mesmo os blogues de produção grupal, servindo de prolongamento de interfaces, raramente suplantam o recorte modal, isto é: de interface em interface, reproduzem-se interfaces, esquecendo o cerne: as faces. Neste movimentos noticieiros, aquilo que mais movimenta a libido dos navegantes, não é a notícia, mas o comentário que sobre ela os autores dos blogues disponibilizam, procurando-se uma espécie de cartilha para comungar uma opinião. Embora de alcance sócio-extenso reduzido a uma comunidade de adicionados comentaristas, o blogue, à semelhança de outros suportes, procura a captatio benevolentiae, quer através de uma postura bicopodal quer através da emulação sensacionalista.
A estrutura bloguística desandou, entretanto, de certo standard que aparentemente era o seu alimento. Muitos autores decidiram, através das novas possibilidades técnicas, compartilhar o seu pensamento e criação apenas com um diminuto número de pessoas próximas, às vezes dois ou três internautas, desaparecendo assim das buscas públicas que eram o pão-nosso dos blogueiros primiciais. Será nestes últimos que poderemos encontrar alguma substância reflexiva e um espaço de escrita sem constrangimentos. Ao evadirem-se das audiências, das pulsões de reconhecimento e ressentimento, tais autores estão de novo na única dimensão que permite a criação: a liberdade. Sem terem espreitantes por cima do ombro – mesmo virtuais ou apenas supostos pelos autores – os criadores ficam finalmente re-entregues à dimensão solitária inerente ao processo criativo. Deixam de querer “comunicar”, passam ao cultivo da arte do pensamento. Este processo torna-se desesperante para os profissionais dos comentários que, munidos de uma neura egolátrica, deixam de se ver “representados” na “representação” do(s) mundo(s).
Os autores mais radicais (ínfimos em quantidade) escrevem, com protecção de tela para evitar o copy-paste, e, indicando nomes verídicos ou não, estabelecem o suporte blog como espaço de soltura: deixam sair em verdade, sem qualquer tabu ou condicionamento, todas as verdades do corpo e existência, da precariedade da subvivência aos amores de metro e outras ocasiões, concitando para o seu espaço electrónico qualquer coisa como um evacuário sem pretensões de inundar os leitores com atitudes de púlpito. Chamo-lhes radicais porque da mesma maneira que aparecem na blogosfera, propositadamente ausentes de referências pessoais, assim incendeiam o seu minifúndio, desaparecendo sem contacto, participando daquilo que em termos de estética talvez tenha sido, em Portugal, iniciado por Santa Rita Pintor: a estética da dissolução.
Seria de esperar que em tais minifúndios se cultivasse fundamentalmente a emissão, numa sociedade em que a recepção domina. O suporte electrónico seria uma possibilidade enorme para esse efeito. A realidade porém, quer em números quer sobretudo em qualidade, desmente radicalmente essa hipótese.
Com que barroco se pode fazer luz na floresta? Com que classicismo se pode instalar uma clareira no bosque? Com que vanguarda se mostra o percurso rumo ao farol? Como se poderá sair do romantismo?
A rara vida à luz do sol vai notando muitas ausências. O instrumento que poderá servir para múltiplas aberturas é também aquele que nos fecha. Se o isolamento – de diversa índole – pode ser combatido com a cybervida, é igualmente verdade que a adição e a neurose conduzem a outro isolamento, por muito que as cybercomunidades corram (virtualmente, claro) em nosso auxílio. Isolamento vigiado sem espaço para gozar a solidão.
PRÉMIO JUVENTUDE
Sara Raquel Ferreira Costa
(Cucujães)
O blogue como espaço de escrita e reflexão
“O viajante ainda é aquele que mais importa numa viagem”
André Suarés
A propagação das novas formas de media e mais particularmente da Internet veio revolucionar alguns dos métodos tradicionais de pesquisa, aprendizagem e consequente desenvolvimento intelectual do indivíduo e da sociedade. A partir do formato cibernético que encurta o tempo e o espaço, integrando pelo menos metade do globo numa imensa Aldeia Global, foram-se redescobrindo novas configurações no que toca à ramificação do universo do particular no seu relacionamento com o global. É claro, que, em qualquer grande plataforma de difusão de dados, o espírito crítico do utilizador tem que estar tão presente como em qualquer outro formato de media, pois é o utilizador que manipula o veículo da informação e não o contrário. A partir daqui há um desenvolvimento integrado entre aquele que é o âmago individual e a sua manifestação exterior e consequentes repercussões tanto de teor intrínseco à psique do indivíduo como de teor social. Isto é, o indivíduo possui determinadas informações que, uma vez em contacto com outras, sofrerão alterações e estas, uma vez alteradas, serão novamente postas a circular numa grande plataforma de informação, modificando constantemente o conhecimento e renovando-o. Mais do que uma renovação permanente do conhecimento, o facto da informação chegar ao mesmo tempo a qualquer espaço, diminui em grande escala a disseminação das disparidades culturais.
É dentro deste círculo de transformação e progressão do conhecimento que se pode situar perfeitamente o blogue como espaço de escrita e reflexão. O blogue é de certa maneira, um formato simplificado do antigo sitio. Possivelmente porque o blogue possui uma finalidade menos facetada e mais objectiva: a divulgação de ideias através da palavra escrita. Isto porque o utilizador que queira construir um sitio cibernético tradicional tem que levar algum tempo a pesquisar e a familiarizar-se com determinadas ferramentas que passavam por processos por vezes tão complicados como a procura de um alojador, conhecimentos da utilização de programas de construção de layout, por vezes conhecimentos de linguagens puras como html, css, etc; e até conhecimentos de design gráfico.
O blogue é por definição um formato facilitado de manipulação, pensado especificamente para o utilizador comum que pretende divulgar os seus textos através de um processo de actualização de dados de uma forma elementar. E esta é também uma característica muito particular do blogue: a actualização permanente, a tal dinâmica que irá ser fase fundamental da propagação e transformação das ideias. Enquanto o tradicional sítio tem por finalidade ser uma base de dados estabelecida à volta de uma determinada temática, assunto ou produto, maioritariamente de cariz impessoal, o blogue possui uma estrutura de divulgação diferente.
O blogue é, de uma maneira geral, um albergue virtual de cariz pessoal e até intimista onde o utilizador comum pode publicar com facilidade de técnica e de acesso tudo o que pretender divulgar através da palavra escrita. E é aqui que circula um conceito fundamental da nossa cogitação. A imposição da Internet como ferramenta essencial da Nova Era estimula o contacto do utilizador com a leitura e com a escrita. E a palavra, por sua vez, quando concretizada na sua densidade visual ostenta toda a sua importância. Para além disso, o pensamento não é dissociável da linguagem: regem-se pelos mesmos alimentos, puxam-se um em direcção ao outro. Assim assistimos a uma progressiva capacidade de reflexão e de expressão entre os bloguistas que, no fundo, em muitos dos casos não se diferenciam do que tradicionalmente designamos por escritor, que se direcciona, na sua maioria, para um certo género ligado à crónica.
Uma observação de cariz social que considero particularmente interessante nesta possibilidade da publicação livre no espaço virtual, prende-se com um contexto social particular ao nosso país. O período salazarista foi um período particularmente anestesiante na divulgação das ideias no espaço considerado público. A troca livre de ideias permaneceu durante muito tempo fechada produzindo repercussões até aos dias de hoje. A propagação da arte, da crítica, das ideias políticas emergentes de vozes anónimas, não guiadas por um prestígio mediático que limita o espaço público de opinião, encontra-se cada vez mais visível na extensão destinada à blogosfera. Aos poucos, este será um veículo de informação sistematizado numa plataforma virtual que poderá vir a causar repercussões sociais reais e a transformar o espaço público, remodelando os objectos de discussão através da sua absorção e consequente manifestação do indivíduo para o resultado de uma alteração patente colmatando desta forma falhas sociais de uma mentalidade colectiva em recuperação de um estigma. Quando a obra artística adquire a sua autonomia é sinal de que a dinâmica cultural actua e que o conhecimento avança. A arte, a filosofia, a política e até os avanços científicos podem beneficiar muito da permuta abrangente do pensamento.
Assim, pela facilidade de manipulação, pela liberdade de expressão, pela imposição da palavra escrita e consequentemente pela ginástica do pensamento na emissão da opinião do indivíduo, o blogue é um espaço de escrita, um espaço da valorização da língua e, claro, um espaço de reflexão privilegiado.
Por mais viagens que o futuro proporcione ao Homem, com todas as metamorfoses de formato durante o processo de viagem, o viajante será sempre, de facto, o principal elemento de evolução.
MENÇÕES HONROSAS
José Manuel Pereira Soares
(Amora)
A vida depois do blogue
- Isso é uma enorme bloguerdade! - Alguém me dirá um dia, usando uma palavra nova de conceito antigo que certamente terá um significado tão universal como “verdade livre” ou “liberdade verdadeira”. Algo puro e genuíno, seja espontâneo ou pensado, mas sem tabus ou preconceitos, completamente alheio a pressões ou opressões, solto de mordaças invisíveis, sem que o emissor de opinião incomodativa se veja no espelho com uma caçadeira apontada à mais honesta das suas têmporas.
Bem-vindos sejam os blogues à vida do pequeno mundo de Portugal, este imenso deserto salpicado de sumptuosos oásis protegidos por redomas aparentemente indestrutíveis. Porventura, será a força dos blogues, alimentada pela eterna crença no triunfo da verdade sobre a mentira, da justiça sobre a desigualdade e da liberdade plena sobre a opressão mascarada, será a perseverança na defesa destes escudos da condição humana que minará os alicerces das fachadas erguidas a saque em nome de um interesse aclamado público, mas que tem apenas como objectivo proteger o poder dos grandes bolsos privados.
Entra aqui a comunicação social, antes a grande condutora da liberdade de expressão individual. Porém, a comunicação social não é totalmente livre. A verdade não é totalmente revelada, é filtrada e imposta através da exploração exaustiva dos pontos de vista julgados mais convenientes. No que à liberdade de expressão diz respeito, é notório que o método assente na tortura e na perseguição opressiva do tempo político salazarista foi reformado. A mordaça é agora invisível, a perseguição não tem rosto, qualquer um pode falar, criticar, opinar, comentar, mas sem que a sua voz seja levada a sério. E quando ela se faz ouvir, é rapidamente abafada por algum problema técnico ou habilmente silenciada pelos controladores de conteúdo dos programas ou espaços de opinião destinados à massificação do pensamento único e convergente com o sentido que alguém quis dar à análise do tema em discussão. Ou seja: há liberdade de opinião, mas apenas se esta for favorável ao sentido do programa. Se não for, corta. A censura prévia deu lugar à censura póstuma. A opinião incómoda pode não ser impedida, mas é passível de castigo. Então a palavra é cortada, a voz apagada. Bendito seja o inventor dos blogues!
O poder económico está representado no topo de todas as áreas de influência, do poder legislativo ao judicial, do executivo à comunicação social, essa arma poderosa que tão depressa determina perfis e escolhe figuras como logo as abate do seu poleiro. Este domínio dos grandes bolsos é consequência do assalto burguês ao poder em Abril de 1974, camuflado de revolução popular e militar, que ao longo dos anos transformou o totalitarismo de Estado em totalitarismo privado. A instauração efectiva da liberdade de expressão, da verdade informativa e da divulgação total de correntes de pensamento não foi fruto da revolução burguesa de Abril de 1974.
O surgimento dos blogues é a verdadeira revolução, a abolição total de barreiras, a máxima afirmação da expressão individual. Para os donos do poder, os blogues são um indesejável efeito secundário da globalização. Será esse efeito capaz de ferir de morte a manipulação da verdade das coisas? A resposta dependerá da dimensão da fé humana, da perseverança dos humanos na defesa da sua dignidade. Acima de tudo, da sua capacidade de união em torno destes valores.
Ao contrário do 25 de Abril de 1974, a blogosfera não se esconde sob qualquer tipo de camuflagem. O acto de blogar é um acto verdadeiramente livre, num espaço também ele livre onde se pode debater toda a espécie de assuntos, da política ao desporto, dos tabus da sociedade aos mais banais temas do quotidiano. É a grande oportunidade de se manifestar a existência, de revelar ao mundo os sonhos e pesadelos, as ideias, vontades, opiniões, memórias, um conto, um poema, um comentário, um livro, uma declaração de amor ou ódio, de amizade ou repulsa, de solidariedade ou confrontação, até de apenas escrever: eu estou aqui!
Os blogues alteraram o conteúdo e a forma da comunicação social. Obrigaram os seus dirigentes a enveredar pela imparcialidade, situando-os numa posição tão incómoda como perigosa: muitas vezes suportados e até dependentes dos grandes grupos de pressão e de opressão, deparam-se agora com o controlo exercido pelo crescendo da consciência de cidadania provocado pela expansão da blogosfera, que funciona simultaneamente como controlo e garantia da autenticidade da informação.
O espaço de debate saiu do âmbito exclusivo das assembleias, das universidades, dos colóquios e seminários especializados, está agora ao alcance de quase todos. Para bem da Democracia, os blogues permitem saber quais são os pensamentos dos portugueses, os seus medos, as suas vontades. E, se o bonito significado dessa velha palavra grega for cumprido, se o poder estiver efectivamente no povo, este terá uma intervenção mais activa nas decisões do país e do mundo, não se resignando nem resumindo apenas a escolher, através do voto, a opção que considera menos má para o representar.
Vivemos numa época histórica em que cada vez há menos espaço para a valorização do factor humano. É um tempo difícil em que o mundo humano gira em volta do dinheiro em vez de girar em volta de si próprio, da própria Humanidade. Aqui o blogue surge como um agente libertador. Um local de confissões, de desabafos, substituindo um dos maiores símbolos da liberdade, o grito. Quem nunca sentiu a necessidade de gritar bem alto um sentimento de revolta? E como sabe bem escrever um grito!
Seja pela aparente solidão dos dedos que teclam furiosamente como se em cada gesto premissem gatilhos em direcção ao desespero que os consome, seja pela alegria de teclar o seu amor ao mundo como quem toca uma delicada melodia no mais belo piano, o blogue é o meio perfeito para a afirmação e subsequente globalização de cada existência individual.
Mais do que convidar à simples reflexão, o blogue inspira a participação activa no debate sobre tudo o que nos rodeia. Um espaço ideal para divulgar, conhecer e debater em consciência, sem medo de perseguições nem represálias, onde largamos os disfarces impostos pela acção da nossa estranha mentalidade colectiva e impomos a inigualável beleza presente em qualquer momento de criatividade, em qualquer movimento de cidadania, em qualquer grito.
Vamos blogar?
Francisca Duarte Cruz
(Portimão)
O meu Blogue
Comparsa virtual
Ah, é verdade, sou contra anglicismos, galicismos, germanismos e outros “ismos” negativos; mas será que blogue assim aportuguesado, já consta do novo dicionário português para significar “blog”? A Net não me dá resposta a esta dúvida. Tenho de ir aos livros. Ainda bem! Há quem acuse a Net destronar os livros, mas não é totalmente verdade, como se vê. Já vi que estou a desviar-me da linha que pretendia com as minhas reflexões. Adiante...
O tema proposto – O blogue como espaço de escrita e reflexão – é, assaz curioso. Curioso porque é um duplo desafio. É um desafio para a juventude, um motivador convite à escrita, suscitando o interesse desse grupo etário, muitas vezes avesso à comunicação escrita convencional, não sei, se por ser fruto dos tempos, em que impera a oralidade, o monossilabismo e uma escrita eivada de siglas, abreviaturas e ideogramas quase ininteligíveis ou, apenas por deficiências educativas. Enfim!... É tempo de amenizar este trabalho de “cabeças brancas” que constitui o grosso dos militantes dos concursos literários!...
Por outro lado, é também um convite às gerações que ultrapassaram a juventude, constituindo uma forma positiva de as fazer interessar ou debruçar sobre essas lides “internéticas” que querem avassalar o mundo da comunicação, com certo sucesso e utilidade, diga-se em abono da verdade, e para as quais ainda há muito quem olhe com desconfiança.
O patrono do presente concurso, o insigne Homem de Letras Hernâni Cidade, esteve, ao que se sabe, bem atento ao condicionalismo histórico, que se versa na literatura e, foi dela, um Crítico excelente, que alicerçava as suas opiniões, na raiz da história cultural. Deu um valiosíssimo contributo para uma boa literatura, sem excrescências superlativantes, que, apenas prejudicam a clarividência da expressão.
Estou em crer, portanto, que, se fosse vivo, subscreveria, de bom grado, o tema proposto.
O concurso em si, por ser um concurso de letras que atribui prémios aos ditos melhores concorrentes, parece ter raízes profundas nos antigos Jogos Florais, realizados na longínqua Idade Média, no Languedoc, para galardoar e incentivar os melhores trovadores, que, em troca das suas produções, recebiam favores e flores, tais como a rosa silvestre, a violeta ou o amaranto em ouro ou prata (os mais valiosos metais da época).
Essa tradição, embora com outros prémios, não se perdeu de todo e, ao longo dos séculos foi deixando o seu rasto, em França, em língua francesa e, em seguida, esses concursos literários foram-se dispersando pela Europa.
Em Portugal e, muito embora, avultem nomes grados e bem conhecidos do Mundo, na Poesia Portuguesa, os concursos que, potencialmente, se fariam não têm grande expressão.
Contudo, em pleno período salazarista, a Emissora Nacional instituiu os Jogos Florais da Primavera, buscando mesmo a raiz, na Antiguidade Clássica, quando eles se realizavam em honra da deusa Flora.
Tiveram sucesso esses Jogos florais e então, outras instituições viradas para as Letras, deram-lhes seguimento; os géneros literários a concurso diversificaram-se, incluindo mesmo a prosa. Daí até hoje e, se bem que, por vezes, haja períodos menos fervilhantes, tem surgido um movimento multiplicativo de Jogos Florais e Concursos Literários, com todas as implicações negativas, no que concerne à qualidade, em face da quantidade.
Particularmente o Brasil, grande cultor da quadra, dita trova, enxameia a Net com concursos e blogues personalizados, uns com qualidade, outros nem tanto.
Estou a ser um tanto contundente com as minhas reflexões mas, como a este pseudo-blogue não têm acesso comentaristas loucos e abusivos, sinto-me à vontade. Sim, porque num blogue a sério, que se abra a todos os comentários, lê-se cada monstruosidade...
Os prémios
Deixei este item que titulei e tudo, para finalizar o meu blogue, porque ele dava um tratado. Há quem escreva para concursos literários e se autoavalie, pelo número de prémios recebidos e, proclame e amplie, por ingenuidade ou por estupidez, esse número. Há quem avalie os companheiros destas lides, usando o mesmo critério. Há quem, faça segredo da existência de certos concursos por temer a concorrência. Há quem olhe como intruso, alguém que é premiado, e é desconhecido pela elite que milita nisto, há décadas. Há quem exorbite em todos os sentidos. Há simpatias e inimizades ganhas através de Jogos Florais. Há concursos e prémios que foram criados, propositadamente para A, B ou C. Mas, para dar imagem de justiça e legalidade, foram abertos a todos os concorrentes, que se calam porque o júri é soberano e decisões de júri não se contestam.
Há convívios (poucos!...) ditos tertúlias literárias, onde o clima é tal, que ninguém se atreve a pôr o dedo nos consagrados, ainda que, às vezes, o merecessem e, os pequeno-premiados, são, no grupo, pouco ou nada considerados. Ninguém ensina nada a ninguém. Não se evolui! Quase se precisa de apadrinhamento para singrar ou para publicar. Estão estagnadas as águas das letras, num jeito tão falso que cheira mal, ainda que lhe deitem perfumes.
Esta panorâmica não é só a dos concursos literários, mas a das letras em geral. Há livros publicados com a bênção das Câmaras ou de outros quejandos que ninguém lê, nem gosta de ler, mesmo que seja fanático da leitura. Não se fomenta ou fomenta-se pouco o gosto pelos livros e pela leitura. Há um marasmo neste campo. Tenho pena e medo do que vai acontecendo no campo intelectual. E da decadência que isto nos pode acarretar.
E, apesar de tudo, eu vou escrevendo, vou concorrendo sem me importar muito com essas arbitrariedades, porque gosto de escrever, de pensar, de transmitir o que penso, de alinhar ideias, de ser clara ao partilhá-las. Escrever é para mim tão natural como pensar ou respirar. Não sei passar sem escrever. Daí a minha paixão pelo meu Comparsa Virtual.
Ah! E não me importo que façam comentários ao meu blogue. Até gosto! Desde que não sejam grosseiros, podem dizer mal ou bem.
COMENTÁRIOS
jcosta@hotmail.com
Ès uma parva! Concorrer se dá maçaroca, tem segredos. E tu não os sabes. Escreve mas não concorras, estás a dar-lhes batatinhas.
Mbarbinha@26845.com
Acho bem o que dizes mas isto não se pode dizer as verdades. Há quem dê os prémios só a quem quer. E então se são dinheirinho...
Suzana Mafra
(Brasil)
Riscado
Criei
um
blogue
e me sinto uma imbecil
a impressão
(não impressa em papel)
de que ninguém me lê
aquele blogue na prateleira
dos esquecidos
uma amiga, compadecida:
visite outros blogues e deixe um recado
deixei riscado:
o meu tempo se esgotou

